8.01.2026

Paisagem nº3 - Mário de Andrade

 







Paisagem nº3

Chove?

Sorri uma garoa de cinza,

Muito triste, como um tristemente longo...

A Casa Kosmos não tem impermeáveis em liquidação...

Mas neste Largo do Arouche

Posso abrir o meu guarda-chuva paradoxal,

Este lírico plátano de rendas mar...

 

Ali em frente... - Mário, põe a máscara!

-Tens razão, minha Loucura, tens razão.

O rei de Tule jogou a taça ao mar...

 

Os homens passam encharcados...

Os reflexos dos vultos curtos

Mancham o petit-pavé...

As rolas da Normal

Esvoaçam entre os dedos da garoa...

(E si pusesse um verso de Crisfal

No De Profundis?...)

De repente

Um raio de Sol arisco

Risca o chuvisco ao meio.

 

O poema está presente em Pauliceia Desvairada.

Em Paisagem nº 3, Mário de Andrade descreve a cidade de São Paulo. A paisagem que evoca é de uma chuva fina e cinza, cor que sugere a já crescente poluição do centro urbano.

As contradições na cidade são expostas em “sorri uma garoa de cinza” e “um raio de sol arisco risca o chuvisco ao meio”, trazendo um lirismo próprio do autor, que consegue transmitir a harmonia caótica e contrastante da capital.

Nesse cenário, o poeta cita lugares - casa Kosmos, largo do Arouche - e exibe transeuntes encharcados e reflexos de vultos, o que transmite a ideia de beleza em meio aos caos urbano.

As frases têm cortes abruptos, evidenciando espontaneidade e uma estrutura poética livre e dissonante.


Autoria: Mário de Andrade

Foto: Google

 

 

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