O “Sermão da
Sexagésima” é uma das obras mais célebres do Padre António Vieira, proferido em
Lisboa no ano de 1655. Nele, Vieira discute a complexa arte de pregar e,
principalmente, as razões pelas quais a pregação, apesar de abundante, muitas
vezes se mostra ineficaz na conversão das almas e na reforma dos costumes.
O
sermão inicia com a famosa pergunta que permeia toda a obra: “Por que razão a
palavra de Deus não faz fruto?”. Esta indagação central serve de ponto de
partida para uma profunda análise da retórica sacra e da responsabilidade dos
pregadores.
Para
desenvolver sua tese, Vieira parte da passagem evangélica de Lucas, onde Cristo
instrui Pedro a lançar as redes para a pesca. Ele estabelece uma analogia
magistral: os pregadores são pescadores de almas, e as redes são as palavras
que devem ser lançadas para atrair os “peixes” (os ouvintes).
Vieira
critica duramente os pregadores de seu tempo, que, segundo ele, se preocupavam
mais com a eloquência vazia, com a exibição de erudição e com a busca por
aplausos, do que com a verdadeira missão de mover os corações e as vontades dos
fiéis. A beleza formal tornava-se um fim em si mesma.
O
autor categoriza os “peixes” que o sermão deve capturar: os que creem, os que
vivem, os que obram e os que amam. A maioria dos sermões, contudo, conseguia
apenas um superficial “saber”, sem levar à verdadeira fé, ao amor ou à mudança
de comportamento.
Para
Vieira, a verdadeira arte de pregar não reside na complexidade da linguagem ou
na ornamentação excessiva, mas na capacidade de ser claro, direto e, acima de
tudo, eficaz. O objetivo primordial é tocar a vontade, convencendo o ouvinte a
agir de acordo com os preceitos divinos.
Ele
defende que o sermão deve ter “corpo e alma”: o corpo seria a forma, a
estrutura; a alma, o espírito e a intenção de mover à conversão. Sem essa
“alma”, o sermão é um mero cadáver retórico, incapaz de gerar frutos
espirituais.
O
Padre António Vieira argumenta que o pregador deve conhecer a quem prega, o que
prega e como prega. A mensagem precisa ser adaptada ao público, focando nas
suas necessidades e nos seus pecados, em vez de divagar por temas genéricos ou
incompreensíveis.
O
próprio sermão é um exemplo da maestria retórica de Vieira. Embora critique a
prolixidade e a artificialidade, ele emprega uma estrutura complexa, cheia de
antíteses e raciocínios encadeados, para demonstrar como a forma, quando bem
utilizada, pode servir à clareza e à persuasão.
Considerado um marco da prosa barroca em língua portuguesa, o “Sermão da Sexagésima” transcende o contexto religioso. Ele oferece uma reflexão profunda sobre a comunicação, a persuasão e a ética do discurso, permanecendo relevante como estudo de retórica e crítica social até os dias de hoje.
Fonte: Padre Antônio Vieira
Foto: Google
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