ENTRE O PÃO E O HORIZONTE
Agilson Cerqueira
Que a palavra amanheça mansa,
com o cheiro do café na cozinha
e o pão repartido em mãos calejadas.
Que a poesia aprenda o nome
das pessoas simples,
das que sorriem sem testemunhas,
das que fazem do pouco
uma abundância invisível.
Que a ternura encontre morada
nos gestos esquecidos:
um abraço demorado,
um olhar que acolhe,
uma espera sem relógio.
Que a ingenuidade não seja confundida
com fraqueza,
mas reconhecida
como a coragem de ainda acreditar.
Que a solidão tenha janela,
por onde entre a luz da manhã,
e descubra que o silêncio
também pode florescer.
Que a alegria não faça alarde.
Basta o brilho dos olhos,
o arrepio que não vem do frio,
mas da beleza inesperada
de alguém sendo verdade.
Que a paciência seja caminho,
a benevolência, companhia,
e o perdão, uma ponte
sobre os abismos que nós mesmos cavamos.
Que os sonhos caminhem
de mãos dadas com a realidade,
sem perder o espanto,
sem abandonar o horizonte.
Que a consciência seja consequência
do amor vivido,
e não apenas do pensamento.
Ao fim, que reste apenas isto:
um coração suficientemente humano
para reconhecer a beleza
onde o mundo insiste em enxergar apenas o comum.
Agilson Cerqueira
Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico
Licença: Creative Commons
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Estimular a leitura e a aprendizagem de jovens e adultos