O homem que sabia javanês - Lima Barreto
"O homem que sabia javanês ", um conto de Lima Barreto publicado no periódico Gazeta da Tarde.
Nesse
conto, Lima Barreto irá fazer uma crítica ao sistema brasileiro (o famoso QI -
Quem indica) que favorece os pseudo intelectuais que acabam conseguindo as
melhores colocações, enquanto aqueles
que posssuem um verdadeiro conhecimento sobre algo não têm oportunidades.
É
aquela história. Você não precisa saber algo desde que achem que você sabe.
Basta ter um ar de autoridade, uma boa eloquência, se relacionar com as pessoas
certas, que logo estará "dando aula de javanês " , mesmo sem saber
uma única palavra da língua malaia.
É
impossível não fazer um paralelo com nossos tempos atuais. Basta dar uma breve
olhada nas redes sociais e logo encontraremos uma enxurrada de
"especialistas", de "gurus" que vendem, muitas vezes, os
resultados que não têm com base em um conhecimento estruturado em apenas
"linhas gerais."
E
é por isso que um clássico, como disse Italo Calvino, " é um livro que
nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer". Sempre que lemos um
clássico temos essa impressão de que ele está falando de "hoje."
E
nesse conto, Castelo é nosso pseudo intelectual. Um homem que chegou ao Rio de
Janeiro na miséria, vivia fugindo de seus credores, mas que chegou a Cônsul,
representou o Brasil em congressos internacionais, escrevia artigos em jornais
e revistas e até almoçou com o Presidente da República. Tudo isso por causa do
tal javanês do qual Castelo só sabia algumas letras.
E
essa empreitada de Castelo foi bem sucedida justamente porque não havia ninguém
para desmascará-lo, uma vez que ninguém sabia javanês.
É
por isso que conhecimento é poder. Se você não detém um conhecimento, qualquer coisa que lhe dizem soa como
verdade.
E
Castelo sabia tanto que essa forma de agir funciona que, ao final do conto, ele
fala que se não estivesse tão contente com sua carreira no consulado, ele seria
bacteriologista eminente.
Mas
vamos ao conto. É Castelo quem narra , em retrospecto, para o amigo Castro,
toda a aventura de sua vida.
Ele
encontra Castro em uma confeitaria já como Cônsul e escuta o amigo reclamar da
burocracia brasileira. Castelo, no entanto,
acha o Brasil um lugar onde se pode conseguir "belas páginas de
vida" e começa a contar como conseguiu chegar ao consulado sendo professor
de javanês.
Ele
estava completamente falido quando leu um anúncio em um jornal, onde um barão
precisava de um professor de língua javanesa.
Castelo
vai então até a Biblioteca Nacional e copia todo o alfabeto javanês e passa 2
dias em casa treinando sua pronúncia. Ele também pesquisou, assim muito por
cima, sobre a cultura local, o nome de alguns autores e algumas expressões
básicas. Tudo isso para construir o seu pseudo conhecimento.
Ao
cabo desses 2 dias, ele se apresentou na residência do Barão de Jacuecanga para
se candidatar a vaga.
O
barão estava em busca de um professor porque ele tinha herdado um livro de seu
pai escrito em língua malaia e havia uma lenda familiar de que quem conseguisse
ler o que estava escrito teria prosperidade.
O
barão havia recebido o livro de seu pai que, por sua vez, já havia recebido do
avó dele, mas nunca ninguém deu muita importância a essa tradição porque a
situação financeira da família era confortável.
Até
que os negócios do barão começaram a degringolar e ele atribuiu seu fracasso
financeiro ao fato de ainda não ter lido o tal o livro em javanês.
Castelo
é aceito como professor e de início ele tenta ensiná-lo o alfabeto, mas o barão
não se mostra muito disposto a aprender e pede para Castelo apenas ler o que estava escrito.
Castelo
começou então a "traduzir" o livro para o barão, mas na verdade ele
apenas inventava algumas bobagens e todos acreditavam que ele estava de fato
lendo o livro.
Ocorre
que durante esse período, o barão recebe uma herança e tanto ele , quanto a sua filha e seu genro,
atribuíram essa reviravolta nas finanças do barão ao professor de javanês.
O
genro do barão, que era desembargador, ficou encantado com o javanês de Castelo
e acabou o indicando para uma audiência com o ministro que o colocou no cargo
de Cônsul.
E
assim deu início a vida diplomática de Castelo. Uma carreira bem sucedida e
cheia de benefícios. Lima Barreto foi
cirúrgico nesse conto em nos alertar que nem tudo que reluz é ouro. Vale muito
a pena a leitura.
Fonte: Site lendocontonaquinta
Foto: Google


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