CRÔNICA — “Do Mito ao Mártir: A Sombra na Parede da Caverna”
Por Gustavo Velôso
Em 26/11/2025
Houve um tempo em que ele não era
homem: era reflexo. Uma silhueta projetada no fundo da caverna nacional,
tremulando na luz fraca de tochas acesas por mãos ansiosas. Era ali, entre ecos
antigos e pedras frias, que muitos o viram nascer — não como figura de carne,
mas como mito, palavra moldada mais pela crença do que pelo fato.
Na caverna, as sombras ganhavam
vida fácil. Bastava um gesto brusco, uma frase curta, um grito inflamado, e
pronto: o país inteiro via na parede um salvador. Um guerreiro. Um justiceiro.
O reflexo crescia, distorcido e magnânimo, enquanto o homem — real, limitado,
comum — permanecia pequeno lá atrás, escondido atrás da fogueira que o
alimentava.
O mito era mais confortável que a realidade, prometia mais rápido e dispensava nuance. Até que um dia, como toda sombra que depende da chama, a luz vacilou. O fogo arrefeceu. E o que era mito virou réu, o que era promessa virou labirinto e o que era salvador virou acusado.
Foi então que nasceu o mártir.
Não por sacrifício, mas por narrativa; não por entrega, mas por conveniência;
não por grandeza, mas por estratégia.
A caverna, inquieta, precisava de
um novo enredo. A sombra do herói não servia mais; melhor a do perseguido. Onde
antes havia músculos de titã, agora pintaram feridas. Onde havia soberba,
pintaram pureza. Onde havia contradição, pintaram conspiração. E a parede
voltou a se iluminar — não com a chama da razão, mas com archotes de indignação
cuidadosamente posicionados.
Os habitantes da caverna se
reuniram, como sempre, em volta das sombras. Acreditaram, como sempre, no que
queriam acreditar. Repetiram, como sempre, o que ecoava mais alto.
O homem da caverna — não o
filósofo que busca a saída, mas aquele que teme a luz — encontrou seu novo
papel: o de mártir incompreendido, injustiçado, predestinado. Enquanto isso, lá
fora, o sol seguia nascendo sobre um país que preferia as sombras à claridade
dolorosa dos fatos.
E assim seguimos: entre a luz que liberta e a escuridão que consola, entre o homem e sua sombra, entre o mito fabricado e o mártir improvisado. Porque, afinal, nada é tão resistente quanto as histórias que contamos a nós mesmos quando temos medo de sair da caverna.
Fonte: Texto enviado por Gustavo Velôso
Foto: Google


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