CRÔNICA:
MINHA MÃE CRIANÇA
Ana Maria Machado
Cheguei da escola e vi a porta do quarto
aberta, a porta do armário aberta, a gaveta aberta, e minha mãe sentada no
chão, descalça, toda despenteada, com uma caixa fechada na mão. Dei um beijo
nela e olhei para a caixa. Era a coisa mais linda do mundo, toda de madeira,
mas madeira de cores diferentes, umas mais claras, outras mais escuras,
formando um desenho, uma paisagem, onde tinha um morro, uma casinha, um
pinheiro, umas nuvens no céu. Aí minha mãe abriu a caixa e tirou de dentro, bem
lá do fundo, um envelope de papel pardo, velho e meio amassado.
- Que é que tem aí dentro, mãe?
- Nem lembro mais, minha filha. Vamos
ver.
- Deve ser muita coisa, que o envelope
está bem gordinho.
E era mesmo. Um monte de retratos. Tinha um com umas pessoas sérias numa praça. Tinha outro com uma família toda, cheia de crianças e até um cachorro, bem debaixo da estátua do Cristo Redentor. Tinha mais um, de uma menina com dois laçarotes de fita na cabeça, no meio de uma planta esquisita, uma espécie de moita em forma de camelo, imagine só. Fiquei espantada:
- Como é que pode, mãe, planta que
parece bicho?
- É que eles cortavam a moita assim, era
moda, umas redondinhas, outras em feitio de poltrona, outras com formato de
bicho. Era na Praça Paris, um lugar com laguinho e repuxo, chafariz que acendia
colorido de noite. Parecia um balão d’água bem aceso no chão.
- Como é que você sabe disso tudo?
- Eu lembro, minha filha. Essa menina
aí sou eu.
- Não é possível. Você está
brincando...
Eu olhava para minha mãe e para o
retrato da menina, achava meio gozado aquilo, minha mãe criança, brincando no
galho de um camelo, pensando em balão d’água. E era meio esquisito, ela grande
ali na minha frente, sentada no chão, explicando coisas, toda animada:
- A gente ia de bonde, era ótimo,
fresquinho, todo aberto. Às vezes tinha
reboque. Quando a gente pagava a passagem, o motorneiro puxava uma cordinha e
tocava uma campainha, aí mudava um número numa espécie de relógio que ficava lá
no alto e marcava quantas pessoas viajavam no bonde.
Eu ficava imaginando como seria
aquilo, sabia que bonde era uma espécie de trem de cidade, já tinha visto em
filme na televisão, queria saber mais:
- E quando o motorneiro puxava a
cordinha, não tinha que largar o motor? Não era perigoso?
Mamãe achou graça:
- Não, que ideia! Bonde era a coisa
menos perigosa do mundo. E o motorneiro não tinha nada a ver com o motor, ele
só cobrava, o nome é que parece...Quem dirigia era o condutor...
Autora: Ana Maria Machado
Foto: Google
Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com
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