5.08.2026

Seiscentos e sessenta e seis - Mario Quintana

 Mario Quintana (1906-1994)

O poeta gaúcho Mario Quintana ficou conhecido pela sua poesia do cotidiano, da singeleza, da delicadeza, que estabeleceu uma proximidade com o leitor.

Apesar da aparente simplicidade, os seus versos, profundos, foram celebrados com o Prêmio Machado de Assis (da Academia Brasileira de Letras) e com o Prêmio Jabuti.

Além de poeta, Quintana também foi tradutor e jornalista. Um dos seus poemas mais famosos é Seiscentos e sessenta e seis:

 

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são 6 horas: há tempo

Quando se vê, já é 6ª-feira

Quando se vê, passaram 60 anos!

Agora, é tarde demais para ser reprovado

E se me dessem um dia uma outra oportunidade,

eu nem olhava o relógio

seguia sempre em frente

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.


Autoria: Mário Quintana

Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

 

 

5.07.2026

O Relógio - R. Santana

 

O Relógio

R. Santana

 

O relógio, certamente, é uma das maiores invenções da humanidade. O homem desde tempos primórdios perseguiu a ideia de dividir o tempo. E, dividir o tempo tornou-se uma necessidade existencial: tempo de plantar, tempo de colher, tempo de marés altas, tempo de marés baixas, tempo de florescimento de plantas, tempo de medir os ventos, tempo de chuvas sazonais, tempo de reprodução animal, tempo de migração de animais, tempo de nascer e tempo de morrer. Na prática, o tempo é uma sucessão de segundos, de minutos, de horas, de dias, de meses, de anos, de Séculos. A História Ocidental dividiu o tempo: a. C. e d.C. Todos os acontecimentos são medidos na História, eles são medidos pelo tempo antes de Cristo e depois de Cristo. Portanto, o relógio instrumento mecânico, hoje, digital, serve para medir o tempo ente abstrato, transformando-o em ente concreto. A medida do tempo é condição sine qua non para sobrevivência humana.

O primeiro relógio que comprei foi fruto de uma ação espúria de um vizinho. Eu não contribuí nessa ação desonesta de maneira direta, mas fui conivente e omisso. Arnaldo Laranjeira era um rapaz alegre, inteligente e ardiloso, entretanto, não ganhava bem, fazia malabarismo para completar seu salário de mês. Colocou seu relógio numa rifa “Raid das Moças”, que era uma cartela com 100 quadrinhos e cada quadrinho o nome de uma “moça”. O sortudo teria que acertar o nome da moça que estava sob o selo lacrado da cartela. Arnaldo Laranjeira violou o selo, descobriu o nome, fez-me assinar o quadro sorteado e vendeu-me o relógio como se eu tivesse ganho.

O relógio teve uma evolução ao longo do tempo. Na antiguidade, o povo se baseava nos padrões do tempo, nos fenômenos naturais do tempo. Depois, os “relógios” de ampulhetas ou relógio de areia. Diz-se que o primeiro relógio mecânico foi feito pelo relojoeiro Abraham Louis, brasileiro, em 1814, encomenda da irmã de Napoleão Bonaparte. Porém, o relógio de pulso é atribuído ao pai da aviação, Santos Dummont, que pediu um relógio de pulso ao seu amigo Louis Cartier. Hoje, temos relógios “atômicos” e relógios digitais que são mais precisos, contudo, nunca são mais bonitos que os relógios mecânicos.

Hoje, é notório, famosos que são colecionadores de relógios, o mais notório deles, foi o saudoso Silvio Santos. Grandes “joias” raras são ostentadas nos pulsos de bilionários, a exemplo do Graff Diamonds e o Patek Philippe e o Rolex. Estes relógios chegam à cifra dos milhões de reais. Esses relógios, por falta de segurança institucional, não são usados no cotidiano pois, chamam a atenção dos donos do alheio.

O relógio de parede é um instrumento de medir o tempo que compõe essas invenções, historicamente, de valor inestimável. Diz-se que o relógio de parede com o pêndulo vai-e-vem, foi feito com base na Lei do Pêndulo de Galileu Galilei. Em tempo distante, o saudoso tio Pedro comprou um relógio de parede de pêndulo prateado para marcar o tempo dos jogadores de sinucas, 50 anos depois, esse relógio funciona com precisão e faz parte do espólio dos herdeiros.

O relógio tem seu lado romântico e exigente? Quem não se lembra do namoro regulado pelo tempo pelo pai da moça? – Senhor, em minha casa, o namoro, não passa das 22 horas! – O tempo passava numa velocidade inexplicável, onde se conclui que o tempo prazeroso passa numa grande velocidade e o tempo não prazeroso passa devagar. O trabalhador é exemplo vivo desse tempo, ele se angustia e as horas finais de seu trabalho não chegam...

Enfim, leitor amigo, trabalhe com amor, não olhe o feitor (o relógio)  do tempo, ele vai chegar quando você menos espera.


Autoria: Rilvan Batista de Santana

Licença: Creative Commons

Membro fundador da Academia de Letras de Itabuna – ALITA.

Imagem: Google

 

5.06.2026

O circo da vida em três atos - Agilson Cerqueira

 

O circo da vida em três atos

Agilson Cerqueira


I — O Capataz

Não entra no picadeiro.

Não suja as mãos de serragem.

Habita

o intervalo entre o gesto e a ordem,

onde a vontade já não é vontade,

mas cumprimento.

Seu chicote não estala —

antecipa-se.

Antes do erro,

já existe a culpa.

Antes do riso,

já existe a contenção.

E ninguém o vê,

porque ele não precisa aparecer:

foi distribuído

em cada obediência.


II — O Palhaço

Pinta no rosto

a caricatura da queda.

Tropeça

para que o mundo permaneça de pé.

Riem — mesmo quando não há riso.

Há algo quebrado no gesto,

um atraso no corpo,

como se a alma chegasse depois

para pedir desculpas.

Ele não erra:

é designado ao erro.

Carrega no nariz vermelho

o selo da falha

que não lhe pertence.

E ao final,

limpa o rosto —

mas a culpa

não sai com a tinta.


III — O Público

Assiste.

E ao assistir,

autoriza.

Quer o riso

como quem exige

um sacrifício leve,

cotidiano,

fica a espera do erro.

Irrisível,

aponta — não com o dedo,

mas com a expectativa.

Se não houver queda,

inventa-se uma.

Se não houver culpa,

atribui-se.

E sai do espetáculo

intacto,

como se não tivesse participado

da construção da ruína.

Mas leva consigo,

silenciosamente,

um fragmento do chicote

que fingiu não ver.

Sem riso,

o palhaço é sempre o culpado!


Autoria: Agilson Cerqueira

Foto: Produção
Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico.

Licença: Creative Commons

5.05.2026

Língua Portuguesa - Olavo Bilac

 








Língua Portuguesa

Olavo Bilac

 

Última flor do Lácio, inculta e bela,

És, a um tempo, esplendor e sepultura:

Ouro nativo, que na ganga impura

A bruta mina entre os cascalhos vela...

 

Amo-te assim, desconhecida e obscura,

Tuba de alto clangor, lira singela,

Que tens o trom e o silvo da procela,

E o arrolo da saudade e da ternura!

 

Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceano largo!

Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

 

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",

E em que Camões chorou, no exílio amargo,

O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

 

Publicado no livro Tarde (1919).


In: BILAC, Olavo. Poesias. Posfácio R. Magalhães Júnior. Rio de Janeiro: Ediouro, 197

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Att.: 05 de maio dia da Língua Portuguesa / Itabuna, 05 de maio de 2026,

 

O que é preciso para ser realmente rico? - Robert Tamasy

O que é preciso para ser realmente rico?

Por Robert Tamasy

Tempos atrás, minha esposa e eu visitamos um restaurante e depois preenchemos uma pesquisa sobre a nossa experiência ali. Ao responder ao questionário fomos automaticamente inscritos em um concurso que oferecia um prêmio em dinheiro. Para nossa surpresa, fomos notificados de que tínhamos ganhado e, semanas mais tarde, recebemos um cheque pelo correio. Não se tratava de uma grande quantia, mas procuramos fazer bom uso do dinheiro inesperado.

Isso me levou a ficar imaginando o que seria necessário para se sentir verdadeiramente rico. Que tal se você ganhasse um grande prêmio na loteria? Ou então se descobrisse que era herdeiro de um parente rico e que esta pessoa havia deixado para você uma grande herança? Ou ainda alguém aparecesse inesperadamente à sua porta para lhe dizer que você havia ganhado um polpudo bolão? Qualquer uma dessas situações faria de você uma pessoa rica?

Muitas pessoas acreditam que se de alguma forma ganhassem uma enorme quantia de dinheiro se tornariam verdadeiramente ricas e todos os seus problemas se resolveriam de repente. Mas será? Todos nós podemos nos lembrar de relatos noticiosos sobre pessoas famosas extremamente ricas que passaram por grandes dificuldades na vida apesar de sua riqueza. Algumas das nações mais ricas do mundo são assaltadas por grandes problemas sociais, apesar de sua abundância. Parece que afinal o dinheiro não é necessariamente o remédio para todos os males.

Alguém disse que diante da escolha entre ter ou não ter dinheiro, escolheria sem dúvida nenhuma ter dinheiro. Penso que todos nós concordaríamos com isso. Mas será o dinheiro, propriedades ou um portfólio com pesados investimentos a fonte da verdadeira riqueza – ou esta fonte é outra? E como ser bem-sucedidos e adquirir essas riquezas? A Bíblia apresenta algumas observações:

Riqueza material – e a falta dela – pode ser pedra de tropeço. Em termos de dinheiro e bens materiais, podemos debater-nos por não termos o que necessitamos. Porém, ter em demasia também pode criar problemas: “...não me dês nem pobreza nem riqueza; dá-me apenas o alimento necessário. Se não, tendo demais, eu Te negaria e Te deixaria, e diria: ‘Quem é o Senhor?’ Se eu ficasse pobre, poderia vir a roubar, desonrando assim o nome do meu Deus.” (Provérbios 30:8-9).  

Na busca por riquezas palpáveis, nada é o bastante. Há alguma coisa acerca das riquezas que não permite que nos convençamos de que já temos o bastante – mesmo as pessoas mais ricas dirão que sempre “cabe mais um pouquinho”. “Quem ama o dinheiro jamais terá o suficiente; quem ama as riquezas jamais ficará satisfeito com os seus rendimentos. Isso também não faz sentido.”  (Eclesiastes 5:10). “Duas filhas tem a sanguessuga. ‘Dê! Dê!’ gritam elas...” (Provérbios 30:15).

Conhecer e agir segundo a verdade é o caminho para a verdadeira riqueza. Abraçar a verdade que Deus proporciona nas Escrituras enriquece mais do que qualquer outra coisa que o mundo material possa oferecer. “Regozijo-me em seguir Teus testemunhos como o que se regozija com grandes riquezas.” (Salmos 119:14).

O uso que fazemos dos recursos materiais pode ser um teste.  Talvez nossa atitude em relação às riquezas e como usamos o que possuímos sirva como um forte indicador do nosso caráter, bem como de nossa confiabilidade como administradores daquilo que nos foi confiado.  “Assim, se vocês não forem dignos de confiança em lidar com as riquezas deste mundo ímpio, quem lhes confiará as verdadeiras riquezas?” (Lucas 16:11).

Questões Para Reflexão ou Discussão  

Segundo sua perspectiva, o que é preciso para ser verdadeiramente rico?

Quem é a pessoa mais rica que você conhece? Qual sua atitude em relação à sua riqueza? Você acredita que ela proporcionou a essa pessoa felicidade e realização verdadeira? Por quê?

Por que ter muito dinheiro pode ser uma pedra de tropeço e fonte de problemas para alguém?

Que você pensa da ideia de confiar e agir segundo as verdades de Deus como sendo elas a fonte das maiores riquezas?  Explique sua resposta

Nota: Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Provérbios 11:28;  13:7;  15:6;  16:8;  Eclesiastes 2:1-11;  12:13-14; Mateus 6:25-34.

REFLEXÃO - Luis Pedro Novaes

 



REFLEXÃO


Às vezes, podemos não saber,
Realmente tudo o que pode acontecer,
Mas, só para esclarecer,
Todos devemos viver.


Pode ser palavras vazias.
Ou cheias de amor,
Podem ser palavras carregadas,
Mais com grande temor.


Saibamos como a vida é,
Como passa rápido demais, não é?
Mas temos que aproveitar,
Pois o sopro que nos levanta,
Pode nos fazer-se deitar!


Uma notícia triste, ou alegre,
De forma caricata, célebre,
Ou com choro e velas,
O coração não releva,
E o corpo sim, se liberta,
Ou cai por terra.


Algumas coisas, precisamos dissipar,
Explodir, estourar,
Ou, em alguns casos,
Resguardar, calar,
Pois a língua, inclusive a nossa,
É pior do que podemos imaginar!


Reflita sobre a realidade,
A morte e a eternidade,
O ganho da perda,
Ou a perda da liberdade.


A vida é para viver
Intensamente, chorosamente,
Milagrosamente, tristemente,
Ou, como é o desejo de todos,
Divertidamente!


Celebre o que for possível,
Comemore o impossível,
Abrace seus entes queridos,
E viva, sempre divertido,
Pois tudo pode mudar,
Inclusive, até o nada,
Pode se transformar...



Autoria:  Luís Pedro Novaes

Foto: Produção

5.04.2026

DECLARAÇÃO DE AMOR A CIDADE DE SÃO JORGE DOS ILHÉUS Jorge Amado

 

DECLARAÇÃO DE AMOR A CIDADE DE SÃO JORGE DOS ILHÉUS - Jorge Amado (No centenário da cidade em 1981)

 

Cidade do meu amor, Rainha do Sul, reduto de índios, capitania, porta do cacau aberta ao mundo, porta de entrada ao universo grapiúna, São Jorge dos Ilhéus; pioneira, mãe de cidades, vilas, povoados, eu te saúdo em nome de tuas irmãs mais moças – Itabuna, Itajuípe, Belmonte, Uruçuca, Canavieiras, Ubaitaba, Caravelas, Una, Coaraci – em nome de todo o território e de todo o povo grapiúna, em tua data gloriosa, na festa de teu centenário.

Ditaste a lei e comandaste os homens na saga do cacau – sobre o sangue derramado construíste riqueza e civilização. Venho te ofertar meu amor de toda a vida, desde que cheguei infante à fímbria de teu mar, às praias do Pontal, vindo das terras ricas de Itabuna, das roças recém-plantadas, de Ferradas onde fui parido. Me acalentaste em teu seio pujante, de tua seiva me alimentei de destemor, de malícia e graça, de paixão pela aventura. Me ensinaste o acontecimento e a poesia, me deste a medida da vida e da morte, me deste a chave da adivinha, a que abre as portas da realidade e da magia.

Me fizeste homem e escritor, te devo a decisão, o conhecimento e o ofício, para que um dia eu viesse te reescrever, povoar tuas ruas, e arauto de tua grandeza, levasse teu nome ao longínquo e ao recôndito, aos confins.

Neste teu dia de proclamação e reconhecimento, quero saudar a todos e a cada um; saudar os coronéis, os que aceitaram o desafio e assumiram a luta, vararam a selva, derrubaram a mata virgem e plantaram as roças: coronel Manuel Misael da Silva Tavares, começou tropeiro tangendo burros, terminou rei do cacau; coronel Pedro Catalão, parecia um europeu de tão civilizado; coronel Basílio de Oliveira e Sinhô Badaró, os invencíveis guerreiros; coronel Antônio Pessoa e sua intendência; coronel Ramiro Ildefonso de Araújo Castro em seu palacete; coronel José Ninck, negro e destemido; coronel João Amado de Faria, meu pai; o coronel Aguiar com quem ele conversava em frente à nossa casa é o pai de Adonias Filho; saudar Brasilino José dos Santos, meu compadre Brás, a cara marcada da bexiga, o riso aberto no rosto de caboclo; ele traçou os caminhos, violou a floresta, plantou os alicerces de Pirangi, fundador da cidade.

Saudar os principais responsáveis por tua grandeza: os alugados e os jagunços, vindos do sertão e de Sergipe, os que adubaram a terra com seu sangue generosos e a prepararam para o plantio e a colheita do cacau; saudar os que lutaram pelo progresso, por teu novo porto substituindo a pequena enseada de perigos e naufrágios – teu porto por onde saem para os quatro cantos do mundo as amêndoas do cacau, tua cor, teu sabor e teu perfume. Saudar João Mangabeira, recém formado bacharel em Direito, menino de dezenove anos, desembarcando em Ilhéus para aprender e ensinar – plantou a cultura em meio aos cacauais.

Quero rever as meninas em flor, as namoradas na janela e no portão, quero reencontrar as raparigas dos cabarés e dos castelos, românticas e puras; quero jogar dados no bar do cais com os ingleses da Estrada de Ferro, brindar por teu futuro – com eles aprendemos o valor e o gosto da bebida; quero sentar novamente ao lado dos jogadores de pôquer, num quarto do Hotel Coelho, dos profissionais vindos para o novo eldorado ganhar o dinheiro fácil dos coronéis do cacau com a trinca Itabuna e um renque de blefes – meu tio Álvaro Amado, coronel do cacau, exibia o jogo, recolhia as fichas, sorria modesto: “mal sei distinguir o valor das cartas”.

Quero ouvir a voz erudita de João Evangelista de Oliveira, discutindo gramática e romances franceses; ler o artigo castiço de Nelson Schaun; a página exemplar de mestre Epaminondas Berbert de Castro; o verso de Fernando Caldas; escutar o riso de Helvécio Marques – eles empunharam a cultura como uma arma, tão importante quanto o rifle e o clavinote. Quero andar outra vez no Ford-de-bigodes de Demostinho, varar a estrada de lama e buracos para penetrar nas festas de Itabuna, namorar em Água Branca e em Banco da Vitória – Demosthenes Berbert de Castro, o patriota por excelência, o herói da construção do porto, o infatigável cidadão.

Quero abraçar Raymundo Sá Barretto, a imbatível lealdade a serviço de tua tradição e de teu progresso, quero perambular vagabundo pelas ruas, com o poeta Sosígenes Costa, vindo dos mares de Belmonte para ser teu predileto, aquele que te engrandeceu e nos deu o dom maior da poesia eterna. Quero ir buscar Otávio Moura na redação do jornal para partirmos ao encontro das mulheres mais famosas nos becos mais esconsos. Quero assistir o navio sueco vencer a barra estreita e ameaçadora e ancorar na manhã de minha infância, trazendo o sonho das virgens, a sedução da falsa loira de Estocolmo.

Quero brindar em tua honra com os ficcionistas grapiúnas, os que narram tuas histórias e inventam tua humanidade, conservam viva tua memória: Adonias Filho, James Amado, Jorge Medauar, Hélio Pólvora, Sônia Coutinho, Emo Duarte, Elvira Foepel, Cyro de Mattos, Marcos Santarita, Clodomir Xavier de Oliveira, meus irmãos de ofício e de labuta. Quero te saudar com os poemas mais belos de Telmo Padilha e Florisvaldo Mattos.

Quero improvisar uma canção, pronunciar um discurso, conceber um verso que seja igual à aurora, tenha a beleza única das roças de cacau, dos frutos sazonados, para dizer de tua face múltipla, rural e marítima, bravia e terna, de tua altivez atlântica, de tua graça cativante, de tua juventude centenária, de tua grandeza, cidade ilustre e fundamental, chão de valentes.

Sou teu filho, cresci em tuas ruas, contigo aprendi a liberdade e o futuro, a luta contra a opressão e a miséria, contigo aprendi o amor – minha cidade de Ilhéus, minha pátria bem-amada!

Obs: Em 1981 é o centenário da cidade, pois em 1881 Ilhéus foi elevada de vila à cidade.


Fonte: Grupo de WhatsApp da ALITA

Autoria: Jorge Amado

Foto: Google

5.03.2026

Curiosidade de Ronaldinho Gaúcho

 Ronaldinho Gaúcho (Memórias)

Um famoso ex-craque voltou para sua velha escolinha procurando memórias, mas encontrou o zelador que o ajudou quando criança trabalhando doente e esquecido... o que ele fez depois deixou todo mundo sem palavras

Quando Ronaldinho Gaúcho decidiu visitar a antiga escolinha onde começou a jogar futebol no bairro Restinga, em Porto Alegre, esperava encontrar memórias da infância, da época em que corria descalço pelos campos de terra lapidada. O que ele não esperava era reencontrar Dom Anísio, o zelador que acreditou nele muito antes do mundo ouvir falar do mágico.

A descoberta deixou Ronaldinho em choque. Enquanto muitas pessoas famosas talvez lhe tivessem dado um abraço e continuado o seu dia, a reação de Ronaldinho desencadeou uma série de eventos que mudariam para sempre a vida de Dom Anísio, de Dona Marta, sua esposa, e também da própria comunidade onde tudo começou.

Era uma tarde dourada de outono quando Ronaldinho Gaúcho, agora com 44 anos e um mundo de histórias às costas, estacionou seu SUV preto em frente à escola municipal Bento Gonçalves, no coração da Restinga, Porto Alegre. O motor desligou, mas dentro do peito o coração batia forte, quase como nas finais mais tensas que já havia disputado.

Antes de abrir a porta, ele ficou ali quieto, olhando para o prédio simples. As paredes pintadas de azul claro estavam mais vivas do que eu lembrava, mas as paredes, riscadas com desenhos e frases, ainda guardavam a alma daquele lugar. Era como se o tempo lá tivesse aprendido a andar mais devagar.

- Tens a certeza que queres fazer isto? — perguntou o amigo que dirigia, mexendo o retrovisor com nervosismo.

Ronaldinho arrumou o boné, escondendo parte do rosto que todo brasileiro conhecia de cor, e respondeu apenas com um sorriso tranquilo:

— Às vezes, é preciso voltar às raízes para lembrar quem é.

Abriu a porta e pisou firme no chão de calçada. Seus passos, embora mais pesados do que na juventude, ainda carregavam uma leveza única, essa mesma leveza que parecia desafiar a gravidade nas quadras do mundo inteiro.

O pátio da escola estava cheio de vozes infantis, gargalhadas soltas, uma bola de futebol rolando de pé. Ronaldinho olhou para a quadra e, por um segundo, viu-se descalço, correndo com os dentes à vista e a alma livre.

Passou quase despercebido entre os meninos e meninas, que não sabiam que o homem de boné escondia um dos maiores nomes da história do futebol. Isso arrancou um sorriso sincero. Ali, entre aquelas crianças, ele era apenas mais um filho da Restinga.

Continuou em direção ao campo de futebol, com o coração apertado a cada passo. Murais coloridos adornavam os corredores, retratando momentos de glória dos alunos, frases de humor e, em um dos cantos, uma pintura antiga e já descolorida. Era ele mesmo com a camisa da seleção, um sorriso enorme, levantando uma taça imaginária. Mas não foi a pintura que o deixou imóvel.

Na margem do campo, abaixado, varrendo com esforço as bancadas de madeira gasta, estava um senhor de roupão cinzento e olhos cansados: Anísio. O tempo tinha encurvado seus ombros, amava o cabelo, mas seu jeito de ser, esse jeito de quem carrega o mundo nas costas sem perder a ternura, era inconfundível.

Ronaldinho engoliu saliva. Lá estava o homem que, anos atrás, abria o portão da escolinha antes mesmo do sol nascer para que ele, o pequeno Ronaldo de sorriso maroto, pudesse treinar. O mesmo que costurava bolas partidas, remendava botas velhas e dava conselhos que iam muito além do futebol. Respirou fundo e aproximou-se.

- licença, tio - disse com a voz quebrada pela memória.

Dom Anísio levantou o rosto, limpando o suor com o antebraço cheio de pó.

- Vens para a escolinha? Está procurando lugar para seu menino? — perguntou sem reconhecer, mas com essa gentileza que nunca lhe faltava.

Ronaldinho sorriu mal.

— Já faz um bom tempo que não estudo aqui.

Dom Anísio franziu a sobrancelha, olhando para aquele rosto meio escondido pelo boné.


Fonte: Facbook

Foto: Produção

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O fim do mundo - Cecília Meireles

O fim do mundo - Cecília Meireles

A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.

Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.

Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.

Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste - mas que importância tem a tristeza das crianças?

Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.

Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.

O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos - além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.

Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.

Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus - dono de todos os mundos - que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos - segundo leio - que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.

Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos - insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.

Ainda há uns dias a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês...

***

A crônica Fim do mundo, de Cecília Meireles pode ser lida em Quatro Vozes, obra publicada em 1998. Aqui a autora descreve um acontecimento de sua infância, em que a passagem de um cometa deixou as mulheres de sua família apavoradas.

Cecília, criança, ao testemunhar a passagem do cometa não se assustou, pelo contrário, ela ficou maravilhada. Assim, esse episódio marcou a vida da escritora, que expõe de maneira clara e precisa suas considerações acerca da vida, do tempo e da finitude, fazendo um paralelo com os mistérios do universo.


Fonte: Cultura Genial

Cecília Meireles

Hilda Hilst (1930 - 2004)

Hilda Hilst (1930 - 2004) 

A paulistana Hilda Hilst é considerada uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX, tendo produzido textos por mais de cinquenta anos. Hilda dizia que o seu trabalho buscava representar a difícil relação entre Deus e o homem. 

Mais de vinte livros de poesia de Hilda foram publicados. A autora também recebeu os principais prêmios nacionais de literatura como o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (1977) e o Prêmio Jabuti (1984)

O seu livro de poesias "Cantares de perda e predileção" (1983) é indispensável para quem gosta de produções poéticas. 

Conheça um pouco do trabalho da escritora através do poema Árias pequenas. Para bandolim:

Antes que o mundo acabe, Túlio,

Deita-te e prova

Esse milagre do gosto

Que se fez na minha boca

Enquanto o mundo grita

Belicoso. E ao meu lado

Te fazes árabe, me faço israelita

E nos cobrimos de beijos

E de flores

Antes que o mundo se acabe

Antes que acabe em nós

Nosso desejo.

Conheça a biografia de Hilda Hilst.

 

Destaques

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