8.29.2026

Catar Feijão - João Cabral de Melo Neto

 










João Cabral de Melo Neto (1920 – 1999)

 

João Cabral de Melo Neto foi um famoso poeta e diplomata nascido no Recife que continua sendo apontado como um dos maiores escritores da língua portuguesa.

A sua poesia fugia de sentimentalismos ou tons confessionais; pelo contrário, o fazer poético de Cabral de Melo Neto era encarado como uma construção.

Parte da terceira geração do modernismo brasileiro, o poeta é lembrado pelo rigor estético das suas composições, sempre ancoradas em imagens concretas (a pedra, a faca, etc).

Escrevendo sobre as suas viagens e os lugares que conheceu, o autor também manteve um olhar atento e engajado sobre a realidade brasileira, em obras como Morte e Vida Severina (1955).

 

Catar feijão

 

1.

 

Catar feijão se limita com escrever:

Jogam-se os grãos na água do alguidar

E as palavras na folha de papel;

e depois, joga-se fora o que boiar.

Certo, toda palavra boiará no papel,

água congelada, por chumbo seu verbo;

pois catar esse feijão, soprar nele,

e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

 

2.

 

Ora, nesse catar feijão entra um risco,

o de que, entre os grãos pesados, entre

um grão imastigável, de quebrar dente.

Certo não, quando ao catar palavras:

a pedra dá à frase seu grão mais vivo:

obstrui a leitura fluviante, flutual,

açula a atenção, isca-a com risco.

 

Fonte: Cultura Genial

Autoria: João Cabral de Melo Neto

Foto: Google

 

 

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