8.29.2026

A infância - Ariano Suassuna

 





A infância

Sem lei nem Rei, me vi arremessado
bem menino a um Planalto pedregoso.
Cambaleando, cego, ao Sol do Acaso,
vi o mundo rugir. Tigre maldoso.

O cantar do Sertão, Rifle apontado,
vinha malhar seu Corpo furioso.
Era o Canto demente, sufocado,
rugido nos Caminhos sem repouso.

E veio o Sonho: e foi despedaçado!
E veio o Sangue: o marco iluminado,
a luta extraviada e a minha grei!

Tudo apontava o Sol! Fiquei embaixo,
na Cadeia que estive e em que me acho,
a Sonhar e a cantar, sem lei nem Rei!

Análise da poesia de Ariano Suassuna

Conteúdo

A poética do escritor é repleta de simbologias e bebe muito na tradição popular brasileira, sobretudo nordestina (convém lembrar que a infância de Ariano Suassuna foi integralmente passada no interior da Paraíba).

Toda baseada na tradição oral, a lírica se debruça sobre as cenas impregnadas na memória e mistura intencionalmente o real e o imaginário.

Os temas fundamentais da lírica de Suassuna são o exílio, o pai, a origem e o reino.

Assistimos também um interessante cruzamento entre referências populares e eruditas. Ariano encontra-se, sem sombra de dúvidas, no universo erudito (lembre-se que durante décadas o autor foi professor de estética de uma universidade renomada) ao mesmo tempo em que procura se alimentar de elementos populares.

Há nos seus versos muito presente traços do repente nordestino e afeto pelo sertão, lugar de origem do poeta. Não por acaso grande parte da poesia de Ariano é biográfica, marcada pelo percurso de vida do poeta.

O eu-lírico procura ver o lado luminoso do interior árido; ele dá menos enfase à seca, à esterilidade, à dureza, e sublinha mais o afeto, a comunhão, as particularidades solares dessa região do Brasil.

Forma

Marcada por carregar elementos do barroco, a lírica de Ariano é composta por uma escrita complexa, hermética. O vocabulário simples é combinado de uma maneira inesperada, nada usual.

Trata-se de uma poesia que não parece encerrada, antes pelo contrário, está sempre em movimento, em processo. Um dado interessante que comprova esse fato são os registros de Ariano Suassuna, papéis com inúmeras versões que atestam a permanente reescrita de algumas composições.

Em termos de formato, a sua poética apresenta preferência pela forma fixa (o soneto ou a ode).

Saiba quem foi Ariano Suassuna (1927- 2014), Ariano Vilar Suassuna, conhecido pelo grande pública apenas pelo primeiro e último nome, nasceu em Nossa Senhora das Neves, na Paraíba, no dia 16 de junho de 1927.

Filho do governador do seu Estado, cresceu no sertão da Paraíba ao lado dos seus oito irmãos. A vivência no interior do nordeste influenciou profundamente a sua produção literária.

Formado em Direito, Suassuna começou a escrever em 1945 quando publicou o poema Noturno no Jornal do Comércio - na ocasião tinha dezoito anos. A sua primeira peça de teatro, Uma Mulher Vestida de Sol, foi escrita dois anos mais tarde.

Ariano tornou-se também professor de Estética da Universidade Federal de Pernambuco. O escritor seguiu produzindo de modo voraz ao longo das décadas.

Seus trabalhos mais conhecidos são provavelmente Auto da Compadecida (peça de teatro) e Romance d’A Pedra do Reino.

Em 1990 o escritor ingressou na Academia Brasileira de Letras (ABL) tendo assumido a cadeira número 32.

Ariano Suassuna foi casado com Zélia de Andrade Lima e teve cinco filhos.

O escritor faleceu no dia 23 de julho de 2014 no Recife.


Autoria: Ariano Suassuna

Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

 

 

 

 

 

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