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2.28.2026

Loura, uma mulher de fé e amizade! - Silvio Porto

"Loura, uma mulher de fé" 

Loura, uma mulher de fé e amizade!

“Um  bonito  olhar sobre Loura. Há, na vida dela, uma mistura de dor, dignidade e ternura que comove profundamente. Transformei sua lembrança em uma crônica/homenagem, com tom afetivo e humano”

Hoje fui visitar minha amiga Loura.

E ela estava diferente. Mais leve. Mais alegre. Mais feliz. Difícil vê-la assim, porque a vida, com ela, nunca foi de facilidades.

Loura é dessas mulheres que carregam na alma as marcas do tempo, das perdas e das decepções, mas que ainda assim guardam no coração uma fonte inesgotável de carinho pelos outros.

Ela mesma conta, com a simplicidade dos que aprenderam a conviver com a dor, que nunca teve uma festa de aniversário. Nunca soube o que era um Natal com Papai Noel. A infância lhe passou sem esses enfeites doces que a vida costuma oferecer aos mais afortunados. Talvez por isso tenha aprendido cedo que viver é resistir. No amor, também   conheceu as agruras da desilusão.

Namorou um agrônomo de Alagoas. Uma vizinha, dessas comadres que às vezes trazem verdades difíceis, alertou que ele tinha outra. Loura, firme em seu jeito, respondeu que era como São Tomé: precisava ver para crer. E viu. Viu o homem de mãos dadas com outra moça.

Depois veio outro namorado, também sem sinceridade, também repartido com outras. Chegou a ficar noiva, mas a vida já lhe ensinara demais sobre promessas quebradas. Desistiu de homem, desistiu de casar, e foi viver sua travessia com a coragem das mulheres que, mesmo feridas, não se entregam.

Aos 26 anos, a crueldade do destino bateu mais forte: foi atropelada no passeio e perdeu a perna esquerda, tornando-se deficiente para sempre. Muita gente teria se deixado vencer. Loura, não. Sofreu, padeceu, mas seguiu em frente. Como tantas mulheres do povo, fez da dor um modo silencioso de resistência.

Nascida em Ferradas, em 23 de junho de 1938, trabalhou como costureira de camisas masculinas. Costurou panos, bainhas, tecidos e, sem saber, foi também costurando a própria existência, ponto por ponto, entre sacrifícios, renúncias e fé.

Hoje vive em Itabuna, na Avenida Garcia, com a companhia cuidadosa de Bia, que tem sido uma valiosa anjo da guarda em sua vida e tem ao redor amigos que lhe querem bem: Renato Costa, Afonso Malta, Antônio Vieira e os que já partiram ficaram guardados na memória  como Mastique, Lícia, Antônio Meneses, Zito, John Leahy — gente que reconhece nela o valor raro de uma alma boa.

Minha amizade com Loura veio pelas mãos de Renato Costa. E desde então aprendi a gostar muito dela. Porque Loura é dessas pessoas que cultivam a amizade com amor  verdadeiro. Reza pelas pessoas que ama. Se preocupa. Abençoa. Lembra.

Num mundo em que tanta gente passa apressada e superficial, Loura permanece como essas velas acesas no altar da vida: pequenas na aparência, mas imensas na luz que espalham.

Hoje, ao vê-la mais alegre, senti que havia ali uma espécie de milagre cotidiano. A alegria de Loura não é barulhenta. É uma alegria sofrida, amadurecida, quase sagrada. A alegria de quem já chorou muito e, ainda assim, encontrou forças para oferecer aos outros amizade, oração e afeto.

Loura é, acima de tudo, uma mulher de fé. E talvez seja isso que a sustente: a capacidade de amar, mesmo depois de tantas perdas. Mulheres assim não envelhecem apenas — se tornam testemunho.

E eu saí da visita com o coração tocado. Porque estar perto de Loura é lembrar que a vida pode até ferir o corpo, decepcionar os sonhos e entristecer os dias, mas nunca consegue derrotar por inteiro uma alma feita de amor, de oração e de amizade.


Autoria: Dr. Sílvio Porto

Foto: Produção

2.27.2026

O Duradouro Valor da Sabedoria - Rudolf Dainis Smits

 

O Duradouro Valor
 da Sabedoria

Por Rudolf Dainis Smits

 

Aristóteles disse que o objetivo da educação é fazer com que o aluno goste ou desgoste daquilo que deve gostar ou desgostar – C. S. Lewis 

 

De acordo com essa citação, os valores que precisamos nos são ensinados para nos preparar para a vida, negócios e carreira profissional. Infelizmente, em muitos casos, isto já não é verdadeiro. 

 

Universidade de Harvard (originalmente New College)fundada em 1636, é a mais antiga corporação da América. Ela foi renomeada em 1638 recebendo o nome do Reverendo John Harvard, que começou a faculdade para treinamento do clero. As fachadas dos edifícios históricos de Harvard ostentavam um escudo de pedra esculpido contendo três livros simbólicos (dois com a face para cima e um com a face para baixo), com a inscrição“Veritas” – que quer dizer “verdade”. John Amos Comenius, considerado o pai da educação moderna, desenvolveu uma metodologia educacional que sistematizava a busca da verdade tal como revelada através das Escrituras, natureza (ciência), e razão. O terceiro livro naquele escudo estava respeitosamente com a face virada para baixo representando os limites da razão do homem. (Isto está descrito em The Harvard Wall, - A Parede de Harvard -, de Gary Brumbelo).  

 

A Universidade de Harvard desde então abandonou sua tradição e se tornou uma instituição secular que não mais endossa essas ideias. O escudo foi redesenhado; o terceiro livro agora está com a face voltada para cima e a inscrição “Por Cristo e a Igreja” foi removida.  As históricas fachadas dos edifícios de Harvard, porém, permanecem inalteradas, testificando de sua herança perdida - o valor da sabedoria e da busca pela verdade em Deus. “O temor do Senhor é o princípio do conhecimento, mas os insensatos desprezam a sabedoria e a disciplina” (Provérbios 1:7). 

 

Provérbios 1:1-7 declara que para conhecer a sabedoria e a disciplina, para entender e obter discernimento, e para receber instrução e proceder de forma sábia e reta, com justiça e equidade, é preciso começar pelo temor ao Senhor. As Escrituras ensinam que a busca de todo o saber, entendimento e sabedoria é revelada por meio do conhecimento de Deus (das Escrituras); da natureza (o estudo da ciência e da criação de Deus), e da razão (o instrumento da lógica).  

 

Valores são essenciais para definir quem somos e fundamentais para a cultura e a sociedade. Empresas e comércio são controlados pela aceitação de padrões e valores. Se tais princípios forem ignorados seremos levados ao fracasso. Como afirmou C. S. Lewis, “Uma crença dogmática em valores objetivos faz-se necessária para a própria ideia de um governo que não seja tirania ou de uma obediência que não seja escravidão.”  

 

Sabedoria que valoriza a verdade encontrada nas Escrituras.  Uma empresa ou organização de sucesso precisa manter uma visão, missão e um sistema de valores a serem seguidos por seus empregados e que beneficie seus clientes. Nosso trabalho e práticas profissionais são valorizados e permanecem relevantes se operarmos dentro de uma estrutura de princípios bíblicos que protege os direitos, os relacionamentos e o bem-estar de nossos sócios, empregados, colegas e clientes. 

 

Sabedoria que valoriza a verdade da ciência (natureza).  Empresas de sucesso sustentam a lei comum e mantêm as melhores práticas que incluem a troca justa, preços corretos e valorizam o caráter e a integridade nos relacionamentos e tratos profissionais. Balanças e pesos honestos vêm do Senhor; todos os pesos da bolsa são feitos por Ele” (Provérbios 16:11). 

 

Sabedoria que valoriza a razão que se submete a Deus.  A Bíblia nos conta a famosa história do rei Salomão que diante da oferta de riquezas e poder, escolheu a sabedoria. Mais tarde em sua vida Salomão se desviou do caminho da verdade. Ele deixou de apreciar a sabedoria mais do que as riquezas. Ele transigiu com a verdade, a sabedoria e o conhecimento em sua busca por riquezas, cavalos, mulheres e, por fim, violou os próprios princípios que fizeram dele um rei e líder sábio. Ele perdeu o temor de Deus e com ele o reino. As lições apresentadas em I Reis 11:10-12 são importantes; devemos dar ouvidos a elas.  


Questões Para Reflexão ou Discussão  

 

1.  Em sua opinião, por que a Bíblia equipara sabedoria ao temor de Deus? Qual o significado de “temor” nesse caso? Como ele é um pré-requisito para a sabedoria, conhecimento e entendimento?

2.  Você já transigiu ou se sentiu tentado a transigir com seus valores no trabalho ou com um cliente temendo o que poderiam pensar ou dizer de você? Qual foi o resultado?

3.  As práticas externas refletem decisões internas sobre o que acreditamos. Se não praticamos ou guardamos tais valores nossa vida se torna uma fachada sem significado. Qual é a base do sistema de valores que guia sua vida pessoal e profissional? Como suas ações concorrem para proteger esses valores?

4.  C. S. Lewis disse: “Nenhuma justificativa de virtude capacitará um homem a ser virtuoso...eu preferiria jogar cartas com um homem cético quanto à ética, mas educado para acreditar que um cavalheiro não trapaceia, do que contra um filósofo de moral impecável, que tenha sido criado entre trapaceiros.” O que Lewis estava dizendo a respeito de simplesmente patrocinar princípios (ou valores) em comparação a alguém que realmente os vive na prática?  

Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Provérbios 9:9; 16:11; Eclesiastes 12:13; Miquéias 6:8; Lucas 11:42; Romanos 11:33; Tiago 3:13,17.  

A poesia agradece a Val Cabral - Joselito dos Reis

 

                    Monumento e Mosaico ao poeta Telmo Fontes Padilha 

A poesia agradece a Val Cabral

Tributo ao comunicador Val Cabral.

Por Joselito dos Reis - A cidade de Itabuna viveu um momento histórico para sua cultura ao inaugurar, no último 26 de fevereiro, um espaço que eterniza a memória de seu poeta mais ilustre e mundialmente reconhecido: Telmo Padilha. A iniciativa, que por anos inquietou os que defendem a literatura grapiúna, tornou-se realidade graças à sensibilidade e persistência do comunicador Val Cabral, que abraçou a causa e a conduziu até sua concretização.

Val Cabral (Jornalista, radialista e artista plástico)
A oportunidade surgiu com a requalificação da Orla do Berilo pela prefeitura municipal. Ao saber do projeto, Val Cabral procurou a secretária de Infraestrutura, Sônia Fontes, apresentando a proposta de integrar arte e cultura à revitalização urbana. A ideia encontrou acolhimento também no prefeito Augusto Castro, que demonstrou sensibilidade diante da importância de se preservar e celebrar a memória cultural da cidade

Com o apoio do Clube do Poeta Sul da Bahia, a proposta ganhou forma concreta. Foi contratado o artista plástico e escultor Diovane Tavares, responsável pela criação do monumento em tamanho real de Telmo Padilha, construído em ferro e aço. A obra foi instalada na Alameda do Berilo, acompanhada de um grande mosaico com resumos biográficos e produções literárias de diversos poetas grapiunas — um verdadeiro painel da poesia regional.

A mobilização envolveu ainda empresários e amigos da cultura, que contribuíram para a arrecadação de recursos necessários à execução do projeto. O resultado é um conjunto artístico de forte simbolismo: a estátua, produzida em ferro reciclado, conta com iluminação interna que sugere o pulsar do coração e o brilho da mente criadora do poeta. O mosaico, composto por 150 peças dedicadas a escritores locais, amplia o significado do monumento, transformando-o em espaço coletivo da memória literária.

Mais que uma homenagem individual, o novo espaço cultural nasce com vocação viva. Sua administração ficará a cargo do Clube do Poeta Sul da Bahia, que pretende promover atividades artísticas e culturais regulares, garantindo que o local se torne referência permanente de criação, encontro e celebração da palavra poética.

A inauguração, marcada por recital de poesias, música e presença expressiva da comunidade, foi digna do legado de Telmo Padilha — o poeta que levou a poesia grapiúna ao mundo quando ainda não havia internet, apenas talento, perseverança e amor pela literatura.

Como poeta, jornalista e fundador do Clube do Poeta Sul da Bahia, registro meu profundo agradecimento a Val Cabral e a todos que tornaram possível esse gesto de respeito à cultura de nossa terra. Que este espaço seja não apenas monumento, mas semente de novos versos, novos sonhos e novas vozes.

Que a poesia continue sendo o encanto divino de Itabuna — cidade moldada pela força do cacau, pelo sabor do chocolate e pela grandeza de seus criadores — em um permanente e necessário “Voo Absoluto” rumo à prosperidade cultural.

Autoria: Joselito dos Reis (*) - Poeta e jornalista.

Fotos: Produção

 

Roberto Mendes da Silva ("O Homem Que Via.")

 

Roberto Mendes da Silva ("O Homem Que Via")


Encolhido no banco da Praça da Matriz, coberto por papelões encharcados, os dedos roxos de frio. "Mais um morador de rua", disse o guarda municipal no rádio. "Não tem documentos. Aparenta uns 60 anos." Ninguém sabia o nome dele. Ninguém sabia de onde veio. Ninguém reclamou o corpo. Era só mais um invisível que o frio levou. A prefeitura organizou o enterro. Caixão simples. Cemitério público. Cova rasa no canto onde enterram os indigentes, aqueles que a cidade prefere esquecer que existiram. "Velório às 14h, enterro às 15h", dizia o papel colado na porta da capela do cemitério. 

    O funcionário da funerária nem esperava ninguém. "Esses velórios de mendigo são sempre vazios", ele comentou com o coveiro. "A gente só cumpre protocolo." Preparou três cadeiras. Acendeu duas velas. Colocou uma placa improvisada no caixão: "DESCONHECIDO – Falecido em 11/02/2026". E esperou as 14h chegarem pra cumprir tabela e ir embora logo. Mas às 13h45, começou. Primeiro, chegou uma mulher de tailleur. Empresária, pelos trajes. Entrou, olhou pro caixão, e desabou em choro. O funcionário estranhou. "A senhora conhecia o falecido?" "Conhecia?" Ela limpou as lágrimas. "Ele me cumprimentava todo dia há 8 anos." "Era parente?" "Não. Ele ficava na esquina perto do meu trabalho. Todo dia, 7h15 da manhã, quando eu passava apressada, ele dizia: 'Bom dia, Dra. Fernanda. Hoje vai dar tudo certo.' Ele sabia meu nome. Sabia minha profissão. E nunca pediu nada." Dez minutos depois, chegou um homem de uniforme de segurança. Depois, uma enfermeira. Depois, um adolescente de mochila nas costas. Depois, um casal de idosos. Depois, uma mãe com duas crianças. E continuaram chegando. Às 14h, a capela estava lotada. Às 14h30, tinha gente no corredor. Às 15h, tinha mais de 200 pessoas aglomeradas do lado de fora, esperando pra entrar, pra ver, pra se despedir. O funcionário da funerária ligou pro chefe, atordoado: "Senhor, tem mais de 200 pessoas aqui. Eu não entendo. É um indigente. Não tem nome. Não tem família." "Erro de corpo, talvez?" "Não, senhor. Todos confirmam que é ele." Dentro da capela, as histórias começaram a se cruzar. "Ele sabia o nome dos meus filhos", disse uma mulher chorando. "Ele perguntava como tinha ido a cirurgia da Júlia. Como ele sabia que minha filha tinha feito cirurgia?" "Ele me cumprimentava pelo nome toda manhã quando eu ia pro trabalho", disse um homem de terno. "Eu nunca parei pra conversar. Mas ele sempre dizia: 'Bom dia, Dr. Marco. Vai ser um dia bom.'" "Ele me deu parabéns no meu aniversário", disse o adolescente, a voz embargada. "Eu passava ali todo dia, fone no ouvido, ignorando todo mundo. Mas no dia do meu aniversário, ele disse: 'Feliz aniversário, João. Dezesseis anos, né? Aproveita. Passa rápido.' Como ele sabia?" Ninguém tinha resposta. Foi quando o Padre Augusto, que tinha vindo celebrar a benção rápida, pediu silêncio. "Vocês sabem quem era esse homem?" Silêncio. "Eu sei. Porque ele veio se confessar comigo três meses atrás." O padre respirou fundo. "O nome dele era Roberto Mendes da Silva. Ele tinha 62 anos. E até 15 anos atrás, era dono de uma rede de lojas de móveis. Tinha três lojas. Casa de dois andares. Carro importado. Conta bancária de sete dígitos." Murmúrios de choque atravessaram a capela. "Até que perdeu tudo. Traição de sócio. Falência. Dívidas. Perdeu a empresa, perdeu a casa, perdeu a esposa, perdeu os filhos que nunca mais quiseram vê-lo. Perdeu tudo." O padre segurou o terço com força. "E quando ficou na rua, descobriu algo que tinha passado a vida inteira sem perceber." Pausa. "Que só ali, sem nada, ele finalmente conseguia enxergar as pessoas." "Ele me disse isso na confissão", continuou o padre. "Ele disse: 'Padre, quando eu tinha dinheiro, eu não via ninguém. Eu via funções. Via secretária. Via motorista. Via cliente. Mas não via gente. Agora, sem nada, eu vejo tudo. Vejo o cansaço no rosto da mulher que passa às 7h. Vejo a felicidade do menino que passou no vestibular. Vejo a tristeza do homem que foi demitido. E eu sei os nomes deles.'" As pessoas começaram a chorar. "Ele anotava", o padre revelou. "Num caderninho velho. Anotava os nomes que ouvia. As conversas que escutava sem querer. Os detalhes. E guardava. Porque ele dizia: 'Padre, tem gente que passa a vida inteira sem ninguém saber o nome deles. Eu não quero que essas pessoas sejam invisíveis.'" Foi quando uma mulher se levantou, tremendo. "Eu tenho algo pra ler", ela disse, a voz quebrando. Era Dra. Fernanda. A primeira que tinha chegado. "Há dois dias, eu encontrei um envelope no meu carro. Tava preso no limpador de para-brisa. Achei que era propaganda. Mas quando abri..." Ela tirou uma carta amassada da bolsa. "É dele. É a letra dele. Eu reconheci porque ele me deu um bilhete uma vez, me desejando melhoras quando eu estava doente." Silêncio absoluto. Fernanda começou a ler, a voz falhando: "Pra todos que passaram por mim nesses anos: Vocês achavam que EU precisava de vocês. Que o coitado do mendigo precisava de moeda, de comida, de atenção. Mas era o contrário. EU vim pra lembrar vocês. Lembrar vocês de que vocês têm nome. De que vocês existem. De que no meio dessa correria toda, alguém viu vocês. Alguém percebeu. Vocês me deram moedas. Eu dei atenção. Vocês me deram comida. Eu dei reconhecimento. Vocês achavam que estavam me ajudando a sobreviver. Mas quem tava morrendo de invisibilidade não era eu. Eram vocês. Todo dia, vocês passavam correndo, sem ninguém perguntar o nome de vocês, sem ninguém perguntar como vocês estavam. Eu perguntei. E guardei. Porque o nome de uma pessoa é a única coisa que ela tem que ninguém pode tirar. Exceto o esquecimento. Então eu me tornei a memória de vocês. Obrigado por me deixarem existir. Mesmo invisível. Mesmo sem nome. Eu vi vocês. Todos vocês. — Roberto" Quando Fernanda terminou de ler, ninguém conseguia falar. Só o som de choro abafado, de soluços contidos, de respirações trêmulas. O adolescente João se levantou. "Eu nunca parei pra falar com ele. Nem uma vez. E ele sabia meu nome. Sabia meu aniversário. E eu nem sabia que ele TINHA nome." A enfermeira levantou a mão, tremendo. "Eu passei por ele durante 5 anos. Todo dia. E só dei bom dia uma vez. Uma vez em 5 anos. E mesmo assim, ele continuou me cumprimentando. Pelo nome. Sempre." Um homem de terno, lágrimas escorrendo, disse: "Ele me viu. Mais do que minha própria família me vê." Quando chegou a hora de levar o caixão pro enterro, ninguém se moveu. Até que, espontaneamente, dez pessoas se aproximaram. Pegaram o caixão nos ombros. E caminharam. Devagar. Duzentas pessoas atrás, em silêncio absoluto. Quando baixaram o caixão na cova, alguém começou a dizer, em voz alta: "Roberto Mendes da Silva." Outros repetiram: "Roberto Mendes da Silva." E virou coro. "ROBERTO MENDES DA SILVA." Duzentas vozes dizendo o nome dele. Porque ele tinha passado 15 anos dizendo o nome dos outros. E finalmente, alguém estava dizendo o dele. Três dias depois, a prefeitura recebeu um pedido formal, assinado por 200 pessoas. Queriam mudar o nome da Praça da Matriz. Praça Roberto Mendes da Silva. "O Homem Que Via." Foi aprovado por unanimidade. Hoje, tem uma placa de bronze na praça. E embaixo, uma frase: "Ele não tinha nada. Mas sabia o nome de todos. Porque enxergava o que ninguém mais via: gente."  Você só é invisível quando deixa de enxergar os outros.  O nome de uma pessoa é a única coisa que ninguém pode tirar dela. Exceto o esquecimento.  Tem gente que morre sem nada. E deixa tudo. Roberto morreu sem casa. Mas vivia em 200 corações. Morreu sem família. Mas tinha 200 filhos da rua. Morreu sem nome na certidão. Mas seu nome nunca será esquecido.


Enviado: Pastor Paulinho

Foto: Google

 

Às vezes … - Agilson Cerqueira

 









A Roda e o tempo. Óleo Sobre Tela 


Agilson Cerqueira

Às vezes …

Agilson Cerqueira 


… É só  um dia!

(Des) articulações, travamentos,

Sem lamentações!

Grito sem eco,

Dor instigante!  

Lágrimas que rolam,

Os sentimentos extrapolam!

Lágrimas que não rolam,

Fontes secas!

Coração em descompasso,

Descontrole do pulsar!

Respiração diafragmática,

Desequilíbrio!

O cérebro como termorregulador  

físico-emocional:

Sol, suor, calor, frio…!

Olhar fixo, pensamentos,

Tudo em silêncio!

Respiração controlada,

Vida!


  F. P. Samuel*

Este é um poema intenso e introspectivo de Agilson Cerqueira, intitulado "Às vezes …". Ele descreve um momento de crise física e emocional, quase uma sobrecarga sensorial ou um travamento ("(Des) articulações, travamentos"), onde os sentimentos e as reações físicas (lágrimas, coração, respiração) se descontrolam.

O poema aborda:

A dor interna: O grito silencioso ("sem eco") e a dor que instiga.

A dualidade física: A contradição entre as lágrimas que caem e as fontes secas (a dor que transborda e a dor que sufoca).

O corpo em descompasso: O coração acelerado e a respiração desequilibrada.

A regulação emocional: O cérebro agindo como um termorregulador físico e emocional, tentando equilibrar o calor/frio da emoção.

A aceitação: O poema termina com o retorno ao controle ("Respiração controlada") e à vida, sugerindo que, apesar da intensidade, é "só um dia" e tudo passará.

É um retrato poético da resiliência e da tentativa de encontrar equilíbrio no meio do caos interno.

  (*) F. P. Samuel: Escritor, Poeta e Crítico Literário


Autor: Agilson Cerqueira

Foto: Produção

2.26.2026

Se eu morresse amanhã -- Álvarez de Azevedo

 





Se eu morresse amanhã

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

Escrita aproximadamente um mês antes do falecimento do poeta, a composição chegou a ser lida durante o seu velório. Nela, o sujeito poético pondera o que aconteceria depois da sua morte, quase como se enumerasse os prós e os contras.

Por um lado, pensa no sofrimento da família e no futuro que perderia, revelando que ainda alimenta esperanças e curiosidade. Lembra ainda de todas as belezas naturais deste mundo que ele nunca mais poderia ver. Contudo, no final, conclui que seria um alívio, já que só assim poderia apaziguar o seu sofrimento constante.

 

Fé em Compartimentos? Por Robert Tamasy

 

Fé em Compartimentos?

Por Robert Tamasy

 

Geralmente, quando o CEO ou presidente de uma companhia ou organização deixa seu posto por qualquer razão, um líder “interino” é designado para preencher a vaga até que um sucessor permanente seja nomeado. Não importa se o antigo executivo tenha se aposentado, morrido, saído para assumir um novo trabalho, pedido para sair ou tenha sido demitido – alguém precisa dar um passo à frente e servir interinamente até que os donos ou diretores possam avaliar possíveis candidatos para o cargo. 

 

Frequentemente vemos uma avalanche dessas designações “interinas” durante os campeonatos esportivos, por exemplo, quando treinadores malsucedidos são demitidos e outra pessoa é designada para substituí-lo pelo restante do ano. Então, na maioria dos casos, outro indivíduo é escolhido para assumir o papel permanentemente.

 

Na verdade, mesmo que sejamos relutantes em admiti-lo, todos nós somos “interinos”. Não importa quão velhos sejamos ou o quanto desempenhemos bem o nosso trabalho, não vamos permanecer aqui para sempre. Outra pessoa estava fazendo o serviço antes que nós chegássemos (a menos que você seja o dono de sua própria start-up) – e um dia teremos partido, deixando todas as responsabilidades para outra pessoa.

 

Essa pode ser uma constatação sombria. Penso no jornal em que trabalhei como editor, bem como em meus anos no CBMC, quando fui editor e diretor de várias publicações. Durante o tempo em que ocupei essas posições, sentia que estava fazendo um bom trabalho, mas mesmo aqueles papéis “permanentes” chegaram ao fim. Na verdade, os jornais que dirigi editorialmente, como também a revista, já não são mais publicados; portanto, eles também eram “interinos”. 

 

O que fazer com esse conhecimento? Devemos simplesmente nos resignar a uma mentalidade tipo “hoje aqui, longe amanhã” e nos arrastarmos um dia de cada vez no trabalho? Ao contrário, eu sugeriria uma abordagem mais do tipo “carpe diem”: “aproveite o dia”. Fazer o máximo com as oportunidades que se apresentam a nós, fazer o melhor que podemos e, confiantemente, deixar as coisas melhores para aqueles que virão depois de nós. 

 

O livro de Eclesiastes do Antigo Testamento nos faz lembrar que tudo – mesmo a própria vida – em última análise é “interino”. “Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo para cada propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou...tempo de derrubar e tempo de construir...tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las...” (Eclesiastes 3:1-8). 

 

Depois de fazer essas observações, o autor de Eclesiastes, o rei Salomão, afirma: “O que ganha o trabalhador com todo o seu esforço? Tenho visto o fardo que Deus impôs aos homens. Ele fez tudo apropriado ao seu tempo.  Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim ele não consegue compreender inteiramente o que Deus fez. Descobri que não há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive...Aquilo que é, já foi, e o que será, já foi anteriormente; Deus investigará o passado.”(Eclesiastes 3:9-15). 

 

Em lugar de adotar uma atitude fatalista, nós podemos reconhecer a nossa condição de “interinos” enquanto nos esforçamos por fazer o nosso melhor servindo nossas organizações, acionistas, empregados, colegas de trabalho, clientes e, acima de tudo, Deus. “O que suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria.” (Eclesiastes 9:10). 

 

Questões Para Reflexão ou Discussão   

 

1.  O que lhe vem à mente ao ouvir a palavra “interino”?

2.  Você já trabalhou no papel de interino, sabendo que outra pessoa seria escolhida para sucedê-lo no cargo? Como foi a experiência? Ser “interino” afetou a forma como você via seu trabalho?

3.  Tendemos a ver o nosso trabalho como permanente – pelo menos até decidirmos seguir adiante e fazer outra coisa. Como é para você ver o seu atual trabalho “permanente” como um em que, na verdade, você é um trabalhador “interino”?

4.  O que você acha da ideia de fazer o melhor que pode em seu trabalho atual tendo consciência de que, de uma forma ou de outra, alguém estará assumindo esse papel – talvez mais cedo do que você imagina?

Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Provérbios 10:7; Mateus 6:33-34; Efésios 2:10; Colossenses 3:17, 23-24; Tiago 4:13-15.  

 

2.25.2026

Passei ontem a noite junto dela

 

Passei ontem a noite junto dela

Passei ontem a noite junto dela.

Do camarote a divisão se erguia

Apenas entre nós — e eu vivia

No doce alento dessa virgem bela...

 

Tanto amor, tanto fogo se revela

Naqueles olhos negros! Só a via!

Música mais do céu, mais harmonia

Aspirando nessa alma de donzela!

 

Como era doce aquele seio arfando!

Nos lábios que sorriso feiticeiro!

Daquelas horas lembro-me chorando!

 

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro

É sentir todo o seio palpitando...

Cheio de amores! E dormir solteiro!

 

Neste soneto, o sujeito confessa que passou a noite perto da amada. Pela descrição, podemos perceber que o seu olhar se fixou nela o tempo todo, observando a beleza que rende os maiores elogios.

Os versos transmitem o desejo do eu-lírico que parece ecoar nos olhos da donzela, revelando o fogo da paixão. Ele está dominado pelo seu "sorriso feiticeiro" e no dia seguinte chega a chorar de saudades. Num tom dramático, os últimos versos confessam o seu desgosto por querer tanto alguém e permanecer sozinho.


Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

Campo Missionário: Mais Perto do que Você Pensa - Robert Tamasy

 

Campo Missionário: Mais Perto do que Você Pensa

Por Robert Tamasy

 

Você já esteve no campo missionário? Permita que eu o avise: esta pergunta tem uma pequena artimanha. A maioria de nós quando ouve a expressão “campo missionário” pensa em viajar para terras distantes onde se fala uma língua desconhecida e tem uma cultura totalmente diferente da nossa. No sentido tradicional, isto é verdade.  Mas você já pensou que o campo missionário pode estar logo ali na esquina – ou apenas a um passo do lugar onde você trabalha? 

 

Por mais de 25 anos meu amigo Ken tem dirigido um ministério voltado para donos de empresas e CEO's, oferecendo a eles um lugar onde se reunir e compartilhar desafios, necessidades e problemas em comum. Sempre que um novo membro se junta a um dos grupos, Ken lhe dá um cartaz, sugerindo que ele seja colocado no alto da porta do seu escritório, pelo lado de dentro, a fim de lhe servir como lembrete.

No cartaz lê-se: “Você está entrando no campo missionário.”

 

Isso é apropriado, porque quando Jesus instituiu a ordem a que comumente nos referimos como a Grande Comissão, vão e façam discípulos de todas as nações...” (Mateus 28:19), Ele não disse que não deveríamos incluir o país, cidade ou comunidade na qual vivemos. Num sentido prático, se não formos capazes de exercer um impacto eterno no lugar em que estamos atualmente, como o faremos onde não estamos? 

 

Durante mais de 10 anos, como editor de jornal, não fui um seguidor de Jesus. E mesmo depois de entregar minha vida a Ele, não compreendia como efetivamente falar a outras pessoas sobre minha fé e ajudar outros crentes a crescerem espiritualmente. Somente depois que me envolvi com o CBMC – e passei a interagir com seguidores de Cristo maduros e dedicados – foi que entendi que falar aos outros sobre Ele não era tarefa restrita ao clero e missionários profissionais. 

 

Aqui estão alguns ensinamentos extraídos da Bíblia para confirmar que, não importa o que façamos ou para onde vamos, nós já estamos no “campo missionário”:

 

Para muitos, somos o “único” Jesus que eles verão.  Em muitas partes do mundo vivemos em culturas secularizadas, pós-cristãs. Muitas pessoas, especialmente empresários e profissionais, nem considerariam entrar em uma casa de culto, mesmo que tenham questões espirituais. Podemos ser aqueles que Deus quer usar para dar as respostas que eles buscam. Jesus disse a Seus seguidores:“Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte” (Mateus 5:14). Ele também disse: “Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus” (Mateus 5:16). 

 

Nós podemos mostrar a realidade de Cristo por meio de nossa conduta no trabalho.  Um amigo contou-me sobre a ética profissional deficiente e os baixos padrões que ele observa dentro de sua área. Sugeri que isso oferece a oportunidade perfeita de separar sua companhia – e seus valores – de seus concorrentes. “Tudo o que fizerem, seja em palavra ou em ação, façam-no em nome do Senhor Jesus, dando por meio Dele graças a Deus Pai.” (Colossenses 3:17). O apóstolo Paulo também exortou os crentes da cidade de Corinto:  “Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus" (1Coríntios 10:31).  

 

Assim, da próxima vez que você pensar em campo missionário, reconheça que você já está lá! E nem precisa fazer a mala. 


Foto: Produção

 

 

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