Fizeram
a gente acreditar - Martha Medeiros
Fizeram
a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez,
geralmente antes dos 30 anos. Não nos contaram que amor não é acionado nem
chega com hora marcada.
Fizeram
a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só
ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos
inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a
responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente
mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável.
Fizeram
a gente acreditar numa fórmula chamada “dois em um”, duas pessoas pensando
igual, agindo igual, que isso era que funcionava. Não nos contaram que isso tem
nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que
poderemos ter uma relação saudável.
Fizeram
a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem
ser reprimidos.
Fizeram
a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam
pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre
haverá um chinelo velho para um pé torto. Só não disseram que existe muito mais
cabeça torta do que pé torto.
Fizeram
a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os
que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas
fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar
outras alternativas. Ah, nem contaram que ninguém vai contar. Cada um vai ter
que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você
mesmo, vai poder ser muito feliz se apaixonar por alguém.
Martha
Medeiros é um dos nomes conhecidos na literatura contemporânea
brasileira. A escritora produz romances, poemas e crônicas e já teve obras
adaptadas para peças de teatro e audiovisual.
Um
dos temas que a autora aborda é amor e os relacionamentos. Na crônica Fizeram a
gente acreditar ela traz uma análise certeira e contundente sobre a idealização
no amor romântico.
Martha
apresenta seus pensamentos sobre o tema de maneira honesta, mostrando que a
vida pode diversos caminhos, não existindo uma fórmula para vivenciar o amor. O
que fica claro em suas palavras é a necessidade de autoamor antes de mais nada.
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