Poemas
de Clarice Lispector
Clarice
Lispector foi uma brilhante romancista, contista e ensaísta brasileira. Apesar
do alto teor poético de seus textos, a autora possui apenas dois poemas
publicados: A mágoa e Descobri o meu país. Os demais pensamentos presentes
nesta página podem estar em forma de poemas, mas foram escritos originalmente
em prosa.
A
mágoa
Os
telhados sujos a sobrevoar
Arrastas
no vôo a asa partida
Acima
da igreja as ondas do sino
Te
rejeitam ofegante na areia
O
abraço não podes mais suportar
Amor
estreita asa doente
Sais
gritando pelos ares em horror
Sangue
escoa pelos chaminés.
Foge
foge para o espanto da solidão
Pousa
na rocha
Estende
o ser ferido que em teu corpo se aninhou,
Tua
asa mais inocente foi atingida
Mas
a Cidade te fascina.
Insiste
lúgubre em brancura
Carregando
o que se tornou mais precioso.
Voas
sobre os tetos em ronda de urubu
Asa
pesa pálida na noite descida
Em
pálido pavor
Sobrevoas
persistente a Cidade Fortificada escurecida
Capela
ponte cemitério loja fechada
Parque
morto floresta adormecida,
Folha
de jornal voa em rua esquecida.
Que
silêncio na torre quadrada.
Espreitas
a fortaleza inalcançada.
Não
desças
Não
finjas que não dói mais
Inútil
negar asa partida.
Arcanjo
abatido, não tens onde pousar.
Foge,
assombro, inda é tempo,
Desdobra
em esforço a sua medida
Mergulha
tua asa no ar.
Descobri
o meu país
Subi
a montanha
e
no seu topo os anjos me cercaram
e
me engrinaldaram a fronte
com
as flores do céu.
Asas
zumbiam
em
harmonias fragílimas
e
vozes de arcanjos louvavam a paz.
Derramaram
sobre meu corpo
sete
bálsamos purificadores
e
fizeram-me beber
ambrosia
e mel.
Banharam-me
no rio da música
e
eu saí ingênua
como
o canto de uma criança.
E
depois surgiram novos anjos
e
não havia noite
e
não havia dia.
E
a ambrosia e o néctar
deslizavam
com fartura celestial.
E
novas canções se entoaram
sempre
em louvor a Deus.
E
não havia noite
e
não havia dia.
E
aos poucos cresceu dentro de mim
o
desespero
e
eu busquei em vão os olhos celestiais.
Eles
nada diziam
e
cantavam a paz.
E
aos poucos uma nostalgia
me
enlanguesceu
e
eu era o arco distendido
sem
a flecha
e
eu buscava o ar
sem
respirar.
Um
anjo me interrogou: mais néctar?
Eu
gritei: quero cheiro da terra!
E
o anjo me perdoou
E
eu cansei de ser perdoada,
eu
queria sofrer.
E
não havia noite e não havia...
Quebrei
minhas asas,
desci
a montanha
e
vivi na Terra!
Homens
amavam
e
cansavam do amor.
Homens
bebiam sangue
e
descobriam
que
não desejavam brigar
Entoavam-se
cânticos místicos
onde
só havia a insatisfação.
E
depois homens morriam
e
todos sabiam que era o fim.
Nem
a terra,
nem
o céu!
Fechei-me
num quarto,
inventei
outro Deus,
outro
céu, outra terra
e
outros homens.
Suponho
que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em
contato...
Ou
toca, ou não toca.
Olhe,
tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras.
Sou
irritável e firo facilmente.
Também
sou muito calmo e perdoo logo.
Não
esqueço nunca.
Mas
há poucas coisas de que eu me lembre.
Que
minha solidão me sirva de companhia.
que
eu tenha a coragem de me enfrentar.
que
eu saiba ficar com o nada
e
mesmo assim me sentir
como
se estivesse plena de tudo.
Quando
fazemos tudo para que nos amem... e não conseguimos, resta-nos um último
recurso, não fazer mais nada.
Por
isto digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos
solicitado... melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos
que nos negaram.
Não
façamos esforços inúteis, pois o amor nasce ou não espontaneamente, mas nunca
por força de imposição.
Às
vezes é inútil esforçar-se demais... nada se consegue; outras vezes, nada damos
e o amor se rende a nossos pés.
Os
sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma
compaixão ou um favor concedido.
Quase
sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer.
Assim,
repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos
um só caminho... o de nada mais fazer.
Clarice
Lispector
Uma
das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer.
Apesar
de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio
apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma
angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi o apesar de
que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E
desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o
corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal
que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.
Clarice
Lispector
Acho
que devemos fazer coisa proibida – senão sufocamos. Mas sem sentimento de culpa
e sim como
aviso
de que somos livres.
Ando
de um lado para outro, dentro de mim. (...)
Estou
bastante acostumada a estar só, mesmo junto dos outros.
Havia
a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a
garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta:
eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a
própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam
para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é
a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho
da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles
admiravam estarem juntos!
Até
que tudo se transformou em
não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa
mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras
desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que,
estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a
grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem
um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam mais
bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que
já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que
eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca,
e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone
finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não
estarem mais distraídos.
–
Ela é tão livre que um dia será presa.
–
Presa por quê?
–
Por excesso de liberdade.
–
Mas essa liberdade é inocente?
–
É. Até mesmo ingênua.
–
Então por que a prisão?
–
Porque a liberdade ofende.
Mas
chegará o instante em que me darás a mão,
não
mais por solidão, mas como eu agora:
por
amor.
Sou
o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma
ideia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase
que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi
sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que
prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se
de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso
controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os
resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E
também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do
que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no
assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou
maduro bastante ainda. Ou nunca serei.
Estou
atrás do que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu
simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais.
E
a vida é curta demais para eu ler todo o grosso dicionário a fim de por acaso
descobrir a palavra salvadora.
Entender
é sempre limitado.
As
coisas não precisam mais fazer sentido. Não quero ter a terrível limitação de
quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade
inventada.
Porque
no fundo a gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro.
Abro
o jogo!
Só
não conto os fatos de minha vida:
sou
secreta por natureza.
Há
verdades que nem a Deus eu
contei.
E nem a mim mesma. Sou
um
segredo fechado a sete chaves.
Por
favor me poupem.
Clarice
Lispector
Nota:
Os pensamentos costumam aparecer unidos na internet, mas pertencem a obras
diferentes. O primeiro é de "Água viva" (1998) e o segundo é um
trecho do conto Brasília, e está presente no livro "Todos os contos"
(2016).
...Mais
A
lucidez perigosa
Estou
sentindo uma clareza tão grande
que
me anula como pessoa atual e comum:
é
uma lucidez vazia, como explicar?
assim
como um cálculo matemático perfeito
do
qual, no entanto, não se precise.
Estou
por assim dizer
vendo
claramente o vazio.
E
nem entendo aquilo que entendo:
pois
estou infinitamente maior que eu mesma,
e
não me alcanço.
Além
do quê:
que
faço dessa lucidez?
Sei
também que esta minha lucidez
pode-se
tornar o inferno humano
–
já me aconteceu antes.
Estou
com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendo demais ao telefone, escrevo
depressa,
vivo
depressa. Onde está eu? Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim
– enfim, mas que medo de mim mesma.
Gostando
dos poemas?
Quando
não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me:
se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar
escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase
"se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e
começo a pensar. Diria melhor, sentir.
E
não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria?
Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos
acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li
biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam
inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me
cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não
sei.
Metade
das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo,
que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria
tudo que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.
"Se
eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a
entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as
primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do
mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor,
aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um
êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já
estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma
espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.
Teu
segredo
Flores
envenenadas na jarra. Roxas azuis, encarnadas, atapetam o ar. Que riqueza de
hospital. Nunca vi mais belas e mais perigosas. É assim então o teu segredo.
Teu segredo é tão parecido contigo que nada me revela além do que já sei. E sei
tão pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu és o meu.
O
presente
Amor
será dar de presente ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que
se pode dar de si.
Às
vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem
tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não
era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Há
impossibilidade de ser além do que se é – no entanto eu me ultrapasso mesmo sem
o delírio, sou mais do que eu quase normalmente –; tenho um corpo e tudo o que
eu fizer é continuação de meu começo. (...)
A
única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é
demais...
E
eis que depois de uma tarde de “quem sou eu” e de acordar à uma hora da
madrugada ainda em desespero – eis que às três horas da madrugada acordei e me
encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação.
Simplesmente eu sou eu. e você é você. É vasto, vai durar.
O
que te escrevo é um “isto”. Não vai parar: continua.
Olha
para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.
Amor
é quando é concedido participar um pouco mais.
Amor
é a grande desilusão de tudo mais.
Amor
é finalmente a pobreza.
Amor
é não ter.
Inclusive
amor é a desilusão do que se pensava que era amor.
E
não é prêmio, por isso não envaidece.
Estou
em plena luta (...) Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito
de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima
de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos
passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não termos um ao
outro (...) Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por
amor diga: tens medo. (...)
Não
temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do
dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos
perplexos antes de apagar a luz (...)
Mas
eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste,
Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta.
Não
sei separar os fatos de mim,
e
daí a dificuldade de qualquer precisão,
quando
penso no passado.
Fonte: Pensador
Foto: Google