Loura, uma mulher de fé e
amizade!
“Um bonito
olhar sobre Loura. Há, na vida dela, uma mistura de dor, dignidade e
ternura que comove profundamente. Transformei sua lembrança em uma
crônica/homenagem, com tom afetivo e humano”
Hoje
fui visitar minha amiga Loura.
E
ela estava diferente. Mais leve. Mais alegre. Mais feliz. Difícil vê-la assim,
porque a vida, com ela, nunca foi de facilidades.
Loura
é dessas mulheres que carregam na alma as marcas do tempo, das perdas e das
decepções, mas que ainda assim guardam no coração uma fonte inesgotável de
carinho pelos outros.
Ela
mesma conta, com a simplicidade dos que aprenderam a conviver com a dor, que
nunca teve uma festa de aniversário. Nunca soube o que era um Natal com Papai
Noel. A infância lhe passou sem esses enfeites doces que a vida costuma
oferecer aos mais afortunados. Talvez por isso tenha aprendido cedo que viver é
resistir. No amor, também conheceu as
agruras da desilusão.
Namorou
um agrônomo de Alagoas. Uma vizinha, dessas comadres que às vezes trazem
verdades difíceis, alertou que ele tinha outra. Loura, firme em seu jeito,
respondeu que era como São Tomé: precisava ver para crer. E viu. Viu o homem de
mãos dadas com outra moça.
Depois
veio outro namorado, também sem sinceridade, também repartido com outras.
Chegou a ficar noiva, mas a vida já lhe ensinara demais sobre promessas
quebradas. Desistiu de homem, desistiu de casar, e foi viver sua travessia com
a coragem das mulheres que, mesmo feridas, não se entregam.
Aos
26 anos, a crueldade do destino bateu mais forte: foi atropelada no passeio e
perdeu a perna esquerda, tornando-se deficiente para sempre. Muita gente teria
se deixado vencer. Loura, não. Sofreu, padeceu, mas seguiu em frente. Como
tantas mulheres do povo, fez da dor um modo silencioso de resistência.
Nascida
em Ferradas, em 23 de junho de 1938, trabalhou como
costureira de camisas masculinas. Costurou panos, bainhas, tecidos e, sem
saber, foi também costurando a própria existência, ponto por ponto, entre
sacrifícios, renúncias e fé.
Hoje
vive em Itabuna, na Avenida Garcia, com a companhia cuidadosa de Bia, que tem
sido uma valiosa anjo da guarda em sua vida e tem ao redor amigos que lhe
querem bem: Renato Costa, Afonso Malta, Antônio Vieira e os que já partiram
ficaram guardados na memória como
Mastique, Lícia, Antônio Meneses, Zito, John Leahy — gente que reconhece nela o
valor raro de uma alma boa.
Minha
amizade com Loura veio pelas mãos de Renato Costa. E desde então aprendi a
gostar muito dela. Porque Loura é dessas pessoas que cultivam a amizade com
amor verdadeiro. Reza pelas pessoas que
ama. Se preocupa. Abençoa. Lembra.
Num
mundo em que tanta gente passa apressada e superficial, Loura permanece como
essas velas acesas no altar da vida: pequenas na aparência, mas imensas na luz
que espalham.
Hoje,
ao vê-la mais alegre, senti que havia ali uma espécie de milagre cotidiano. A
alegria de Loura não é barulhenta. É uma alegria sofrida, amadurecida, quase
sagrada. A alegria de quem já chorou muito e, ainda assim, encontrou forças
para oferecer aos outros amizade, oração e afeto.
Loura
é, acima de tudo, uma mulher de fé. E talvez seja isso que a sustente: a
capacidade de amar, mesmo depois de tantas perdas. Mulheres assim não
envelhecem apenas — se tornam testemunho.
E eu saí da visita com o coração tocado. Porque estar perto de Loura é lembrar que a vida pode até ferir o corpo, decepcionar os sonhos e entristecer os dias, mas nunca consegue derrotar por inteiro uma alma feita de amor, de oração e de amizade.
Autoria: Dr. Sílvio Porto
Foto: Produção


