6.28.2026

A COPA DO MUNDO E O FUMO DO CACHIMBO

A COPA DO MUNDO E O FUMO DO CACHIMBO

Crônica de um país que dança conforme a música, mas esquece de olhar a letra. Era uma vez um torneio de futebol que movia mais dinheiro que a dívida externa de alguns países. Bilhões, minha gente, com "B" maiúsculo. US 41 bilhões no PIB global, dizem as projeções. A FIFA, essa senhora de sorriso largo e mãos hábeis, prevê embolsar sozinha US 13 bilhões nesta copa de 2026. Treze bilhões. Com "B". É tanto zero que até a calculadora pede arrego.

Mas vamos por partes, que a crônica não se faz com pressa.

Os direitos de transmissão, essas migalhas modernas que vendemos por US 4,3 bilhões. Os patrocínios, que chegam a US 2,8 bilhões — porque nada diz "eu acredito neste produto" como vê-lo estampado no peito de um craque suado. E os ingressos, claro, aqueles pedacinhos de papel que custam o preço de um carro usado e lhe dão o direito de ficar em pé sob o sol quente torcendo por um gol. São US$ 3 bilhões só nisso. E aqui, meus caros, entramos no capítulo brasileiro da história.

Porque se há país que entende de Copa do Mundo, esse país é o Brasil. Mas entende, também, de uma arte mais antiga: a de transformar dinheiro público em fumaça.

Não me interpretem mal. O brasileiro ama o futebol com a intensidade de quem ama a própria mãe. E a Copa é a festa da mãe, o Natal, o Ano-Novo e o aniversário do vovô tudo junto. Mas enquanto a gente agita a bandeirinha verde-amarela e veste a camisa canarinho com o peito estufado de orgulho, lá nos bastidores...

Ah, os bastidores!

A infraestrutura é superfaturada, o que é um eufemismo bonito para dizer "roubo". Boa parte da grana, essa grana — dizem as más línguas — vai parar nas algibeiras de quem está no poder e seus "lacaios". Palavra feia, lacaios, mas que cabe como luva em certas mãos gordas e suadas.

A mídia, essa parceira de primeira hora, nos serve o circo em bandeja de prata. E nós, como bons romanos modernos, aplaudimos. O "pão e circo" de hoje tem sabor de cerveja gelada e cheiro de grama recém-cortada. Enquanto isso, os impostos aumentam, os cofres públicos são saqueados, e a gente nem percebe — porque na televisão tá passando o replay daquele golaço.

A FIFA, no alto de seu trono de cifrões, arrecada a parte do leão. Mas, vá lá, pelo menos repassa algumas migalhas: o Programa de Benefícios para Clubes paga diárias que ultrapassam US$ 5 mil por dia para as equipes que cedem jogadores. Flamengo, Palmeiras, Atlético Mineiro e outros tantos engordam seus cofres com esses milhões. É o que se chama, em bom português, de "chover no molhado".

As seleções recebem suas cotas de participação, o campeão leva prêmios multimilionários, os jogadores compram mais um carro, mais uma mansão, mais uma ilha no Caribe.

E a gente?

Ah, a gente. A gente fica com o que diz o dito popular: o mesmo que recebe o cachimbo.

Muito fumo.

Porque no fim, quando os fogos de artifício se apagam, quando o último gol é marcado, quando a taça é erguida e as câmeras se desligam, o que sobra para o povão é exatamente isso: fumaça. Fumaça dos sonhos que evaporaram, das promessas que não se cumpriram, das reformas que nunca vieram. Fumaça daquela ilusão bonita que nos vende a cada quatro anos, e que a gente compra — ah, como a gente compra — com o coração aberto e a carteira vazia.

Não que o futebol seja o vilão. O futebol, no fundo, é apenas o palco. O espetáculo é nosso, a plateia somos nós, e os atores principais são os mesmos de sempre: o poder, o dinheiro e a distração.

Enquanto isso, lá fora, a bola rola. E nós, como sempre, corremos atrás dela. Uns para chutar, outros para levar – neste caso é a “bolada”.

Que os deuses do futebol nos protejam, e que a gente aprenda, um dia, que o jogo mais importante não é o que acontece no gramado — é o que acontece enquanto a gente não está olhando.








Encaminha: Gustavo Veloso

Foto: Produção / Imagem: Google


Ponto de Leitura:   rilvanbatistadesantana

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