Paisagem
nº3
Chove?
Sorri
uma garoa de cinza,
Muito
triste, como um tristemente longo...
A
Casa Kosmos não tem impermeáveis em liquidação...
Mas
neste Largo do Arouche
Posso
abrir o meu guarda-chuva paradoxal,
Este
lírico plátano de rendas mar...
Ali
em frente... - Mário, põe a máscara!
-Tens
razão, minha Loucura, tens razão.
O
rei de Tule jogou a taça ao mar...
Os
homens passam encharcados...
Os
reflexos dos vultos curtos
Mancham
o petit-pavé...
As
rolas da Normal
Esvoaçam
entre os dedos da garoa...
(E
si pusesse um verso de Crisfal
No
De Profundis?...)
De
repente
Um
raio de Sol arisco
Risca
o chuvisco ao meio.
O
poema está presente em Pauliceia Desvairada.
Em
Paisagem nº 3, Mário de Andrade descreve a cidade de São Paulo. A paisagem que
evoca é de uma chuva fina e cinza, cor que sugere a já crescente poluição do
centro urbano.
As
contradições na cidade são expostas em “sorri uma garoa de cinza” e “um raio de
sol arisco risca o chuvisco ao meio”, trazendo um lirismo próprio do autor, que
consegue transmitir a harmonia caótica e contrastante da capital.
Nesse
cenário, o poeta cita lugares - casa Kosmos, largo do Arouche - e exibe
transeuntes encharcados e reflexos de vultos, o que transmite a ideia de beleza
em meio aos caos urbano.
As
frases têm cortes abruptos, evidenciando espontaneidade e uma estrutura poética
livre e dissonante.
Autoria: Mário de Andrade
Foto: Google
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