Amor
Outro
dia liguei o rádio e ouvi que faziam um concurso entre os ouvintes procurando
uma definição para amor. As respostas eram muito ruins, até dava para se pensar
que nem ouvintes nem locutores entendiam nada de amor realmente; o lugar-comum
é mesmo o refúgio universal, que livra de pensar e dá, a quem o usa, a
impressão de que mergulha a colher na gamela da sabedoria coletiva e comunga
das verdades eternas. O que aliás pode ser verdade.
Mas
a ideia de definição me ficou na cabeça e resolvi perguntar por minha conta.
Tive muitas respostas. A impressão geral que me ficou do inquérito é que de
amor entendem mais os velhos do que os moços, ao contrário do que seria de
imaginar. E menos os profissionais que os amadores __digo os amadores da arte
de viver, propriamente, e os profissionais do ensino da vida.
Vamos
ver:
Dona
Alda, que já fez bodas de ouro, diz que o amor é principalmente paciência.
Indaguei: e tolerância? Ela disse que tolerância é apenas paciência com um
pouco de antipatia. E diz que amor é também companhia e amizade. E saudade?
[...] Não. Afinal, o amor não vai embora. Apenas envelhece, como a gente.
A
jovem recém-casada me diz que o amor é principalmente materialismo. Todos os
sonhos das meninas estão errados. Aquelas coisas que se leem nos livros da
Coleção das Moças, aqueles devaneios e idealismos e renúncias e purezas, está
tudo errado. Quando a gente casa, é que vê que o amor não passa de
materialismo. [...]
Um
senhor quarentão, bem casado, pai de
filhos: "Amor, como se entende em geral, é coisa da juventude. Depois de
uma certa idade, amor é mais costume. É verdade que tem a paixão com seus
perigos. Mas você falou em amor e não em paixão, não foi?"
__
E de paixão, que me diz? __ Aí ele se fecha em copas. "Deixo isso para os
jovens. Velhote apaixonado é fogo. E eu não passo de um pai de família."
A
mãe da família desse senhor: "Amor? Bem, tem amor de noiva, que é quase só
castelos e tolices. Tem o de jovem casada, que é também muita tolice __ mas sem
castelos. Complicado com ciúme, etc., mas já inclui algum elemento mais sério.
E tem o amor do casamento, que é a realidade da vida puxada a dois. Agora, o
amor de mãe... Você perguntou também o amor de mãe?"
Respondi
energicamente que não: amor de mãe, não. Quero saber só de amor de homem com
mulher, amor propriamente dito.
Diz
o solteiro, quase solteirão, que se imagina irresistível e incansável:
"Amor é perigo. Só é bom com mulher sem compromissos. [...] O melhor é
amor forte e curto, que embriaga enquanto dura e não tem tempo para se
complicar. Aquela história de marinheiro com um amor em cada porto tem o seu
brilho, tem o seu brilho".
O
pastor protestante diz que o amor é sublimar a atração entre os dois seres, é
atingir a mais alta e pura das emoções. Não confundir amor com sexo! [...]
Já
o padre católico não elimina o sexo do amor. Explica que, pelo contrário, o
sexo, no amor, é tão importante como os seus demais componentes __ o altruísmo,
a fidelidade, a capacidade de sacrifício, a ausência do egoísmo. E é tão
importante que, para santificar o amor sexual __ o amor conjugal __, a Igreja o
põe sob a guarda de um sacramento, o santo matrimônio. E ante a pergunta: se
tudo é assim tão santo, por que os padres não casam? O padre velho não se
importa com a impertinência, sorri: "Nós nos demos a um amor mais alto.
Casamento, para nós, seria pior que bigamia..."
E
por último tem a matrona sossegada que explica: "Amor? Amor é uma coisa
que dói dentro do peito. Dói devagarinho, quentinho, confortável. É a mão que
vem da cama vizinha, de noite, e segura na sua, adormecida. E você prefere
ficar com o braço gelado e dormente a puxar a sua mão e cortar aquele contato.
Tão precioso ele é. Amor é ter medo __ medo de quase tudo __ da morte, da
doença, do desencontro, da fadiga, do costume, das novidades. Amor pode ser uma
rosa e pode ser um bife, um beijo, uma colher de xarope. Mas o que o amor é,
principalmente, são duas pessoas neste mundo".
(De
"Cenas brasileiras", in Coleção Para gostar de ler. São Paulo, Ática,
1995)
Os
discos voadores
Eu por mim acredito. Por que não
acreditaria? Nada vejo que justifique a descrença. Acredito em tudo. Que têm 15
metros de diâmetro, que são feitos de um metal desconhecido, brilhante como
prata polida, que se compõem de três círculos concêntricos dos quais só um __ o
do meio __ gira, fazendo o engenho mover-se; acredito que deixam um rastro
luminoso por onde andam __ decerto a poeira fosforescente dos mundos siderais
que percorreram. E acredito, principalmente, que sejam pilotados por homúnculos
de meio metro de estatura, macrocéfalos, horrendos, vindos sabe Deus de que
planeta, Marte, Vênus ou Saturno.
Ah, acredito. Por que não seria verdade?
Todo o mundo os tem visto, no Oriente e no Ocidente, no Pacífico e no
Atlântico, nas costas da Califórnia, no Peru e no Amazonas, em Maceió, no
Uruguai; e até mesmo aqui no Rio teve um cavalheiro que os viu durante 45
minutos; viu-os com os seus olhos que a terra há de comer, se me permitem a
expressão, e por sinal chamou a radiopatrulha, no que se mostrou homem
muitíssimo avisado.
Ilusão coletiva uma conversa. Também a
bomba voadora dizia-se que era ilusão coletiva. O povo sabe muito bem onde põe
os olhos e os jornais contam muito mais verdades do que supõe o ingênuo
público, viciado a acreditar em desmentidos. Se tanta gente tem visto discos
voadores, é porque há discos voadores. E afinal de contas, neste mundo de
aparência, quem é que pode distinguir da
realidade a dita aparência, e até onde se pode afirmar que uma coisa é concreta
ou é ilusão dos sentidos? Arco-íris também é ilusão dos sentidos e neste mesmo
instante lá está um, brilhando no céu, entre as nuvens molhadas, luminoso e
autêntico como um corpo vivo.
Eu creio nos discos e tenho medo deles.
Sei muitíssimo bem que são o sinal positivo do fim do mundo. Se até está nos
livros, se foi profetizado há muito tempo! E por que não seria o fim do mundo?
Quais são os nossos méritos assim tão grandes para nos defenderem da
catástrofe? Os dez justos que faltaram a Sodoma, com razão ainda maior, nos
faltariam a nós.
Quem tiver os seus pecados trate de ir-se
arrependendo que a hora chegou e chegou feia. Quem não viu o que tinha de ver,
procure olhar e fartar os olhos; quem não amou ame depressa, quem não se vingou
se vingue. O tempo urge __ faça-se o que é mister ser feito, que o relógio já
bateu. O mundo vai acabar-se.
Pelo menos o nosso mundo. Outro pode
nascer dos nossos destroços, mas há de ser um mundo diferente, povoado sabe
Deus por quem __ só o não será pelos nossos netos, que esses não chegarão
sequer a formar-se nas entranhas das nossas filhas. E estas estarão mortas
conosco, belas, inocentes e malfadadas, perdendo a chama da vida antes de a
poderem passar adiante.
O mundo que virá depois há de ser deles,
que já nos vigiam e já preparam o caminho. Então vocês não compreendem, irmãos,
que esses discos misteriosos que pairam no alto, librando-se no ar como um
gavião peneirando em cima da presa, pairam no alto e depois vão-se embora são
os olheiros deles, são os quintas-colunas, os esculcas das multidões de
homenzinhos de cabeça grande que estão destinados a ser os nossos senhores?
Depois dos observadores, chegarão os exércitos com armas tão assombrosas que,
perto delas, a bomba de hidrogênio do presidente Truman é como uma ronqueira de
São João. E que idade terão atingido eles, se já minguaram assim no tamanho e
cresceram tanto a cabeça?
Como hão de estar apurados, refinados, 90%
de matéria bruta __ e não tão bruta assim, já que pode ser tão pouca? Que
poderemos nós contra eles, lerdos gigantes microcéfalos, mal saídos da
grosseira idade do ferro e gatinhando ainda na infância da era atômica?
Que pensarão de nós, vendo-nos tão
atrasados, tão primitivos, tão irremediavelmente presos à carne e às suas
misérias, divertindo-nos barbaramente com guerras de selvagens, usando engenhos
grosseiros de metal rude e brutas explosões de pólvora e nitroglicerina?
Ah, tenho medo, tenho medo. Que será de
nós quando eles do céu se despencarem aos cachos, tão estranhos e terríveis,
implacáveis na convicção cega do divino direito da sua sobrevivência à custa da
nossa? De que modo nos irão destruir ou de que meios usarão para nos escravizar
__ como animais de força bruta ao seu serviço? E como serão eles __
transparentes, gelatinosos, todo o músculo e osso apurado em matéria nobre,
cérebros andantes, quase sem vísceras, talvez libertos das baixas necessidades
da comida e do repouso? E terão um peito capaz de piedade, terão olhos capazes
de ver além da nossa grotesca feiúra, da nossa maldade e da nossa imperfeição?
Quem sabe são anjos; e virão destruir como
os anjos destroem, sem ódio, sem prazer na carnificina, apenas cumprindo ordens
mais altas, com a sua espada de fogo, coração feito de diamante, que nada
empana, mas nada amolece. Contudo, também podem ter evoluído apenas na direção
da besta, e como bestas na quinta-essência do aperfeiçoamento serão ferozes e
implacáveis __ serão os próprios descendentes do Leviatã.
Cuidado que eles estão chegando. Primeiro
foi o aviso, mas em breve já não haverá avisos. Hão de baixar aos milhares e
aos milhões, pequeninos e atrevidos, hão de conhecer todos os segredos, decerto
se multiplicam em massa, ao sabor das vãs necessidades, produzem guerreiros e
chefes ao seu gosto, terão aprendido o processo de reduzir a infância a apenas
alguns meses, produzindo por sistema adiantadíssimo adultos temporões de corpo
transparente e cabeça grande, no mesmo espaço de tempo que nós gastamos para
fabricar um automóvel.
Ah, os que não acreditam! Ah, os que
zombam! Ah, os sábios que espiam nos seus estúpidos telescópios e negam o que o
olho nu enxerga! Medem as estrelas com suas réguas, e depois vêm-nos dizer que
não há perigo, que nos assustamos com simples meteoro. Isso mesmo deviam
declarar os pajés das tribos americanas aos guerreiros assustados que pela
primeira vez avistaram as asas das caravelas subindo no horizonte. São
pássaros, são raios de sol __ são sonhos dos olhos! E assim os brancos
chegaram, e acharam os guerreiros desprevenidos e inermes. O mesmo sucederá
conosco. É mais cômodo duvidar, é muito mais fácil afirmar que tudo é engano e
mentira.
E, enquanto isso, os discos voadores partem
aos milhares das suas bases de céu além, e cortam zumbindo o éter vazio, e
escolhem para o seu pouso o que há de mais bonito e mais sedutor no mundo __ a
Califórnia, o golfo do México, a Itália, as praias amenas do Atlântico Sul...
Fonte: Pensador
Foto: Google

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