Dia
10 de agosto: celebrar 114 anos de Jorge Amado
Por
Maria de Lourdes Netto Simões (Tica Simões)
No
dia 10 de agosto, ao celebrarmos os 114 anos de Jorg e Amado, reconhecemos a
permanência de uma obra que continua a produzir sentidos e que, para além de
sua dimensão estética, constitui-se como espaço de memória, identidade e
representação de um povo. Cada romance configura uma cartografia cultural na
qual o território se converte em linguagem e a linguagem, por sua vez,
transforma-se em patrimônio.
É
nesse horizonte que a grapiunidade adquire centralidade. Antes de alcançar o
mundo, Jorge Amado encontrou, na Região Cacaueira da Bahia, o núcleo de uma
experiência humana que marcaria definitivamente sua criação. O universo do
cacau, longe de ser simples cenário, configura um território simbólico onde se
entrecruzam relações de poder, migrações, conflitos, solidariedades e afetos. A
paisagem deixa de ser mero pano de fundo para tornar-se protagonista da
história.
A
literatura de Jorge Amado demonstra que os territórios são também construções
culturais. A Região Grapiúna emerge como espaço de memória coletiva, onde
vozes, costumes, saberes e narrativas resistem ao apagamento. Nesse contexto,
escrever é preservar modos de existência, reafirmar pertencimentos e
transformar a experiência regional em patrimônio da humanidade. Aí reside muito
da singularidade de sua obra. O escritor não universaliza a Bahia porque
abandona o regional; universaliza-a porque mergulha profundamente em sua
cultura. Quanto mais enraizada é sua narrativa, mais ampla se torna sua
capacidade de dialogar com diferentes povos e tempos. O local converte-se em
linguagem universal.
Os
clássicos permanecem porque continuam produzindo novas leituras e novos
sentidos. Jorge Amado permanece entre nós não apenas pela força de seus
personagens, mas porque sua obra nos convida, continuamente, a revisitar os
territórios da memória, a reconhecer a diversidade como fundamento da cultura e
a compreender que a literatura é também uma forma de resistência ao
esquecimento.
Ao celebrar seus 114 anos, celebramos também a vitalidade da grapiunidade como patrimônio cultural e literário. Nesse encontro entre memória, território e palavra — Cacau, Terras do Sem-Fim, São Jorge dos Ilhéus, Gabriela, Cravo e Canela e Tocaia Grande —, Jorge Amado permanece vivo, lembrando-nos de que as identidades não se encerram no passado: renovam-se cada vez que a literatura devolve uma comunidade à consciência de si mesma. E sabemos que sua obra atravessa as fronteiras regionais e conta-canta a Bahia.
A
permanência da obra de Jorge Amado projeta-se também para além do campo
literário. Seus romances transformaram-se em poderosos mediadores da imagem da
Bahia no Brasil e no mundo, convertendo a ficção em experiência cultural e
turística. Leitores de diferentes países percorrem ruas, mercados, praias,
terreiros e cidades movidos pelo desejo de reencontrar os cenários da
narrativa. Trata-se de um singular exemplo em que a literatura não apenas
representa um território, mas contribui para sua valorização simbólica, sua
preservação e o fortalecimento de sua economia criativa.
O
turismo literário, nesse contexto, constitui uma forma de leitura do espaço, na
qual memória, patrimônio e identidade se entrelaçam, reafirmando a cultura como
um dos mais relevantes ativos do desenvolvimento regional. Assim, Jorge Amado,
mais do que um grande romancista, afirma-se como um dos maiores embaixadores
culturais da Bahia. Sua obra continua atraindo leitores, pesquisadores e
visitantes de diferentes partes do mundo, fortalecendo a imagem da Bahia e,
particularmente, da Região Grapiúna como território da cultura, da memória e do
turismo literário.
Celebrar
seus 114 anos é reconhecer que sua literatura permanece viva, renovando, a cada
leitura, o diálogo entre o local e o universal e reafirmando que a identidade
de um povo também se escreve pela força de suas narrativas.
Membro da cadeira 19,
Academia de Letras de Ilhéus.
Fonte: Jornal Direitos
Foto: Produção
https://rilvanbatistadesantana.blogspot.com

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