ZITO:
O HOMEM QUE MANDOU ATÉ EM PELÉ
Se
Pelé foi o rosto mais brilhante do Santos e do futebol brasileiro, José Ely de
Miranda, o eterno Zito, foi uma de suas consciências mais fortes. Líder por
natureza, dono de personalidade imponente, inteligência tática e um senso de
responsabilidade raro, Zito foi muito mais do que um volante vencedor: foi o
eixo emocional, competitivo e moral de uma das maiores equipes da história do
futebol. Em um time repleto de craques, ele era o homem que dava equilíbrio,
ordem e alma ao espetáculo.
Zito
nasceu em 8 de agosto de 1932, em Roseira, no interior de São Paulo, cidade
pequena do Vale do Paraíba. Vinha de origem humilde, como tantos jogadores de
sua geração, e cresceu em um Brasil ainda profundamente desigual, onde o
futebol aparecia como possibilidade de ascensão e reconhecimento. Desde cedo,
aprendeu que talento sem disciplina não bastava, e sua formação como homem e
atleta seria marcada por esse princípio.
Antes
de chegar ao Santos, Zito despontou no futebol amador de sua região e encontrou
a projeção profissional no Esporte Clube Taubaté, o tradicional "Burro da
Central". Foi lá que ele não demorou para chamar atenção pela combinação
rara de força física, inteligência de marcação e liderança. Ele não era um
volante limitado ao desarme. Tinha boa técnica, sabia sair jogando, possuía
leitura de jogo e, sobretudo, entendia o futebol como poucos. Em campo, parecia
sempre perceber o que a partida pedia antes dos demais.
Em
1952, após impressionar em um amistoso, Zito chegou ao Santos Futebol Clube. O
clube ainda não era o império mundial que se tornaria nos anos seguintes, mas
já se estruturava para uma transformação histórica, e a presença do volante
seria decisiva nesse processo. Ao longo da década de 1950, ele se firmou como
titular e se transformou em um dos alicerces do time. Antes mesmo da explosão
definitiva de Pelé, Zito já era uma figura central na Vila Belmiro.
O
contexto em que sua carreira floresceu é essencial. O futebol brasileiro
atravessava uma fase de reconstrução emocional após o trauma da Copa de 1950,
enquanto os clubes paulistas e cariocas disputavam protagonismo nacional. O
Santos ainda buscava romper as fronteiras de um grande clube estadual para se
tornar uma potência nacional e, depois, internacional. Foi dentro dessa
transição que Zito se transformou em peça-chave.
Quando
Pelé surgiu e a geração dourada começou a se consolidar, Zito já era um líder
pronto. Ao seu redor, o Santos passou a reunir um elenco extraordinário:
Gilmar, Mauro Ramos, Lima, Dalmo, Calvet, Mengálvio, Dorval, Coutinho, Pelé e
Pepe. Dentro desse universo de craques, Zito exercia um papel vital. Era o
volante que protegia a defesa, organizava a transição, orientava os
companheiros e sustentava emocionalmente a equipe nos momentos de pressão.
Não
por acaso, recebeu o merecido apelido de “Gerente”. O nome resumia
perfeitamente sua função, pois Zito administrava o time dentro de campo como se
fosse um treinador calçando chuteiras. Era ele quem organizava, cobrava,
acalmava, empurrava e mantinha a estrutura coletiva funcionando. Sua liderança
era prática e diária. Em uma equipe famosa pelo talento ofensivo avassalador,
Zito era o homem que garantia que o brilho não se transformasse em desordem.
Sua
autoridade era tão incontestável que Zito era, possivelmente, a única pessoa no
mundo do futebol com total liberdade para dar broncas homéricas no Rei. Se Pelé
prendesse demais a bola, tentasse enfeitar uma jogada de maneira desnecessária
ou deixasse de voltar para ajudar na marcação, o grito ríspido do capitão
ecoava pelo estádio, muitas vezes exigindo: "Toca essa bola,
garoto!". O mais impressionante era a reação: Pelé abaixava a cabeça,
pedia desculpas e obedecia. O camisa 10 compreendia que, enquanto ele era o
gênio indiscutível com a bola nos pés, Zito era o comandante do campo, sendo
reconhecido pelo próprio Pelé como o grande líder que o manteve com os pés no
chão desde sua estreia aos 15 anos.
Para
que essa engrenagem funcionasse, sua parceria com Mengálvio foi uma das mais
importantes da história do Santos. Se Mengálvio era a costura refinada, o passe
limpo e a inteligência silenciosa, Zito era a imposição, a voz, o choque, o
combate e a liderança emocional. Juntos, davam o equilíbrio perfeito ao
meio-campo, permitindo a liberdade criativa plena de Dorval, Coutinho, Pelé e
Pepe. Sem eles, o Santástico dificilmente teria alcançado a mesma consistência
avassaladora.
A
grandeza do Gerente, contudo, não se limitou ao Santos. Ele também foi um
personagem crucial da Seleção Brasileira, participando das Copas de 1958 e
1962, sagrando-se bicampeão do mundo em ambas. Em 1958, na Suécia, integrou a
equipe que mudou a história do esporte no país. Tamanha era a sua imposição no
vestiário nacional que, mesmo ao lado de gigantes como Didi e Nilton Santos,
Zito assumiu a faixa de capitão da Seleção Brasileira em diversas oportunidades
na ausência de Bellini ou Mauro Ramos.
Sua
importância em 1962, no Chile, foi especialmente imensa. Com a lesão de Pelé
ainda na fase inicial, a Seleção precisou reorganizar suas forças. Garrincha
brilhou como protagonista, mas o time necessitou desesperadamente da maturidade
de Zito para manter a estabilidade em meio à pressão. A coroação desse
protagonismo ocorreu de forma inesquecível na grande final contra a
Tchecoslováquia, quando o volante, aparecendo como elemento surpresa, marcou o
gol da virada que colocou o Brasil em vantagem (2 a 1) no jogo que terminaria
com a taça e o placar de 3 a 1.
No
Santos, a lista de conquistas impressiona a qualquer fã do esporte. Zito foi
parte essencial do time que colecionou Campeonatos Paulistas, Torneios Rio-São
Paulo, Taças Brasil, Copas Libertadores, Mundiais Interclubes e Recopas. Era um
vencedor serial, um homem acostumado a competir no mais alto nível imaginável.
Apesar
de toda essa inteligência tática, após encerrar a carreira nos gramados em
1967, Zito recusou o caminho natural de se tornar treinador. Ele afirmava, com
total franqueza, que seu nível de exigência era tão alto que perderia a
paciência facilmente com jogadores que não tivessem o mesmo compromisso e a
mesma disciplina cega que ele entregava em campo.
Mesmo
assim, seu maior legado pós-carreira esteve na construção de uma mentalidade
vencedora e na descoberta de novos ídolos. Trabalhando como dirigente e
coordenador das categorias de base, Zito se tornou um "olheiro de
ouro", sendo o responsável por construir a ponte entre a Era Pelé e as
gerações futuras. Foi ele quem descobriu Robinho no final dos anos 1990,
levando-o para a Vila Belmiro. Anos depois, além de observar e aprovar Neymar e
Ganso, Zito bateu o pé para que o Santos aceitasse um garoto ainda muito jovem,
mas extremamente promissor, chamado Gabriel Barbosa, o Gabigol.
Zito
faleceu em 14 de junho de 2015, aos 82 anos, deixando uma lacuna enorme na
história santista e brasileira. Sua morte não representou apenas a perda de um
ex-jogador, mas de uma das grandes consciências do futebol nacional. Um homem
que viveu o esporte com seriedade, paixão e senso de missão inabaláveis.
Falar
de Zito é falar de um tipo de grandeza que nem sempre aparece primeiro nos
compactos ou nas manchetes, mas que sustenta as verdadeiras dinastias. É falar
do volante que pensava o jogo, que protegia os companheiros, que liderava sem
pedir licença e que ajudou a dar estrutura a um dos times mais mágicos de todos
os tempos. Se Pelé foi o rei, Zito foi seu guardião e mentor mais importante.
No Santástico, ele não foi apenas um coadjuvante de luxo. Foi a espinha dorsal
emocional e competitiva de um império.
Para
consolidar a imensidão desse legado, vale destacar algumas curiosidades
importantes que ilustram a figura completa de Zito:
Seu
nome completo era José Ely de Miranda: Muita gente conhece apenas o apelido
histórico, mas seu nome completo raramente aparece nas narrativas mais
populares. Recebeu o apelido de “Gerente”:
O
apelido surgiu porque ele “administrava” o time dentro de campo: orientava,
cobrava, organizava e liderava. Era praticamente um técnico jogando. Chegou ao
Santos antes da explosão de Pelé: Ou seja, participou ativamente da construção
da era vitoriosa santista antes mesmo de o clube se tornar o time mais famoso
do planeta.
Era
visto como o grande tutor dos mais jovens: No Santos e na Seleção, tinha
postura de líder experiente, alguém que cobrava incessantemente, mas que também
protegia o grupo de todas as pressões externas. Marcou na final e foi bicampeão
mundial:
Conquistou
as Copas de 1958 e 1962, sendo um dos jogadores fundamentais da estrutura
tática, coroando sua trajetória com o gol da virada no Chile. Foi um dos homens
mais respeitados do vestiário:
Pelé,
Pepe e outros companheiros sempre destacaram a liderança inquestionável e a
força de personalidade do volante. Tinha fama de durão, mas também de
agregador:
Cobrava
intensamente, discutia e exigia perfeição, mas tudo em nome da equipe. Era
respeitado e amado justamente porque se comprometia totalmente com o coletivo. Sua
dupla com Mengálvio foi uma das chaves do :
Sem
o contrapeso perfeito oferecido pelos dois no meio-campo, o quarteto ofensivo
não teria a mesma liberdade e proteção para destruir as defesas adversárias. Formou
a realeza moderna da Vila Belmiro:
Depois
de aposentado, não apenas ajudou a lapidar Neymar e Ganso, como foi o grande
responsável por descobrir Robinho e Gabigol, mantendo a engrenagem de craques
do Santos viva décadas após sua aposentadoria.
É
considerado um dos maiores volantes da história do futebol mundial: Mesmo sem a aura midiática de outros nomes ou
atacantes, seu peso histórico é colossal, sendo a referência definitiva da
camisa 5 no Brasil.
Fonte: Um Cadin de café
Foto: produção
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