A LÍNGUA
Agilson Cerqueira
A língua, como órgão, articula a oralidade; mas a palavra nasce antes dela.
Antes de ser som, é pensamento; antes do pensamento, talvez seja sensação, memória, desejo ou inquietação.
Por isso, sou exigente comigo quando falo.
Há palavras que procuro, outras que recuso.
Às vezes penso tanto no que dizer que a palavra perde o momento de nascer.
Há, em mim, uma contradição: gosto do silêncio, mas sei que o silêncio não basta.
Pensamento que não se comunica permanece prisioneiro de quem o pensa.
É pela linguagem que o indivíduo ultrapassa os limites de si mesmo e alcança o outro.
Comunicar não é simplesmente emitir palavras; é tentar fazer com que aquilo que existe dentro de nós encontre uma forma compreensível fora de nós.
Talvez esteja aí a verdadeira importância da comunicabilidade: não basta ter o que dizer; é preciso tornar possível que o outro compreenda o que pretendemos dizer.
Uma ideia pode ser profunda e, ainda assim, fracassar se não encontrar uma linguagem capaz de transportá-la.
A língua é essa travessia.
Gosto da língua em movimento.
Gosto do neologismo — essa coragem de criar quando as palavras existentes já não conseguem nomear aquilo que o pensamento descobriu.
O neologismo revela que a língua não é uma coisa acabada. É organismo vivo: transforma-se, incorpora, abandona, reinventa.
Gosto da língua regionalista, porque nela existe território. Há gente, memória, costumes, paisagens e maneiras particulares de compreender o mundo.
Gosto do sotaque sem destaque. Aquele que não pretende afirmar-se, mas que, discretamente, denuncia de onde viemos.
Gosto da semântica, porque uma palavra nunca é somente aquilo que parece ser. Seu significado pode deslocar-se, aprofundar-se, contradizer-se. Uma mesma palavra pode iluminar um pensamento ou obscurecê-lo.
Gosto da etimologia.
Há algo fascinante em descobrir por onde uma palavra caminhou antes de chegar até nós. As palavras carregam marcas do tempo. São pequenas ruínas vivas da história humana.
E gosto do silêncio.
Não porque o silêncio seja ausência de linguagem, mas porque também pode ser linguagem. Há silêncios que dizem mais que discursos inteiros. Mas o silêncio, quando permanente, também pode aprisionar.
O homem precisa da palavra para sair de si.
É pela comunicação que uma consciência encontra outra. É pela palavra que uma experiência particular pode tornar-se experiência compartilhada; que uma dúvida pode encontrar outra dúvida; que um pensamento pode ser contestado, ampliado ou transformado.
Por isso, talvez, comunicar seja mais importante do que falar.
Falar é produzir sons.
Comunicar é produzir encontro.
A língua pode ferir, acariciar, convencer, enganar, aproximar ou separar.
Pode construir uma ponte ou levantar um muro. Pode esclarecer o pensamento ou escondê-lo atrás da própria eloquência.
Há quem fale muito sem dizer nada.
Há quem diga pouco e consiga dizer quase tudo.
Por isso, tenho cuidado com a língua.
Não apenas pelo risco de errar a palavra, mas pelo risco maior de acertá-la no lugar errado.
A palavra, depois de pronunciada, já não nos pertence inteiramente.
É como uma flecha lançada.
Podemos explicar a intenção do disparo, mas não podemos controlar o caminho que ela fará dentro daquele que a recebe.
E talvez esse seja o verdadeiro tropeço de quem fala: não tropeçar na palavra, mas tropeçar no significado que ela produzirá no outro.
Porque a comunicação não termina quando a palavra sai da boca. Ela termina ou começa quando encontra alguém capaz de compreendê-la.
Eis o paradoxo da língua: somos donos daquilo que pensamos, mas não somos inteiramente donos daquilo que dizemos.
Pensar é um ato íntimo.
Falar é torná-lo público.
Comunicar é correr o risco de ser compreendido, incompreendido, aceito ou recusado.
Ainda assim, precisamos falar.
Porque uma humanidade constituída apenas de pensamentos individuais seria uma humanidade sem diálogo, sem transmissão de experiência, sem memória compartilhada.
A língua nos tira da solidão. E talvez seja por isso que eu tenha tanto cuidado com ela.
Não tenho medo apenas de falar.
Tenho medo de não conseguir fazer da palavra uma ponte entre aquilo que penso e aquilo que o outro compreende.
Por conseguinte, escrevo.
Porque, no fim, não é a língua que fala.
É o homem que se revela através dela.
Agilson Cerqueira
Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico.
Licença: Creative Commons
Link: rilvanbatistadesantana.blogspot.com
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