Há pessoas que passam pela vida. Há outras que ajudam a construir o lugar onde vivem. E há aquelas raras criaturas que se confundem com a própria história da cidade. Zélia Lessa pertence a essa última categoria.
Quando nasceu, em 12 de junho de 1926, Itabuna ainda era uma jovem cidade em crescimento, movida pelo sonho do cacau e pela coragem de seus pioneiros. As ruas eram outras, os costumes eram outros, os sons eram outros. O mundo ainda aprendia a conviver com a eletricidade, os automóveis eram novidade para muitos e a televisão sequer fazia parte da imaginação popular. Foi nesse cenário que uma menina começou a descobrir os segredos da música.
Ainda criança, aproximou-se do piano como quem encontra um velho amigo. Algumas pessoas aprendem notas; Zélia parecia ouvir o que as notas tinham a dizer. Aos poucos, os sons transformaram-se em linguagem, e a linguagem transformou-se em missão. Enquanto muitos buscavam apenas uma profissão, ela encontrou um propósito.
O tempo passou. As décadas vieram e foram embora. Governos mudaram, costumes mudaram, gerações nasceram e desapareceram. Mas havia algo que permanecia constante em Itabuna: a presença discreta e firme daquela mulher dedicada à arte de ensinar.
Em salas de aula, em apresentações, em ensaios e encontros, Zélia foi espalhando sementes invisíveis. Algumas floresceram em músicos. Outras em professores. Outras apenas em cidadãos mais sensíveis à beleza da vida. Mas todas carregavam um pouco da sua influência.
A música, afinal, nunca foi apenas música para ela. Era educação. Era disciplina. Era afeto. Era construção de humanidade.
Quando fundou o Coral Cantores de Orfeu, em 1955, talvez nem imaginasse que estava criando uma das mais duradouras instituições culturais da região. O coral atravessaria décadas, encantaria plateias, revelaria talentos e faria da música um elo entre gerações. Quantas vozes passaram por suas mãos? Quantas histórias começaram em um ensaio? Quantos jovens encontraram ali um caminho para sonhar?
Talvez ninguém consiga responder. Há contribuições tão profundas que escapam às estatísticas.
Ao longo dos anos, Zélia tornou-se uma guardiã da memória cultural grapiúna. Em suas composições, especialmente na célebre Rapsódia Grapiúna, não estavam apenas notas musicais. Estavam os sons da terra do cacau, os costumes de um povo, as lembranças de uma região inteira transformadas em arte.
Enquanto muitos registravam a história com palavras, ela a registrava com melodias. E as melodias, às vezes, duram mais que os discursos
Chegar aos cem anos já é um feito raro. Chegar aos cem anos carregando uma vida dedicada ao conhecimento, à cultura e à formação humana é algo ainda mais extraordinário.
Zélia viu o mundo mudar diante de seus olhos. Viu o rádio chegar às casas. Viu a televisão transformar hábitos. Viu o homem chegar à Lua. Viu o surgimento da internet.
Viu gerações inteiras crescerem, envelhecerem e passarem adiante aquilo que aprenderam.
E, em meio a tantas transformações, continuou fazendo aquilo que sempre soube fazer: ensinar, inspirar e construir pontes entre pessoas através da música.
Talvez o maior legado de uma vida não esteja nos títulos recebidos, nas medalhas conquistadas ou nos aplausos acumulados. Talvez esteja nas marcas invisíveis que deixamos nos outros.
Se assim for, Zélia Lessa construiu uma obra monumental. Sua verdadeira biografia não está apenas nos livros ou nos registros oficiais. Está espalhada pelas salas de aula, pelos palcos, pelos corais, pelas famílias e pelos corações daqueles que, em algum momento, tiveram suas vidas tocadas por sua dedicação.
A cidade que a viu nascer cresceu. A menina tornou-se mestra. A mestra tornou-se referência. E a referência transformou-se em patrimônio afetivo de uma região inteira.
Aos cem anos, Zélia Lessa já não pertence apenas à sua família, aos seus alunos ou aos seus admiradores. Pertence à memória cultural de Itabuna. E algumas pessoas, quando alcançam essa condição, deixam de ser apenas personagens da história. Passam a ser parte dela.
Ademilton Batista
Escritor, Poeta, Ator e Comunicador
Brasil, Bahia, Itabuna. DRA12.06.2026





