6.27.2026

ZITO: O HOMEM QUE MANDOU ATÉ EM PELÉ

 

ZITO: O HOMEM QUE MANDOU ATÉ EM PELÉ

Se Pelé foi o rosto mais brilhante do Santos e do futebol brasileiro, José Ely de Miranda, o eterno Zito, foi uma de suas consciências mais fortes. Líder por natureza, dono de personalidade imponente, inteligência tática e um senso de responsabilidade raro, Zito foi muito mais do que um volante vencedor: foi o eixo emocional, competitivo e moral de uma das maiores equipes da história do futebol. Em um time repleto de craques, ele era o homem que dava equilíbrio, ordem e alma ao espetáculo.

Zito nasceu em 8 de agosto de 1932, em Roseira, no interior de São Paulo, cidade pequena do Vale do Paraíba. Vinha de origem humilde, como tantos jogadores de sua geração, e cresceu em um Brasil ainda profundamente desigual, onde o futebol aparecia como possibilidade de ascensão e reconhecimento. Desde cedo, aprendeu que talento sem disciplina não bastava, e sua formação como homem e atleta seria marcada por esse princípio.

Antes de chegar ao Santos, Zito despontou no futebol amador de sua região e encontrou a projeção profissional no Esporte Clube Taubaté, o tradicional "Burro da Central". Foi lá que ele não demorou para chamar atenção pela combinação rara de força física, inteligência de marcação e liderança. Ele não era um volante limitado ao desarme. Tinha boa técnica, sabia sair jogando, possuía leitura de jogo e, sobretudo, entendia o futebol como poucos. Em campo, parecia sempre perceber o que a partida pedia antes dos demais.

Em 1952, após impressionar em um amistoso, Zito chegou ao Santos Futebol Clube. O clube ainda não era o império mundial que se tornaria nos anos seguintes, mas já se estruturava para uma transformação histórica, e a presença do volante seria decisiva nesse processo. Ao longo da década de 1950, ele se firmou como titular e se transformou em um dos alicerces do time. Antes mesmo da explosão definitiva de Pelé, Zito já era uma figura central na Vila Belmiro.

O contexto em que sua carreira floresceu é essencial. O futebol brasileiro atravessava uma fase de reconstrução emocional após o trauma da Copa de 1950, enquanto os clubes paulistas e cariocas disputavam protagonismo nacional. O Santos ainda buscava romper as fronteiras de um grande clube estadual para se tornar uma potência nacional e, depois, internacional. Foi dentro dessa transição que Zito se transformou em peça-chave.

Quando Pelé surgiu e a geração dourada começou a se consolidar, Zito já era um líder pronto. Ao seu redor, o Santos passou a reunir um elenco extraordinário: Gilmar, Mauro Ramos, Lima, Dalmo, Calvet, Mengálvio, Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. Dentro desse universo de craques, Zito exercia um papel vital. Era o volante que protegia a defesa, organizava a transição, orientava os companheiros e sustentava emocionalmente a equipe nos momentos de pressão.

Não por acaso, recebeu o merecido apelido de “Gerente”. O nome resumia perfeitamente sua função, pois Zito administrava o time dentro de campo como se fosse um treinador calçando chuteiras. Era ele quem organizava, cobrava, acalmava, empurrava e mantinha a estrutura coletiva funcionando. Sua liderança era prática e diária. Em uma equipe famosa pelo talento ofensivo avassalador, Zito era o homem que garantia que o brilho não se transformasse em desordem.

Sua autoridade era tão incontestável que Zito era, possivelmente, a única pessoa no mundo do futebol com total liberdade para dar broncas homéricas no Rei. Se Pelé prendesse demais a bola, tentasse enfeitar uma jogada de maneira desnecessária ou deixasse de voltar para ajudar na marcação, o grito ríspido do capitão ecoava pelo estádio, muitas vezes exigindo: "Toca essa bola, garoto!". O mais impressionante era a reação: Pelé abaixava a cabeça, pedia desculpas e obedecia. O camisa 10 compreendia que, enquanto ele era o gênio indiscutível com a bola nos pés, Zito era o comandante do campo, sendo reconhecido pelo próprio Pelé como o grande líder que o manteve com os pés no chão desde sua estreia aos 15 anos.

Para que essa engrenagem funcionasse, sua parceria com Mengálvio foi uma das mais importantes da história do Santos. Se Mengálvio era a costura refinada, o passe limpo e a inteligência silenciosa, Zito era a imposição, a voz, o choque, o combate e a liderança emocional. Juntos, davam o equilíbrio perfeito ao meio-campo, permitindo a liberdade criativa plena de Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. Sem eles, o Santástico dificilmente teria alcançado a mesma consistência avassaladora.

A grandeza do Gerente, contudo, não se limitou ao Santos. Ele também foi um personagem crucial da Seleção Brasileira, participando das Copas de 1958 e 1962, sagrando-se bicampeão do mundo em ambas. Em 1958, na Suécia, integrou a equipe que mudou a história do esporte no país. Tamanha era a sua imposição no vestiário nacional que, mesmo ao lado de gigantes como Didi e Nilton Santos, Zito assumiu a faixa de capitão da Seleção Brasileira em diversas oportunidades na ausência de Bellini ou Mauro Ramos.

Sua importância em 1962, no Chile, foi especialmente imensa. Com a lesão de Pelé ainda na fase inicial, a Seleção precisou reorganizar suas forças. Garrincha brilhou como protagonista, mas o time necessitou desesperadamente da maturidade de Zito para manter a estabilidade em meio à pressão. A coroação desse protagonismo ocorreu de forma inesquecível na grande final contra a Tchecoslováquia, quando o volante, aparecendo como elemento surpresa, marcou o gol da virada que colocou o Brasil em vantagem (2 a 1) no jogo que terminaria com a taça e o placar de 3 a 1.

No Santos, a lista de conquistas impressiona a qualquer fã do esporte. Zito foi parte essencial do time que colecionou Campeonatos Paulistas, Torneios Rio-São Paulo, Taças Brasil, Copas Libertadores, Mundiais Interclubes e Recopas. Era um vencedor serial, um homem acostumado a competir no mais alto nível imaginável.

Apesar de toda essa inteligência tática, após encerrar a carreira nos gramados em 1967, Zito recusou o caminho natural de se tornar treinador. Ele afirmava, com total franqueza, que seu nível de exigência era tão alto que perderia a paciência facilmente com jogadores que não tivessem o mesmo compromisso e a mesma disciplina cega que ele entregava em campo.

Mesmo assim, seu maior legado pós-carreira esteve na construção de uma mentalidade vencedora e na descoberta de novos ídolos. Trabalhando como dirigente e coordenador das categorias de base, Zito se tornou um "olheiro de ouro", sendo o responsável por construir a ponte entre a Era Pelé e as gerações futuras. Foi ele quem descobriu Robinho no final dos anos 1990, levando-o para a Vila Belmiro. Anos depois, além de observar e aprovar Neymar e Ganso, Zito bateu o pé para que o Santos aceitasse um garoto ainda muito jovem, mas extremamente promissor, chamado Gabriel Barbosa, o Gabigol.

Zito faleceu em 14 de junho de 2015, aos 82 anos, deixando uma lacuna enorme na história santista e brasileira. Sua morte não representou apenas a perda de um ex-jogador, mas de uma das grandes consciências do futebol nacional. Um homem que viveu o esporte com seriedade, paixão e senso de missão inabaláveis.

Falar de Zito é falar de um tipo de grandeza que nem sempre aparece primeiro nos compactos ou nas manchetes, mas que sustenta as verdadeiras dinastias. É falar do volante que pensava o jogo, que protegia os companheiros, que liderava sem pedir licença e que ajudou a dar estrutura a um dos times mais mágicos de todos os tempos. Se Pelé foi o rei, Zito foi seu guardião e mentor mais importante. No Santástico, ele não foi apenas um coadjuvante de luxo. Foi a espinha dorsal emocional e competitiva de um império.

Para consolidar a imensidão desse legado, vale destacar algumas curiosidades importantes que ilustram a figura completa de Zito:

Seu nome completo era José Ely de Miranda: Muita gente conhece apenas o apelido histórico, mas seu nome completo raramente aparece nas narrativas mais populares. Recebeu o apelido de “Gerente”:

O apelido surgiu porque ele “administrava” o time dentro de campo: orientava, cobrava, organizava e liderava. Era praticamente um técnico jogando. Chegou ao Santos antes da explosão de Pelé: Ou seja, participou ativamente da construção da era vitoriosa santista antes mesmo de o clube se tornar o time mais famoso do planeta.

Era visto como o grande tutor dos mais jovens: No Santos e na Seleção, tinha postura de líder experiente, alguém que cobrava incessantemente, mas que também protegia o grupo de todas as pressões externas. Marcou na final e foi bicampeão mundial:

Conquistou as Copas de 1958 e 1962, sendo um dos jogadores fundamentais da estrutura tática, coroando sua trajetória com o gol da virada no Chile. Foi um dos homens mais respeitados do vestiário:

Pelé, Pepe e outros companheiros sempre destacaram a liderança inquestionável e a força de personalidade do volante. Tinha fama de durão, mas também de agregador:

Cobrava intensamente, discutia e exigia perfeição, mas tudo em nome da equipe. Era respeitado e amado justamente porque se comprometia totalmente com o coletivo. Sua dupla com Mengálvio foi uma das chaves do :

Sem o contrapeso perfeito oferecido pelos dois no meio-campo, o quarteto ofensivo não teria a mesma liberdade e proteção para destruir as defesas adversárias. Formou a realeza moderna da Vila Belmiro:

Depois de aposentado, não apenas ajudou a lapidar Neymar e Ganso, como foi o grande responsável por descobrir Robinho e Gabigol, mantendo a engrenagem de craques do Santos viva décadas após sua aposentadoria.

É considerado um dos maiores volantes da história do futebol mundial:  Mesmo sem a aura midiática de outros nomes ou atacantes, seu peso histórico é colossal, sendo a referência definitiva da camisa 5 no Brasil.

 

Fonte: Um Cadin de café

Foto: produção

 

 

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