Mas
será o Benedito!!
Rita
Gottardi
Tem
palavra que não morre porque é antiga. Morre porque ninguém mais tem coragem de
usar.
Isso
é uma pena.
Eu
me recuso a aceitar que mocoronga, borocochô e requenguela desapareçam deste
mundo enquanto “crush”, “ranço” e “shippar” seguem firmes, fortes e fazendo
carreira.
Mocoronga,
por exemplo, é uma palavra que já nasce com uma personalidade. Você não precisa
explicar nada.
—
Eita, que mocoronga!
Pronto.
Todo
mundo entende.
Mocoronga
não é simplesmente uma pessoa boba. Não. Mocoronga tem um componente de
desajeito, de lerdeza, de “minha nossa senhora, como é que pode?”. É uma
palavra completa. Tem CPF, RG e provavelmente uma tia chamada Nadir.
E
borocochô?
Borocochô
é patrimônio imaterial da humanidade.
—
Hoje eu estou meio borocochô.
Isso
explica tudo.
Você
não está triste. Não está deprimida. Não está indisposta. Não está
emocionalmente desregulada.
Você
está borocochô.
É
muito mais elegante.
Agora,
se além de borocochô você estiver toda requenguela, aí a coisa complicou.
Porque
requenguela é aquela criatura meio desmantelada, molenga, sem aprumo, que
parece que saiu de casa sem terminar de se montar.
A
pessoa acorda, olha no espelho e pensa:
—
Hoje estou uma requenguela.
Suspira
fundo e segue...
Sem
terapia.
Sem
podcast.
Sem
precisar “processar os sentimentos”.
Antigamente,
uma boa expressão resolvia metade dos problemas psicológicos.
A
pessoa chegava em casa acabrunhada.
A
mãe perguntava:
—
Que cara é essa, menina?
—
Estou borocochô.
—
Então, tome um banho quentinho e pare de fazer manha.
Pronto.
Problema resolvido.
Hoje
você precisa de três profissionais, um aplicativo de meditação e uma assinatura
de streaming para descobrir que estava apenas amuada.
Que
palavra maravilhosa é amuada!
Cadê
o amuado? Sumiu.
Foi
substituído por “estou precisando de espaço”.
Dizíamos:
—
Não vou falar com você porque estou amuada.
Ninguém
discutia.
Respeitava-se
o amuo.
Quem
lembra dessa expressão?
—
Ai, pior que a mãe do sarampo!
Essa
eu não sei nem explicar direito.
Mas
precisava? Claro que não!
A
graça estava justamente em não precisar.
Era
uma exclamação, uma praga, uma interjeição, um diagnóstico e um desabafo ao
mesmo tempo.
E
quando alguma coisa dava muito errado, vinha o clássico:
—
Mas será o Benedito!
Benedito
podia ser qualquer coisa.
O
problema.
A
confusão.
A
desgraça.
O
sujeito inconveniente.
O
boleto.
A
sogra.
A
segunda-feira.
Bastava
ouvir, e todo mundo sabia que coisa boa não era.
Tem
também bestar, bulir, lambisgoia, xexelento, paspalho, janota, pirangueiro,
sirigaita, catita, furdunço, arranca-rabo, cafundó, trololó, nhenhenhém,
patuscada, fuzuê, quiprocó.
Isso
não é vocabulário.
Isso
é uma família inteira!
E
o maravilhoso nhenhenhém?
Nhenhenhém
é a reclamação que não tem começo, meio nem fim.
—
Para com esse nhenhenhém!
É
diferente de reclamar.
Nhenhenhém
é reclamar com insistência, repetição e uma certa vocação para encher o saco.
Temos
que preservar.
Pelo
bem da humanidade.
E
lambisgoia?
Lambisgoia
é palavra que já vem com sobrancelha levantada.
Não
existe lambisgoia neutra.
É
quase uma profissão.
Precisamos
recuperar furdunço.
Porque
atualmente tudo virou “evento”. Antigamente era furdunço.
Tinha
aniversário? Furdunço.
Tinha
casamento? Furdunço.
Tinha
briga na rua? Furdunço!
Tinha
alguém dançando bêbado em cima da mesa?
Furdunço
de alto nível.
A
língua portuguesa está ficando séria demais.
Está
precisando de um furdunço.
Eu
proponho, inclusive, uma campanha nacional:
SALVEM
AS PALAVRAS VELHAS!
Porque
palavra também envelhece.
E
algumas envelhecem lindamente.
Não
sei vocês , mas creio que certas palavras não servem apenas para dizer alguma
coisa.
Servem
para temperar a língua.
Assim,
da próxima vez que alguém disser:
—
Estou meio cansada hoje.
Não
aceite.
Pergunte:
—
Cansada ou borocochô?
Se
a pessoa responder:
—
Acho que estou meio pra baixo...
Você
olha bem para ela e sentencia:
—
Minha filha, você está é acabrunhada.
E
quando a situação sair completamente do controle:
—Mas
será o Benedito!
Pronto.
A
língua portuguesa estará respirando novamente.
Porque
enquanto houver alguém dizendo mocoronga, borocochô, requenguela, paspalho,
furdunço e nhenhenhém, a nossa língua ainda terá alguma graça.
Convenhamos:
num
mundo cheio de algoritmo, inteligência artificial e reunião por
videoconferência...um bom “mas será o Benedito!” está fazendo uma falta danada.
Att.: Sione Porto 2: Para animar a noite de vocês com palavras velhas da
língua portuguesa, hoje quase esquecidas
Autora: Ritta Gottardi
Fonte: Grupo da ALITA
Imagem: Google
Ponto de Leitura (link): https://rilvanbatistadesantana.blogspot.com
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