QUANDO O APLAUSO REVERENCIA A ESTUPIDEZ
Agilson Cerqueira
Quando o aplauso reverencia a estupidez, você deixa de ser apenas espectador: torna-se refém de outro.
A estupidez, às vezes, é pior que a maldade. Contra a maldade ainda se pode lutar, porque ela se revela, assume uma direção, mostra o seu rosto. Contra a estupidez, porém, quase não há defesa.
O estúpido não é necessariamente alguém de pouca inteligência. É, muitas vezes, alguém que renunciou ao próprio exercício da razão. Alguém que entregou a capacidade de pensar a uma pessoa, a um grupo, a uma ideologia, a uma crença qualquer que lhe ofereça respostas prontas.
A partir daí, os fatos já não conseguem convencê-lo.
Como convencê-lo, se ele já não possui uma razão que seja propriamente sua?
Ele possui a razão de outro — e, talvez, sequer saiba disso.
Sente-se grandioso por repetir aquilo que recebeu. Seus questionamentos são emprestados. Suas certezas foram construídas por mãos alheias. Até sua indignação pode ter sido ensinada.
E quanto mais repete, mais acredita que pensa.
O estúpido raramente se reconhece como tal. Ao contrário: seu egocentrismo transforma ignorância em certeza, submissão em convicção e repetição em conhecimento.
É assim que a manipulação encontra seu terreno mais fértil: quando alguém deixa de pensar e passa a sentir orgulho daquilo que pensa apenas porque outro pensou antes por ele.
Talvez a maior tragédia da estupidez não seja não saber.
É não perceber que deixou de pensar.
E quando o aplauso passa a reverenciar a estupidez, o absurdo deixa de parecer absurdo.
Torna-se consenso.
E a estupidez, então, já não precisa se defender.
Ela é defendida por aqueles que renunciaram à própria razão.
A estupidez é estúpida porque, antes de tudo, desistiu de perguntar.
Agilson Cerqueira
Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico.
Licença: Creative Commons.
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