Verbos, pronomes e assassinos (Um constrangimento, na época, com a morte de um Magnífico Reitor)
Agilson Cerqueira
I
Há um corpo caindo dentro da frase, e o verbo cai junto: suicidou. Bastava. Mas a língua nunca aceita o abismo sem acrescentar alguma coisa. Vem então o “se”, tardio, como se o gesto precisasse voltar contra o próprio corpo para existir.
O pronome fica ali, preso à frase como um resto. Um eco curto. Uma sobra. Mata-se sempre, por dentro, sem saída possível do próprio corpo. O “se” pesa na boca como matéria inútil, um pequeno excesso tentando tocar aquilo que já não pode ser reparado.
II
Depois dizem: suicidaram-no.
E a frase se rompe um pouco.
Abre-se uma fresta mínima por onde entra alguma coisa de fora. O verbo já não pertence apenas a quem cai. Há outras presenças ali, mal percebidas, escondidas no modo como a frase se constrói. Mãos invisíveis. Pressões. Vozes.
O “no” não explica. Apenas aponta.
Breve, seco, quase frio.
O acontecimento deixa de caber dentro de uma única consciência. O sentido escapa para esse plural sem rosto que age e desaparece ao mesmo tempo. Aqui, o pronome não sobra nem ornamenta. Ele acusa em silêncio.
Sem nomear ninguém.
III
E então resta o verbo suspenso: justiçar.
Talvez dito no futuro — vós justiçareis —, porque o futuro afasta o peso das ações. Nele, tudo parece menos brutal. A violência ainda não aconteceu. O sangue ainda não apareceu. A culpa pode esperar.
Mas o presente permanece.
Denso. Quente. Irremovível.
No presente, toda palavra já toca o mundo. Quem fala altera alguma coisa, mesmo sem perceber. Nenhuma frase passa intacta pelo corpo de quem a escuta.
A linguagem também fere.
Corta devagar, quase sem ruído, e decide antes de qualquer tribunal. Entre verbos e pronomes, o julgamento acontece escondido dentro da própria língua, onde cada escolha carrega um peso que ninguém assume por inteiro, mas que continua ali.
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