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5.06.2026

O circo da vida em três atos - Agilson Cerqueira

 

O circo da vida em três atos

Agilson Cerqueira


I — O Capataz

Não entra no picadeiro.

Não suja as mãos de serragem.

Habita

o intervalo entre o gesto e a ordem,

onde a vontade já não é vontade,

mas cumprimento.

Seu chicote não estala —

antecipa-se.

Antes do erro,

já existe a culpa.

Antes do riso,

já existe a contenção.

E ninguém o vê,

porque ele não precisa aparecer:

foi distribuído

em cada obediência.


II — O Palhaço

Pinta no rosto

a caricatura da queda.

Tropeça

para que o mundo permaneça de pé.

Riem — mesmo quando não há riso.

Há algo quebrado no gesto,

um atraso no corpo,

como se a alma chegasse depois

para pedir desculpas.

Ele não erra:

é designado ao erro.

Carrega no nariz vermelho

o selo da falha

que não lhe pertence.

E ao final,

limpa o rosto —

mas a culpa

não sai com a tinta.


III — O Público

Assiste.

E ao assistir,

autoriza.

Quer o riso

como quem exige

um sacrifício leve,

cotidiano,

fica a espera do erro.

Irrisível,

aponta — não com o dedo,

mas com a expectativa.

Se não houver queda,

inventa-se uma.

Se não houver culpa,

atribui-se.

E sai do espetáculo

intacto,

como se não tivesse participado

da construção da ruína.

Mas leva consigo,

silenciosamente,

um fragmento do chicote

que fingiu não ver.

Sem riso,

o palhaço é sempre o culpado!


Autoria: Agilson Cerqueira

Foto: Produção
Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico.

Licença: Creative Commons

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