6.22.2026

Descobri o meu país - Clarice Lispector

 








Descobri o meu país

 

Subi a montanha

e no seu topo os anjos me cercaram

e me engrinaldaram a fronte

com as flores do céu.

Asas zumbiam

em harmonias fragílimas

e vozes de arcanjos louvavam a paz.

Derramaram sobre meu corpo

sete bálsamos purificadores

e fizeram-me beber

ambrosia e mel.

Banharam-me no rio da música

e eu saí ingênua

como o canto de uma criança.

E depois surgiram novos anjos

e não havia noite

e não havia dia.

E a ambrosia e o néctar

deslizavam com fartura celestial.

E novas canções se entoaram

sempre em louvor a Deus.

E não havia noite

e não havia dia.

E aos poucos cresceu dentro de mim

o desespero

e eu busquei em vão os olhos celestiais.

Eles nada diziam

e cantavam a paz.

E aos poucos uma nostalgia

me enlanguesceu

e eu era o arco distendido

sem a flecha

e eu buscava o ar

sem respirar.

Um anjo me interrogou: mais néctar?

Eu gritei: quero cheiro da terra!

E o anjo me perdoou

E eu cansei de ser perdoada,

eu queria sofrer.

E não havia noite e não havia...

Quebrei minhas asas,

desci a montanha

e vivi na Terra!

 

Homens amavam

e cansavam do amor.

Homens bebiam sangue

e descobriam

que não desejavam brigar

Entoavam-se cânticos místicos

onde só havia a insatisfação.

E depois homens morriam

e todos sabiam que era o fim.

Nem a terra,

nem o céu!

 

Fechei-me num quarto,

inventei outro Deus,

outro céu, outra terra

e outros homens.

Clarice Lispector Dom Casmurro, 25 out. 1941. In: Moser, Benjamin. A Newly Discovered Poem By Clarice Lispector. Revista de Literatura Brasileira, n. 36, p. 37-46, ano 20, 2007.

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