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12.07.2025

CRÔNICA — “Do Mito ao Mártir: A Sombra na Parede da Caverna”

CRÔNICA — “Do Mito ao Mártir: A Sombra na Parede da Caverna”

Por Gustavo Velôso

Em 26/11/2025

    Houve um tempo em que ele não era homem: era reflexo. Uma silhueta projetada no fundo da caverna nacional, tremulando na luz fraca de tochas acesas por mãos ansiosas. Era ali, entre ecos antigos e pedras frias, que muitos o viram nascer — não como figura de carne, mas como mito, palavra moldada mais pela crença do que pelo fato.

    Na caverna, as sombras ganhavam vida fácil. Bastava um gesto brusco, uma frase curta, um grito inflamado, e pronto: o país inteiro via na parede um salvador. Um guerreiro. Um justiceiro. O reflexo crescia, distorcido e magnânimo, enquanto o homem — real, limitado, comum — permanecia pequeno lá atrás, escondido atrás da fogueira que o alimentava.

    O mito era mais confortável que a realidade, prometia mais rápido e dispensava nuance. Até que um dia, como toda sombra que depende da chama, a luz vacilou. O fogo arrefeceu. E o que era mito virou réu, o que era promessa virou labirinto e o que era salvador virou acusado.

    Foi então que nasceu o mártir. Não por sacrifício, mas por narrativa; não por entrega, mas por conveniência; não por grandeza, mas por estratégia.

    A caverna, inquieta, precisava de um novo enredo. A sombra do herói não servia mais; melhor a do perseguido. Onde antes havia músculos de titã, agora pintaram feridas. Onde havia soberba, pintaram pureza. Onde havia contradição, pintaram conspiração. E a parede voltou a se iluminar — não com a chama da razão, mas com archotes de indignação cuidadosamente posicionados.

    Os habitantes da caverna se reuniram, como sempre, em volta das sombras. Acreditaram, como sempre, no que queriam acreditar. Repetiram, como sempre, o que ecoava mais alto.

    O homem da caverna — não o filósofo que busca a saída, mas aquele que teme a luz — encontrou seu novo papel: o de mártir incompreendido, injustiçado, predestinado. Enquanto isso, lá fora, o sol seguia nascendo sobre um país que preferia as sombras à claridade dolorosa dos fatos.

    E assim seguimos: entre a luz que liberta e a escuridão que consola, entre o homem e sua sombra, entre o mito fabricado e o mártir improvisado. Porque, afinal, nada é tão resistente quanto as histórias que contamos a nós mesmos quando temos medo de sair da caverna.

Fonte: Texto enviado por Gustavo Velôso

Foto: Google

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