8.05.2026

ENTRE O PÃO E O HORIZONTE - Agilson Cerqueira


ENTRE O PÃO E O HORIZONTE

Agilson Cerqueira


Que a palavra amanheça mansa,
com o cheiro do café na cozinha
e o pão repartido em mãos calejadas.

Que a poesia aprenda o nome
das pessoas simples,
das que sorriem sem testemunhas,
das que fazem do pouco
uma abundância invisível.

Que a ternura encontre morada
nos gestos esquecidos:
um abraço demorado,
um olhar que acolhe,
uma espera sem relógio.

Que a ingenuidade não seja confundida
com fraqueza,
mas reconhecida
como a coragem de ainda acreditar.

Que a solidão tenha janela,
por onde entre a luz da manhã,
e descubra que o silêncio
também pode florescer.

Que a alegria não faça alarde.
Basta o brilho dos olhos,
o arrepio que não vem do frio,
mas da beleza inesperada
de alguém sendo verdade.

Que a paciência seja caminho,
a benevolência, companhia,
e o perdão, uma ponte
sobre os abismos que nós mesmos cavamos.

Que os sonhos caminhem
de mãos dadas com a realidade,
sem perder o espanto,
sem abandonar o horizonte.

Que a consciência seja consequência
do amor vivido,
e não apenas do pensamento.

Ao fim, que reste apenas isto:
um coração suficientemente humano
para reconhecer a beleza
onde o mundo insiste em enxergar apenas o comum.


Agilson Cerqueira

Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico

Licença: Creative Commons

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