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11.28.2025

Fernando Pessoa (Poesias)

 








Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há de dizer.

Fala: parece que mente...

Cala: parece esquecer...

 

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

P'ra saber que a estão a amar!

 

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!

 

Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

@@@

Porque lhe estou a falar...Fernando Pessoa Poesias. Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.

Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso. Fernando Pessoa SOARES, B. Livro do Desassossego. Vol.II. Lisboa: Ática. 1982. 505p.


Fonte: Pensador

Foto: Google

Poemas de Clarice Lispector

 

Poemas de Clarice Lispector

Clarice Lispector foi uma brilhante romancista, contista e ensaísta brasileira. Apesar do alto teor poético de seus textos, a autora possui apenas dois poemas publicados: A mágoa e Descobri o meu país. Os demais pensamentos presentes nesta página podem estar em forma de poemas, mas foram escritos originalmente em prosa.


A mágoa

Os telhados sujos a sobrevoar

Arrastas no vôo a asa partida

Acima da igreja as ondas do sino

Te rejeitam ofegante na areia

O abraço não podes mais suportar

Amor estreita asa doente

Sais gritando pelos ares em horror

Sangue escoa pelos chaminés.

Foge foge para o espanto da solidão

Pousa na rocha

Estende o ser ferido que em teu corpo se aninhou,

Tua asa mais inocente foi atingida

Mas a Cidade te fascina.

Insiste lúgubre em brancura

Carregando o que se tornou mais precioso.

Voas sobre os tetos em ronda de urubu

Asa pesa pálida na noite descida

Em pálido pavor

Sobrevoas persistente a Cidade Fortificada escurecida

Capela ponte cemitério loja fechada

Parque morto floresta adormecida,

Folha de jornal voa em rua esquecida.

Que silêncio na torre quadrada.

Espreitas a fortaleza inalcançada.

Não desças

Não finjas que não dói mais

Inútil negar asa partida.

Arcanjo abatido, não tens onde pousar.

Foge, assombro, inda é tempo,

Desdobra em esforço a sua medida

Mergulha tua asa no ar.

⁠Descobri o meu país


Subi a montanha

e no seu topo os anjos me cercaram

e me engrinaldaram a fronte

com as flores do céu.

Asas zumbiam

em harmonias fragílimas

e vozes de arcanjos louvavam a paz.

Derramaram sobre meu corpo

sete bálsamos purificadores

e fizeram-me beber

ambrosia e mel.

Banharam-me no rio da música

e eu saí ingênua

como o canto de uma criança.

E depois surgiram novos anjos

e não havia noite

e não havia dia.

E a ambrosia e o néctar

deslizavam com fartura celestial.

E novas canções se entoaram

sempre em louvor a Deus.

E não havia noite

e não havia dia.

E aos poucos cresceu dentro de mim

o desespero

e eu busquei em vão os olhos celestiais.

Eles nada diziam

e cantavam a paz.

E aos poucos uma nostalgia

me enlanguesceu

e eu era o arco distendido

sem a flecha

e eu buscava o ar

sem respirar.

Um anjo me interrogou: mais néctar?

Eu gritei: quero cheiro da terra!

E o anjo me perdoou

E eu cansei de ser perdoada,

eu queria sofrer.

E não havia noite e não havia...

Quebrei minhas asas,

desci a montanha

e vivi na Terra!


Homens amavam

e cansavam do amor.

Homens bebiam sangue

e descobriam

que não desejavam brigar

Entoavam-se cânticos místicos

onde só havia a insatisfação.

E depois homens morriam

e todos sabiam que era o fim.

Nem a terra,

nem o céu!


Fechei-me num quarto,

inventei outro Deus,

outro céu, outra terra

e outros homens.

Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...

Ou toca, ou não toca.

Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras.

Sou irritável e firo facilmente.

Também sou muito calmo e perdoo logo.

Não esqueço nunca.

Mas há poucas coisas de que eu me lembre.

 

Que minha solidão me sirva de companhia.

que eu tenha a coragem de me enfrentar.

que eu saiba ficar com o nada

e mesmo assim me sentir

como se estivesse plena de tudo.

Quando fazemos tudo para que nos amem... e não conseguimos, resta-nos um último recurso, não fazer mais nada.

Por isto digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado... melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram.

Não façamos esforços inúteis, pois o amor nasce ou não espontaneamente, mas nunca por força de imposição.

Às vezes é inútil esforçar-se demais... nada se consegue; outras vezes, nada damos e o amor se rende a nossos pés.

Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido.

Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer.

Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho... o de nada mais fazer.

Clarice Lispector 

Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer.

Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi o apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.

Clarice Lispector 

Acho que devemos fazer coisa proibida – senão sufocamos. Mas sem sentimento de culpa e sim como

aviso de que somos livres.

Ando de um lado para outro, dentro de mim. (...)

Estou bastante acostumada a estar só, mesmo junto dos outros.

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam mais bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

– Ela é tão livre que um dia será presa.

– Presa por quê?

– Por excesso de liberdade.

– Mas essa liberdade é inocente?

– É. Até mesmo ingênua.

– Então por que a prisão?

– Porque a liberdade ofende.

Mas chegará o instante em que me darás a mão,

não mais por solidão, mas como eu agora:

por amor.

Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma ideia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.

Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou maduro bastante ainda. Ou nunca serei.

Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais.

 

E a vida é curta demais para eu ler todo o grosso dicionário a fim de por acaso descobrir a palavra salvadora.

Entender é sempre limitado.

As coisas não precisam mais fazer sentido. Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.

Porque no fundo a gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro.

Abro o jogo!

Só não conto os fatos de minha vida:

sou secreta por natureza.


Há verdades que nem a Deus eu

contei. E nem a mim mesma. Sou

um segredo fechado a sete chaves.

Por favor me poupem.

Clarice Lispector 

Nota: Os pensamentos costumam aparecer unidos na internet, mas pertencem a obras diferentes. O primeiro é de "Água viva" (1998) e o segundo é um trecho do conto Brasília, e está presente no livro "Todos os contos" (2016).

...Mais

A lucidez perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande

que me anula como pessoa atual e comum:

é uma lucidez vazia, como explicar?

assim como um cálculo matemático perfeito

do qual, no entanto, não se precise.

 

Estou por assim dizer

vendo claramente o vazio.

E nem entendo aquilo que entendo:

pois estou infinitamente maior que eu mesma,

e não me alcanço.

Além do quê:

que faço dessa lucidez?

Sei também que esta minha lucidez

pode-se tornar o inferno humano

– já me aconteceu antes.

Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendo demais ao telefone, escrevo depressa,

vivo depressa. Onde está eu? Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim – enfim, mas que medo de mim mesma.

Gostando dos poemas?

Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

 

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.

 

"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

Teu segredo

 

Flores envenenadas na jarra. Roxas azuis, encarnadas, atapetam o ar. Que riqueza de hospital. Nunca vi mais belas e mais perigosas. É assim então o teu segredo. Teu segredo é tão parecido contigo que nada me revela além do que já sei. E sei tão pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu és o meu.

O presente

 

Amor será dar de presente ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Há impossibilidade de ser além do que se é – no entanto eu me ultrapasso mesmo sem o delírio, sou mais do que eu quase normalmente –; tenho um corpo e tudo o que eu fizer é continuação de meu começo. (...)

 

A única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais...

E eis que depois de uma tarde de “quem sou eu” e de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero – eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu. e você é você. É vasto, vai durar.

O que te escrevo é um “isto”. Não vai parar: continua.

Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.

 

Amor é quando é concedido participar um pouco mais.

Amor é a grande desilusão de tudo mais.

Amor é finalmente a pobreza.

Amor é não ter.

Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor.

E não é prêmio, por isso não envaidece.

 

Estou em plena luta (...) Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não termos um ao outro (...) Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. (...)

Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz (...)

Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta.

  

Não sei separar os fatos de mim,

e daí a dificuldade de qualquer precisão,

quando penso no passado.


Fonte: Pensador

Foto: Google

Vou-me embora pra Pasárgada [Manuel Bandeira]

 

Vou-me embora pra Pasárgada [Manuel Bandeira]

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Libertinagem (1930)

Fonte: Aeroplanos da Birmânia

Foto:  Google

* Carta para Elma -- R. Santana

 


* Carta para Elma

* Carta para Elma
R. Santana
Querida Elma:

Ontem, quase que não preguei os olhos, pois li por acaso o seu desabafo... Não me surpreendeu o estilo correto, a forma inteligente do seu desabafo, não me surpreendeu a gramática impecável, nem me surpreendeu o recurso textual subjacente usado pelos bons escritores para que sua mensagem seja lida e entendida por poucos, mas me surpreendeu a agressividade de suas palavras, surpreendeu-me o veneno que escorre no seu texto desde a primeira palavra até a última, ora, com ironia explícita, ora, através de pensamentos de gênios universais.
Não sou egoísta, não sou mesquinho, não sou afetado, não sou intelectual, nem sou escritor. Eu sou uma pessoa simples, humilde, uma pessoa desprovida de brilho, sem carisma e sem genialidade. Eu sou, apenas, uma pessoa comum como tantas outras que perambulam, diuturnamente, neste mundo de meu Deus, mas sem falha de caráter.
Minha amiga Elma, eu não sou ingrato, gosto de preservar as minhas amizades, às vezes, sou apunhalado pelas costas, face cultivar como norte da minha vida a franqueza e a verdade quando se fazem necessárias, não uso como moeda de conduta a falsidade, tenho “o pavio curto” como diz a sabedoria popular, no entanto, sou fiel e amigo como um cão.
Reconheço as minhas falhas intelectuais porque além da falta de talento (Deus não me deu talento em abundância), estudei em escola pública todo o tempo, a minha amiga poderá vir com o contra-argumento que a maioria dos brasileiros teve o mesmo destino, porém, a maioria que se sobressaiu em várias atividades profissionais, teve família, pobre, mas estável, teve estabilidade afetiva, emocional, enquanto, eu não perdi, até hoje, o complexo de inferioridade, a falta de autoestima, achar que ele e ela sabem e eu não, tudo por conta dessa falha estrutural da personalidade.
Querida Elma, quero lhe contar no próximo parágrafo, não para lhe inspirar piedade, pena, tampouco, lhe deixar com complexo de culpa pelas palavras ácidas e ferinas que a amiga verteu em seu desabafo sobre mim, talvez, eu queira lhe dizer quão de generosidade lhe falta na vida. Não somos íntimos, o nosso conhecimento é virtual, porém, ao longo do tempo, pude perceber que a ilustre intelectual tem uma personalidade forte, crítica, moralista, egocêntrica, perfeccionista, não dispensa a falha do outro, mesmo com toda carga religiosa e cultural que carrega. Mais ainda: a generosidade, o perdão, a compaixão, a piedade e o amor cristão pelo ser menos perfeito, possuem valores relativos no seu modo de ver.
Fui parido de uma mulher sem marido, no interior de Sergipe, numa família extremamente pobre, trazido para aqui, desnutrido e doente, com um ano de idade, para ser adotado a contragosto do seu marido, por minha tia materna, mulher de um oleiro. E, o pior estaria por vir, quando eu tinha 5 ou 6 anos de idade, eles se largaram e tive daí em diante, viver de favor na casa de um ou de outro parente do lado materno, pois não conheci meu pai nem seus parentes nem aderentes.
Tive infância (não nasci velho), mas não gozei a infância, desde cedo, tive que me preocupar não com a bola de gude, o carrinho de madeira, a bola de pano, o bodoque, o papagaio, o cavalo-de-pau, mas com o café, o almoço e a janta e não foram poucos, os dias, que pirão de água e sal, ovo, chá de capim-santo (substituía o café) e tripinha e bucho eram manjares dos céus.
Adolescente e moço, tive como lazer o trabalho, vivi grande parte dessas faixas etárias, enfurnado num bar, trabalhando todos os dias da semana, inclusive, domingos e feriados, sem descanso, o Colégio Estadual de Itabuna – CEI, à noite, era a minha saída, o meu lugar de fuga, por isto, não fui um aluno brilhante, não poderia sê-lo, pois chegava lá cansado e quando voltava ia fazer as atividades escolares á luz de fifó. Tornei-me um misantropo, um solitário e fiz da leitura contumaz, estilo de vida.
Hoje, não me queixo dos meus criadores, nem da minha mãe, parodiando Alexandre, o macedônico – se uns me deram a vida, outros me deram arte de viver.
Aprendi com essas pessoas simples, lições de dignidade, de ética, de amor ao próximo e a Deus, se não me deram ciência, foram pródigos em sabedoria. Não foram poucas as lições de honestidade que tive subsidiada pela psicóloga palmatória, não fiquei com traumas nem desvios de conduta.
Não me sinto à vontade com os pseudointelectuais, eles são críticos, egoístas e afetados, não são generosos, acham que sabe tudo, são os mais inteligentes, são os mais cultos, são censores de plantão, se deslumbram fácil com suas produções medíocres, não reconhecem com humildade suas falhas intelectuais, tergiversam a verdade para não serem taxados de ignorantes, eles não têm o gênio nem a sabedoria de Sócrates que reconheceu sua ignorância.
Não sou escritor, não sou literato, tenho ojeriza pelas convenções, acho uma mediocridade alguém que se debruça sobre um texto e depois de lê-lo, ao invés de interpretá-lo, sorver nas entrelinhas, a mensagem, ele se presta descobrir as incorreções gramaticais. Não sei se foi Bérgson que disse: “quem sabe faz e quem não sabe ensina”, se não foi Bérgson, é de somenos importância quem o disse, é uma verdade universal.
Querida Elma, confesso-lhe que gostaria de ser um escritor, com a virtuose de um Machado de Assis, de um Guimarães Rosa, de um Graciliano Ramos, de um Euclides da Cunha, duma Rachel de Queiróz, de um Saint- Exupéry, de um Morris West, de um Harold Robbins, de um Hemingway; o regionalismo de um Jorge Amado, de um Adonias Filho; o romantismo de um Vítor Hugo; o romance científico de um Júlio Verne e o absurdo de um Kafka; a poesia de um Castro Alves, de um Fernando Pessoa, de um Bocage, Camões, de um Khalil Gibran, dentre outros luminares das letras que, agora, não me vêm à memória.
Desde adolescente que escrevo, mas não sou um escritor, sou um escrevinhador, graças ao advento da INTERNET, pude mostrar as minhas “bobagens” para o mundo, por isto, agradeço a Deus, ter me concedido tempo para alcançar a informática, o celular, o telefone e a ciência cibernética. Se fosse noutros tempos, com a minha falta de talento, de conhecimento, de genialidade, todas essas matérias teriam servido para jogar na lata de lixo. Hoje, tenho o prazer de vê-las rondando mundo, sei que quando eu morrer, esses textos virarão lixo eletrônico, mas o importante é o momento, afora Deus, nada é eterno, nem mesmo a vida!...
Quero lhe dizer que as ideias maniqueístas absolutas são perigosas, o mal e o bem vivem em comunhão na mesma pessoa em equilíbrio, ninguém é completamente ruim ou completamente bom, mesmo as personalidades santas ou as personalidades patológicas, ambas, possuem momentos de lucidez e de maldade.
Querida Elma, não devemos ser um repositório de ressentimentos, de mágoas fúteis, de inveja, de ego inflado. Devemos cultivar a humildade, a simplicidade, o perdão, a caridade e o amor cristão, não o amor de boca pra fora, social, fariseu, mas o amor ensinado por Jesus Cristo, o amor sem limite, o amor ágape. Para mim, leigo em exegese, o cristão deveria ter em mente sempre os ensinamentos de Jesus Cristo: - perdoar o seu inimigo setenta vezes sete, e, amar ao seu próximo e a Deus sobre todas as coisas, o resto é ilação, é releitura.
Enfim, do seu amigo, hoje, “persona non grata”,

Rilvan Batista de Santana

Itabuna, 26 de março de 2012
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*Esta carta é ficção. Não reflete nenhuma realidade, mas um exercício literário do autor.
 
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 29/08/2012


A face obscura do homem (apresentação)

 

A face obscura do homem (apresentação)

Apresentação

Diz adágio popular que “quem conta um conto aumenta um ponto” e é pura verdade, a realidade é crua, inóspita de emoção, desumana, às vezes, transcende o limite da maldade humana. O conto e o romance bem contados aproximam a história trágica de uma comédia, de uma coisa prazerosa, além de possibilitar ao autor o uso de artifícios e técnicas literárias para esconder a verdadeira identidade dos personagens e o uso de eufemismos para as verdades mais duras sem constranger o escritor, ou seja, a ficção boa ou ruim não tem limite na mente do autor, tudo se pode fazer para prender a atenção do leitor.
A história “A face obscura do homem” é uma narrativa que ocorreu nos finais dos anos 50, do século passado, na cidade de Itabuna, no Sul da Bahia, com uma família que hoje não se tem notícia do seu paradeiro, pelo tempo decorrido, os verdadeiros personagens devem estar bem velhinhos ou mortos, talvez, os seus descendentes ainda estejam por aí, mas sem o estigma do passado.
Gostaria de construir um texto épico de heróis ou vilões, com prenomes, nomes e sobrenomes, personagens conhecidos como “Os Sertões” de Euclides da Cunha, onde ele cita nominalmente todos os personagens de sua história, com os seus erros, os seus acertos, os seus equívocos, as suas fraquezas e as suas verdades. Euclides em “Os Sertões” disseca os fatos com frieza e lógica de um engenheiro historiador ou um historiador engenheiro, diferente do poeta Homero de “Ilíada” e de “Odisseia”.
Os fatos narrados a seguir encontravam-se escondidos no interior da minha mente sob o manto da censura, o tempo e a falta de memória do povo moveram-me no sentido de compartilhar o que eu soube através dos mais velhos, pessoas idôneas e isentas que conheceram os fatos e os principais personagens in loco. Se alguém ainda não se interessou tornar público essa história, é que naquela época houve uma operação abafa do assassinato de Dr. José Maria, um dos principais personagens, a viúva e filhos foram para sempre morar em Salvador e o suposto criminoso tomou chá de sumiço.
Não me interessou o crime em si, pois todo crime é de natureza irracional, nada justifica tirar a vida de alguém - só em legítima defesa, mesmo se esgotar todas as possibilidades de não fazê-lo -, é o lado mau do homem, mas interessou-me a lógica do crime e a motivação sui generis dos seus autores. Supõe-se que o assassinato de Dr. José Maria decorreu de uma mente doentia e manipuladora que em nome da fé e da paixão secreta pela sua mulher o matou sem deixar rastro da autoria.
O livro “A face obscura do homem” é a tese que contraria o juízo de Rousseau em que “O homem nasce bom e a sociedade o corrompe”, o homem nasce com a natureza maniqueísta do bem e do mal, o sujeito desenvolve mais o bem ou o mal conforme as circunstâncias que a vida lhe oferece. Se alguém nasce numa família equilibrada, de pessoas educadas, de pessoas cordatas e ordeiras, dificilmente essa pessoa será má, salvo em casos patológicos, é muito comum novelas e filmes representarem bem os psicopatas da sociedade e os males que podem causar.
Para o criminoso, Dr. José Maria representava o mal, a encarnação do diabo travestido de bom, para os seus algozes, não se tratava de um homem santo e pecador, isto é, com qualidades e defeitos, porém, um homem-mau com a capa de homem-bom, arrebanhando não prosélitos, mas admiradores incondicionais que o elegeram como modelo de comportamento e ideias religiosas diferentes.
Para o narrador de “A face obscura do homem”, Dr. José Maria não era a encarnação do bem nem do mal, mas um homem com virtudes e defeitos como todos os homens e sabia como ninguém explorar mais as virtudes do que os defeitos, embora não fosse um beato, um homem de igreja, praticava como ninguém os ensinamentos que Jesus Cristo deixou: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, mas de acordo com suas ideias de homem e de Deus.
Enfim, fecho esta apresentação desculpando-me a priori com o leitor que se me faltou recurso literário para prendê-lo até o fim da história, eu concito-lhe que vá até a última página, porque a verdade é mais importante do que os sofismas literários que alguns autores empregam para tornar o seu texto atrativo. Se eu consegui contar todos os fatos com isenção, fiel aos acontecimentos ocorridos, mesmo sem a beleza dos textos de Machado, de Graciliano, de Rego, de Lobato, de Alencar, mas com a lógica de Euclides da Cunha, satisfar-me-ei pelo dever cumprido.

O autor

Itabuna, 20 de Janeiro de 2012.

Nota
A partir de hoje, iremos publicar em série o livro "A face obscura do homem", são 34 capítulos, cada dia, publicaremos um capítulo, e no final, publicaremos neste site, o livro. O autor

 
Rilvan Santana

A face obscura do homem - O Crime ( Cap I )

 

A face obscura do homem - O Crime ( Cap I )

O crime

Naquele dia, 29 de junho de 1958, Dr. José Maria Alves Andrada comemorou o seu quadragésimo oitavo aniversário e o final da Copa do Mundo entre Brasil e Suécia em Estocolmo, em sua linda mansão, onde o Brasil excedeu às expectativas e ganhou a partida final com um placar folgado, além de revelar Pelé para o mundo do futebol. Portanto, o conhecido criminalista itabunense teve dois fortes motivos para comemorar naquela data: o seu aniversário e o Brasil Campeão do Mundo da bola pela primeira vez.
Desde cedo, os empregados se desdobravam para que tudo ficasse de acordo o desejo de dona Clô que embora abominasse as extravagâncias festeiras do marido e não entendesse nada de futebol, jamais lhe contrariava, principalmente, naquele dia que o marido completava mais uma data natalícia.
Diferente de Dr. José Maria, extrovertido, bonachão, amante das mulheres, do bom vinho, da cerveja, do Whisky e de um bom prato, dona Clô era introspectiva, modos comedidos, educada na tradição antiga em que a mulher era preparada para ser dona de casa e mãe - o seu único excesso era participar de tudo que ocorria em sua igreja a contragosto do seu marido que embora não a proibisse, criticava-lhe o zelo exagerado que tinha com as coisas de sua paróquia -, dona Clô não tinha a altivez das mulheres corajosas e independentes, era uma personalidade pálida, fácil de ser controlada...
Ela era mais nova 10 anos do que o marido, porém, seu semblante fechado e suas roupas por demais comportadas lhes davam uma aparência mais velha, havia até quem dissesse que dona Clô tinha a mesma idade do marido, que de certa maneira era um exagero, se maquiada e noutros panos ou sem panos, ela era uma morena supimpa, sua roupa desajustada escondia um corpo escultural.
Eles descendiam de duas famílias ricas, Dr. José Maria quadruplicou o patrimônio com o seu trabalho de advogado, os armazéns sempre cheios de sacos de cacau e as fazendas de gado ainda mais repletas. Dona Clô não contribuiu diretamente para o aumento significativo de sua herança, não tinha faro para os negócios, talvez, por confiar na boa administração do marido, todavia, contribuiu com parcimônia nos gastos pessoais, com economia doméstica, havia quem a chamasse de sovina e miserável.
Dona Clô não era mão-de-figa, é que negócio naquela época era coisa de homem, o homem era o cofre da família, o chefe, o principal provedor do lar, aquele que zelava pelo bem estar da mulher e dos filhos, o homem podia tudo, inclusive, ser infiel... A mulher não trabalhava fora de casa, era educada desde cedo para casar, ser mãe e doméstica, enfim, a mulher dependia moral, financeira e economicamente do homem.
Antes das 20 horas do dia 29 de junho de 1958, a mansão do casal ficou cheia de convidados que se espalharam pela piscina, pela sala de jogos, pelo salão de dança e todas salas da mansão, teve gente letrada que preferiu escarafunchar a biblioteca enquanto a festa não começasse, porém, ninguém ficou impedido de bebericar o seu whisky, a sua cerveja, o seu refrigerante, sua salada de fruta, sua canjica, seu milho cozido ou assado, sua pamonha, seu pedaço de bolo, seu tira-gosto, todos sem exceção, eram servidos a contento pelos diligentes garçons.
Faz-se necessário lembrar ao leitor que junho é mês de Santo Antônio, São João e São Pedro, além das comidas juninas, farta no Nordeste nesse período, foi contratada uma banda de forró para animar a festa. Todos balançaram o esqueleto, exceto dona Clô e o padre italiano Apolinário Gaiardoni que condenavam o forró, enquanto padre e anfitriã confabulavam, Dr. José Maria, exímio forrozeiro, se esbaldava nos braços das damas aos olhos intrigados da esposa.
Às três horas da madrugada, Dr. José Maria, cheio de brincadeira com os serviçais, subiu para o pavimento superior com uma garrafa de whisky e meio grogue. A maioria havia deixado a festa, alguns parentes dos donos da casa e alguns amigos se refugiaram nos quartos de hóspedes ou se estiraram nos sofás. Os garçons e o pessoal da cozinha aproveitaram o fim da festa para comer o que sobrou e ultimar a arrumação, exigência da dona da casa, que os serviçais não deixassem um prato ou uma panela sem lavar, se eles não pudessem arrumar os quartos que deixassem os pátios e a cozinha limpos.
Dr. José Maria passa pelos quartos e vai direto para sua sala, um misto de gabinete de trabalho, biblioteca e aposento, ultimamente, ele a usava com frequencia face aos desentendimentos constantes com dona Clô. Não estava completamente bêbado, mas se levasse um empurrão não teria pernas. Foi grande o seu susto quando abriu a porta:
- Você aqui!?
- Desculpe-me, estava com sono e este sofá – apontando o sofá - é gostoso...
- Então, continue!
- Não, aqui é o seu refúgio preferido! – acrescentou:
- Mas, gostaria que ouvisse antes o que diz Hebreus para os desobedientes ao Senhor – fez a leitura: “Filho meu, não desprezes a correção do SENHOR, E não desmaies quando por ele fores repreendido; porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho. Na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” (Hebreus 12.5,6.11).
-Não entendi porra nenhuma! Estou bêbado! Deixe pra amanhã sua lição de moral...
- Não haverá amanhã...
.- Então, vá embora e me deixe!... - jogou-se no sofá.
Às 11:45 horas, os dorminhocos acordaram com os gritos dolorosos de Talita, a filha mais velha do casal, a moça gritava desesperada, porque havia encontrado o seu pai com uma peixeira cravada no peito esquerdo. A reação da moça contaminou o coração mais duro, ela chorava e soluçava compulsivamente, fez-se necessário a intervenção urgente de um médico para acudi-lhe. Os outros filhos, Samuel e Júnior, também, ficaram desesperados e chorosos, porém, Talita era a xodó do pai, o seu bem-querer, portanto, todos lhe compreendiam a dor e o desespero.
Dona Clô foi às lágrimas e ao desespero, todavia, lamentou sua vida mundana, o seu afastamento de Deus e a negação religiosa do marido, entre uma lágrima e outra. Queixou-se da festa e da bebida, argumentou que se o marido não tivesse colocado tanta gente dentro de casa e não tivesse bebido a ponto de se apagar, o criminoso não lhe teria assassinado enquanto dormia, pois José Maria era um homem bravo, grande e forte, jamais seria morto sem luta.
A polícia não possuía, naquela época, recursos técnicos e científicos atuais. O delegado era “calça curta” e o médico-legista, apenas, fazia o levantamento cadavérico, informava a causa da morte – “lâmina de metal cortante que transfixou o peito esquerdo etc., etc.”, e quando muito recolhia as impressões digitais. O crime só era desvendado quando as provas eram testemunhais ou quando a prisão era em flagrante. Afora esses parcos recursos os crimes entravam no rol do esquecimento.
Os amigos e a comunidade itabunense choraram a morte do seu líder e benfeitor, e, prometiam que a tragédia não ficaria impune mesmo que levasse anos para descobrir o criminoso, ele teria que ir para trás das grades e purgar na terra os horrores do inferno!...

Autor: Rilvan Batista de Santana
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 13/09/2012
Alterado em 23/09/2012

A face obscura do homem - Sport Bar (Capítulo 3)

A face obscura do homem - Sport Bar (Capítulo 3)

O Sport Bar, misto de cabaré e cassino, era o “Bataclã” de Itabuna. Dr. José Maria fez dele a extensão do seu escritório, onde descarregava suas tensões do dia a dia com as mulheres de “vida fácil” ou papear com os coronéis do cacau. Não jogava, não gostava de jogo, gostava mesmo era de boa bebida ou boa comida. Entre sorte no jogo e azar no amor, preferia não jogar para ter sorte no amor. Teve vários casos extras conjugais sem criar limo, somente Maria José, morena cor de jambo, lhe tinha mexido o coração...
Maria José acabara de completar 21 anos de idade quando chegou de Maruim para casa de Helvécia, uma caftina de escol meretrícia, amiga dos coronéis do cacau e amiga de unha e carne do criminalista José Maria - que lhe socorria na polícia e na justiça em decorrência dos fuzuês de sua casa -, assim que a moça desembarcou do pau-de-arara e foi acomodada, Helvécia foi avisar ao advogado com escritório na J.J. Seabra:
- Doutor, chegou uma “carne fresca”, do jeitinho que o senhor gosta!...
- Helvécia, minha flor de laranjeira, é igual à Zarolha!? – e deu uma sonora gargalhada de desdém.
-Não acredita doutor? Então, dê um pulinho lá em casa e verá!...
Helvécia não mentiu. Maria José não tinha nenhuma experiência mundana, saiu de casa por ignorância dos seus pais e dos costumes de sua época. Prometida ao primo em casamento desde adolescente, que além de não honrar a promessa de matrimônio, ele fugiu depois de lhe roubar a inocência e o cabaço, deixando a pobre moça na casa do sem jeito para casar, então, ela não teve outra saída, senão, deixar seu pedaço de chão e vir para o Sul da Bahia atraída pela riqueza do cacau.
Nos primeiro dias na casa de prostituição, Maria José sentiu-se “um peixe fora d’ água”, tudo era estranho, não aceitava deitar com homem sem namoro, sem amor, não tinha jeito... Quando o seu “agenciador” lhe levou para Helvécia, o fez com promessa de trabalho doméstico, cuidar da limpeza e cozinhar, por isto, rejeitou todos os pretendentes que a caftina lhe ofereceu, foi necessário paciência e tempo para convencê-la conversar com Dr. José Maria:
- Minha filha, depois de Oscar Marinho, ele é o homem mais rico da cidade, além de ser um brilhante advogado!
- Dona Helvécia, ele é casado, tem três filhos...
- Minha filha, a maioria tem mulher, elas contribuem para chamego fora de casa por questão religiosa, é o caso de Dr. José Maria, depois do filho mais novo, ela fechou-lhe as pernas e o coração! – justificou a dona do prostíbulo. E, Acrescentou:
- Minha filha, se o doutor gostar de você e montar casa, acabou tempo ruim!
- Eu sei...
Pouco e pouco Maria José foi se envolvendo com o criminalista. Não houve pressa, o advogado deu tempo ao tempo, compreendia a dificuldade afetiva da jovem, não havia muito tempo, ela deixara a família, a vida de roça, o desengano de um casamento, e, aventurara-se num pau-de-arara em busca de trabalho, usada por pessoas de má fé, é colocada numa casa de prostituição, ambiente de luxo, mas de promiscuidade e vender o corpo seria o seu meio de vida.
- O senhor não desiste, né!?
- A vida me ensinou que nada é fácil, só não quero ser inconveniente, se não deseja conversar?...
- Não, não, o senhor é a única pessoa que frequenta esta casa de bons modos...
- Não pensei, pensei que não quisesse falar comigo!
- É que... é que... não estou acostumada...
- Entendo.
- O senhor não entende, quem entende são as minhas amigas que pra dormir e comer, elas são obrigadas levar pra cama sujeitos fedorentos e bêbados!... – acrescentou:
- Faz um mês que cheguei. Arrumo e faço a comida da casa, mas não sei quanto tempo isso vai durar, dona Helvécia quer que eu trabalhe com homem!
- E, por que não trabalha?... – provocou.
- O senhor conhece a razão.
- Helvécia já está impaciente!...
- Não nasci pra ser puta! – acrescentou:
- Um rapaz me convidou pra roça...
-Por que não foi?
- Ele parece gente boa, mas...
- Mas... mas... o quê?
- Não conheço o moço. Morar numa roça, só quando se gosta e confia!
- O tempo traz estabilidade e bem-querer...
- Desculpe-me doutor, estou aqui por ter amado e confiado num cafajeste!
- Agora, eu que lhe peço desculpa!...
Doutor José Maria conhecia sua história tão bem quanto Helvécia – ele combinara com a caftina, em segredo, pagar a diária da moça -, que a acolheu, porém, queria ter certeza dos sentimentos verdadeiros de sua protegida. Ele não esperava que a moça corresse para os seus braços, porém, aguardava com paciência que ela baixasse a guarda e quando ela decidisse ir pra cama, se não fosse por amor, fosse por bem-querer, sem pressão, movida por afeto e admiração.
Doutor José Maria, agora, tinha um pé em Helvécia e outro no “Sport Bar” do seu amigo Juca. A dança lhe atraía - Fred Astaire tupiniquim - e ajudou-lhe conquistar o coração da irresistível sergipana. Quando saía do escritório, finais de semana, dirigindo seu “Aero Willys” modelo americano, deslumbrado que nem jovem, ia buscar Maria José para mais uma noitada dançante e só deixavam o cabaré, quando um ou outro não se aguentava mais de tanto rodopiar no salão.
Eles eram felizes...
Naquela manhã, no escritório, doutor José Maria é tomado de surpresa com a presença de Juca. Embora Juca lhe recorresse de vez em quando para solucionar problemas de ciúme e bebedeiras dos seus clientes – alguns coronéis se agrediam, causando danos materiais e físicos -, em geral, para pagamento de prejuízo, naquele dia, ele chegou nervoso e cedo ao escritório
- Já soube!?
- O quê?
- O crime!
- Não soube de nenhum crime!
-Ontem, à noite, no “Sport Bar”... – o advogado perde a paciência
- Homem de Deus, desembuche!
- Assassinaram Vavá Leal! – e completou:
- Tão me acusando!...
- Você prestou um serviço à sociedade. Parabéns!
- Mas, eu não matei!!!

Autoria: Rilvan Batista de Santana
Foto: Produção
Att.: O meu livro "A face obscura do homem" (Capítulo 3) / Disponível no site Recanto das Letras: https://saberliterario.prosaeverso.net

A face obscura do homem - Cinco anos antes (Capítulo 2)

 


A face obscura do homem - Cinco anos antes (Capítulo 2)
 
Cinco anos antes

Em 19 de março de 1953, Itabuna estava engalanada para receber o novo pároco. Havia uma grande expectativa dos cidadãos católicos (maioria absoluta, naquela época), todos ansiavam mudanças nos destinos da igreja de São José, padroeiro da cidade. O antigo pároco, velho e esclerosado, foi recolhido ao mosteiro Beneditino de Salvador, para descansar e morrer em paz. Essa mudança decorreu por interferência do prefeito e outros líderes políticos, de coordenadores e vice-coordenadores de grupos religiosos e dos movimentos comunitários, enfim, da sociedade civil e religiosa da cidade.
Às 16 horas, todos preocupados com o atraso do novo pároco - previsto para o início da tarde -, um automóvel pára de repente na frente da igreja, para alívio das beatas e satisfação dos demais, é que logo se reconheceu pelo solidéu, a figura impoluta de Dom João Santos da Silva, bispo da diocese de Ilhéus com jurisdição no Sul e extremo Sul da Bahia.
A igreja estava repleta, gente se apinhava por todos os lados, o bispo e mais três padres entraram na nave em fila indiana, ninguém ainda sabia quem seria o pároco, porém, um deles chamou a atenção pelo porte e pelo jeito europeu: alto, branco, cabelos loiros e olhos azuis e não tinha mais de 35 anos de idade, soube-se depois que se chamava Apolinário Gaiardoni, o novo pároco.
O padre Apolinário Gaiardoni além de bonito, ele era um exímio orador, com recursos retóricos brilhantes, mas conservador demais para sua idade (os mais esclarecidos esperavam um discurso com menos fanatismo e mais progressista), todavia, a assembleia atribuiu o radicalismo exegético do novo padre ao desejo de agradar o bispo que se encontrava presente.
Ele usou o “diabo” e o “inferno” para “punir” maus católicos, àquelas pessoas que se afastavam da igreja, de sua religião de nascimento, religião dos seus pais e dos avôs, religião do papa, sucessor de São Pedro, e, recorriam às bruxarias e às seitas protestantes, com cenas tão dantescas e convincentes, que sua retórica sobrepujou o falso conteúdo.
Dona Clô, toda serelepe, não se cansou de ajudar para que tudo ocorresse nos conformes: arrumação da sacristia, flores nos vasos, tolha de mesa, limpeza das imagens e faixas de boas vindas ao novo pároco. Embora tivesse fama do sovina, nas coisas de sua igreja, ela não poupava tempo nem dinheiro, dois meses antes da posse do novo pároco, Dr. José Maria teve que despender alguns recursos no retelhamento, na pintura e nos retoques de pedreiro para que a igreja estivesse pronta para o tão aguardado acontecimento.
Dr. José Maria não era herege nem beato, tinha sua maneira de acreditar em Deus, nutria por Jesus Cristo grande respeito histórico, herdara dos pais o gosto pelo trabalho e o faro para os bons negócios, exercia também a profissão de advogado criminalista, ultimamente, andava meio desleixado com suas causas, os seus negócios o absorviam, frequentava a igreja católica mais por insistência da mulher do que movido pela fé. Ele era um homem bem informado, leitor de bons livros, gostava de poesia sem descuido das ciências jurídicas, cultivava como ninguém os textos filosóficos e a biografia dos seus autores.
No dia da posse do novo pároco Dr. José Maria se vestiu com esmero, encomendou um terno novo ao seu compadre Juca, pois os outros estavam surrados das lides forenses, não queria ir, achava as homilias chatas e repetitivas, costumava dizer com humor para uma coisa por demais conhecida: “... igual missa de padre”, porém, dona Clô, mostrou-lhe a importância do evento: a substituição de um pároco velho, que havia batizado os seus filhos, por um padre de ideias novas de “sangue nas veias” que certamente, iria dar um novo impulso na igreja de São José, o pai de Jesus Cristo e o padroeiro da cidade.
A posse do novo pároco foi um sucesso, dona Clô leu uma mensagem de boas vindas ao novo pároco, representando todos os grupos, foi bastante diplomática: generosa com o pároco que saiu (problemas de saúde e merecido descanso), e, esperançosa com os novos rumos que o novo padre iria imprimir na paróquia. Valorizou no seu discurso o trabalho e a união de todos os membros da paróquia, que não mediam esforços nem tempo para que tudo ocorresse de acordo o calendário planejado anualmente. E, findou tecendo rasgados elogios ao seu marido que como rei Salomão construiu o Templo de Jerusalém, ele havia feito com os seus recursos, uma reforma no prédio da igreja que duraria para sempre.
Dr. José Maria estranhou a mania de grandeza da esposa, a comparação do seu feito com a magnificência do Templo de Salomão, mas atribuiu o arroubo de dona Clô à importância histórica do momento. Nada é para sempre nem mesmo o legado deixado pelo filho de David e protegido de Jeová e do profeta Natã
 
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 14/09/2012

A face obscura do homem - O almoço (Capítulo 4)

 

A face obscura do homem - O almoço (Capítulo 4)

O almoço

Alguma coisa existia que Dr. José Maria não sabia explicar a antipatia gratuita que sentia pelo padre Apolinário Gaiardoni. Se acreditasse em espiritismo, diria que havia ficado algo pendente entre ele e o sacerdote na outra encarnação, mas era muito racional para acreditar em história da carochinha, acreditar naquilo que não tem sustentação lógica e questionava-se: “onde já se viu ter que morrer pra ficar melhor?”, coisa de Alan Kardec e seus seguidores.
Ele atribuía à mente, “as manifestações mediúnicas”, pessoas com grande capacidade de concentração energética, capazes de gerar fenômenos inexplicáveis, que o leigo acha ser gente do outro mundo, mas que a ciência classifica, apenas, como fenômenos paranormais.
Por isso, não sabia explicar a repulsa que sentia pelo sacerdote, talvez fosse sua empáfia, sua auto-suficiência agressiva, sua ostentação intelectual, sua altivez inteligente, o dono da verdade...
Gostava mesmo era do seu antecessor, que embora fosse um homem de cultura excepcional, cultivava a humildade e a compreensão. Em seus muitos anos de pároco, o padre Mário jamais se envolveu em fuxico ou foi alvo de conversas desairosas e maledicência dos seus fiéis, se não fosse a idade e a saúde em particular, não teria sido substituído. Não usava o cargo nem a autoridade religiosa para usufruir benesses, se locupletar, embora sempre limpo, suas vestes eram surradas pelo tempo, luxo só uma bengala com cabo de marfim que ganhou de dona Clô no seu aniversário e, depois de muita insistência.
Apolinário Gaiardoni já se tornara íntimo da família Andrada, começou com dona Clô, ganhou a confiança dos filhos e esmaeceu no dono da casa, mas de acordo a sabedoria popular que diz: “quem beija a boca do meu filho, deixa a minha adocicada”, o Dr. José Maria foi cedendo e o padre foi impondo sua presença, seus conselhos, enfim, indispensável para família do advogado, os almoços e os jantares com o padre viraram rotina, dispensava convite, Dr. José Maria aproveitava para exprimir suas convicções religiosas e o que pensava do cristianismo, principalmente, cutucar a religião católica e por extensão, o padre Apolinário Gaiardoni:
- Padre, o celibato não é empecilho para que os jovens procurem o caminho do seminário?
- O homem solteiro está mais disponível para as coisas da igreja!
- E, mais disponível para fornicações...
- O trigo supera o joio... A igreja tem sido dura com os desvios dos seus sacerdotes!
- Nem tanto, o padre N., por exemplo, tem uma concubina e filhos e não deixou de celebrar suas missas...
- O padre N. pediu licença, mas o processo ainda se arrasta na burocracia do Vaticano! – justificou.
- Burocracia ou omissão!?
- Eu prefiro acreditar em “burocracia”, é grande a distância entre o Brasil e a Itália, além de milhares de processos que a Santa Sé tem para analisar! – dona Clô toma parte:
-Meu filho, a igreja não pode ser responsável pelos desvios dos seus membros, a carne é fraca...
- Eu sei. Mas, de acordo Bíblia, o homem nasce no pecado desde Adão e Eva, eu falo da demora do Vaticano responsabilizar os seus membros e execra com rapidez quem lhe é contra! – dona Clô muda de assunto:
- O nosso querido padre Apolinário quer conhecer uma fazenda de cacau – virando-se:
- Não é, padre?
- Sim. Mas, a decisão é do seu digníssimo esposo!
- Viajarei para “Ouro Achado” amanhã, se quiser vir comigo...
- Aceito o convite. – acrescenta:
- Sou catarinense e filho de alemães. Lá em Santa Catarina, de cacau só os doces de chocolate e os ovos de Páscoa. Quero conhecer a fruta e o cacaueiro! – enquanto o padre falava, dona Clô apressava as cozinheiras:
- Vamos meninas, estamos morrendo de fome!...
Não demorou muito, o almoço começou e Dr. José Maria se conteve, a circunstância lhe exigia prudência e educação, além disto, não queria desagradar dona Clô, extravasaria sua cisma no “Sport Bar”, com Maria José, na pista de dança, nada melhor do que um dia após o outro, bronca é arma de trouxa...

Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 16/09/2012

A face obscura do homem - Bangalô (Capítulo 5)

 


A face obscura do homem - Bangalô (Capítulo 5)

Bangalô

Helvécia tinha a experiência da idade, como uma pitonisa predizia com acerto o futuro de suas “meninas” e não foi diferente com Maria José: “minha filha, se o doutor gostar de você e montar casa, acabou tempo ruim”, em menos de 6 meses, Dr. José Maria montou casa na Avenida Garcia, um reduto de prostituição que se findava e pouco e pouco era substituído por famílias de classe média e o bangalô de Maria José acelerou essa mudança pelo luxo que ostentava e a valorização que deu ao trecho.
Diferente da esposa, introspectiva, sem muita conversa, “tem um rei na barriga” para alguns, Maria José era dada à amizade, pouco tempo depois, conquistou a amizade das famílias, principalmente, das moças de sua idade que não lhe chamavam de Maria José, mas de “Lia”, o doutor José Maria adorou: “Maria José é nome de velha, Lia é suave”, além delas pouco se lixarem se Lia era a esposa ou a amante, importava ser gente boa, gente da gente.
Depois de um mês de instalada no bangalô, Lia, com jeito e muito cafuné, pediu ao amante que trouxesse para Itabuna, os pais e os irmãos, o advogado resistiu no início, alegou quebra de privacidade, mas foi se rendendo aos argumentos de Lia, ela justificou que junto da família, em particular, os seus velhos pais, ficaria mais sossegada, que o amante não se preocupasse com o aumento de despesa, os seus irmãos eram trabalhadores, logo, cada um procuraria o seu destino, que não haveria quebra de privacidade, a casa era grande, que os velhos ficariam hospedados nos quartos dos fundos.
Não demorou muito tempo, dona Clô tomou conhecimento da moça, não tossiu nem mugiu, não comentou nada com o marido, talvez, tenha confessado ao padre Apolinário, a traição do marido, era egoísta demais para comunicar ao mundo suas fraquezas, também, não seria ouvida, a maioria das mulheres de sua classe passava pelos mesmos dissabores, não se conhecia homem de dinheiro ou coronel do cacau que não mijasse fora do caco...
Naquela época, era costume a mulher pagar com a vida a fraqueza da carne com o amém da sociedade e a tolerância da lei, enquanto a infidelidade masculina era prova de virilidade e machismo.
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 17/09/2012

A face obscura do homem: Ouro Achado - Capítulo VI

 

A face obscura do homem: Ouro Achado - Capítulo VI

Ouro Achado

A fazenda “Ouro Achado” era uma sesmaria. Quando o doutor José Maria a comprou, ela era menor, mas ele foi comprando fazendas menores e anexando às terras do “Ouro Achado”, assim, a fazenda ficou enorme, que se estendia do município de Itabuna até perto de Ilhéus dos dois lados do rio Cachoeira. O pessoal que toma conta da vida alheia afirmava que o nome “Ouro Achado”, devia-se ao fato do advogado ter comprado a propriedade por uma bagatela, a preço de banana, certo que havia exagero, mas a verdade é que o doutor José Maria não dava ponto sem nó...
Promessa feita, promessa cumprida, demorou menos de um mês que dona Clô disse ao marido que o padre gostaria de conhecer uma fazenda de cacau, para que o sacerdote tivesse seu desejo satisfeito. Não foi fácil o casal convencê-lo da necessidade dele se despojar da batina, comprida e escura, para se embrenhar nos cacauais e nas matas, escanchado em burros ou em mulas, até a sede principal da fazenda.
A família Andrada usava um Jeep Willys com tração para viagens das roças. O Jeep era o carro recomendado para estradas de chão, porém, imprestável em certas situações, principalmente, quando chovia muito, as valetas e a lama deixavam as estradas intransitáveis e perigosas, então, os fazendeiros socorriam-se dos velhos e seguros animais para transporte de pessoal e de cacau.
Mas, a viagem ocorreu sem percalços, o carro chegou a menos de 2 quilômetros da casa grande, onde alguns moleques já aguardavam os donos da fazenda “Ouro Achado” e o seu convidado, com vários e cuidados animais.
Apolinário Gaiardoni observava cada detalhe, parecia um menino deslumbrado com o primeiro brinquedo, nada lhe escapava aos ouvidos e aos olhos: uma cobra em ziguezague que passava no caminho, o canto do bem-te-vi, o canto do curió, o canto do guriatã, o calango que passava em disparada em cima das folhas secas, provocando susto na comitiva, a preguiça pendurada na árvore, os pés de cacau carregados, tudo era novidade para o sacerdote.
A sede da fazenda ficava num terreno elevado, numa chapada, embaixo, extensa planície onde os animais pastavam. O acesso era feito por uma estrada de paralelepípedo que ia até o passeio e entrava pelas laterais e avançava uns 10m no fundo, formando um grande retângulo, feito por exigência do proprietário para que não nascesse mato ao redor da casa. Não muito distante da sede, um pomar enchia de orgulho, pela variedade de frutas, dona Clô.
Outros luxos da sede eram a canalização de água que o proprietário fez duma nascente que ficava a menos de um quilômetro, um motor de luz que a deixava iluminada e uma grande capela, um oásis de conforto numa terra inóspita, privilégio de poucos.
Apolinário Gaiardoni recebeu no segundo dia que chegou: um par de botas cano alto, um chapéu de abas largas, calça de cáqui e camisa de brim manga comprida, tudo para que pudesse entrar na mata e nas roças de cacau sem possibilidade de perigo, tudo assessorado pela prestimosa dona Clô...
Naquela manhã, ciceroneado pelo administrador da fazenda “Ouro Achado”, o padre, dona Clô e doutor José Maria, montados em belos animais, eles começam percorrer as diversas roças de cacau. Dona Clô recebia pálidos cumprimentos, cumprimentos reservados à patroa, enquanto o seu marido recebia efusivos abraços de bem querer, de amizade desinteressada e sincera.
Os camaradas não enxergavam no doutor José Maria um patrão, mas um sujeito afortunado igual, um sujeito sem pabulagem, um sujeito que se podia confiar e, que muitos camaradas não hesitariam arriscar sua vida se preciso fosse para salvá-lo.
Ele adentrava nas casas dos camaradas com tanta simpatia, abraçava os mais velhos, colocava os meninos no colo, distribuía presentes para garotada, socorria uma mãe num vestido ou num remédio, adiantava salário para alguma necessidade, estimulava a agricultura de sobrevivência, enfim, o trabalhador não lhe tinha queixa.
O padre Apolinário Gaiardoni ficou boquiaberto com a popularidade do seu anfitrião, ensaiou segui-lhe, mas não tinha jeito, não possuía o mesmo carisma do advogado, ademais, quando os peões sabiam que o homem era padre, a espontaneidade dava lugar à carolice e ao respeito exagerado, homens e mulheres pediam a benção do sacerdote com devoção.
Dona Clô promoveu o casamento de todos os amancebados da fazenda numa grande missa de domingo. Alguns camaradas recusaram, inicialmente, o convite, mas cederam aos argumentos da patroa: que o céu não recebia amasiado, que o concubinato era um grande pecado, que os filhos não poderiam ser batizados ou crismados na Santa Madre Igreja, que aproveitassem a estada do padre, que padre naquele fim de mundo era um sinal de Deus para remissão dos pecados etc., etc.
Naquela época não havia vassoura-de-bruxa, se alguém tirasse uma foto do alto, teria uma imagem fechada de cacaueiros de folhas verdes. As roças eram extensas florestas em que os trabalhadores podiam caminhar protegidos do sol, salvo as áreas cabrocadas. Ali e acolá se encontrava um ribeirão ou alguma nascente de água limpa.
Quando dava meio dia, o camarada abria o seu embornal embaixo de uma árvore frondosa e fazia sua refeição com jabá, carne de sol, toucinho, ovo, feijão e farinha, sem dispensar, antes da refeição, uma talagada de cachaça para lhe abrir o apetite. Após encher a pança, de ter comido e bebido a fartar, ele tirava uma sesta e retornava ao trabalho três quartos de hora depois.
Doutor José Maria não era ciumento, mas tinha por regra não confiar em ninguém, nem no amor nem nos negócios, lera quando jovem um conto oriental que nunca lhe saíra da cabeça. A história dizia que um pai, todos os dias, pegava o seu filho pequeno e o colocava sobre a mesa e pedia-lhe que pulasse e antes que o moleque se esborrachasse no chão, ele o pegava nos braços, certo dia, ele repetiu a ordem, porém, não o pegou, deixou que o pimpolho caísse e recomendou: “não confie em ninguém, nem mesmo no seu pai”. Por isto, ficou cismado de dois ou três gestos do padre e dona Clô, mas mordeu a língua, poderia ser chifre na cabeça de cavalo...
Os camaradas gostavam quando doutor José Maria estava na fazenda “Ouro Achado”, havia sempre clima de alegria, nos finais de semana, ele promovia: futebol, sinuca, pescaria, corrida de jegue, pau-de-sebo, mas o pessoal se amarrava mesmo era quando ele mandava buscar um sanfoneiro, aí o forró entrava pela noite e acabava no outro dia e ninguém sabia quem era o patrão ou o empregado, todos se misturavam no salão ao som da sanfona, da zabumba e do pandeiro. Se algum sujeito tomado pelo álcool saísse da linha, era logo dominado e levado pra casa.
Naquela manhã, o padre, dona Clô e o marido prosavam no alpendre da casa. Apolinário Gaiardoni estava mais leve e mais solto. Tudo era novidade: o cacau, o gado, os cavalos, as mulas, os burros, os jegues, as matas, a simplicidade dos camaradas, as nascentes de água limpa, a riqueza da fauna, as hortas dos trabalhadores e acima de tudo a filantropia dos donos da fazenda que repetia em agradecer. Tabaréu da cidade, ele teve ao longo da vida, pouco contato com roça, ignorava quase todas as coisas e o que sabia de zona rural, Apolinário Gaiardoni aprendera nos livros.
Dona Clô, reservada, introspectiva, naquela manhã, também, estava mais leve e mais solta, talvez, por já terem decidido o retorno para cidade. O doutor José Maria não se podia levar em conta, sempre estava de bem com a vida, se não fossem os seus compromissos comerciais e jurídicos, moraria na roça, gostava do cheiro de mato, principalmente, do cheiro de alfazema das caboclas. Naquele rincão, ele dispensara, somente, as casadas e as comprometidas. Não era ousado, porém, as morenas se insinuavam, então, ele ficava na casa do sem jeito...
Portanto, naquela manhã, todos estavam felizes, quando o dono da casa de chofre puxou conversa:
- Padre, quem é Jesus Cristo?
- O filho unigênito de Deus!
- Bem... Todos nós somos filhos de Deus pelo batismo de acordo as Escrituras Sagradas, porém, a minha dúvida é se Jesus Cristo é “Filho Único de Deus” ou um marco da História Universal?
- A fé me fez padre... Acredito que Jesus Cristo é “Filho Único de Deus e Redentor da humanidade”!
- Os judeus e os muçulmanos não pensam assim!
- Nós, cristãos, respeitamos judeus e muçulmanos, Maomé e Moisés tiveram um lugar especial na obra de Deus, mas Jesus Cristo foi o único que venceu a morte e não pecou...
- Acho que Jesus Cristo foi homem justo, o maior personagem da História Universal, mas têm coisas que contêm nos Evangelhos que se explicam mais pela fé, não pela razão!... – dona Clô interrompe-o:
- Meu filho, deixe o padre Apolinário em paz, ele veio descansar, não em missão religiosa! – o padre contemporiza:
- Não se preocupe dona Clô, acho a discussão interessante, ademais, dialogar com doutor José Maria, acrescenta, saio no lucro, ele tem uma vasta cultura!...
- Não, é sua bondade, eu que acrescento sua sabedoria aos meus conhecimentos. Eu não estudei Exegese! – continuou:
- Padre, deixe dona Clô pra lá... Se não for inconveniência, gostaria de continuar com o papo!
- Fique à vontade!
- A Ressurreição de Jesus Cristo, por exemplo, é uma questão de fé!...
- Por que razão?
- Bem, Mateus 28:5-6 e outros evangelistas registram a ressurreição de Jesus Cristo. Ele aparece aos discípulos e Tomé duvidou, mas o Senhor lhe tirou a dúvida. Todavia, não existe lógica científica Ele ter comido e bebido após a ressurreição...
- Qual é o mal Ele ter comido e bebido? Ele, apenas, quis dizer aos incrédulos: “Eu estou aqui, não sou um fantasma, creiam!”
- Padre, pense comigo: Se Ele foi crucificado e ressurgiu dos mortos, só poderia ter feito em espírito, concorda?
- Sim!
- Pelo que sei, espírito não come nem bebe, concorda?
- Sim!
- O homem é naturalmente corruptível, isto é, de carne e osso, matéria que apodrece enquanto que o espírito é indestrutível, concorda?
- Claro!
- Conclui-se que a ressurreição de Jesus Cristo é matéria retórica, discursiva – “E, não crendo eles ainda por causa da alegria, e estando maravilhados, disse-lhes: Tendes aqui alguma coisa que comer? Então, eles apresentaram-lhe parte de um peixe assado, e um favo de mel; o que Ele tomou, e comeu diante deles”. (Lucas: 24: 41-43) -, que coloca em cheque a natureza divina de Jesus Cristo. - o padre Apolinário Gaiardoni estava perdido, mas não perdeu o prumo nem a autoridade:
- Doutor José Maria, as coisas de Deus não são explicadas como as coisas do homem. O conhecimento do homem é relativo, nem sempre a ciência tem resposta para o que busca. A única maneira do homem se encontrar com Deus é através da oração, ou seja, da fé. A interpretação exegética das Escrituras Sagradas não deve ser tomada ao pé da letra, de suas figuras literárias, a interpretação das Escrituras Sagradas, deve ser feita em sua essência, além disto, os livros bíblicos têm mais de 2000 anos com enésimas traduções desde Gutenberg. – percebia-se que o padre estava nervoso.
- Padre, a nossa discussão é sobre a ressurreição, que junto à eucaristia, ao batismo, à remissão dos pecados e à promessa de vida eterna, são os fundamentos do cristianismo. Não devemos negligenciar a exegese, eu sei que muita coisa é simbólica, porém, é o símbolo que materializa a fé, portanto, a discussão procede e merece a nossa reflexão, a fé cega é boa para o coração e não pra alma Aliás, na história das religiões, os mártires, os homens santos, morreram sustentados pelas suas convicções religiosas, eles não eram idiotas...
- Eu sei. São Paulo é o exemplo bíblico maior de fé consciente. Doutor das leis judaicas, escritor de mancheia, perseguidor dos cristãos, depois de convertido, de perseguidor passou ser perseguido. Ele foi prisioneiro, exilado e decapitado pelo imperador Nero, tudo em nome da fé, foi quem fundamentou o pensamento cristão, defendeu a ressurreição como ninguém: “Ora, se se prega que Jesus ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns de vós que não há ressurreição de mortos? Se não há ressurreição dos mortos, nem Cristo ressuscitou. Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1 Cor 15, 12-14). Além de São Paulo, temos defensores da doutrina cristã de peso como São Tomás de Aquino, São Francisco de Assis, Santo Agostinho, Santa Tereza D’ Ávila e por aí afora, todos intelectuais brilhantes que tiveram uma vida santa e uma fé fundamentada na razão. – concluiu o padre.
- Padre, eu lhe parabenizo pelo conhecimento elevado do cristianismo, não poderia ser diferente, tratando-se de um padre jovem, estudioso, atualizado, porém, o senhor não me respondeu se Jesus Cristo de carne e osso (matéria corruptível) subiu aos céus ou o que foi dito nos Evangelhos, não passa de figura retórica!?
- Com todo respeito ao senhor, acho uma discussão estéril. Jesus Cristo foi ressuscitado em espírito e não em matéria corruptível, o fato dele ter comido e bebido, atribuo às coisas de Deus que não têm explicação, mas aceitação. Porém, gostaria que se senhor não vê Jesus Cristo como a segunda pessoa da “Santíssima Trindade”, o visse como a maior personalidade histórica de todos os tempos, que pregou a não violência, a fraternidade, a igualdade e o amor, para o historiador Will Durant: “seria um milagre ainda mais incrível que apenas uma geração uns tantos homens simples e rudes (pescadores muitos deles) inventassem uma personalidade tão poderosa e atraente como Jesus, uma moral tão elevada e uma tão inspiradora ideia da fraternidade humana”. – dona Clô explode:
- Bem, chega!... – puxou o marido para o almoço, enquanto alertava Apolinário:
- Padre, perdoe este homem, ele tem ideias de ateu!... – doutor José Maria não deixa por menos:
- Querida, se eu mereço perdão, só Deus pode me perdoar, o nosso amigo Apolinário não possui este mister, mesmo em nome de Jesus Cristo, eu não acredito que um pecador possa absorver os pecados do outro (riso). Não sou ateu, sou cartesiano. Gostei do seu papo, muito inteligente, mas pouco convincente, por isto, peço-lhe, a priori, outra oportunidade para discutirmos sobre criação, evolução, a natureza de Deus, deus personalizado e outros mistérios, dou-lhe a minha palavra que não o importunarei mais. – o padre não lhe disse sim nem não. Dona Clô que lhe deu a resposta:
- Tenho certeza, querido, que o padre Apolinário lhe dará outra oportunidade e esclarecerá suas dúvidas.
Rilvan Santana
Enviado por Rilvan Santana em 21/09/2012
Alterado em 23/09/2012

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