6.01.2026

CAPÍTULO 02 – Suposto reencontro – Luis Pedro Novaes

 



 CAPÍTULO 02 – Suposto reencontro

Imediatamente após a ligação daquela mulher, o trauma que Jack tentara aprisionar por tanto tempo retornou com força total. Sua cabeça parecia uma tempestade turbulenta; ele sentia-se como um pequeno barco à deriva em meio a dores e incógnitas. Sua avó, percebendo o alvoroço, correu ao amparo do neto na tentativa de acalmá-lo.

— Jack, Jack, o que aconteceu? Por que você está assim? — indagou ela, desesperada com a situação.

— Uma mulher ligou... disse que era a minha mãe. Ela sabia meu nome, disse que foram eles que o escolheram — respondeu o jovem, choramingando enquanto permanecia encolhido no chão.

A avó ajoelhou-se ao seu lado e o colocou cuidadosamente no colo. Passou a mão levemente pelos seus cabelos curtos e espetados, fazendo-o sossegar aos poucos, embora ele ainda soluçasse em intervalos curtos.

— Ela disse o nome dela? — perguntou a senhora.

— Não, apenas disse que era minha mãe.

— Então não precisa levar isso a sério, meu querido. Pode ser apenas alguém passando um trote; não se pode acreditar em tudo o que dizem. Relaxe um pouco e saia com seus amigos para distrair a mente.

— Tudo bem, obrigado, vó.

— Não tem de quê, meu filho.

Algum tempo depois, Jack se preparou e saiu para caminhar pelo bairro com Jhenefer e Michel. Ambos estavam visivelmente preocupados, pois conheciam bem a instabilidade emocional do amigo.

Eles percorreram ruas pavimentadas com ladrilhos quadrados e bem alinhados, ladeadas por casas de dois andares e telhados triangulares. Algumas vias eram exclusivas para pedestres, onde crianças corriam livremente no caminho que levava ao parque central.

Era lá que o trio costumava se reunir para descarregar as mágoas da vida. O lugar favorito deles era uma casa de madeira, onde podiam se isolar de tudo e de todos, um mundo escondido onde só eles tinham acesso.

— Agora conte para a gente: o que aconteceu para você ficar nesse estado melancólico? Parece que viu a morte de perto! — Jhenefer iniciou a conversa.

— Tenho certeza de que foi algo pior que a morte — completou Michel, estranhando o comportamento de Jack. — Para você voltar a ficar assim, algo muito ruim deve ter acontecido.

— Aconteceu algo que eu nunca esperaria... ou talvez fosse apenas alguém querendo me ver sofrer. Uma mulher ligou para casa dizendo ser minha mãe e afirmou que foi ela quem me deu esse nome incomum.

Jhenefer ficou sem palavras e Michel entristeceu-se. Eles conheciam a história por trás do nascimento de Jack e, durante anos, foram os únicos a protegê-lo de tudo o que era ruim. Ao repetir a história, Jack começou a chorar novamente, desta vez de forma mais contida.

— Pela sua reação, você acreditou nela, não foi? — Jhenefer perguntou, com um tom de lamentação por ver o amigo cair no que parecia ser uma pegadinha.

— Se eu fosse você, esqueceria essa ligação e seguiria a vida como se nada tivesse acontecido — aconselhou Michel, embora sentisse raiva por ver o amigo sendo maltratado.

— Se eu pudesse escolher, queria estar em uma família diferente — desabafou Jack. — Teria pais melhores, talvez irmãos para me divertir, sem ter que me preocupar com o julgamento das pessoas.

— Ousado, hein? Não imaginei que esse seria o seu desejo — retrucou Michel.

— É só um pensamento bobo. Não é como se eu pudesse criar uma família do zero ou simplesmente mudar para outra. Mas, se acontecesse, seria ótimo.

— Cuidado com o que deseja, os pedidos podem se realizar — alertou Jhenefer, preocupada com a profundidade daqueles sentimentos.

— Vamos mudar de assunto, o clima está ficando muito pesado por aqui! — gritou Michel, assustando os amigos e mudando a expressão de todos em um instante. — O seu aniversário está chegando. Já pensou no que vamos fazer?

— Acho que minha avó fará apenas um bolo simples, como nos outros anos — respondeu Jack, um pouco triste. — Não é como se eu fosse ganhar uma grande festa.

— Muita coisa pode acontecer, não acha? — indagou Michel, intrigado.

— Com certeza! São dezesseis anos, precisamos de algo grande e novo — Jhenefer tentou elevar o ânimo de Jack, esperando que ele ficasse mais alegre com a data.

— Vocês dois já são meus presentes mais valiosos, não poderia querer nada além disso — declarou Jack com sinceridade. Ele sabia que Jhenefer e Michel haviam mudado sua vida para melhor.

Jhenefer, aos quinze anos, era extremamente inteligente e estudiosa; falava inglês e francês fluentemente graças às viagens com os pais e ao que aprendera na escola. Michel, da mesma idade, era o extrovertido do grupo e quase um irmão para ela, já que haviam nascido com apenas uma semana de diferença. Ele era enérgico, às vezes temperamental, adorava esportes e sonhava em ser o maior jogador de futebol do mundo.

Um mês se passou desde aquela conversa. Jack já havia esquecido a suposta ligação e estava ansioso pelo aniversário. Ele ainda era um garoto que guardava tudo para si, abrindo-se apenas com seus dois melhores amigos.

Finalmente, o grande dia chegou. Jack acordou disposto e com uma energia renovada. Sua avó preparou um café da manhã com torradas, ovos fritos e café com leite. Ela notou, satisfeita, que o neto comia com uma felicidade incomum. Ainda pela manhã, ele saiu para caminhar, mas como não era próximo dos vizinhos, ninguém o parabenizou, o que começou a deixá-lo murcho.

No entanto, Jhenefer e Michel logo apareceram gritando por ele ao longe. Um sorriso surgiu em seu rosto e a aura densa deu lugar a uma sensação de leveza. Ao meio-dia, a fome apertou.

— E então, o que quer comer no seu dia especial? — perguntou Jhenefer, ansiosa.

— Não tenho preferência, qualquer coisa está bom — respondeu Jack, para a decepção da amiga.

Jack nunca fora de ter preferências alimentares; costumava comer sempre as mesmas coisas, apenas com preparos diferentes.

— Esse é o seu problema! Precisamos te levar para experimentar coisas novas. Ficar na mesmice é idiotice — retrucou Michel. — Vamos te levar a lugares onde nunca foi para descobrir novos sabores.

— O quê? Você acha que sou rico por acaso? — questionou Jack.

— Não se preocupe, eu tenho meus contatos — disse Michel, mexendo no celular.

— Desse celular que mais parece uma folha de papel e vive dando problema? Sei... — ironizou Jack.

— Ele custou caro! Tive que abrir mão da minha bike para comprá-lo — defendeu-se Michel.

— Pelo que você gasta com o conserto dele, já dava para ter comprado umas três bikes facinho — provocou Jack.

— Isso não importa agora! Prepare-se para voltar gordo para casa — finalizou Michel.

A tarde passou lentamente enquanto os três visitavam diversos lugares e provavam iguarias diferentes. O passeio foi um sucesso e Jack comeu tanto que mal conseguia caminhar.

— Acho que nunca comi tanto na vida — confessou o aniversariante.

A tarde calorosa foi seguida por um anoitecer rápido, com o céu azul escuro surgindo mais cedo que o esperado. Eles decidiram encerrar o dia na casa de Jack, assistindo a filmes. As ruas estavam escuras e desertas, o que lhes causou um medo óbvio, fazendo-os apressar o passo.

Ao chegarem, notaram que todas as luzes estavam apagadas. Entraram em silêncio e tiraram os calçados no corredor.

— Vó? A senhora está em casa? — Jack gritou.

— Estou na cozinha, podem vir! — A avó respondeu em voz alta.

Ao entrarem na cozinha, a luz se acendeu e a avó, junto com alguns vizinhos, gritou "Surpresa!". Jack levou um susto enorme; aquilo era o oposto do que ele esperava, dadas as comemorações simples dos anos anteriores. A festa começou com música e confetes, e Jack sentiu-se genuinamente amado e feliz.

A noite transcorria alegremente até que, horas depois, a campainha tocou. Jack, ainda animado, foi atender, esperando outro convidado, mas encontrou Sabino. Ele era um amigo de longa data da família que acompanhara o crescimento de Jack.

— Sabino? O que faz aqui a esta hora? — perguntou o jovem.

— Vim trazer uma má notícia — respondeu o homem, com o semblante sério.

— O que foi? Fale logo, está me assustando! — disse Jack.

— Seus pais sumiram! — anunciou Sabino.

— O quê? Do que você está falando? Eles me abandonaram quando nasci, eu já sei disso. Pare de bobagens e entre — retrucou Jack, não levando a sério.

Percebendo a incredulidade do garoto, Sabino segurou firmemente nos braços de Jack e olhou em seus olhos. Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto do homem e pingar no chão.

— Me escute! Seus pais sumiram agora! Eles estavam vindo para cá e eu estava perto deles quando desapareceram. Um círculo brilhou no chão de repente e os fez sumir. Por favor, acredite em mim!

 

 

Continua...


Autoria:  Luís Pedro Novaes

Foto: Produção

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