O circo da vida em três atos
Agilson Cerqueira
I — O Capataz
Não entra no picadeiro.
Não suja as mãos de serragem.
Habita
o intervalo entre o gesto e a ordem,
onde a vontade já não é vontade,
mas cumprimento.
Seu chicote não estala —
antecipa-se.
Antes do erro,
já existe a culpa.
Antes do riso,
já existe a contenção.
E ninguém o vê,
porque ele não precisa aparecer:
foi distribuído
em cada obediência.
II — O Palhaço
Pinta no rosto
a caricatura da queda.
Tropeça
para que o mundo permaneça de pé.
Riem — mesmo quando não há riso.
Há algo quebrado no gesto,
um atraso no corpo,
como se a alma chegasse depois
para pedir desculpas.
Ele não erra:
é designado ao erro.
Carrega no nariz vermelho
o selo da falha
que não lhe pertence.
E ao final,
limpa o rosto —
mas a culpa
não sai com a tinta.
III — O Público
Assiste.
E ao assistir,
autoriza.
Quer o riso
como quem exige
um sacrifício leve,
cotidiano,
fica a espera do erro.
Irrisível,
aponta — não com o dedo,
mas com a expectativa.
Se não houver queda,
inventa-se uma.
Se não houver culpa,
atribui-se.
E sai do espetáculo
intacto,
como se não tivesse participado
da construção da ruína.
Mas leva consigo,
silenciosamente,
um fragmento do chicote
que fingiu não ver.
Sem riso,
o palhaço é sempre o culpado!

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