8.07.2026

O pobre poema - Mário Quintana

 





O pobre poema

Eu escrevi um poema horrível!

É claro que ele queria dizer alguma coisa...

Mas o quê?

Estaria engasgado?

Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura mansa como a que se vê nos olhos de uma criança doente, uma precoce, incompreensível gravidade

de quem, sem ler os jornais,

soubesse dos sequestros

dos que morrem sem culpa

dos que se desviam porque todos os caminhos estão tomados...

Poema, menininho condenado,

 

bem se via que ele não era deste mundo nem para este mundo...

Tomado, então, de um ódio insensato,

esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável

verdade, dilacerei-o em mil pedaços.

 

E respirei...

Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?


O pobre poema é uma meta poema, isto é, um poema que fala sobre a sua própria construção. É como se o poeta tirasse o véu que cobre o processo de criação e convidasse o leitor a espreitar o que se passa na oficina da escrita.

O poema aqui parece ganhar vida própria e o poeta, sem jeito, não sabe bem o que fazer com ele.

Comparando o poema com uma criança doente, o sujeito poético parece estar perdido, sem saber como conduzir a situação e como lidar com aquela criatura (o poema) que saiu de dentro dele.

A meio de uma crise de desespero, sem saber o destino daquilo que criou sabendo-o incompatível com a realidade do mundo, o poeta resolve rasgar o poema em muitos pedaços.


Fonte: Pensador

Autoria: Mário Quintana

Foto: Google

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