Cafezinho – Rubem Braga
Leio a
reclamação de um repórter irritado que precisava falar com um delegado e lhe
disseram que o homem havia ido tomar um cafezinho. Ele esperou longamente, e
chegou à conclusão de que o funcionário passou o dia inteiro tomando café.
Tinha razão
o rapaz de ficar zangado. Mas com um pouco de imaginação e bom humor podemos
pensar que uma das delícias do gênio carioca é exatamente esta frase:
- Ele foi
tomar café.
A vida é
triste e complicada. Diariamente é preciso falar com um número excessivo de
pessoas. O remédio é ir tomar um "cafezinho". Para quem espera
nervosamente, esse "cafezinho" é qualquer coisa infinita e
torturante.
Depois de
esperar duas ou três horas dá vontade de dizer:
- Bem
cavaleiro, eu me retiro. Naturalmente o Sr. Bonifácio morreu afogado no
cafezinho.
Ah, sim,
mergulhemos de corpo e alma no cafezinho. Sim, deixemos em todos os lugares
este recado simples e vago:
- Ele saiu
para tomar um café e disse que volta já.
Quando a
Bem-amada vier com seus olhos tristes e perguntar:
- Ele está?
- alguém
dará o nosso recado sem endereço.
Quando vier
o amigo e quando vier o credor, e quando vier o parente, e quando vier a
tristeza, e quando a morte vier, o recado será o mesmo:
- Ele disse
que ia tomar um cafezinho...
Podemos,
ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um chapéu especialmente para
deixá-lo. Assim dirão:
- Ele foi
tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí...
Ah! fujamos
assim, sem drama, sem tristeza, fujamos assim. A vida é complicada demais.
Gastamos muito pensamento, muito sentimento, muita palavra. O melhor é não
estar.
Quando vier
a grande hora de nosso destino nós teremos saído há uns cinco minutos para
tomar um café. Vamos, vamos tomar um cafezinho.
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A
crônica Cafezinho, de Rubem Braga, integra o livro O conde
e o passarinho & Morro do isolamento, publicado em 2002. No texto
acompanhamos as reflexões do autor diante de uma situação em que um repórter
vai falar com um delegado e precisa esperá-lo por longo tempo, pois o homem
havia saído para tomar um cafezinho.
Esse é um bom exemplo de como as crônicas podem abordar assuntos do cotidiano para mergulhar em questões subjetivas e profundas da vida. Assim, é a partir de algo corriqueiro que Rubem nos fala sobre a tristeza, o cansaço, o destino e a morte.
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Autoria: Rubem Braga
Fonte:
Cultura Genial
Foto:
Google






