Com licença
poética (1976), de Adélia Prado
O poema
mais famoso da escritora mineira Adélia Prado é Com licença poética,
que foi incluído no seu livro de estreia chamado Bagagem.
Como era
até então desconhecida do grande público, o poema faz uma breve apresentação
da autora em poucas palavras.
Além de
falar de si mesma, os versos também mencionam a condição da mulher na
sociedade brasileira.
O poema é
ainda faz referência a Carlos Drummond de Andrade porque usa uma estrutura
semelhante ao seu consagrado Poema das Sete Faces. Drummond, além
de ter sido um ídolo literário para Adélia Prado, era também um amigo da
poetisa novata e impulsionou muito sua carreira.
Quando
nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Fonte: Cultura Genial
Foto: Google
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