“A Escola- A flor”, de José Mauro de Vasconcelos
– Quero falar uma coisa com você, Zezé. Espere um pouco.
Ficou arrumando a bolsa que não acabava mais. Se via que não estava com vontade nenhuma de me falar e procurava a coragem entre as coisas. Afinal se decidiu.
– Godofredo me contou uma coisa muito feia de você, Zezé. É verdade?
Balancei a cabeça, afirmativamente.
– Da flor? É, sim, senhora.
– Como é que você faz?
– Levanto mais cedo e passo no jardim da casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas lá tem tanta que nem faz falta.
– Sim, mas isso não é direito. Você não deve fazer mais isso. Isso não é um roubo, mas já é um “furtinho”.
– Não é não, D. Cecília. O mundo não é de Deus? Tudo que tem no mundo não é de Deus? Então as flores são de Deus também… Ela ficou espantada com a minha lógica.
– Só assim que eu podia, professora. Lá em casa não tem jardim. Flor custa dinheiro… e eu não queria que a mesa da senhora ficasse sempre de copo vazio.
Ela engoliu em seco.
– De vez em quando a senhora não me dá dinheiro para comprar um sonho recheado, não dá?
– Poderia dar todos os dias. Mas você some…
– Eu não poderia aceitar todos os dias…
– Por quê?
– Porque tem outros meninos pobres que também não trazem merenda.
Ela tirou o lenço da bolsa e passou disfarçadamente nos olhos.
– A senhora não vê a Corujinha?
– Quem é a Corujinha?
– Aquela pretinha do meu tamanho que a mãe enrola o cabelo dela em coquinhos e amarra com cordão.
– Sei. A Dorotília.
– É, sim, senhora. A Dorotília é mais pobre do que eu. E as outras meninas não gostam de brincar com ela porque é pretinha e pobre demais. Então ela fica no canto sempre. Eu divido o sonho que a senhora me dá, com ela.
Dessa vez ela ficou com o lenço parado no nariz muito tempo.
– A senhora de vez em quando, em vez de dar para mim, podia dar para ela. A mãe dela lava roupa e tem onze filhos. Todos pequenos ainda. Dindinha, minha avó, todo sábado dá um pouco de feijão e de arroz para ajudar eles. Eu divido o meu sonho porque Mamãe ensinou que a gente deve dividir a pobreza da gente com quem é ainda mais pobre.
As lágrimas estavam descendo.
– Eu não queria fazer a senhora chorar. Eu prometo que não roubo mais flores e vou ser cada vez mais um aluno aplicado.
– Não é isso, Zezé. Venha cá.
Pegou minhas mãos entre as dela.
– Você vai prometer uma coisa, porque você tem um coração maravilhoso, Zezé.
– Eu prometo, mas não quero enganar a senhora. Eu não tenho um coração maravilhoso. A senhora diz isso porque não me conhece em casa.
– Não tem importância. Para mim você tem. De agora em diante não quero que você me traga mais flores. Só se você ganhar alguma. Você promete?
– Prometo, sim senhora. E o copo? Vai ficar sempre vazio?
– Nunca esse copo vai ficar vazio. Quando eu olhar para ele vou sempre enxergar a flor mais linda do mundo. E vou pensar: quem me deu esta flor foi o meu melhor aluno. Está bem?
Agora ela ria. Soltou minhas mãos e falou com doçura.
– Agora pode ir, coração de ouro…
Autoria: José Mauro de Vasconcelos, Meu Pé de Laranja Lima
José Mauro de Vasconcelos (1920-1984)
Foto: Google


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