A COPA DO MUNDO E O FUMO DO CACHIMBO
Crônica
de um país que dança conforme a música, mas esquece de olhar a
letra. Era uma vez um torneio de futebol que movia mais dinheiro que a dívida
externa de alguns países. Bilhões, minha gente, com "B" maiúsculo. US
41 bilhões no PIB global, dizem as projeções. A FIFA, essa senhora de sorriso
largo e mãos hábeis, prevê embolsar sozinha US 13 bilhões nesta copa de 2026.
Treze bilhões. Com "B". É tanto zero que até a calculadora pede
arrego.
Mas
vamos por partes, que a crônica não se faz com pressa.
Os
direitos de transmissão, essas migalhas modernas que vendemos por US 4,3
bilhões. Os patrocínios, que chegam a US 2,8 bilhões — porque nada diz "eu
acredito neste produto" como vê-lo estampado no peito de um craque
suado. E os ingressos, claro, aqueles pedacinhos de papel que custam o preço de
um carro usado e lhe dão o direito de ficar em pé sob o sol quente torcendo por
um gol. São US$ 3 bilhões só nisso. E aqui, meus caros, entramos no capítulo
brasileiro da história.
Não
me interpretem mal. O brasileiro ama o futebol com a intensidade de quem ama a
própria mãe. E a Copa é a festa da mãe, o Natal, o Ano-Novo e o aniversário do
vovô tudo junto. Mas enquanto a gente agita a bandeirinha verde-amarela e veste
a camisa canarinho com o peito estufado de orgulho, lá nos bastidores...
Ah,
os bastidores!
A infraestrutura é superfaturada, o que é um eufemismo bonito para dizer "roubo". Boa parte da grana, essa grana — dizem as más línguas — vai parar nas algibeiras de quem está no poder e seus "lacaios". Palavra feia, lacaios, mas que cabe como luva em certas mãos gordas e suadas.
A
mídia, essa parceira de primeira hora, nos serve o circo em bandeja de prata. E
nós, como bons romanos modernos, aplaudimos. O "pão e circo" de hoje
tem sabor de cerveja gelada e cheiro de grama recém-cortada. Enquanto isso, os
impostos aumentam, os cofres públicos são saqueados, e a gente nem percebe —
porque na televisão tá passando o replay daquele golaço.
A
FIFA, no alto de seu trono de cifrões, arrecada a parte do leão. Mas, vá lá,
pelo menos repassa algumas migalhas: o Programa de Benefícios para Clubes paga
diárias que ultrapassam US$ 5 mil por dia para as equipes que cedem jogadores.
Flamengo, Palmeiras, Atlético Mineiro e outros tantos engordam seus cofres com
esses milhões. É o que se chama, em bom português, de "chover no
molhado".
As
seleções recebem suas cotas de participação, o campeão leva prêmios
multimilionários, os jogadores compram mais um carro, mais uma mansão, mais uma
ilha no Caribe.
E
a gente?
Ah,
a gente. A gente fica com o que diz o dito popular: o mesmo que recebe o
cachimbo.
Muito
fumo.
Porque
no fim, quando os fogos de artifício se apagam, quando o último gol é marcado,
quando a taça é erguida e as câmeras se desligam, o que sobra para o povão é
exatamente isso: fumaça. Fumaça dos sonhos que evaporaram, das promessas que
não se cumpriram, das reformas que nunca vieram. Fumaça daquela ilusão bonita
que nos vende a cada quatro anos, e que a gente compra — ah, como a gente
compra — com o coração aberto e a carteira vazia.
Não
que o futebol seja o vilão. O futebol, no fundo, é apenas o palco. O espetáculo
é nosso, a plateia somos nós, e os atores principais são os mesmos de sempre: o
poder, o dinheiro e a distração.
Enquanto
isso, lá fora, a bola rola. E nós, como sempre, corremos atrás dela. Uns
para chutar, outros para levar – neste caso é a “bolada”.
Que
os deuses do futebol nos protejam, e que a gente aprenda, um dia, que o jogo
mais importante não é o que acontece no gramado — é o que acontece enquanto a
gente não está olhando.
Encaminha: Gustavo Veloso
Foto: Produção / Imagem: Google
Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana

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