6.30.2026

A andorinha e as outras aves

 

A andorinha e as outras aves

Estavam os homens a semear linho, e, ao vê-los, disse a Andorinha aos outros pássaros:

— Para nosso mal fazem os homens esta seara, que desta semente nascerá linho, e dele farão redes e laços para nos prenderem. Melhor será destruirmos a linhaça e a erva que dali nascer, para estarmos seguras.

As outras Aves riram-se muito deste conselho e não quiseram segui-lo. Vendo isto, a Andorinha fez as pazes com os homens e foi viver em suas casas. Algum tempo depois, os homens fizeram redes e instrumentos de caça, com os quais apanharam e prenderam todas as outras aves, poupando apenas a Andorinha.

Moral da história da andorinha e as outras aves

A fábula nos ensina que devemos sempre pensar no dia de amanhã e nos planejarmos para situações distintas, antecipando futuros cenários.

As andorinhas viram que o futuro mudaria ao perceberem que os homens podiam fazer redes. Diante dessa previsão, tentaram avisar os pássaros, que não lhes deram bola.

Então, fizeram amizade com o homem e foram poupadas da caça.


Fonte: Cultura Genial

Imagem: Google

 

Fizeram a gente acreditar - Martha Medeiros

Fizeram a gente acreditar - Martha Medeiros

Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não nos contaram que amor não é acionado nem chega com hora marcada.

Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável.

Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada “dois em um”, duas pessoas pensando igual, agindo igual, que isso era que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.

Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.

Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto.

Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas. Ah, nem contaram que ninguém vai contar. Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz se apaixonar por alguém.

Martha Medeiros é um dos nomes conhecidos na literatura contemporânea brasileira. A escritora produz romances, poemas e crônicas e já teve obras adaptadas para peças de teatro e audiovisual.

Um dos temas que a autora aborda é amor e os relacionamentos. Na crônica Fizeram a gente acreditar ela traz uma análise certeira e contundente sobre a idealização no amor romântico.

Martha apresenta seus pensamentos sobre o tema de maneira honesta, mostrando que a vida pode diversos caminhos, não existindo uma fórmula para vivenciar o amor. O que fica claro em suas palavras é a necessidade de autoamor antes de mais nada.

Com licença poética - Adélia Prado






Com licença poética (1976), de Adélia Prado

O poema mais famoso da escritora mineira Adélia Prado é Com licença poética, que foi incluído no seu livro de estreia chamado Bagagem.

Como era até então desconhecida do grande público, o poema faz uma breve apresentação da autora em poucas palavras.

Além de falar de si mesma, os versos também mencionam a condição da mulher na sociedade brasileira.

O poema é ainda faz referência a Carlos Drummond de Andrade porque usa uma estrutura semelhante ao seu consagrado Poema das Sete Faces. Drummond, além de ter sido um ídolo literário para Adélia Prado, era também um amigo da poetisa novata e impulsionou muito sua carreira.

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.


Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

DANDO DE GOLEADA - João Batista de Paula

 








DANDO DE GOLEADA

Precisamos de vitória, sucesso, êxito,

bom exemplo e goleada   de luz e paz.

 

Gol em segurança.

Gol em saúde.

Gol em progresso.

Gol em realidade

Gol em servir

 

Em acolhimento

Em bom exemplo

Em trabalho

Em transporte

Em verdade

 

Em justiça

Em esporte

Em geração de emprego

Em qualidade de vida

 

Em honra

Em virtude

Em política social

Em estrada

Em habitação

 

Em ordem

Em respeito

Em educação

Em bondade

Em cortesia

 

Gol em conhecimento

Em educação e conhecimento.

 

Gol em ladainha de coisas boas e em qualidade de vida.

 

É  Gol.

É  Gol em zona de conforto.

 

Fez seu gol hoje?

Lembre-se:

Deus não joga, mas fiscaliza.

 


Autor- Joao Batista de Paula - Escritor e Jornalista.

Foto - Produção


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6.29.2026

Autorressuscitação durante um ataque cardíaco.

Autorressuscitação durante um ataque cardíaco.  Por favor, invista dois minutos do seu tempo e leia isto:

   1. Suponha que às 19h25 você vá para casa (sozinho, é claro) depois de um dia particularmente difícil no trabalho.

   2. Você está realmente cansado, chateado e frustrado.

   3 De repente você começa a sentir uma forte dor no peito e a dor continua no braço e até a mandíbula.  Você está a cerca de 5 km do hospital mais próximo de sua casa.

   4. Infelizmente, você não sabe se pode chegar lá.

   5. Você é treinado para realizar a RCP, mas o cara que ministrou o curso não lhe disse como realizá-la em si mesmo.

   6. Como sobreviver a um ataque cardíaco quando você está sozinho?  Como muitas pessoas estão sozinhas quando sofrem um ataque cardíaco, para uma pessoa cujo coração está batendo incorretamente e começa a se sentir fraco, faltam apenas 10 segundos antes da perda de consciência.

   7. No entanto, essas vítimas podem ajudar a si mesmas tossindo vigorosamente repetidas vezes.  A respiração profunda deve ser feita antes de cada tosse, e a tosse deve ser profunda e prolongada, como ao produzir escarro das profundezas do tórax.  Respirar e tossir (deve ser repetido a cada dois segundos sem parar) até que a ajuda chegue, ou até que você sinta o coração batendo normalmente novamente.

   8. As respirações profundas colocam oxigênio nos pulmões e os movimentos de tosse pressionam o coração e mantêm a circulação sanguínea.  A ação de pressionar o coração o ajuda a retornar ao seu ritmo normal.  Desta forma, as vítimas de ataque cardíaco podem chegar ao hospital.

   9. Conte para o maior número de pessoas possível.  Você pode salvar suas vidas!

   10. Um cardiologista diz que se todos que receberem este e-mail forem gentilmente enviados para 10 pessoas, provavelmente salvaremos vidas pelo menos uma vez.

   11. Ao invés de enviar piadas, por favor... doe encaminhando este e-mail que pode salvar a vida de uma pessoa.

   12. Se esta mensagem chegar até você... mais de uma vez... por favor, não fique chateado... em vez disso, fique feliz por ter muitos amigos que se importam com você.


Enviado; Edvaldo Pinheiro

Imagem: Google


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6.28.2026

A COPA DO MUNDO E O FUMO DO CACHIMBO

A COPA DO MUNDO E O FUMO DO CACHIMBO

Crônica de um país que dança conforme a música, mas esquece de olhar a letra. Era uma vez um torneio de futebol que movia mais dinheiro que a dívida externa de alguns países. Bilhões, minha gente, com "B" maiúsculo. US 41 bilhões no PIB global, dizem as projeções. A FIFA, essa senhora de sorriso largo e mãos hábeis, prevê embolsar sozinha US 13 bilhões nesta copa de 2026. Treze bilhões. Com "B". É tanto zero que até a calculadora pede arrego.

Mas vamos por partes, que a crônica não se faz com pressa.

Os direitos de transmissão, essas migalhas modernas que vendemos por US 4,3 bilhões. Os patrocínios, que chegam a US 2,8 bilhões — porque nada diz "eu acredito neste produto" como vê-lo estampado no peito de um craque suado. E os ingressos, claro, aqueles pedacinhos de papel que custam o preço de um carro usado e lhe dão o direito de ficar em pé sob o sol quente torcendo por um gol. São US$ 3 bilhões só nisso. E aqui, meus caros, entramos no capítulo brasileiro da história.

Porque se há país que entende de Copa do Mundo, esse país é o Brasil. Mas entende, também, de uma arte mais antiga: a de transformar dinheiro público em fumaça.

Não me interpretem mal. O brasileiro ama o futebol com a intensidade de quem ama a própria mãe. E a Copa é a festa da mãe, o Natal, o Ano-Novo e o aniversário do vovô tudo junto. Mas enquanto a gente agita a bandeirinha verde-amarela e veste a camisa canarinho com o peito estufado de orgulho, lá nos bastidores...

Ah, os bastidores!

A infraestrutura é superfaturada, o que é um eufemismo bonito para dizer "roubo". Boa parte da grana, essa grana — dizem as más línguas — vai parar nas algibeiras de quem está no poder e seus "lacaios". Palavra feia, lacaios, mas que cabe como luva em certas mãos gordas e suadas.

A mídia, essa parceira de primeira hora, nos serve o circo em bandeja de prata. E nós, como bons romanos modernos, aplaudimos. O "pão e circo" de hoje tem sabor de cerveja gelada e cheiro de grama recém-cortada. Enquanto isso, os impostos aumentam, os cofres públicos são saqueados, e a gente nem percebe — porque na televisão tá passando o replay daquele golaço.

A FIFA, no alto de seu trono de cifrões, arrecada a parte do leão. Mas, vá lá, pelo menos repassa algumas migalhas: o Programa de Benefícios para Clubes paga diárias que ultrapassam US$ 5 mil por dia para as equipes que cedem jogadores. Flamengo, Palmeiras, Atlético Mineiro e outros tantos engordam seus cofres com esses milhões. É o que se chama, em bom português, de "chover no molhado".

As seleções recebem suas cotas de participação, o campeão leva prêmios multimilionários, os jogadores compram mais um carro, mais uma mansão, mais uma ilha no Caribe.

E a gente?

Ah, a gente. A gente fica com o que diz o dito popular: o mesmo que recebe o cachimbo.

Muito fumo.

Porque no fim, quando os fogos de artifício se apagam, quando o último gol é marcado, quando a taça é erguida e as câmeras se desligam, o que sobra para o povão é exatamente isso: fumaça. Fumaça dos sonhos que evaporaram, das promessas que não se cumpriram, das reformas que nunca vieram. Fumaça daquela ilusão bonita que nos vende a cada quatro anos, e que a gente compra — ah, como a gente compra — com o coração aberto e a carteira vazia.

Não que o futebol seja o vilão. O futebol, no fundo, é apenas o palco. O espetáculo é nosso, a plateia somos nós, e os atores principais são os mesmos de sempre: o poder, o dinheiro e a distração.

Enquanto isso, lá fora, a bola rola. E nós, como sempre, corremos atrás dela. Uns para chutar, outros para levar – neste caso é a “bolada”.

Que os deuses do futebol nos protejam, e que a gente aprenda, um dia, que o jogo mais importante não é o que acontece no gramado — é o que acontece enquanto a gente não está olhando.


Encaminha: Gustavo Veloso

Foto e Imagem: Google


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PROSEANDO A MENTE INQUIETA -Agilson Cerqueira



PROSEANDO A MENTE INQUIETA

Agilson Cerqueira



Há em mim um prumo quebrado e uma régua incapaz de medir o abismo. Carrego instrumentos feitos para a exatidão, mas é justamente diante do imensurável que descubro seus limites. Nem tudo se alinha, nem tudo se calcula. Há profundezas que desafiam qualquer geometria.


Quando a lógica se torna excessivamente confortável, transforma-se em prisão. O delírio: não o da perda, mas o da criação — converte-se em rito de passagem, na coragem de ultrapassar as fronteiras do previsível. É nele que o pensamento ousa nascer outra vez.


A alma não aceita ser repartida em fatias, assim como um rio jamais aprende a correr em linhas retas. Quem vive apenas da norma acostuma-se ao repetivel; quem se arrisca ao salto encontra uma certeza rara: é do atrito que surge a luz. O conflito, a dúvida e a inquietação são os verdadeiros artífices da consciência.


Há os que enxergam apenas o que o dia revela. Outros, porém, aprendem a reconhecer as estrelas antes mesmo que a noite se complete. Uns habitam o mundo pelos sentimentos; outros o percorrem pela razão. Poucos conseguem compreender que ambos são rios que desembocam no mesmo mar da existência.


Ser é oscilar entre intensidades. É rir e chorar, celebrar e decepcionar-se, construir e desfazer-se inúmeras vezes. É caminhar, simultaneamente, entre o lirismo que consola e o ceticismo que interroga, sem jamais encontrar repouso definitivo.


Talvez a mente inquieta seja exatamente isso: uma consciência que se recusa ao conforto das respostas prontas. Uma tensão permanente entre o cálculo e o sonho, entre a lucidez e o espanto. Não uma enfermidade da alma, mas sua mais alta expressão de liberdade.



Agilson Cerqueira 
Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico. 
Licença: Creative Commons

6.27.2026

A Tempestade Invisível - Ademilton Batista



A Tempestade Invisível - Ademilton Batista


A tempestade que assusta, 

é também a que renova. 

Seus pingos não trazem destruição, 

trazem vida, esperança e transformação.


Há os que se escondem em suas redomas 

para não molharem as suas vestes, 

e os que se permitem sentir a chuva.


Mas são os que saem,

deixando rastros nas calçadas, 

que inspiram os outros 

e ajudam a terra a florescer.


E quando a tempestade se dissipa, 

o sol limpa suas lágrimas quentes 

e o céu se abre em azul celeste. 


Porque a vida sempre encontra 

um jeito de recomeçar.


Novas sementes. 

Novas esperanças. 

Um novo tempo.


É a vida encontrando seu novo jeito 

de dar sentido, recomeçando 

e replantando suas novas sementes 

de esperança e paz para 

um novo tempo que virá.




Ademilton Batista


Natural de Salvador, reside em Itabuna, Bahia, desde 1989. Escritor, ator e comunicador, é autor do livro “Vencendo o Tempo” e prepara novos lançamentos, incluindo “Incrível Amor” e “O Meu Céu”, além de outras obras inéditas em poesia, contos e romance de época. Acadêmico em diversas instituições literárias nacionais e internacionais, já foi premiado e publicado em países da América Latina, Europa, África e Ásia, sendo também três vezes nomeado Embaixador da Palavra pela Fundación César Egido Serrano, em Madrid. Apresenta, junto ao filho Vitor Augusto Xavier, o programa multimídia “Café com Poesia e Cinema” (TVI/YouTube) e idealiza o projeto “Poesia que Cura”, levando recitais a hospitais, creches e abrigos. No cinema, participou do drama “Arthur” e interpreta Adonias Filho em uma obra de ficção. Na Academia de Letras de Itabuna – ALITA, ocupa a Cadeira nº 4, cuja patrona é Helena Borborema.


Autoria: Ademilton Batista

Foto: Acervo Pessoal do Autor / Produção


Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com


VIVER FAZ BEM - João de Paula

 









VIVER FAZ BEM

João  de Paula .

Ser diferente é normal.

É! Se você souber aceitar bem a definição  de ser diferente,  original, único, importante, maravilhoso, benquisto, benigno, vivo.

O importante é viver feliz, com prazer,  com emoção, com saúde, com paz, com bom exemplo,

com satisfação, com amor a vida e a Deus, que é o doador e provedor de toda vida.

Comer

Saborear.

Viver.

Agradecer.

Produzir.

Compartilhar.

Dançar.

Cantar.

Nadar.

Praticar gentilezas e cortesias. São estas coisas ou ações que nos fazem ser diferentes dos iguais, que elevam os nossos níveis e geram felicidades.

Existem o ditado que diz  " somos todos iguais" , que a entrada e a saída da vida são iguais para todos.

Sim!

Agora o diferencial é  amar o próximo, os amigos, as famílias e as comunidades em que vivemos e poder  edificar obras que beneficiam a humanidade, em relação aos templos de virtudes, bem querer em  viver bem com amor e gratidão, ou mais.

A bondade vem de Deus.

O amor vem de Deus

O belo vem de Deus e por isso devem

 

Autoria: João de Paula

Foto: Produção


Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com

ZITO: O HOMEM QUE MANDOU ATÉ EM PELÉ

 

ZITO: O HOMEM QUE MANDOU ATÉ EM PELÉ

Se Pelé foi o rosto mais brilhante do Santos e do futebol brasileiro, José Ely de Miranda, o eterno Zito, foi uma de suas consciências mais fortes. Líder por natureza, dono de personalidade imponente, inteligência tática e um senso de responsabilidade raro, Zito foi muito mais do que um volante vencedor: foi o eixo emocional, competitivo e moral de uma das maiores equipes da história do futebol. Em um time repleto de craques, ele era o homem que dava equilíbrio, ordem e alma ao espetáculo.

Zito nasceu em 8 de agosto de 1932, em Roseira, no interior de São Paulo, cidade pequena do Vale do Paraíba. Vinha de origem humilde, como tantos jogadores de sua geração, e cresceu em um Brasil ainda profundamente desigual, onde o futebol aparecia como possibilidade de ascensão e reconhecimento. Desde cedo, aprendeu que talento sem disciplina não bastava, e sua formação como homem e atleta seria marcada por esse princípio.

Antes de chegar ao Santos, Zito despontou no futebol amador de sua região e encontrou a projeção profissional no Esporte Clube Taubaté, o tradicional "Burro da Central". Foi lá que ele não demorou para chamar atenção pela combinação rara de força física, inteligência de marcação e liderança. Ele não era um volante limitado ao desarme. Tinha boa técnica, sabia sair jogando, possuía leitura de jogo e, sobretudo, entendia o futebol como poucos. Em campo, parecia sempre perceber o que a partida pedia antes dos demais.

Em 1952, após impressionar em um amistoso, Zito chegou ao Santos Futebol Clube. O clube ainda não era o império mundial que se tornaria nos anos seguintes, mas já se estruturava para uma transformação histórica, e a presença do volante seria decisiva nesse processo. Ao longo da década de 1950, ele se firmou como titular e se transformou em um dos alicerces do time. Antes mesmo da explosão definitiva de Pelé, Zito já era uma figura central na Vila Belmiro.

O contexto em que sua carreira floresceu é essencial. O futebol brasileiro atravessava uma fase de reconstrução emocional após o trauma da Copa de 1950, enquanto os clubes paulistas e cariocas disputavam protagonismo nacional. O Santos ainda buscava romper as fronteiras de um grande clube estadual para se tornar uma potência nacional e, depois, internacional. Foi dentro dessa transição que Zito se transformou em peça-chave.

Quando Pelé surgiu e a geração dourada começou a se consolidar, Zito já era um líder pronto. Ao seu redor, o Santos passou a reunir um elenco extraordinário: Gilmar, Mauro Ramos, Lima, Dalmo, Calvet, Mengálvio, Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. Dentro desse universo de craques, Zito exercia um papel vital. Era o volante que protegia a defesa, organizava a transição, orientava os companheiros e sustentava emocionalmente a equipe nos momentos de pressão.

Não por acaso, recebeu o merecido apelido de “Gerente”. O nome resumia perfeitamente sua função, pois Zito administrava o time dentro de campo como se fosse um treinador calçando chuteiras. Era ele quem organizava, cobrava, acalmava, empurrava e mantinha a estrutura coletiva funcionando. Sua liderança era prática e diária. Em uma equipe famosa pelo talento ofensivo avassalador, Zito era o homem que garantia que o brilho não se transformasse em desordem.

Sua autoridade era tão incontestável que Zito era, possivelmente, a única pessoa no mundo do futebol com total liberdade para dar broncas homéricas no Rei. Se Pelé prendesse demais a bola, tentasse enfeitar uma jogada de maneira desnecessária ou deixasse de voltar para ajudar na marcação, o grito ríspido do capitão ecoava pelo estádio, muitas vezes exigindo: "Toca essa bola, garoto!". O mais impressionante era a reação: Pelé abaixava a cabeça, pedia desculpas e obedecia. O camisa 10 compreendia que, enquanto ele era o gênio indiscutível com a bola nos pés, Zito era o comandante do campo, sendo reconhecido pelo próprio Pelé como o grande líder que o manteve com os pés no chão desde sua estreia aos 15 anos.

Para que essa engrenagem funcionasse, sua parceria com Mengálvio foi uma das mais importantes da história do Santos. Se Mengálvio era a costura refinada, o passe limpo e a inteligência silenciosa, Zito era a imposição, a voz, o choque, o combate e a liderança emocional. Juntos, davam o equilíbrio perfeito ao meio-campo, permitindo a liberdade criativa plena de Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. Sem eles, o Santástico dificilmente teria alcançado a mesma consistência avassaladora.

A grandeza do Gerente, contudo, não se limitou ao Santos. Ele também foi um personagem crucial da Seleção Brasileira, participando das Copas de 1958 e 1962, sagrando-se bicampeão do mundo em ambas. Em 1958, na Suécia, integrou a equipe que mudou a história do esporte no país. Tamanha era a sua imposição no vestiário nacional que, mesmo ao lado de gigantes como Didi e Nilton Santos, Zito assumiu a faixa de capitão da Seleção Brasileira em diversas oportunidades na ausência de Bellini ou Mauro Ramos.

Sua importância em 1962, no Chile, foi especialmente imensa. Com a lesão de Pelé ainda na fase inicial, a Seleção precisou reorganizar suas forças. Garrincha brilhou como protagonista, mas o time necessitou desesperadamente da maturidade de Zito para manter a estabilidade em meio à pressão. A coroação desse protagonismo ocorreu de forma inesquecível na grande final contra a Tchecoslováquia, quando o volante, aparecendo como elemento surpresa, marcou o gol da virada que colocou o Brasil em vantagem (2 a 1) no jogo que terminaria com a taça e o placar de 3 a 1.

No Santos, a lista de conquistas impressiona a qualquer fã do esporte. Zito foi parte essencial do time que colecionou Campeonatos Paulistas, Torneios Rio-São Paulo, Taças Brasil, Copas Libertadores, Mundiais Interclubes e Recopas. Era um vencedor serial, um homem acostumado a competir no mais alto nível imaginável.

Apesar de toda essa inteligência tática, após encerrar a carreira nos gramados em 1967, Zito recusou o caminho natural de se tornar treinador. Ele afirmava, com total franqueza, que seu nível de exigência era tão alto que perderia a paciência facilmente com jogadores que não tivessem o mesmo compromisso e a mesma disciplina cega que ele entregava em campo.

Mesmo assim, seu maior legado pós-carreira esteve na construção de uma mentalidade vencedora e na descoberta de novos ídolos. Trabalhando como dirigente e coordenador das categorias de base, Zito se tornou um "olheiro de ouro", sendo o responsável por construir a ponte entre a Era Pelé e as gerações futuras. Foi ele quem descobriu Robinho no final dos anos 1990, levando-o para a Vila Belmiro. Anos depois, além de observar e aprovar Neymar e Ganso, Zito bateu o pé para que o Santos aceitasse um garoto ainda muito jovem, mas extremamente promissor, chamado Gabriel Barbosa, o Gabigol.

Zito faleceu em 14 de junho de 2015, aos 82 anos, deixando uma lacuna enorme na história santista e brasileira. Sua morte não representou apenas a perda de um ex-jogador, mas de uma das grandes consciências do futebol nacional. Um homem que viveu o esporte com seriedade, paixão e senso de missão inabaláveis.

Falar de Zito é falar de um tipo de grandeza que nem sempre aparece primeiro nos compactos ou nas manchetes, mas que sustenta as verdadeiras dinastias. É falar do volante que pensava o jogo, que protegia os companheiros, que liderava sem pedir licença e que ajudou a dar estrutura a um dos times mais mágicos de todos os tempos. Se Pelé foi o rei, Zito foi seu guardião e mentor mais importante. No Santástico, ele não foi apenas um coadjuvante de luxo. Foi a espinha dorsal emocional e competitiva de um império.

Para consolidar a imensidão desse legado, vale destacar algumas curiosidades importantes que ilustram a figura completa de Zito:

Seu nome completo era José Ely de Miranda: Muita gente conhece apenas o apelido histórico, mas seu nome completo raramente aparece nas narrativas mais populares. Recebeu o apelido de “Gerente”:

O apelido surgiu porque ele “administrava” o time dentro de campo: orientava, cobrava, organizava e liderava. Era praticamente um técnico jogando. Chegou ao Santos antes da explosão de Pelé: Ou seja, participou ativamente da construção da era vitoriosa santista antes mesmo de o clube se tornar o time mais famoso do planeta.

Era visto como o grande tutor dos mais jovens: No Santos e na Seleção, tinha postura de líder experiente, alguém que cobrava incessantemente, mas que também protegia o grupo de todas as pressões externas. Marcou na final e foi bicampeão mundial:

Conquistou as Copas de 1958 e 1962, sendo um dos jogadores fundamentais da estrutura tática, coroando sua trajetória com o gol da virada no Chile. Foi um dos homens mais respeitados do vestiário:

Pelé, Pepe e outros companheiros sempre destacaram a liderança inquestionável e a força de personalidade do volante. Tinha fama de durão, mas também de agregador:

Cobrava intensamente, discutia e exigia perfeição, mas tudo em nome da equipe. Era respeitado e amado justamente porque se comprometia totalmente com o coletivo. Sua dupla com Mengálvio foi uma das chaves do :

Sem o contrapeso perfeito oferecido pelos dois no meio-campo, o quarteto ofensivo não teria a mesma liberdade e proteção para destruir as defesas adversárias. Formou a realeza moderna da Vila Belmiro:

Depois de aposentado, não apenas ajudou a lapidar Neymar e Ganso, como foi o grande responsável por descobrir Robinho e Gabigol, mantendo a engrenagem de craques do Santos viva décadas após sua aposentadoria.

É considerado um dos maiores volantes da história do futebol mundial:  Mesmo sem a aura midiática de outros nomes ou atacantes, seu peso histórico é colossal, sendo a referência definitiva da camisa 5 no Brasil.

 

Fonte: Um Cadin de café

Foto: produção

 

 

6.26.2026

Quem foi Gertrude B. Elion?

Em 1937, uma jovem de 19 anos chamada Gertrude B. Elion se formou com as mais altas honras em química. Era o tipo de excelência acadêmica que normalmente abriria portas imediatamente, mas o mundo ao seu redor não funcionava assim. Ela tentou seguir adiante nos estudos, buscou bolsas, tentou ingressar em programas de pós-graduação em diversas universidades — e encontrou a mesma resposta repetida de formas diferentes: não havia espaço.

Quando procurou emprego em laboratórios de pesquisa, a rejeição também foi constante. Algumas instituições diziam abertamente que não contratavam mulheres para ciência. Outras eram mais sutis, mas igualmente claras: mulheres no laboratório seriam vistas como distração, não como cientistas. Aos poucos, aquela promessa de carreira brilhante foi sendo substituída por uma rotina de sobrevivência.

Para continuar próxima da ciência, ela aceitou trabalhos muito abaixo de sua formação. Trabalhou como supervisora de qualidade em alimentos, como recepcionista em consultório médico e como professora substituta no ensino médio. Em certos períodos, chegou a trabalhar sem salário em laboratórios apenas para não perder contato com a pesquisa, enquanto juntava dinheiro para estudar à noite. O caminho para um doutorado parecia cada vez mais distante — e, de fato, nunca viria.

Mas o que parecia uma história de bloqueio se transformaria, décadas depois, em uma das trajetórias mais influentes da medicina moderna.

Nascida em Nova York em 1918, filha de imigrantes, Elion cresceu com um talento acadêmico evidente desde cedo. Pulou séries na escola e terminou o ensino médio aos 15 anos. Foi também nessa idade que uma perda pessoal profunda marcou sua vida: a morte do avô, vítima de câncer gástrico. A incapacidade da medicina em salvá-lo deixou nela uma impressão duradoura — não apenas de dor, mas de propósito. A partir daquele momento, decidiu que sua vida seria dedicada a entender e combater doenças.

Conseguiu ingressar no Hunter College durante a Grande Depressão, em um contexto em que o acesso ao ensino superior era restrito e competitivo. A instituição, por ser pública e voltada à formação de mulheres qualificadas, acabou sendo uma das poucas portas abertas para seu talento. Ainda assim, o ambiente profissional à sua volta continuava profundamente desigual.

A virada decisiva aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial. Com muitos cientistas homens recrutados para o conflito, laboratórios e empresas farmacêuticas começaram a abrir espaço para pesquisadores que antes eram ignorados. Foi assim que Elion entrou na indústria farmacêutica, na Burroughs Wellcome, onde conheceu George Hitchings. Essa parceria mudaria não apenas sua vida, mas a forma como a medicina moderna seria desenvolvida.

Juntos, eles rejeitaram a abordagem tradicional de tentativa e erro na criação de medicamentos. Em vez disso, passaram a trabalhar com uma ideia inovadora para a época: entender as diferenças químicas entre células saudáveis e células doentes e, a partir disso, desenhar medicamentos capazes de agir de forma seletiva. Era o início de uma nova lógica na farmacologia — mais precisa, mais racional e mais eficaz.

Esse método levou a descobertas decisivas. Um dos primeiros grandes resultados foi a 6-mercaptopurina, que revolucionou o tratamento da leucemia infantil em um período em que o diagnóstico da doença era frequentemente uma sentença de morte. Depois vieram a azatioprina, fundamental para transplantes de órgãos ao reduzir a rejeição, e contribuições importantes para antivirais usados no tratamento do herpes e que abriram caminho para terapias posteriores contra doenças como a AIDS.

Em 1988, Gertrude Elion recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em Estocolmo. Tinha 70 anos. Nunca havia concluído um doutorado. Mas tinha ajudado a transformar profundamente a medicina e contribuído para salvar milhões de vidas ao redor do mundo.

Fontes.

1. Nobel Prize — Gertrude B. Elion Biography

2. National Institutes of Health (NIH) — Profiles in Science: Gertrude Elion

3. American Chemical Society (ACS) — Historical Profiles of Women in Chemistry


Fonte: História perdida 

Foto: Google

Amor e discos voadores

 

Amor

Outro dia liguei o rádio e ouvi que faziam um concurso entre os ouvintes procurando uma definição para amor. As respostas eram muito ruins, até dava para se pensar que nem ouvintes nem locutores entendiam nada de amor realmente; o lugar-comum é mesmo o refúgio universal, que livra de pensar e dá, a quem o usa, a impressão de que mergulha a colher na gamela da sabedoria coletiva e comunga das verdades eternas. O que aliás pode ser verdade.

Mas a ideia de definição me ficou na cabeça e resolvi perguntar por minha conta. Tive muitas respostas. A impressão geral que me ficou do inquérito é que de amor entendem mais os velhos do que os moços, ao contrário do que seria de imaginar. E menos os profissionais que os amadores __digo os amadores da arte de viver, propriamente, e os profissionais do ensino da vida.

Vamos ver:

Dona Alda, que já fez bodas de ouro, diz que o amor é principalmente paciência. Indaguei: e tolerância? Ela disse que tolerância é apenas paciência com um pouco de antipatia. E diz que amor é também companhia e amizade. E saudade? [...] Não. Afinal, o amor não vai embora. Apenas envelhece, como a gente.

A jovem recém-casada me diz que o amor é principalmente materialismo. Todos os sonhos das meninas estão errados. Aquelas coisas que se leem nos livros da Coleção das Moças, aqueles devaneios e idealismos e renúncias e purezas, está tudo errado. Quando a gente casa, é que vê que o amor não passa de materialismo. [...]

Um senhor quarentão, bem casado,  pai de filhos: "Amor, como se entende em geral, é coisa da juventude. Depois de uma certa idade, amor é mais costume. É verdade que tem a paixão com seus perigos. Mas você falou em amor e não em paixão, não foi?"

__ E de paixão, que me diz? __ Aí ele se fecha em copas. "Deixo isso para os jovens. Velhote apaixonado é fogo. E eu não passo de um pai de família."

A mãe da família desse senhor: "Amor? Bem, tem amor de noiva, que é quase só castelos e tolices. Tem o de jovem casada, que é também muita tolice __ mas sem castelos. Complicado com ciúme, etc., mas já inclui algum elemento mais sério. E tem o amor do casamento, que é a realidade da vida puxada a dois. Agora, o amor de mãe... Você perguntou também o amor de mãe?"

Respondi energicamente que não: amor de mãe, não. Quero saber só de amor de homem com mulher, amor propriamente dito.

Diz o solteiro, quase solteirão, que se imagina irresistível e incansável: "Amor é perigo. Só é bom com mulher sem compromissos. [...] O melhor é amor forte e curto, que embriaga enquanto dura e não tem tempo para se complicar. Aquela história de marinheiro com um amor em cada porto tem o seu brilho, tem  o seu brilho".

O pastor protestante diz que o amor é sublimar a atração entre os dois seres, é atingir a mais alta e pura das emoções. Não confundir amor com sexo! [...]

Já o padre católico não elimina o sexo do amor. Explica que, pelo contrário, o sexo, no amor, é tão importante como os seus demais componentes __ o altruísmo, a fidelidade, a capacidade de sacrifício, a ausência do egoísmo. E é tão importante que, para santificar o amor sexual __ o amor conjugal __, a Igreja o põe sob a guarda de um sacramento, o santo matrimônio. E ante a pergunta: se tudo é assim tão santo, por que os padres não casam? O padre velho não se importa com a impertinência, sorri: "Nós nos demos a um amor mais alto. Casamento, para nós, seria pior que bigamia..."

E por último tem a matrona sossegada que explica: "Amor? Amor é uma coisa que dói dentro do peito. Dói devagarinho, quentinho, confortável. É a mão que vem da cama vizinha, de noite, e segura na sua, adormecida. E você prefere ficar com o braço gelado e dormente a puxar a sua mão e cortar aquele contato. Tão precioso ele é. Amor é ter medo __ medo de quase tudo __ da morte, da doença, do desencontro, da fadiga, do costume, das novidades. Amor pode ser uma rosa e pode ser um bife, um beijo, uma colher de xarope. Mas o que o amor é, principalmente, são duas pessoas neste mundo".

 

(De "Cenas brasileiras", in Coleção Para gostar de ler. São Paulo, Ática, 1995)

 

Os discos voadores

     Eu por mim acredito. Por que não acreditaria? Nada vejo que justifique a descrença. Acredito em tudo. Que têm 15 metros de diâmetro, que são feitos de um metal desconhecido, brilhante como prata polida, que se compõem de três círculos concêntricos dos quais só um __ o do meio __ gira, fazendo o engenho mover-se; acredito que deixam um rastro luminoso por onde andam __ decerto a poeira fosforescente dos mundos siderais que percorreram. E acredito, principalmente, que sejam pilotados por homúnculos de meio metro de estatura, macrocéfalos, horrendos, vindos sabe Deus de que planeta, Marte, Vênus ou Saturno.

     Ah, acredito. Por que não seria verdade? Todo o mundo os tem visto, no Oriente e no Ocidente, no Pacífico e no Atlântico, nas costas da Califórnia, no Peru e no Amazonas, em Maceió, no Uruguai; e até mesmo aqui no Rio teve um cavalheiro que os viu durante 45 minutos; viu-os com os seus olhos que a terra há de comer, se me permitem a expressão, e por sinal chamou a radiopatrulha, no que se mostrou homem muitíssimo avisado.

     Ilusão coletiva uma conversa. Também a bomba voadora dizia-se que era ilusão coletiva. O povo sabe muito bem onde põe os olhos e os jornais contam muito mais verdades do que supõe o ingênuo público, viciado a acreditar em desmentidos. Se tanta gente tem visto discos voadores, é porque há discos voadores. E afinal de contas, neste mundo de aparência,  quem é que pode distinguir da realidade a dita aparência, e até onde se pode afirmar que uma coisa é concreta ou é ilusão dos sentidos? Arco-íris também é ilusão dos sentidos e neste mesmo instante lá está um, brilhando no céu, entre as nuvens molhadas, luminoso e autêntico como um corpo vivo.

     Eu creio nos discos e tenho medo deles. Sei muitíssimo bem que são o sinal positivo do fim do mundo. Se até está nos livros, se foi profetizado há muito tempo! E por que não seria o fim do mundo? Quais são os nossos méritos assim tão grandes para nos defenderem da catástrofe? Os dez justos que faltaram a Sodoma, com razão ainda maior, nos faltariam a nós.

    Quem tiver os seus pecados trate de ir-se arrependendo que a hora chegou e chegou feia. Quem não viu o que tinha de ver, procure olhar e fartar os olhos; quem não amou ame depressa, quem não se vingou se vingue. O tempo urge __ faça-se o que é mister ser feito, que o relógio já bateu. O mundo vai acabar-se.

     Pelo menos o nosso mundo. Outro pode nascer dos nossos destroços, mas há de ser um mundo diferente, povoado sabe Deus por quem __ só o não será pelos nossos netos, que esses não chegarão sequer a formar-se nas entranhas das nossas filhas. E estas estarão mortas conosco, belas, inocentes e malfadadas, perdendo a chama da vida antes de a poderem passar adiante.

     O mundo que virá depois há de ser deles, que já nos vigiam e já preparam o caminho. Então vocês não compreendem, irmãos, que esses discos misteriosos que pairam no alto, librando-se no ar como um gavião peneirando em cima da presa, pairam no alto e depois vão-se embora são os olheiros deles, são os quintas-colunas, os esculcas das multidões de homenzinhos de cabeça grande que estão destinados a ser os nossos senhores? Depois dos observadores, chegarão os exércitos com armas tão assombrosas que, perto delas, a bomba de hidrogênio do presidente Truman é como uma ronqueira de São João. E que idade terão atingido eles, se já minguaram assim no tamanho e cresceram tanto a cabeça?

     Como hão de estar apurados, refinados, 90% de matéria bruta __ e não tão bruta assim, já que pode ser tão pouca? Que poderemos nós contra eles, lerdos gigantes microcéfalos, mal saídos da grosseira idade do ferro e gatinhando ainda na infância da era atômica?

     Que pensarão de nós, vendo-nos tão atrasados, tão primitivos, tão irremediavelmente presos à carne e às suas misérias, divertindo-nos barbaramente com guerras de selvagens, usando engenhos grosseiros de metal rude e brutas explosões de pólvora e nitroglicerina?

     Ah, tenho medo, tenho medo. Que será de nós quando eles do céu se despencarem aos cachos, tão estranhos e terríveis, implacáveis na convicção cega do divino direito da sua sobrevivência à custa da nossa? De que modo nos irão destruir ou de que meios usarão para nos escravizar __ como animais de força bruta ao seu serviço? E como serão eles __ transparentes, gelatinosos, todo o músculo e osso apurado em matéria nobre, cérebros andantes, quase sem vísceras, talvez libertos das baixas necessidades da comida e do repouso? E terão um peito capaz de piedade, terão olhos capazes de ver além da nossa grotesca feiúra, da nossa maldade e da nossa imperfeição?

     Quem sabe são anjos; e virão destruir como os anjos destroem, sem ódio, sem prazer na carnificina, apenas cumprindo ordens mais altas, com a sua espada de fogo, coração feito de diamante, que nada empana, mas nada amolece. Contudo, também podem ter evoluído apenas na direção da besta, e como bestas na quinta-essência do aperfeiçoamento serão ferozes e implacáveis __ serão os próprios descendentes do Leviatã.

     Cuidado que eles estão chegando. Primeiro foi o aviso, mas em breve já não haverá avisos. Hão de baixar aos milhares e aos milhões, pequeninos e atrevidos, hão de conhecer todos os segredos, decerto se multiplicam em massa, ao sabor das vãs necessidades, produzem guerreiros e chefes ao seu gosto, terão aprendido o processo de reduzir a infância a apenas alguns meses, produzindo por sistema adiantadíssimo adultos temporões de corpo transparente e cabeça grande, no mesmo espaço de tempo que nós gastamos para fabricar um automóvel.

     Ah, os que não acreditam! Ah, os que zombam! Ah, os sábios que espiam nos seus estúpidos telescópios e negam o que o olho nu enxerga! Medem as estrelas com suas réguas, e depois vêm-nos dizer que não há perigo, que nos assustamos com simples meteoro. Isso mesmo deviam declarar os pajés das tribos americanas aos guerreiros assustados que pela primeira vez avistaram as asas das caravelas subindo no horizonte. São pássaros, são raios de sol __ são sonhos dos olhos! E assim os brancos chegaram, e acharam os guerreiros desprevenidos e inermes. O mesmo sucederá conosco. É mais cômodo duvidar, é muito mais fácil afirmar que tudo é engano e mentira.

   E, enquanto isso, os discos voadores partem aos milhares das suas bases de céu além, e cortam zumbindo o éter vazio, e escolhem para o seu pouso o que há de mais bonito e mais sedutor no mundo __ a Califórnia, o golfo do México, a Itália, as praias amenas do Atlântico Sul...


Fonte: Pensador

Foto: Google

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