O pobre poema
Eu escrevi um
poema horrível!
É claro que ele
queria dizer alguma coisa...
Mas o quê?
Estaria
engasgado?
Nas suas
meias-palavras havia no entanto uma ternura mansa como a que se vê nos olhos de
uma criança doente, uma precoce, incompreensível gravidade
de quem, sem ler
os jornais,
soubesse dos sequestros
dos que morrem
sem culpa
dos que se
desviam porque todos os caminhos estão tomados...
Poema, menininho
condenado,
bem se via que
ele não era deste mundo nem para este mundo...
Tomado, então,
de um ódio insensato,
esse ódio que
enlouquece os homens ante a insuportável
verdade,
dilacerei-o em mil pedaços.
E respirei...
Também! quem
mandou ter ele nascido no mundo errado?
O pobre poema é
uma meta poema, isto é, um poema que fala sobre a sua própria construção. É
como se o poeta tirasse o véu que cobre o processo de criação e convidasse o
leitor a espreitar o que se passa na oficina da escrita.
O poema aqui
parece ganhar vida própria e o poeta, sem jeito, não sabe bem o que fazer com
ele.
Comparando o
poema com uma criança doente, o sujeito poético parece estar perdido, sem saber
como conduzir a situação e como lidar com aquela criatura (o poema) que saiu de
dentro dele.
A meio de uma
crise de desespero, sem saber o destino daquilo que criou sabendo-o
incompatível com a realidade do mundo, o poeta resolve rasgar o poema em muitos
pedaços.
Fonte: Pensador
Autoria:
Mário Quintana
Foto: Google
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