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5.13.2026

Ó mar salgado, quanto do teu sal São... Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal São... Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por ca... Frase de Fernando Pessoa.

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa  Mensagem. In: Obra poética de Fernando Pessoa: volume 1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.


Fonte: Pensador

Foto: Google

Uma nuvem inédita no céu de Nova York - Érico Veríssimo

Uma nuvem inédita no céu de Nova York

11 de setembro de 2001 (em Nova York)

Não havia uma nuvem no céu de Nova York pela manhã. Era um perfeito dia pré-outonal nesta cidade, que fica particularmente bem no outono, e nosso programa incluiria caminhada matinal pelo Central Park para comemorar o fim do calor e das chuvas que pegamos desde a nossa chegada, no domingo. Mas todos os planos e possivelmente todas as vidas do mundo mudaram em pouco mais de meia hora.

Antes das 9h, uma nuvem que ninguém poderia prever ou imaginar cobria a ponta sul da ilha de Manhattan, onde as torres ardiam. Uma nuvem que aumentou com a queda dos dois arranha-céus e ainda perdura no ar enquanto escrevo. Estamos longe do sul de Manhattan, e o que se vê nas ruas aqui por perto é apenas incredulidade, gente que mora fora da cidade se comunicando com suas casas, já que todas as saídas da ilha foram fechadas, e uma certa calma resignada, como se a tragédia fosse fenômeno natural — talvez porque as cenas que darão a verdadeira dimensão do horror, a dos mortos entre os escombros das torres destruídas, ainda não foram ao ar.

É difícil saber neste momento o que a nuvem inédita, cujo único precedente para os americanos é a fumaça que pairou sobre Pearl Harbor durante dias depois do ataque japonês, prenuncia. As TVs mostraram cenas de palestinos comemorando os atentados. Todas as especulações sobre sua autoria envolvem o fundamentalismo muçulmano, e o efeito mais direto do terror será, provavelmente, uma mudança radical do posicionamento americano no conflito entre judeus e palestinos, que tinha evoluído, na transição de Clinton para Bush, de envolvimento cauteloso para distanciamento cauteloso. Se as especulações estiverem certas, o distanciamento perdeu sentido: a guerra do Oriente Médio foi trazida, espetacularmente, para cá.

Os Estados Unidos passaram por duas guerras mundiais sem serem atacados, descontado o bombardeio do seu território havaiano. Com o fim do confronto com a União Soviética, e da própria União Soviética, acabou o pavor de uma guerra nuclear. Mas a nuvem cobrindo os destroços do World Trade Center não foi a única cena inédita deste dia do qual, confesso, eu estou esperando acordar a qualquer momento. Inédito também foi ver americanos e visitantes olhando para o céu ao ouvir ruídos de aviões, sem saber se são amigos ou inimigos.


Fonte: GLOBO

Foto: Google

 

Descobrindo o Significado do Natal - Robert Tamasy

   Descobrindo o Significado do Natal

       Por Robert Tamasy

 

Você provavelmente já ouviu esta pergunta ser feita mais vezes do que seria possível contar:  “Qual é o verdadeiro significado do Natal?”  É possível que existam tantas respostas quanto existem pessoas.  O que a observância do Natal aparenta ser varia de acordo com a nação, cultura e família, mas tipicamente é um tempo para que os familiares e amigos se reúnam, apreciem boa comida, troquem presentes e observem o encerramento de mais um ano.  Para muitos é um tempo festivo, de diversão;  para outros, pode ser um momento triste ou depressivo, um agudo lembrete de perda ou sofrimento.

 

Para o mundo profissional e empresarial, o Natal significa muito mais do que festas de escritório ao final de um ano de trabalho.  Os varejistas têm a esperança de colher lucros que possam transformar o ano civil de medíocre em espetacular.  Os contratos com os clientes estão sendo revistos – e espera-se – renovados.  Metas anuais estão sendo reavaliadas; planos para o próximo ano estão sendo formulados.  Uns poucos dias longe do trabalho durante as festividades de Natal proporcionam a chance de recobrar o fôlego antes de outro ano de atividades frenéticas. 

 

Mas é em torno disto que gira o Natal?  Alguém já descreveu esse tempo da seguinte forma:  “tempo de pedir coisas que não necessitamos, receber coisas que não queremos, comprar coisas que não podemos pagar para pessoas que não gostamos.”  Soa um tanto pessimista, não é mesmo?  De alguma maneira, o apelo quase universal desse momento deveria estar baseado em algo mais do que ânsia por coisas e busca por lucros.  Sendo assim, onde encontramos significado no Natal? 

 

A primeira história de Natal é contada nos capítulos iniciais do evangelho de Lucas.  Ali encontramos um homem e uma mulher jovens, judeus, noivos, ainda não oficialmente casados, fazendo o árduo trajeto de suas casas em Nazaré até Jerusalém.  De acordo com o relato, não conseguindo encontrar um quarto numa hospedaria convencional, o casal se acomodou em um estábulo, onde nasceu o menino Cristo, sendo sua primeira cama uma humilde manjedoura. 

 

A representação tradicional da Natividade oferece diferentes perspectivas.  Pastores, animais de curral, anjos e magos – todos figuram de forma significativa.   Mas, o que não está presente nessa cena é a rude cruz de madeira na qual essa criança – a quem a Bíblia chama de Deus Encarnado – vai terminar sua vida terrena.  Sem a cruz, não haveria necessidade de lembrar ou celebrar o primeiro Natal.  Refletir sobre isso mostra-nos coisas importantes acerca de Deus – coisas que deveriam se refletir na vida de Seus seguidores.  Entre elas: 

 

O cartão de visitas de Cristo foi Sua humildade.  Por mais difícil que seja imaginar ou conceber, o Deus de toda a criação e eternidade entrou no tempo e tomou a forma humana.  “Mas (Ele) esvaziou-Se a Si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens.  E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-Se a Si mesmo, e foi obediente até a morte, e morte de cruz!”  (Filipenses 2:7-8). 

 

Deus nos serve, portanto podemos servir a Ele.  Uma celebridade ou um dignitário, sempre esperam que as pessoas os sirvam em suas necessidades.  Mas quando Jesus veio Seu propósito era servir aos outros.  “Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em resgate por muitos.”  (Marcos 10:45). 

 

Ele Se tornou acessível.  Por um tempo, Deus – na pessoa de Jesus Cristo – Se tornou tão semelhante a nós quanto possível.   “Pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-Se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo o tipo de tentação, porém, sem pecado.” (Hebreus 4:15). 

 

Questões Para Reflexão ou Discussão  

 

Como você explica ou define o verdadeiro sentido do Natal?

Qual o impacto que o Natal causa em sua empresa ou organização, nas atitudes e mesmo no humor das pessoas com quem você trabalha?

Você acha que nós como sociedade nos afastamos muito do significado do Natal tal como apresentado na Bíblia?  Ou a base original para essa celebração anual permanece forte?  Explique sua resposta.

Qual percepção acerca de Deus, entre as ensinadas através da história bíblica do Natal é mais importante para você?  Que outros princípios ou lições ela nos ensina para aplicar na vida diária bem como no trabalho?

 

Nota:  Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos:  Miqueias 5:2;  Mateus 2:1-12;  Lucas 2:1-20;  João 3:16. 

 


 

5.12.2026

DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA (ALITA) - Renée Albagli Nogueira

DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA (ALITA) – Por Renée Albagli Nogueira

Deixe um comentário / Produção Literaria / Por Maria Vitoria

Ainda há tempo para sonhar!

Ao refletir sobre o Hino da Academia de Letras de Itabuna, de autoria do eminente poeta e Presidente de Honra desta casa, Cyro de Mattos, percebo que suas palavras ressoam com vigor e revelam a beleza de cada novo dia:

 

A cidade contigo conhece

Que a vida não é coisa vã,

É a palavra solta a dizer

A beleza de cada manhã.

Imortal é tua maneira de ser,

Tua luz que nunca se apaga,

Ideal é a página que escreves

Pra voar com as asas da alma.

Tudo vale, tudo anda, com Deus,

Que nos deu a razão e a emoção,

O sentido de viver com o amor

Pra dizer o que vem do coração.

 

Com um dos símbolos da Alita, saúdo a ilustre Presidente desta Academia, Raquel Rocha, cuja competência e dedicação engrandecem esta Casa. Saúdo todos os confrades e confreiras e lhes digo que a presença de cada um de vocês na Alita foi a maior inspiração para o desejo de compartilhar desta convivência, nesta Casa de Cultura. Com o trecho do hino da ALITA “O sentido de viver com o amor/Pra dizer o que vem do coração”, saúdo todos os familiares, na pessoa de Cláudio, meu esposo, aqui presente, responsável por todo legado, que lhes ofereço. A Academia de Letras de Itabuna, carinhosamente chamada ALITA, foi fundada em 19 de abril de 2011, tendo como Patrono o escritor Adonias Filho. Hoje, a Alita celebra 15 anos de atividades dedicadas às Letras e ao Saber, que sob a liderança de Cyro de Mattos, com a participação dos juízes Marcos Antonio Santos Bandeira e Antônio Raymundo Viveiros Laranjeira Barbosa, além do saudoso promotor Carlos Eduardo Lima Passos da Silva, insistiram na criação de mais uma Academia de Letras em Itabuna.

As reuniões preliminares ocorreram na Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC), onde foram discutidos o quadro de Patronos e de Membros Efetivos, o Estatuto e o Regimento. A saudosa confreira Sônia Maron desempenhou papel relevante na elaboração desses documentos.

Em sua crônica, Cyro de Mattos destaca: “Avante, Academia de Letras de Itabuna, com seu espírito de corpo constituído de valores indiscutíveis e formas de conhecimento da vida desde o seu amanhecer, andamento para o bem das letras e grandeza da cultura local, da Bahia e do Brasil”. E relembra os versos de Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”.

Sempre compreendi a Universidade como agente de desenvolvimento, cujo compromisso com a sociedade deve estar fundamentado em bases ontológicas, epistemológicas e metodológicas, contribuindo para o avanço educacional, social, político, cultural, econômico e ambiental da região.

Por essa razão, ressalto o imprescindível papel do professor, motivo pelo qual me honra ocupar a cadeira de um docente da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC, Professor Carlos Valder do Nascimento. E desta forma, homenageio todos os professores da Universidade Estadual de Santa Cruz.

O Professor Carlos Valder bacharelou-se em Direito pela Federação das Escolas Superiores de Ilhéus e Itabuna (FESPI) em 1978 e obteve o doutorado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A sua tese abordou a adequação do sistema tributário

nacional à ordem econômica e social. Ao longo de mais de três décadas, exerceu a função de Professor Adjunto de Direito Tributário na UESC. Também lecionou na Escola de Magistratura do Trabalho (EMATRA) e na Escola Superior de Advocacia Orlando Gomes da OAB-BA.

Além disso, atuou na área jurídica da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), foi Procurador Seccional da Advocacia-Geral da União (AGU) entre 1993 e 2003, Procurador-Chefe da Procuradoria Federal da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e advogado parecerista no Estado da Bahia. Era membro efetivo da Academia de Letras de Ilhéus.

Na instalação da Academia de Letras de Itabuna, Sabóia Ribeiro foi escolhido Patrono da Cadeira número 23, que tenho a honra de ocupar nesta solenidade. Sua escolha


representa grande valor cultural, pois foi precursor da Literatura do Cacau e único ficcionista grapiúna a retratar, nas letras do cacau, a geografia típica da região com seus dramas, costumes e valores, descrevendo episódios da Barra do Rio de Contas, Taboquinhas e Vila do Arcanjo São Miguel, núcleos humanos do início do século XX, pertencentes a Ilhéus e hoje integrando Itacaré.

Sua obra reflete o cotidiano da Região Cacaueira, com ênfase em contos realistas que capturam tipos e cenários locais.

Nascido em 07 de janeiro de 1898, em Jaguaribe, Ceará, era filho de Raymundo Francisco Ribeiro, Juiz de Direito e um dos fundadores da Faculdade de Direito do Ceará, e Maria José (Bandeira de Melo) Saboya Ribeiro, de famílias tradicionais. Casado com Georgina Xavier de Oliveira, teve quatro filhos: Temira, Gilberto, Nélia e Eliane.

Sua vida multifacetada exemplifica a intersecção entre medicina, política e literatura no Brasil do século XX.

Sua vocação literária surgiu cedo: aos dezoito anos, quando estreou como crítico na Folha do Povo, de Fortaleza, analisando o romancista Rodolfo Theófilo, com quem manteve uma longa amizade, seguido de um ensaio sobre Pápi Junior.

Após mudar-se para Salvador em 1920 e, posteriormente, para Ilhéus, imergiu na cultura baiana, que inspirou suas narrativas. Nesse período colaborou com as revistas A Luva e Renascença.

Em 1921, em visita ao Ceará, sob influência do Romantismo e Parnasianismo, recitou seus primeiros versos, editados na Bahia, sob o título de Rosas de Malherbe, álbum de poesia publicado como suplemento de O Malho.

Formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Bahia, doutorando-se em 1926 com a tese Ensaio Nasográfico de Augusto dos Anjos, analisando aspectos psiquiátricos da poesia do autor paraibano.

Após ser contratado pela Companhia Industrial de Tecidos, transferiu-se para Valença. Posteriormente, casou-se com Georgina (Xavier de Oliveira) Sabóia Ribeiro em 4 de fevereiro de 1928. Já estabelecido em Itapira (Ubaitaba), foi responsável pela instalação da agência dos Correios e Telégrafos na localidade. Aí, escreveu Rincões dos Frutos de Ouro e decidiu depois exercer a medicina em Tijucas e Florianópolis, em Santa Catarina.

Aos 36 anos, em 1933, publicou Rincões dos Frutos de Ouro, livro de contos ambientados na região do cacau do Sul da Bahia. Essa obra, também conhecida como Tipos e Cenários do Sul Baiano, permaneceu como sua principal marca literária, sendo objeto de referências e estudos acadêmicos.

O livro foi aprovado por unanimidade no plenário da Academia Brasileira de Letras, concedendo a Sabóia Ribeiro o Prêmio Ramos da Paz. A obra destaca-se pelo realismo na representação de paisagens agrestes, vaqueiros e costumes locais. Os contos evocam o sertão baiano através de descrições vívidas de penedos, rios e tropeiros, evidenciando a influência do regionalismo.

Após passar um ano no Acre, Sabóia Ribeiro retornou a Itapira (atual Ubaitaba), onde foi eleito prefeito, exercendo o cargo entre 1937 e 1941. Durante sua gestão, realizou a implantação da luz elétrica e a urbanização das praças.

Entre 1941 e 1947, Sabóia Ribeiro viveu em Ilhéus, onde exerceu atividades em Pediatria e Clínica Geral, atuando tanto em seu consultório particular quanto no Ambulatório Santa Isabel. Além disso, dirigiu a Escola Comercial de Ilhéus, ministrando aulas de Português, e colaborou com o Diário da Tarde, utilizando o pseudônimo João da Terra de Ninguém.

Em dezembro de 1947, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se especializou em Medicina Neonatal e passou a exercer funções no Hospital General Vargas, atualmente conhecido como Hospital Bonsucesso.

Ele publicou em 1957 o livro Roteiro de Adolfo Caminha, um estudo dedicado ao romancista cearense, que lhe rendeu o Prêmio Adolfo Caminha.

Sabóia Ribeiro faleceu em 07 de agosto de 1968 e o seu corpo está sepultado na Catedral de São Sebastião no Rio de Janeiro.

Os dados biográficos do escritor foram colhidos da biografia assinada por sua filha, a professora e biblioteconomista Eliane de Oliveira Sabóia Ribeiro, membro da Academia de Letras de Ilhéus.

A produção literária de Sabóia Ribeiro inclui contos, poesias e ensaios, com foco em temas regionais baianos e análises literárias. Embora não extensa em quantidade, sua obra é impactante, especialmente na literatura regionalista.

Sabóia Ribeiro destaca-se pelo uso apurado da linguagem regional e pela riqueza vocabular, conferindo à sua narrativa profundidade e autenticidade. Sua escrita revela um domínio singular das palavras, valorizando o universo cultural do Sul da Bahia.

No conto Gente Nativa, do livro Rincões do Cacau, o autor retrata com intensidade a volatilidade dos preços do cacau e seus efeitos devastadores sobre a vida dos pequenos lavradores. O protagonista, Manuel Calixto, simboliza o produtor rural que, entre a esperança de uma safra promissora e a decepção com a queda dos preços, enfrenta adversidades provocadas por fatores externos e especulações de mercado. Após árdua dedicação, Calixto vê sua produção desvalorizada e, movido pelo desespero, opta por destruir o fruto de seu trabalho no rio, diante do olhar perplexo da comunidade.

A narrativa de Sabóia Ribeiro dialoga com a realidade atual, deixando evidente que o pequeno produtor permanece vulnerável a oscilações relevantes causadas por fatores como mudanças climáticas, doenças nas lavouras, variações na demanda global e a influência de grandes agentes financeiros internacionais.

O autor emprega termos típicos do universo rural baiano, como arrobas, burrama, embandeirar, panacú, tulha dos caroços, entre outros, compondo um retrato vivo e particular do ambiente cacaueiro. Essa escolha lexical não apenas ambienta o leitor, mas também valoriza a cultura local e o aproxima das experiências dos lavradores.

Sabóia Ribeiro constrói sua beleza poética a partir da oralidade, da força das imagens e da musicalidade das palavras, como se observa em trechos de Gente Nativa, de Rincões do Cacau:

Ao iniciar o conto, o autor descreve o otimismo que permeia a comunidade rural diante das promessas de uma safra abundante: “Florara, cedo, o cacaueiro, a mais não poder, e os preços se anunciavam bastante altos, com tendência a subir sempre, adiantavam as pessoas que liam os jornais vindos da capital. Todos exultavam diante da próspera perspectiva” (Ribeiro.2005, p.73).

Essa euforia é reforçada pelas imagens da natureza exuberante, que Sabóia Ribeiro retrata com delicadeza, revelando o cenário das plantações de cacau em pleno florescimento:

Logo em março, a floração vestia, abundante, as extensas plantações — pequenina, branca, cor de espermacete, pétalas escancaradas. O tempo permanecia sempre ótimo. Sol escasso, chuvas miúdas, as terras bem refrescadas. O vento, uma eterna e fagueira brisa (Ribeiro, 2005, p.73).

No entanto, o autor também revela o ambiente agreste e suas sutilezas, com uma descrição visualmente marcante, em que Manuel Calixto, tomado pelo desespero e raiva, leva seus burros até o rio para romper os sacos de cacau com golpes de faca, despejando toda a produção na água.

Diante das pétreas lâminas, que se continuavam, desde a margem, rio a dentro, desenhando uma imagem confusa, que obrigava à maior cautela, com frequentes hiatos, que formavam, dentro da caudal, pequenas poças invisíveis e traiçoeiras — os animais velhacavam, fungando, ao encostar as broncas narinas na superfície da água (Ribeiro, 2005, p.81).

Sabóia Ribeiro destaca a importância do pequeno produtor como origem e sustentáculo do ciclo produtivo, ao tempo que evidencia a desigualdade existente entre os diferentes agentes do campo, revelando o ciclo de endividamento que marca a trajetória do pequeno cacauicultor.

No seu conto O Cacau e o Fazendeiro, escrito em 1966, ele diz:

Era simples, antigamente, ser fazendeiro de cacau. O pequeno, esse, já possuía denominação diferente, própria: burareiro. Mas era desse que nascia aquele.

[…] O invasor, de seu, só trazia uma coisa, afora a família: sua disposição de trabalhar, deitar roça.

Outros vieram, depois, de mais longe: de Sergipe, da caatinga, do São Francisco.

Sim, havia o comércio. O pequeno lavrador fazia a sua compra, acertava pagar com o cacau, quando o colhesse. Fazia, assim, a sua conta. Cacau, é bom saber, só dá colheita depois de cinco anos. Então, aos primeiros frutos, aquela conta já havia crescido bastante, com juros e tudo. De modo que o burareiro, ao estrear como produtor, é já um endividado (Ribeiro, 2005, p.165).

Assim, Sabóia Ribeiro entrelaça, com sensibilidade, a esperança dos lavradores, a beleza da natureza e os desafios do cotidiano rural, proporcionando ao leitor uma experiência poética e realista da vida na região cacaueira do Sul da Bahia.

Este ano, a Editus – Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz, fundada em 1996, celebra três décadas de trajetória. A criação da editora representou um dos projetos culturais mais significativos de nossa gestão à frente da reitoria, idealizado para dar voz escrita à produção literária, científica e cultural do corpo docente, reafirmando o papel da universidade como produtora de conhecimento, e publicar títulos de escritores regionais.

A Editus teve uma estreia brilhante sob a direção da Professora Maria Luiza Nora Andrade, autora do livro de poemas A Ética da Paixão e uma das integrantes da ALITA.

Vale destacar que a inauguração da Editus contou com obras publicadas de dois grandes escritores: Cyro de Mattos (Doutor Honoris Causa pela UESC), do romancista e articulista Euclides Neto, além do Professor Flávio José Simões Costa, personalidade importante na história do ensino superior de nossa região. Cyro de Mattos apresentou o livro Berro de Fogo e Outras Histórias; Flávio Simões lançou Antônio Conselheiro, Louco?; e Euclides Neto publicou o seu livro Dicionareco das Roças de Cacau.

A Quarta Revolução Industrial trouxe a Revolução Digital, baseada no aprendizado de máquina e na inteligência artificial. Essencialmente, a inteligência artificial substitui tarefas repetitivas.

Entretanto, nesta nova era, a criatividade humana continuará sendo indispensável, assim como a empatia e a coragem. As dimensões emocionais e afetivas permanecem exclusivas do ser humano; as máquinas jamais serão capazes de tocar uma sinfonia de Beethoven, cantar uma ária de La Traviata de Verdi ou interpretar uma peça de Shakespeare nos palcos.

Para ilustrar, gostaria de afirmar que a inteligência artificial não será capaz de interpretar as emoções do nosso Reitor Poeta Alessandro Fernandes de Santana, quando escreveu o seu livro Rascunhos Reais.

Do mesmo modo, a inteligência artificial jamais substituirá a pesquisadora e ensaísta Maria de Lourdes Neto Simões (Tica Simões), cuja produção literária capta o pensamento sobre os limites do gênero que orientam o século XXI, unindo questões teóricas relativas à literatura, ao patrimônio cultural e à viagem, ao tempo em que adentra o olhar para a produção literária sul-baiana.

Tampouco poderá replicar a literatura em versos e prosas de Ruy do Carmo Póvoas, Doutor Honoris Causa pela UESC, autor de obras como Vocabulário da Paixão, A linguagem do Candomblé, A Fala do Santo, Da Porteira para Fora e A Viagem de Orixalá.

Igualmente, a inteligência artificial não conseguiria conceber e executar os projetos da historiadora Janete Ruiz de Macêdo, responsável pela criação do Centro de Documentação Regional – CEDOC, na UESC, e pela implementação de arquivos municipais em 23 municípios.

E para provar que os componentes emocionais e afetivos são atividades que a Inteligência Artificial não saberá fazer, citamos a escritora e romancista Margarida Cordeiro Fahel, cujas obras são reveladoras não só da sua inteligência, alta sensibilidade e sentido ético da vida, além de, para mim, proporcionar uma experiência enriquecedora de convivência.

Na segunda orelha do livro Entre Margens, de Margarida Fahel, o jornalista e cronista Antônio Lopes escreveu:

A autora fala de gente, e gente oscila entre a extrema bondade e a reles mesquinharia, temas universais, idiossincrasias que formam esse tipo faceiro dito homo sapiens[…]. Na tessitura de Margarida Fahel, bordadeira de invejável perícia, o bem vence o mal, a virtude se impõe ao pecado: os maus recebem o castigo; os bons a recompensa. Não creio que possa haver melhor mensagem para nossa tão sofrida realidade (Fahel, 2018).

Esta é Margarida Fahel, escritora e ex-vice-reitora da UESC, com quem tive o privilégio de conviver!

Reitero: os componentes emocionais e afetivos são atividades que a inteligência artificial jamais saberá realizar, como se observa no cuidado exemplar oferecido por meu genro Cyro Serpa e minha filha Cláudia aos meus netos, Luís

Fernando e Isabel, para que cultivem e preservem valores essenciais como inteligência, sensibilidade e ética.

Para concluir, afirmo: a máquina nunca poderá substituir a grandeza do ser humano! Esta é minha convicção. E, ao assumir uma cadeira nesta Casa de Produção Literária, convido todos à reflexão sobre esse tema.

Referências:

RIBEIRO, João Felipe Sabóia. Rincões dos frutos de ouro (tipos e cenários do sul baiano). 2. ed. Rev. e ampl. Ilhéus, BA: Editus, 2005.

FAHEL, Margarida Cordeiro. Entre Margens. 1. ed. Ibicaraí, BA: Via Litterarum Editora: 2018.

Minicurrículo

Renée Albagli Nogueira. Doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia. Mestra em Gestão Universitária pela Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Aperfeiçoamento na DePaul University, em Chicago, USA. Especialista em Genética pela Unicamp e em Biologia Geral pela PUC Minas. Licenciada em Biologia Celular pela Universidade Santa Úrsula. Reitora da Universidade Estadual de Santa Cruz (1996-2000 e 2000-2004); Conselheira Estadual de Educação (2004-2008 e 2008-2012); e Presidente do Conselho Estadual de Educação (2007-2008).


Fonte: Site da ALITA

Discurso de posse da doutora Renée Albagli na Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Fotos: Produção


Blog Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com

 

 

 

 

 

 

 

 

Sugestão de Meta para o Ano Novo Por Robert Tamasy

Sugestão de Meta para o Ano Novo

Por Robert Tamasy

 

Terminadas as festividades de Natal, a véspera de Ano Novo é a próxima na agenda;  depois, estaremos totalmente envolvidos pelo novo ano.  Antecipando a entrada de um novo ano civil, muitos de nós também ficamos envolvidos com a prática anual de tomar resoluções ou estabelecer metas. 

 

Isso vai desde largar hábitos ruins e adotar bons hábitos, até avaliar o ano que passou e estabelecer novas metas para os próximos 12 meses. 

 

Os especialistas em planejamento nos dizem que as metas devem ter pelo menos três características: devem ser específicas, devem ser mensuráveis, e devem ser atingíveis.  “Pretendo fazer melhor”, não é nenhuma das três, já que é vaga, não fornece meios de avaliação quanto a se e quando é atingida, e “melhor” pode sempre ser um alvo móvel e frustrante. 

 

Deixe-me sugerir uma meta que muitos de nós podemos buscar, embora sua implementação possa depender das circunstâncias que são exclusivas do nosso ambiente de trabalho.  Eis aqui a meta, tomada emprestada de Heath Eslinger, treinador chefe de luta romana da Universidade de Tennesse-Chattanooga: 

 

“A meta de todo líder deveria ser a transformação de vida. Grandes realizações resultam de grandes pessoas.  Esteja no negócio de pessoas.” 

 

Esta é uma meta que todos nós podemos abraçar, independente do nível de responsabilidade.  Sim, precisamos buscar lucros.  Também devemos proporcionar produtos e serviços de qualidade.  Se quisermos permanecer nos negócios, um serviço ao cliente com excelência é algo não negociável.  Mas descobrimos que as pessoas estão no coração de cada um desses objetivos.  Como já tem sido dito e repetido: “Você vence com pessoas.”

 

Repetidas vezes encontramos esse princípio na Bíblia, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, aplicados a pessoas cujas metas e desejos estavam alinhados com os de Deus.  O rei Davi de Israel serve como um bom exemplo:

 

Pessoas que têm o coração certo.  Ao escolher um rei para suceder o rei Saul em Israel, Deus não escolheu simplesmente um indivíduo que passasse no teste da aparência.  Ao contrário, Ele escolheu um jovem que era o certo por dentro.  “Depois de rejeitar Saul, levantou-lhes Davi como rei, sobre quem testemunhou:  ‘Encontrei Davi, filho de Jessé, homem segundo o Meu coração;  ele fará tudo o que for da Minha vontade.”  (Atos 13: 22). 

 

Pessoas que têm o espírito certo. Depois de cair em grave pecado, Davi não procurou negar, ignorar ou cobrir suas faltas.  Ao contrário, ele pediu a Deus que o perdoasse e restaurasse o seu relacionamento com Ele.  “Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável...Devolve-me a alegria da Tua salvação e sustenta-me com um espírito pronto a obedecer.”  (Salmos 51:10-12). 

 

Pessoas que têm a atitude certa.  Davi exibiu um espírito humilde e ensinável;  o apóstolo Pedro também o descreveu:  “...Jovens, sujeitem-se aos mais velhos.  Sejam todos humildes uns para com os outros, porque ‘Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes’.  Portanto, humilhem-se debaixo da poderosa mão de Deus, para que Ele os exalte no tempo devido.”  (I Pedro 5:5-6). 

 

Questões Para Reflexão ou Discussão   

1.   Neste ponto, como você avalia seu desempenho no trabalho ao longo deste ano?  Quais seus maiores sucessos?  Como se saiu com as metas que estabeleceu?  O que gostaria de ter feito melhor?

2.   Que metas ou resoluções está adotando para o próximo ano?

3.   Você concorda com a ideia de que “a meta da liderança deveria ser a transformação de vida...Esteja no negócio de pessoas.”? Você concorda que “grandes realizações resultam de grandes pessoas?”  O que podemos fazer para encorajar a transformação de vida entre as pessoas que trabalham conosco, quer se reportem a nós, quer sejam nossos colegas?

4.   Como você reage à sugestão de que “pessoas certas”  têm o coração certo, o espírito certo e a atitude certa?

Nota:  Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: I Samuel 13:14; 15:12-26;  16:1-13;  Ezequiel 36:26;  II Coríntios 5:17;  Filipenses 2:3-4. 

Próxima semana tem mais!

 

 

 

DISCURSO DE LANÇAMENTO DA REVISTA GURIATÃ Nº 7 - Clóvis Silveira Góis Júnior (*)

 

DISCURSO PROFERIDO NA SOLENIDADE DE LANÇAMENTO DA REVISTA GURIATÃ Nº 7. – Por Clóvis Silveira Góis Júnior

Deixe um comentário / Produção Literaria / Por Maria Vitoria

    A cada lançamento de uma Guriatã, a sexta arte se enriquece. Aqui, a literatura grapiúna é representada por uma plêiade de intelectuais que, após imergirem em um processo cognoscitivo e sapiencial, exteriorizam, por meio da escrita, sua maneira de entender o mundo. Não o fazem apenas como forma de registro factual ou histórico, mas com elegância, espontaneidade, graça, estilo, suavidade e coesão. Os saberes alitanos são, assim, anualmente transmitidos a insignes e ávidos leitores — aqueles que não se satisfazem com escritos rasos, ordinários e transitórios.

    A serventia de uma boa leitura é extraordinária: nutre o intelecto, regala o coração, acalenta a alma e promove agudeza de espírito. É quase um presente divino! Asseguro aos presentes que as confreiras e os confrades da Academia de Letras de Itabuna, cientes de tamanha responsabilidade — quase um sacerdócio —, continuam a produzir textos condizentes com essa expectativa. Sem falsa modéstia, o material publicado em nossa revista é a fina-flor da literatura sul-baiana.

    Em tempos de leitura fast food, de textos rasteiros, de polarização política, de pensamentos engessados por ideologias, de extrema mornidão e acomodação intelectiva e de elogios à parvoíce, certamente o leitor da Guriatã assemelha-se a um tuaregue diante de uma cacimba de água fria.

    A nossa revista é obra seminal da literatura grapiúna, servindo, inclusive, para estimular e moldar novos escritores, ao dar azo a criativas e refinadas produções.

    Abarcando uma pluralidade de gêneros literários, as produções desta sétima edição são chanceladas por alitanos.

    Publicamente, agradeço e enalteço a participação de Ceres Marylise, de Maria Luíza Nora (Baísa) e de Raquel Rocha, conspícuas alitanas que compõem o nosso Conselho Editorial.

    Ceres, “compartilhar é palmilhar o mesmo caminho e chegar juntos ao destino desejado.” Baísa, “em cada entrega, reafirmamos nosso compromisso.”

    Raquel, “acima de todas as liberdades, dê-me autonomia!”

    Confreiras do Conselho Editorial, as palavras que lhes dedico são: compartilhar, entrega e autonomia

    Desejo uma leitura proveitosa e prazerosa. Clóvis Silveira Góis Júnior (Diretor da Revista)


Clóvis Silveira Góis Júnior (*)

Casado com a pedagoga Iara Souza Setenta Góis, com quem tem dois filhos: Felipe Setenta Góis e João Marcos Setenta Góis. Servidor público federal da Justiça do Trabalho há 38 anos. Graduado em Administração e licenciado em História, diretor da Revista Guriatã (2024/2026) e membro titular do IGHB – Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Administra o perfil @historiagrapiuna. Publicou três livros: “A Gênese do Adventismo Grapiúna”, “Sequeiro do Espinho: passos de um conflito” e “A história de Itabuna em 1.300 eventos cronológicos e ilustrados”.
Na Academia de Letras de Itabuna – ALITA ocupa a Cadeira 34, tendo como patrono Jorge Calmon Moniz Bittencourt.


Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com

5.11.2026

Para Sempre - Carlos Drummond de Andrade











Para Sempre

Carlos Drummond de Andrade

que as mães vão se embora?

Mãe não tem limite,

é tempo sem hora,

luz que não se apaga

quando sopra o vento

e chuva desaba,

veludo escondido

na pele enrugada,

água pura, ar puro,

puro pensamento.

Morrer acontece

com o que é breve e passa

sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

é eternidade.

Por que Deus se lembra

- mistério profundo -

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará sempre

junto de seu filho

e ele, velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.


Fonte: Cultura Genial
Foto: Google

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