12.11.2025

Fernando Sabino - entrevistado por Clarice Lispector

 Fernando Sabino - entrevistado por Clarice Lispector

“Gostaria de morrer em nome de alguma coisa, mas não creio que mereça tanto.”

Fernando Sabino e Clarice Lispector (foto: ...)

Esta entrevista foi feita antes de Fernando Sabino declarar que a literatura morreu.

Clarice Lispector – Fernando, por que é que você escreve? Eu não sei por que eu escrevo, de modo que o que você disser talvez sirva para mim.

Fernando Sabino – Há muito tempo que não escrevo. A última vez foi ali por volta de 1956, 1957. Escrevia por necessidade de me exprimir. Desde então tenho me utilizado da palavra escrita como atividade profissional, por necessidade de ganhar a vida. Mas não chamo a isso de escrever, como ato de criação artística.

Clarice Lispector – Como é que começa em você a criação, por uma palavra, uma ideia? É sempre deliberado o seu ato criador? Ou você de repente se vê escrevendo? Comigo é uma mistura. É claro que tenho o ato deliberador, mas precedido por uma coisa qualquer que não é de modo algum deliberada.
Fernando Sabino – A criação nunca começava por uma palavra ou por uma ideia. Era uma espécie de sentimento em mim que partia em busca dessa palavra ou dessa ideia. Qualquer palavra, qualquer ideia. Hoje o sentimento ainda existe, mas tem-se dispensado de se exprimir através de palavras ou ideias – de certa maneira me contento com o próprio sentimento, que procura fora de mim alguma forma de expressão já existente com que se identificar. A música, por exemplo – especialmente a de Thelonious Monk.

Clarice Lispector – Há quanto tempo você escreve crônicas? Falta-lhe assunto às vezes? A mim, no Jornal do Brasil, por enquanto ainda não.
Fernando Sabino – Escrevo crônica desde 1947. Sempre falta assunto – é penoso ter de inventar. Procuro suprir o jornal ou a revista que me pagaria com a matéria escrita que corresponda ao que esperam de mim, ou seja, agradar o leitor. Aceito alegremente a tarefa, como um móvel.

Clarice Lispector – Que é que você acha do protesto dos jovens no mundo inteiro? Que estão eles querendo, na sua opinião?
Fernando Sabino – Na minha opinião estão querendo o mesmo que eu queria quando era jovem – e continuo querendo: repudiar um mundo errado que os mais velhos lhes querem deixar como herança. Estão querendo acertá-lo e não sabem como – mas nós muito menos.

Fernando Sabino (foto: ...)

Clarice Lispector – Que é que você acha de Marcuse?

Fernando Sabino – Só li de Marcuse algumas páginas da tradução de um livro seu, o suficiente paraver que ele parece ignorar, na proposição de suas ideias com relação ao  mundo de hoje, um dado elementar: o de que o mundo de hoje tem muito mais gente que o mundo do princípio do século. E quanto a isso, ele não apresenta nenhuma outra solução. Nem mesmo a pílula.

Clarice Lispector – Por que você, Fernando, com o grande talento que tem, só escreveu um romance? Teve tanto sucesso que isso deveria incentivar você a produzir mais. Ou o sucesso atrapalhou você? A mim quase que faz mal: encarei o sucesso como uma invasão.

Fernando Sabino – O sucesso sempre atrapalha: neutraliza a nossa necessidade de se afirmar. No meu caso, entretanto, não foi o sucesso do meu romance que me atrapalhou, mas a necessidade, a que não soube resistir, de fazer da palavra escrita um ofício do qual tiro o meu sustento. Deixando de escrever, e indo buscar de dentro do mais obscuro anonimato um meio de expressão, é possível até que eu começasse realmente a escrever. Não desisti: lhe asseguro que ainda pretendo começar.

Clarice Lispector – Fernando, qual o seu processo de trabalho, você se inspira como? Ou se trata de uma disciplina?

Fernando Sabino – Há muito tempo que não me dou a esse luxo: o de inspirar-me. Contar com algum tema, alguma solicitação, algum estímulo que signifique uma verdadeira inspiração. E a verdadeira inspiração é aquela que nos impele a escrever sobre o que não sabemos, justamente para ficar sabendo.

Clarice Lispector – Conte-me um pouco sobre a Editora Sabiá.
Fernando Sabino – A Editora Sabiá tem grandes planos para este ano. Vamos prosseguir na nossa série de antologias poéticas bilíngues, iniciada com Pablo Neruda, publicando uma de Garcia Lorca. E entre as nacionais, será lançada em breve a de Jorge de Lima. Vamos iniciar também uma série de traduções de grandes romances modernos, o primeiro dos quais será Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez – um verdadeiro monumento da literatura moderna, best-seller internacional, considerado o livro mais importante da língua espanhola desde Don Quixote. Além disso, Rubem Braga e eu não perderemos de vista o objetivo pessoal que nos levou a fundar a Editora Sabiá: o de publicar nossos próprios livros em melhores condições e, por extensão, os dos nossos amigos.

Fernando Sabino (foto: ...)

Clarice Lispector – Em que jovem de hoje você tem esperança como futuro grande escritor?
Fernando Sabino – Não tenho acompanhado como devia a atividade de nossos jovens escritores – passei algum tempo fora do Brasil e ainda não retomei o contato como gostaria. Mas sei que há diversos jovens escrevendo o que há de melhor por esse Brasil. Os de Minas, por exemplo, ocasionalmente me têm dado prova disso, através do excelente suplemento literário do Minas Gerais, dirigido por Murilo Rubião. Já realizados como escritores da nova geração, eu poderia citar, entre outros, Oswaldo França Júnior e José J. Veiga, que me parecem admiráveis. Mas no Brasil, mal um escritor entrou na casa dos trinta, já é considerado velho...

Clarice Lispector – Qual foi, Fernando, a sua maior decepção na vida?
Fernando Sabino – Eu poderia responder repetindo Léon Bloy: a de não ter sido um santo. Mas modestamente, entretanto, prefiro dizer que foi a de não me ter ainda realizado como romancista.

Clarice Lispector – Quando é que você se alegra?

Fernando Sabino – Sou sempre alegre – daquela alegria interior dos fronteiriços da debilidade mental e que, portanto, têm ainda uma oportunidade de salvação.

Clarice Lispector – O que é que você desejaria para o Brasil?

Fernando Sabino – Desejaria que o Brasil conseguisse realizar nada menos que o grande sonho da humanidade: o de atender à necessidade de justiça social para todos sem prejuízo dos direitos fundamentais de cada um. Uma utopia, que no entanto deve ser o mínimo de ideal a ser sustentado por um homem digno desse nome.

Clarice Lispector – Como é que você resumiria o conteúdo da palavra amor?
Fernando Sabino – Amor é dádiva, renúncia de si mesmo na aceitação do outro. Amar o próximo como a si mesmo e a Deus sobre todas as coisas.

Clarice Lispector – Quais são os seus projetos como romancista?

Fernando Sabino – Não sei. Só vou ficar sabendo depois que escrever um novo romance. É preciso que eu me convença de que um romance não é mais do que um romance. Tenho de esquecer o pouco que aprendi e sair tateando às cegas até encontrar o botão de luz.

Clarice Lispector – Você acha que a nossa geração falhou? Eu acho que sim. Acho que nos faltou dar o corajoso passo no escuro. Nós não tínhamos desculpa, porque tínhamos talento e vocação.
Fernando Sabino – Não sei se nossa geração falhou. Nunca me senti, como escritor, como parte de uma geração. (Nem eu, pensei.) Sempre me senti sozinho e este talvez tenha sido o meu erro. Quis aprender sozinho e perdi a inocência. O artista é um inocente. Era preciso reaprender a olhar tudo como se fosse pela primeira vez. Eu olhei como se fosse a última. Em tempo: o romance que não consegui escrever se chamaria O salto no escuro. Estou dispensado até deste título, pois já saiu outro com o mesmo nome.

Fernando Sabino (foto: ...)


Clarice Lispector – Fernando, você tem medo antes e durante o ato criador? Eu tenho: acho-o grande demais para mim. E cada novo livro meu é tão hesitante e assustado como um primeiro livro. Talvez isso aconteça com você, e seja o que está atrapalhando a formação de seu novo romance. Estou ficando impaciente à espera de um romance seu.

Fernando Sabino – O que atrapalha a criação de um novo romance é a presunção de que somos capazes de criar. Diante da grandiosidade da tarefa, descubro que não sou coisa nenhuma. Era preciso partir da consciência de minha própria insignificância, e reconhecer com humildade que a tarefa nem grandiosa é, mas apenas um ato de louvor a Deus na medida das minhas forças.

Clarice Lispector – Você é profundamente católico ou apenas superficialmente?

Fernando Sabino – O catolicismo é uma herança de minha formação familiar que, graças a Deus, não abandonei. Deus não abandona aos que não o abandonam. Mas isso é assunto para conversa só entre nós dois.

Clarice Lispector – Qual o seu santo preferido?
Fernando Sabino – Não tenho preferência. Acho os santos uns chatos, pela inveja que me despertam, me fazendo ainda mais pecador.

Clarice Lispector – Você, que morou na Inglaterra como adido cultural nosso, notou lá algum movimento novo na literatura? Eu acho a literatura do mundo muito parada. Não há quem me satisfaça numa leitura. E você?

Fernando Sabino – Atualmente eu me interesso mais pelo depoimento pessoal, pelo documentário jornalístico – que talvez sejam novas formas de literatura.

Clarice Lispector – Como é que você encara o problema da morte?
Fernando Sabino – Deixar este mundo não me faz mais alegre, porque a vida é boa. Mas a morte é o eterno repouso. E eu tenho muita vontade de repousar eternamente. E muita curiosidade. Espero que não doa muito. Gostaria de morrer em nome de alguma coisa. Morrer deliberadamente, e não como alguém que depois do jantar espera que o garçom lhe traga a conta e fica pensando na gorjeta. Fazer da minha morte a justificação da minha vida. Mas não creio que mereça tanto.

Fonte: Templo Cultural Delfos

Fotos: Publicação

12.10.2025

O segredo da felicidade - R. Santana

 

O segredo da felicidade

R. Santana

"A felicidade não é ausência de conflito, mas a habilidade de lidar com eles. Uma pessoa feliz não tem o melhor de tudo, ela torna tudo melhor"

         O segredo da vida é a felicidade. O homem desde início persegue a felicidade. A felicidade não é sempre. O homem desfruta de momentos de felicidade, assim como, ele tem momentos de tristeza, de angústia, de desespero, de infelicidade, é que “não existe bem que sempre dure nem mal que não se acabe”, ou, “após uma noite escura sempre chega um lindo amanhecer”.

          Os pensadores corrompem o pensamento e o espírito do homem simples. Não se perde nada ou quase nada alguém que não leu Karl Marx, Nietzsche, Martin Heidgger, Diderot, Epicuro, dentre outros, negar Deus é afirmar sua existência.

          A discussão do mal e do bem, existirá enquanto houver o homem. Na Bíblia, em Gênesis, o Criador diz a Adão e Eva que, eles poderiam comer de todos os frutos do Jardim do Éden, menos o fruto proibido da árvore do conhecimento, com a desobediência do primeiro homem e da primeira mulher, estabeleceu-se o “pecado original” na humanidade, aí, a dor, o sofrimento e a infelicidade.

          A dor e o sofrimento são atributos da natureza humana e servem para seu amadurecimento e evolução espiritual.  Desde a barriga da mãe que o homem tem contato com a dor e o sofrimento. A felicidade chega depois. A felicidade não chega à galope, instantânea, ela chega devagar. Se a felicidade fosse perene, eterna, não haveria crescimento e desenvolvimento humanos.

          Nós somos as nossas circunstâncias. Nós somos responsáveis pelas nossas boas escolhas e responsáveis pelas más escolhas. O homem não é produto do meio, uma visão determinista, o homem tem a capacidade de influenciar e transformar o meio.

          Deus abdicou do controle absoluto de sua criação, por isto, deu-lhe o livre arbítrio. Até o Diabo não foi extinto para sempre, continuou com sua natureza má, mas, continuou. Não entendemos o sofrimento dos inocentes nem os benefícios do homem mau. Às vezes, a revolta do homem é compreensível, porém, é incompreensível os desígnios de Deus.

          Quem entende os sismos, os furacões, as tempestades, as inundações e os incêndios? Quantas vezes, populações inteiras são sucumbidas nesses desastres naturais? Inúmeras! Por isto, a revolta e a incompreensão de muitos nietzschianos. O ateu estriba-se em suas teorias racionais e lógicas para negar a existência e a sabedoria de Deus.

          A verdade é que quando o homem nasce é como uma “folha em branco”, uma “tabula rasa”, o conhecimento e a conduta moral são acrescidos com a vida. Para Reausseau, o homem nasce bom, com os mais puros instintos, contudo, a sociedade o corrompe e o torna mau.

          Há 15 anos, todos os problemas acima inquietavam-me, mas, tive a resposta da Providência Divina, sem vangloriar-me, elaborei um ensaio com reflexão crítica e subjetiva para responder essas inquietações e num dos capítulos, acho que encontrei todas as respostas. O capítulo chama-se: “O mundo das possibilidades”: Possibilidade contingencial, Real e Necessária.

A possibilidade contingencial é aquela que não se enquadra o pensamento lógico. Por exemplo: o sujeito não viaja de avião com medo de morrer, mas, um dia, o avião cai em sua casa, ele morre e a família fica ilesa; o sujeito não sai à noite com medo de bala perdida, porém, uma bala perdida trespassou sua parede de casa e estourou sua cabeça, ele não gosta de lotérica, mas, um dia, sua esposa insiste fazer um jogo e, ele ganha uma bolada, etc., etc. 

A possibilidade real é quando todos os fatores concorrem para sua realização. Se o pai de um garoto é músico, ele tem todos os instrumentos disponíveis dentro de casa para se tornar um músico se desejar; um menino pobre, hoje, sonha ser médico, os financiamentos do governo, possibilitarão esse sonho.

Enfim, a possibilidade necessária é Deus. 

Por isso, as coisas acontecem pela ação humana. Já pensou um Deus responsável até pela desdita do homem? A onde está o livre arbítrio? Deus é determinista? Nenhum pai deseja mal para seu filho, mesmo o filho mais desobediente e Jesus Cristo deu essa resposta: ― Qual homem, do meio de vocês, se o filho pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se pedir peixe, lhe dará uma cobra? (Mateus 7 : 9 – 11). Se Deus não castiga, não intervém, a resposta para o sucesso ou fracasso do homem está no “Mundo das Possibilidades”.

Definitivamente, o homem nasce para ser feliz. A felicidade é um estado de espírito e não duradouro, aqui, em nosso mundo, não existe felicidade absoluta, existem momentos de felicidade. Porém, a felicidade está numa vida mais simples, naquele homem sem ambição de riquezas, sem apego material, movido pela fé no Espírito Santo e, de amor ao próximo, não, somente, o próximo que está próximo, mas, a humanidade.

A felicidade não está em Kant, Descartes, Nietzsche, Hegel, Jean Jacques Rousseau, Aristóteles, Platão, sábios e filósofos, ao contrário, quanto menos se conhece esses pensadores, essa gente privilegiada, menos intoxicada fica a mente humana. O segredo da felicidade é a simplicidade. A felicidade está na inocência da criança, na natureza, nos homens e mulheres abnegados e nos homens e mulheres santos.

Portanto, a felicidade não é um privilégio de poucos é um apanágio da humanidade. Todos trazem no nascimento esse atributo. Se alguém não é feliz, ele não nasceu para ser infeliz, às vezes, sua conduta e más escolhas contribuíram para sua infelicidade.

Autoria: Rilvan Batista de Santana

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: Google

O homem que sabia javanês - Lima Barreto

 

O homem que sabia javanês - Lima Barreto

 "O homem que sabia javanês ", um conto de Lima Barreto publicado no periódico Gazeta da Tarde.

Nesse conto, Lima Barreto irá fazer uma crítica ao sistema brasileiro (o famoso QI - Quem indica) que favorece os pseudo intelectuais que acabam conseguindo as melhores colocações,  enquanto aqueles que posssuem um verdadeiro conhecimento sobre algo não têm oportunidades.

É aquela história. Você não precisa saber algo desde que achem que você sabe. Basta ter um ar de autoridade, uma boa eloquência, se relacionar com as pessoas certas, que logo estará "dando aula de javanês " , mesmo sem saber uma única palavra da língua malaia.

É impossível não fazer um paralelo com nossos tempos atuais. Basta dar uma breve olhada nas redes sociais e logo encontraremos uma enxurrada de "especialistas", de "gurus" que vendem, muitas vezes, os resultados que não têm com base em um conhecimento estruturado em apenas "linhas gerais."

E é por isso que um clássico, como disse Italo Calvino, " é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer". Sempre que lemos um clássico temos essa impressão de que ele está falando de "hoje."

E nesse conto, Castelo é nosso pseudo intelectual. Um homem que chegou ao Rio de Janeiro na miséria, vivia fugindo de seus credores, mas que chegou a Cônsul, representou o Brasil em congressos internacionais, escrevia artigos em jornais e revistas e até almoçou com o Presidente da República. Tudo isso por causa do tal javanês do qual Castelo só sabia algumas letras.

E essa empreitada de Castelo foi bem sucedida justamente porque não havia ninguém para desmascará-lo, uma vez que ninguém sabia javanês.

É por isso que conhecimento é poder. Se você não detém um conhecimento,  qualquer coisa que lhe dizem soa como verdade.

E Castelo sabia tanto que essa forma de agir funciona que, ao final do conto, ele fala que se não estivesse tão contente com sua carreira no consulado, ele seria bacteriologista eminente.

Mas vamos ao conto. É Castelo quem narra , em retrospecto, para o amigo Castro, toda a aventura de sua vida.

Ele encontra Castro em uma confeitaria já como Cônsul e escuta o amigo reclamar da burocracia brasileira. Castelo, no entanto,  acha o Brasil um lugar onde se pode conseguir "belas páginas de vida" e começa a contar como conseguiu chegar ao consulado sendo professor de javanês.

Ele estava completamente falido quando leu um anúncio em um jornal, onde um barão precisava de um professor de língua javanesa.

Castelo vai então até a Biblioteca Nacional e copia todo o alfabeto javanês e passa 2 dias em casa treinando sua pronúncia. Ele também pesquisou, assim muito por cima, sobre a cultura local, o nome de alguns autores e algumas expressões básicas. Tudo isso para construir o seu pseudo conhecimento.

Ao cabo desses 2 dias, ele se apresentou na residência do Barão de Jacuecanga para se candidatar a vaga.

O barão estava em busca de um professor porque ele tinha herdado um livro de seu pai escrito em língua malaia e havia uma lenda familiar de que quem conseguisse ler o que estava escrito teria prosperidade.

O barão havia recebido o livro de seu pai que, por sua vez, já havia recebido do avó dele, mas nunca ninguém deu muita importância a essa tradição porque a situação financeira da família era confortável.

Até que os negócios do barão começaram a degringolar e ele atribuiu seu fracasso financeiro ao fato de ainda não ter lido o tal o livro em javanês.

Castelo é aceito como professor e de início ele tenta ensiná-lo o alfabeto, mas o barão não se mostra muito disposto a aprender e pede para  Castelo apenas ler o que estava escrito.

Castelo começou então a "traduzir" o livro para o barão, mas na verdade ele apenas inventava algumas bobagens e todos acreditavam que ele estava de fato lendo o livro.

Ocorre que durante esse período, o barão recebe uma herança  e tanto ele , quanto a sua filha e seu genro, atribuíram essa reviravolta nas finanças do barão ao professor de javanês.

O genro do barão, que era desembargador, ficou encantado com o javanês de Castelo e acabou o indicando para uma audiência com o ministro que o colocou no cargo de Cônsul.

E assim deu início a vida diplomática de Castelo. Uma carreira bem sucedida e cheia de benefícios.  Lima Barreto foi cirúrgico nesse conto em nos alertar que nem tudo que reluz é ouro. Vale muito a pena a leitura.

 

Fonte: Site lendocontonaquinta

Foto: Google

 

 

12.09.2025

Triângulo do Ser - Gustavo Velôso

 

Triângulo do Ser - Gustavo Velôso

In FERRADAS: Eu, Nietzsche e o Cosmos - Deus, Jesus Cristo e a Crença Volume 10 Tomo I Coleção Raízes Grapiúnas. Em publicação

Que não digam que Nietzche negou Cristo — ele apenas recusou a sombra que o velou. Quis o Cristo vivo, não o domesticado pelo medo, não o crucificado em dogmas, mas o que caminha, forte, nas ruas do espírito.

Cristo — o amor que levanta,

Nietzsche — a força que desperta,

Spinoza — a luz que diz que Deus respira em tudo.

Três vértices, uma alma só.

Entre a razão e o sagrado, entre a carne e o eterno, corre o fio da vida: viver é ato de coragem, fé que se faz gesto, pensamento que se encarna.Que nosso peito seja altar, nossa mente jardim, nosso existir poema.

Pois o divino não exige submissão  — ele exige construção.

É no erro que nos forjamos, na queda que encontramos altura, e no amor que reconhecemos Deus.

Nietzsche nos ensina a levantar,

Cristo a perdoar,

Spinoza a compreender: somos parte daquilo que buscamos.

E assim, entre força, graça e razão,

descobrimos o prazer de viver: ser humano, sim, mas infinito por dentro.

Autoria: Gustavo Velôso 

Foto: Google

Em 07/12/2025        


“A Escola- A flor”, de José Mauro de Vasconcelos

 

“A Escola- A flor”, de José Mauro de Vasconcelos


    A escola. A flor. A flor. A escola… Tudo ia muito bem quando Godofredo entrou na minha aula. Pediu licença e foi falar com D. Cecília Paim. Só sei que ele apontou a flor no copo. Depois saiu. Ela olhou para mim com tristeza. Quando terminou a aula, me chamou.
    – Quero falar uma coisa com você, Zezé. Espere um pouco.
    Ficou arrumando a bolsa que não acabava mais. Se via que não estava com vontade nenhuma de me falar e procurava a  coragem entre as coisas. Afinal se decidiu.
    – Godofredo me contou uma coisa muito feia de você, Zezé. É verdade?
    Balancei a cabeça, afirmativamente.
    – Da flor? É, sim, senhora.
    – Como é que você faz?
   – Levanto mais cedo e passo no jardim da casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas lá tem tanta que nem faz falta.
    – Sim, mas isso não é direito. Você não deve fazer mais isso. Isso não é um roubo, mas já é um “furtinho”.
    – Não é não, D. Cecília. O mundo não é de Deus? Tudo que tem no mundo não é de Deus? Então as flores são de Deus também… Ela ficou espantada com a minha lógica.
    – Só assim que eu podia, professora. Lá em casa não tem jardim. Flor custa dinheiro… e eu não queria que a mesa da senhora ficasse sempre de copo vazio.
Ela engoliu em seco.
    – De vez em quando a senhora não me dá dinheiro para comprar um sonho recheado, não dá?
    – Poderia dar todos os dias. Mas você some…
    – Eu não poderia aceitar todos os dias…
    – Por quê?
    – Porque tem outros meninos pobres que também não trazem merenda.
Ela tirou o lenço da bolsa e passou disfarçadamente nos olhos.
    – A senhora não vê a Corujinha?
    – Quem é a Corujinha?
   – Aquela pretinha do meu tamanho que a mãe enrola o cabelo dela em coquinhos e amarra com cordão.
    – Sei. A Dorotília.
    – É, sim, senhora. A Dorotília é mais pobre do que eu. E as outras meninas não gostam de brincar com ela porque é pretinha e pobre demais. Então ela fica no canto sempre. Eu divido o sonho que a senhora me dá, com ela.
    Dessa vez ela ficou com o lenço parado no nariz muito tempo.
    – A senhora de vez em quando, em vez de dar para mim, podia dar para ela. A mãe dela lava roupa e tem onze filhos. Todos pequenos ainda. Dindinha, minha avó, todo sábado dá um pouco de feijão e de arroz para ajudar eles. Eu divido o meu sonho porque Mamãe ensinou que a gente deve dividir a pobreza da gente com quem é ainda mais pobre.
    As lágrimas estavam descendo.
    – Eu não queria fazer a senhora chorar. Eu prometo que não roubo mais flores e vou ser cada vez mais um aluno aplicado.
    – Não é isso, Zezé. Venha cá.
    Pegou minhas mãos entre as dela.
– Você vai prometer uma coisa, porque você tem um coração maravilhoso, Zezé.
– Eu prometo, mas não quero enganar a senhora. Eu não tenho um coração maravilhoso.     A senhora diz isso porque não me conhece em casa.
   – Não tem importância. Para mim você tem. De agora em diante não quero que você me traga mais flores. Só se você ganhar alguma. Você promete?
    – Prometo, sim senhora. E o copo? Vai ficar sempre vazio?
   – Nunca esse copo vai ficar vazio. Quando eu olhar para ele vou sempre enxergar a flor mais linda do mundo. E vou pensar: quem me deu esta flor foi o meu melhor aluno. Está bem?
    Agora ela ria. Soltou minhas mãos e falou com doçura.
    – Agora pode ir, coração de ouro…

Autoria: José Mauro de Vasconcelos, Meu Pé de Laranja Lima

José Mauro de Vasconcelos (1920-1984)

Foto: Google

 

12.08.2025

Das vantagens de ser bobo - Clarice Lispector

Das vantagens de ser bobo

    O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo. O bobo é capaz de ficar sentado, quase sem se mexer por duas horas. Se perguntando por que  não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

    Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia. O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem.
    Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.
    Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.
    O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu. Aviso: não confundir bobos com burros.
    Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"
    Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.
    Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que   eles sabem.
    Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.
    É quase impossível evitar excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

Clarice Lispector - A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Entrevista (on-line) - R. Santana

 Entrevista (on-line)

R. Santana 

          Não faz muito tempo que conheci Jota Alves, eu o conheci pelo Facebook  com essa mania de publicação das minhas produções aos finais de semana. Jota Alves é um jovem estudante de jornalismo que se interessa por poesia, crônica, romance, enfim, tudo que a criatividade vem antes do fato. Argumentei ao preclaro jovem que os meus textos não têm tanto valor literário, mas, uma maneira de libertar-me do dia a dia. Tanto foi sua insistência que resolvi lhe conceder esta entrevista com a condição que fosse registrada em áudio não em imagem, que usasse depois o desaigner de IA para ilustrá-la em seu trabalho de jornal. Vejamos:

          J. A.:  Quem é R. S.?

          R. S.:  Uma pessoa comum, que é simples e vive na simplicidade.

          J. A.:  Qual o método que o senhor usa na construção dos seus textos?

       R. S.:  Geralmente, recebo um insight do tema, em seguida, concilio a     criatividade com a realidade.

          J. A.:  Como assim?

          R. S.: A criatividade não prescinde da realidade.

          J. A.: O senhor escreve para vários sites literários, é membro de uma academia de letras e me disse em “Off” que não é escritor. O senhor não é incoerente?

          R. S.: Parece, an passant, que “estou plantando verde pra colher maduro”, não é verdade, se o escritor não tem uma editora, não tem o reconhecimento de sua comunidade ou da sociedade, no máximo, para adocicar o ego, ele é um escritor amador, ou seja, escreve por diletantismo, sem compromisso com a forma e a técnica literárias.

          J. A.:  Quais os seus escritores e poetas preferidos?

          R. S.:  O mundo está  repleto de grandes poetas e ótimos escritores em profusão, porém, em nosso país, eu gosto de Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Lima Barreto, Carlos Drummond, Clarice Lispector e Mário Quintana, lá fora, gosto de Alexandre Dumas, Fernando Pessoa, Morris West, Sidney Sheldon e   Antoine de Saint-Exupéry, etc.

          J. A.:  Como chegou à Academia de Letras de Itabuna – ALITA?

          R. S.:   Fui convidado por Dr. Marcos Bandeira, naquela época, Juiz de Direito de Direito da cidade itabunense.

J. A.:  Sua produção literária aumentou depois que ingressou na academia?

R. S.: Não! O objetivo da academia é o zelo pelo idioma, preservar os bens culturais, apoiar seus membros em qualquer atividade cultural, apoiar na edição e lançamento de seus livros e preservar a memória do acervo cultural da instituição.

J. A.:  O senhor já publicou quantos livros e os títulos?

R. S.:  Bem... eu tenho vários livros em forma de PDF publicados em plataformas específicas, mas impresso por editora, eu publiquei: “O empresário” e “Maria Madalena”.

J. A.:  Chegamos ao fim, obrigado por disponibilizar seu tempo para esta entrevista, gostaríamos que o senhor desse sua autorização no final para que possamos publicar no blog “Notícias Culturais”.

R. S.: Ok!

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana (Coautoria)

Licença: Creative Commons

Membro da ALITA

Imagem: Google

 

 

 

 

 

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Biografia de Manuel Bandeira

 

Biografia de Manuel Bandeira

    Manuel Bandeira (Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho), professor, poeta, cronista, crítico, historiador literário e professor, nasceu no Recife, PE, em 19 de abril de 1886, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 13 de outubro de 1968.

    Filho do engenheiro civil Manuel Carneiro de Sousa Bandeira e de Francelina Ribeiro de Sousa Bandeira. Transferiu-se aos dez anos para o Rio de Janeiro, onde cursou o secundário no Externato do Ginásio Nacional, hoje Colégio Pedro II, de 1897 a 1902, bacharelando-se em letras. Em 1903 matriculou-se na Escola Politécnica de São Paulo para fazer o curso de engenheiro-arquiteto. No ano seguinte abandonou os estudos por motivo de uma grave tuberculose. Praticamente desenganado, aos 18 anos de idade, fez estações de cura em Campanha, MG, Teresópolis e Petrópolis, RJ, e por fim Clavadel, na Suíça, onde se demorou de junho de 1913 a outubro de 1914. Ali teve como companheiros de sanatório o poeta Paul Éluard e sua futura mulher Gala, que depois se casaria com Salvador Dalí. Contrariando os prognósticos, viveu até os 82 anos, criando uma das obras primordiais da moderna poesia brasileira.

    De volta ao Brasil, Manuel Bandeira começou a publicar em periódicos. Em 1916 perde a mãe, e em 1917 edita A cinza das horas, no qual reuniu poemas compostos durante o período de tratamento da doença. Os poemas do livro oscilavam entre tendências parnasianas e simbolistas, de acordo com a conhecida classificação, puramente negativa, de Pré-modernismo, fase chamada por Tasso da Silveira de Sincretismo, além de trazer influências diretas da poesia europeia da época. No ano seguinte morre a irmã Maria Cândida, da qual era muito próximo. Em 1919 publicou o segundo livro de poemas, Carnaval. Enquanto o anterior evidenciava as raízes tradicionais de sua cultura e, formalmente, sugeria uma busca da simplicidade, esse segundo livro caracterizava-se por uma deliberada liberdade de composição rítmica. Ao lado de “sonetos que não passam de pastiches parnasianos”, segundo o próprio Bandeira, nele figura o famoso poema “Os sapos”, sátira ao Parnasianismo, que veio a ser declamado, três anos depois, durante a Semana de Arte Moderna, por Ronald de Carvalho. Antecipador de um novo espírito na poesia brasileira, Bandeira foi cognominado, por Mário de Andrade, de “São João Batista do Modernismo”. Em 1920 morre seu pai.

    Por intermédio do amigo Ribeiro Couto, Manuel Bandeira, que o receberia na Academia, conheceu os escritores paulistas que, em 1922, lançaram o movimento modernista. Não participou diretamente da Semana, mas colaborou na revista Klaxon e também na Revista de Antropofagia, Lanterna Verde, Terra Roxa e A Revista.

    Em 1927, viajou ao Norte do Brasil, até Belém, com escalas em Salvador, Recife, Paraíba, Natal, Fortaleza e São Luís do Maranhão. De 1928 a 1929 permaneceu no Recife como fiscal de bancas examinadoras de preparatórios. Em 1935, foi nomeado inspetor de ensino secundário; em 1938, professor de Literatura Universal no Externato do Colégio Pedro II; em 1942, professor de Literaturas Hispano-americanas na Faculdade Nacional de Filosofia, sendo aposentado por lei especial do Congresso em 1956. Desde 1938, foi membro do Conselho Consultivo do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Seu cinquentenário, em 19536, equivaleu a uma consagração nacional, coroada pela edição do livro Homenagem a Manuel Bandeira, com os depoimentos de 33 grandes nomes da cultura do país. Recebeu o prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira, pelo conjunto da obra, em 1937, e o prêmio de poesia do Instituto Brasileiro de Educação e Cultura, também pelo conjunto da obra, em 1946.

    Durante toda a vida, fez crítica de artes plásticas, crítica literária e musical para vários jornais e revistas. Em 1925, colaborou na seção “Mês Modernista” do jornal A Noite, na revista A Ideia Ilustrada e como crítico musical para o Diário Nacional, de São Paulo; em 1930 e 1931, escreveu crítica de cinema para o Diário da Noite, do Rio de Janeiro, e para A Província, do Recife; em 1941, fez crítica de artes plásticas em A Manhã, do Rio de Janeiro; em 1954, publicou De poetas e de poesia (reunião de textos de crítica); em 1955, começou a escrever crônicas para o Jornal do Brasil; de 1961 a 1963, escreveu crônicas semanais para o programa “Quadrante”, da Rádio Ministério da Educação; de 1963 a 1964, para os programas “Vozes da Cidade” e “Grandes poetas do Brasil”, da Rádio Roquette-Pinto.

    Como crítico de arte, Manuel Bandeira revelou particular afeição pelas velhas igrejas coloniais da Bahia e de Minas Gerais, pela arte arquitetônica dos conventos e dos velhos casarões portugueses da Bahia e do Rio de Janeiro, e pelas formas singelas das mais humildes igrejas do interior.

    Como crítico de literatura e historiador literário, revelou-se sempre um humanista. Consagrou-se pelo estudo sobre as Cartas chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga, pelo esboço biográfico Gonçalves Dias, além de ter organizado várias antologias de poetas brasileiros e publicado o estudo Apresentação da poesia brasileira (1946). Em 1954, publicou o livro de memórias Itinerário de Pasárgada, no qual, além de suas memórias, expõe todo o seu conhecimento sobre as formas e técnicas de poesia, o processo da sua aprendizagem literária e as sutilezas da criação poética. Sua obra foi reunida nos dois volumes Poesia e prosa, pela editora José Aguilar, em 1958, contendo numerosos estudos críticos e biográficos.

    Sua morte foi sentida nacionalmente como a perda de uma espécie de muito querido patrono e decano da poesia brasileira.

    Terceiro ocupante da Cadeira 24, foi eleito em 29 de agosto de 1940, na sucessão de Luís Guimarães Filho, e recebido pelo Acadêmico Ribeiro Couto em 30 de novembro de 1940. Recebeu os Acadêmicos Peregrino Júnior e Afonso Arinos de Melo Franco. Foi sucedido por Ciro dos Anjos.


Fonte: Academia Brasileira de Letras - ABL

Imagem: Google

 

 

 

12.07.2025

CRÔNICA — “Do Mito ao Mártir: A Sombra na Parede da Caverna”

CRÔNICA — “Do Mito ao Mártir: A Sombra na Parede da Caverna”

Por Gustavo Velôso

Em 26/11/2025

    Houve um tempo em que ele não era homem: era reflexo. Uma silhueta projetada no fundo da caverna nacional, tremulando na luz fraca de tochas acesas por mãos ansiosas. Era ali, entre ecos antigos e pedras frias, que muitos o viram nascer — não como figura de carne, mas como mito, palavra moldada mais pela crença do que pelo fato.

    Na caverna, as sombras ganhavam vida fácil. Bastava um gesto brusco, uma frase curta, um grito inflamado, e pronto: o país inteiro via na parede um salvador. Um guerreiro. Um justiceiro. O reflexo crescia, distorcido e magnânimo, enquanto o homem — real, limitado, comum — permanecia pequeno lá atrás, escondido atrás da fogueira que o alimentava.

    O mito era mais confortável que a realidade, prometia mais rápido e dispensava nuance. Até que um dia, como toda sombra que depende da chama, a luz vacilou. O fogo arrefeceu. E o que era mito virou réu, o que era promessa virou labirinto e o que era salvador virou acusado.

    Foi então que nasceu o mártir. Não por sacrifício, mas por narrativa; não por entrega, mas por conveniência; não por grandeza, mas por estratégia.

    A caverna, inquieta, precisava de um novo enredo. A sombra do herói não servia mais; melhor a do perseguido. Onde antes havia músculos de titã, agora pintaram feridas. Onde havia soberba, pintaram pureza. Onde havia contradição, pintaram conspiração. E a parede voltou a se iluminar — não com a chama da razão, mas com archotes de indignação cuidadosamente posicionados.

    Os habitantes da caverna se reuniram, como sempre, em volta das sombras. Acreditaram, como sempre, no que queriam acreditar. Repetiram, como sempre, o que ecoava mais alto.

    O homem da caverna — não o filósofo que busca a saída, mas aquele que teme a luz — encontrou seu novo papel: o de mártir incompreendido, injustiçado, predestinado. Enquanto isso, lá fora, o sol seguia nascendo sobre um país que preferia as sombras à claridade dolorosa dos fatos.

    E assim seguimos: entre a luz que liberta e a escuridão que consola, entre o homem e sua sombra, entre o mito fabricado e o mártir improvisado. Porque, afinal, nada é tão resistente quanto as histórias que contamos a nós mesmos quando temos medo de sair da caverna.

Fonte: Texto enviado por Gustavo Velôso

Foto: Google

12.06.2025

Fernando Sabino (Biografia)

 


    Fernando Sabino foi um dos grandes escritores brasileiros do século 20. Jornalista, cronista, contista, romancista, editor, cineasta, baterista, nadador. Muitas foram suas habilidades, mas é fundamentalmente reconhecido por seus textos bem humorados e de leitura muito fácil e prazerosa.

    Nasceu em Belo Horizonte, no Dia da Criança, em 12 de outubro de 1923. Talvez por isso mesmo dizia que se sentia sempre um menino, descobrindo coisas novas cotidianamente. As descobertas se davam no olhar curioso e no ato de escrever. “Os meus livros não são livros que procuram retratar o mundo. Os livros procuram apenas me ensinar aquilo que eu não sei pra eu poder ficar sabendo a meu respeito”, disse em entrevista à Bruna Lombardi no programa Gente de Expressão.

    Dentre suas obras mais conhecidas estão os romances O Grande Mentecapto, O Encontro Marcado e O Menino no Espelho. Publicou diversos livros de crônicas, como O Homem Nu, A Companheira de Viagem e Deixa o Alfredo Falar.

    Fernando Sabino escreveu também novelas, como A Vida Real e Faca de Dois Gumes. Publicou três livros de cartas (Cartas a um Jovem Escritor, correspondências trocadas com Mario de Andrade; Cartas Perto do Coração, com Clarice Lispector; e Cartas na Mesa com Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino).

    Morreu de câncer na véspera de seu aniversário de 81 anos, no dia 11 de outubro de 2004, em seu apartamento em Ipanema.

Biografia de Fernando Sabino

    Fernando Sabino nasceu em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, em 1923. Filho de Domenico Savino (“Domingos Sabino”) e de Odete Tavares de Lacerda Sabino, que eram descendentes de italianos nascidos em Leopoldina no interior mineiro. Durante a infância e a juventude, Fernando morou em uma casa da Rua Gonçalves Dias, número 1458, bem em frente à Praça da Liberdade.

Os primeiros textos

    Suas lembranças e fantasias de garoto foram as matérias-primas para a composição do romance O Menino no Espelho, publicado em 1982. Nele, o autor resgata as memórias de uma infância rica em brincadeiras, numa cidade que era ainda jovem (Belo Horizonte foi fundada em 1897, tinha apenas 26 anos quando o autor nasceu).

    Já o período da juventude de Fernando Sabino foi marcado pelo início de suas atividades literárias e a formação de um grupo de quatro amigos que se manteria coeso por toda a vida. Além de Fernando, o quarteto era formado por Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino. Todos eles se tornaram escritores e foram chamados por Otto de “quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”. Juntos conversavam sobre literatura e os dilemas da vida, frequentavam a zona boêmia de Belo Horizonte e iniciaram as primeiras atividades literárias e na imprensa. Este período reúne as angústias do jovem Fernando retratadas na primeira parte do livro O Encontro Marcado (1956), considerado por muitos como sua obra-prima.

    Fernando Sabino escreveu seu primeiro conto aos 14 anos e publicou o primeiro livro Os Grilos não Cantam Mais (1941) aos 17. Nesta época dedicava-se à natação e foi campeão recordista mineiro nos 400 metros nado costa.

    Em 1944 se casou com Helena, filha do governador de Minas Gerais, Benedito Valadares. Mudaram-se para o Rio de Janeiro, para que o jovem assumisse o cartório que ganhou de presente de casamento do então presidente Getúlio Vargas. Tiveram quatro filhos: Eliana, Leonora, Pedro e Virgínia.

Rio de Janeiro

    No Rio de Janeiro, passou a colaborar com a imprensa e se tornou amigo de grandes intelectuais e artistas, como Vinícius de Moraes, Tom Jobim e Rubem Braga.

Ao se separar de Helena, em 1952, Fernando Sabino abriu mão do cartório e passou a se dedicar integralmente à atividade literária e ao trabalho nos jornais e revistas. Chegou a escrever crônicas diárias para jornais.

    Em 1957 se casou com Anne Beatrice Estill e tiveram três filhos: Verônica, Bernardo e Mariana. Se separou em 1972 e se casou com Lygia Marina de Moraes, com quem não teve filhos.

No exterior e editor

    Fernando Sabino morou por dois anos na década de 1940 em Nova Iorque, onde trabalhou no consulado e nesta época produziu crônicas para jornais do Brasil, reunidas mais tarde no livro A Cidade Vazia. Morou também em Londres nos anos 1960, com a função de adido cultural na embaixada brasileira.

    Em 1960 fundou a Editora do Autor em sociedade com o escritor Rubem Braga, com foco em escritores brasileiros e latino-americanos. Em 1966, também com Rubem Braga, fundou a Editora Sabiá.

    Aventurou-se no vídeo e em 1973 criou a Bem-te-vi Filmes, com o cineasta David Neves. Juntos, produziram uma série de dez documentários sobre escritores brasileiros e também filmes sobre feiras internacionais.

    Apaixonado por jazz, foi baterista amador e muitos o viram tocar em bares do Rio de Janeiro.

Maturidade

    Revirando papéis antigos em 1979, Fernando Sabino encontrou as primeiras páginas de um romance que havia iniciado em 1946. Teve, a partir daí, uma compulsão por retomar a história e escreveu O Grande Mentecapto em apenas 18 dias. No ano seguinte, recebeu o Prêmio Jabuti de melhor romance pelo livro.

    Procurado pela ex-ministra da Economia Zélia Cardoso de Melo, escreveu o relato biográfico Zélia, Uma Paixão. O livro alcançou sucesso imediato, mas foi alvo de muitas críticas, inclusive de amigos do escritor.

    Nos últimos anos de vida, dedicou a organizar e publicar antigos trabalhos, como O Galo Músico (1999) e Os Movimentos Simulados (2004).

    Escreveu o próprio epitáfio, que está em seu túmulo no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro: “Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino!”.

    Seu legado é administrado pelo Instituto Fernando Sabino, presidido por um de seus filhos, Bernardo.

Obras de Fernando Sabino

Os grilos não cantam mais – contos (1941 – Pongetti)

A marca – novela (1944 – José Olympio)

A cidade vazia – crônicas e histórias (1950 – NY)

A vida real – novelas (1952, Editora A Noite)

Lugares comuns – dicionário (1952, Record)

O encontro marcado – romance (1956, Civilização Brasileira)

O homem nu – crônicas (1960, Editora do Autor)

A mulher do vizinho – crônicas (1962, Editora do Autor)

A companheira de viagem – crônicas (inclusive crônicas de viagens) (1965, Editora do Autor)

A inglesa deslumbrada – crônicas (inclusive crônicas de viagens) (1967, Sabiá)

Gente I e Gente II – crônicas e perfis de personalidades (1975, Record)

Deixa o Alfredo falar! – crônicas (1976, Record)

O Encontro das Águas – crônicas sobre uma viagem à cidade de Manaus/AM (1977, Record)

O grande mentecapto – romance (1979, Record)

A falta que ela me faz – crônicas (1980, Record)

O menino no espelho – romance (1982, Record)

O Gato Sou Eu – crônicas (1983, Record)

Macacos me mordam (1984, Record)

A vitória da infância (1984, Editora Nacional)

A faca de dois Gumes – novelas (1985, Record)

O Pintor que pintou o sete (1987, Berlendis & Vertecchia)

Martini Seco – romance policial (1987, Ática)

O tabuleiro das damas – autobiografia literária (1988, Record)

De cabeça para baixo – crônicas de viagens (1989, Record)

A volta por cima – crônicas (1990, Record)

Zélia, uma paixão – biografia (1991, Record)

O bom ladrão – novela (1992, Ática)

Aqui estamos todos nus (1993, Record)

Os restos mortais (1993, Ática)

A nudez da verdade (1994, Ática)

Com a graça de Deus (1995, Record)

O outro gume da faca – novela (1996, Ática)

Um corpo de mulher (1997, Ática)

O homem feito novela (originalmente publicada no volume A vida real) (1998, Ática)

Amor de Capitu – recriação literária de Dom Casmurro (1998, Ática)

No fim dá certo – crônicas (1998, Record)

A chave do enigma (1999, Record)

O galo músico (1999, Record)

Cara ou coroa? (2000, Ática)

Duas novelas de amor – novelas (2000, Ática)

Livro aberto – Páginas soltas ao longo do tempo – crônicas, entrevistas, fragmentos, etc. (2001, Record)

Cartas perto do coração – correspondência com Clarice Lispector (2001, Record)

Cartas na mesa – correspondência com Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino (2002. Record)

Os caçadores de mentira (2003, Rocco)

Cartas a um jovem escritor e suas respostas (2003, Record)

Os movimentos simulados (2004, Record)

Bolofofos e finifinos (2004, Ediouro)


Fonte: Por Da Janela

Foto: Google

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