João Cabral de Melo Neto (1920 – 1999)
João Cabral de Melo Neto foi
um famoso poeta e diplomata nascido no Recife que continua sendo apontado como
um dos maiores escritores da língua portuguesa.
A sua poesia fugia de
sentimentalismos ou tons confessionais; pelo contrário, o fazer poético de
Cabral de Melo Neto era encarado como uma construção.
Parte da terceira geração do
modernismo brasileiro, o poeta é lembrado pelo rigor estético das suas
composições, sempre ancoradas em imagens concretas (a pedra, a faca, etc).
Escrevendo sobre as suas
viagens e os lugares que conheceu, o autor também manteve um olhar atento e
engajado sobre a realidade brasileira, em obras como Morte e Vida Severina
(1955).
Catar feijão
1.
Catar feijão se limita com
escrever:
Jogam-se os grãos na água do
alguidar
E as palavras na folha de
papel;
e depois, joga-se fora o que
boiar.
Certo, toda palavra boiará no
papel,
água congelada, por chumbo seu
verbo;
pois catar esse feijão, soprar
nele,
e jogar fora o leve e oco,
palha e eco.
2.
Ora, nesse catar feijão entra
um risco,
o de que, entre os grãos
pesados, entre
um grão imastigável, de
quebrar dente.
Certo não, quando ao catar
palavras:
a pedra dá à frase seu grão
mais vivo:
obstrui a leitura fluviante,
flutual,
açula a atenção, isca-a com
risco.
Fonte: Cultura Genial
Autoria: João Cabral de Melo
Neto
Foto: Google
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