PROSEANDO A MENTE INQUIETA
Agilson Cerqueira
Há em mim um prumo quebrado e uma régua incapaz de medir o abismo. Carrego instrumentos feitos para a exatidão, mas é justamente diante do imensurável que descubro seus limites. Nem tudo se alinha, nem tudo se calcula. Há profundezas que desafiam qualquer geometria.
Quando a lógica se torna excessivamente confortável, transforma-se em prisão. O delírio: não o da perda, mas o da criação — converte-se em rito de passagem, na coragem de ultrapassar as fronteiras do previsível. É nele que o pensamento ousa nascer outra vez.
A alma não aceita ser repartida em fatias, assim como um rio jamais aprende a correr em linhas retas. Quem vive apenas da norma acostuma-se ao repetivel; quem se arrisca ao salto encontra uma certeza rara: é do atrito que surge a luz. O conflito, a dúvida e a inquietação são os verdadeiros artífices da consciência.
Há os que enxergam apenas o que o dia revela. Outros, porém, aprendem a reconhecer as estrelas antes mesmo que a noite se complete. Uns habitam o mundo pelos sentimentos; outros o percorrem pela razão. Poucos conseguem compreender que ambos são rios que desembocam no mesmo mar da existência.
Ser é oscilar entre intensidades. É rir e chorar, celebrar e decepcionar-se, construir e desfazer-se inúmeras vezes. É caminhar, simultaneamente, entre o lirismo que consola e o ceticismo que interroga, sem jamais encontrar repouso definitivo.
Talvez a mente inquieta seja exatamente isso: uma consciência que se recusa ao conforto das respostas prontas. Uma tensão permanente entre o cálculo e o sonho, entre a lucidez e o espanto. Não uma enfermidade da alma, mas sua mais alta expressão de liberdade.
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