4.20.2026

Insônia infeliz e feliz - Clarice Lispector

 

Insônia infeliz e feliz - Clarice Lispector

De repente os olhos bem abertos. E a escuridão toda escura. Deve ser noite alta. Acendo a luz da cabeceira e para o meu desespero são duas horas da noite. E a cabeça clara e lúcida. Ainda arranjarei alguém igual a quem eu possa telefonar às duas da noite e que não me maldiga. Quem? Quem sofre de insônia? E as horas não passam. Saio da cama, tomo café. E ainda por cima com um desses horríveis substitutos do açúcar porque Dr. José Carlos Cabral de Almeida, dietista, acha que preciso perder os quatro quilos que aumentei com a superalimentação depois do incêndio. E o que se passa na luz acesa da sala? Pensa-se uma escuridão clara. Não, não se pensa. Sente-se. Sente-se uma coisa que só tem um nome: solidão. Ler? Jamais. Escrever? Jamais. Passa-se um tempo, olha-se o relógio, quem sabe são cinco horas. Nem quatro chegaram. Quem estará acordado agora? E nem posso pedir que me telefonem no meio da noite pois posso estar dormindo e não perdoar. Tomar uma pílula para dormir? Mas e o vício que nos espreita? Ninguém me perdoaria o vício. Então fico sentada na sala, sentindo. Sentindo o quê? O nada. E o telefone à mão.

Mas quantas vezes a insônia é um dom. De repente acordar no meio da noite e ter essa coisa rara: solidão. Quase nenhum ruído. Só o das ondas do mar batendo na praia. E tomo café com gosto, toda sozinha no mundo. Ninguém me interrompe o nada. É um nada a um tempo vazio e rico. E o telefone mudo, sem aquele toque súbito que sobressalta. Depois vai amanhecendo. As nuvens se clareando sob um sol às vezes pálido como uma lua, às vezes de fogo puro. Vou ao terraço e sou talvez a primeira do dia a ver a espuma branca do mar. O mar é meu, o sol é meu, a terra é minha. E sinto-me feliz por nada, por tudo. Até que, como o sol subindo, a casa vai acordando e há o reencontro com meus filhos sonolentos.

Clarice Lispector teve muitas crônicas publicadas no Jornal do Brasil nos anos 60 e 70. Boa parte desses textos está no livro A descoberta do mundo, de 1984.

Um deles é essa pequena crônica que discorre sobre a insônia. Clarice consegue trazer os dois lados de uma mesma situação, em que às vezes ela se sente solitária, desamparada e angustiada; outras vezes consegue acessar toda a potência e liberdade do isolamento, vivenciando o que se costuma chamar de "solitude".


Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

A Lógica do Vaqueiro - Ken Korkow

                                                 A Lógica do Vaqueiro

Por Ken Korkow

 

Embora tenha vivido muitos anos no mundo empresarial, algumas das maiores e mais profundas lições sobre a vida – e trabalho – me vieram do tempo que passei como “cowboy” no rancho da família em Dakota do Sul, EUA. Por exemplo, aprendi muito sobre relacionamento com pessoas enquanto trabalhava com bezerros e observava outras pessoas trabalharem com eles. 

 

A experiência me ensinou que ao trabalhar com bezerros existem três posições para se estar:

 

1. Quando trabalham com bezerros, muitas pessoas que não estão familiarizadas com eles não querem chegar muito perto. Sendo assim, elas esticam a mão e tentam convencer o animal a fazer o que elas querem a um braço de distância. Mas o bezerro dá coices e geralmente, ao fazer isso, acaba atingindo a perna da pessoa.  Moral da história: realização mínima, dor máxima. 


2. Poucas pessoas realmente dirigem o bezerro, colocando uma mão em sua orelha e outra em seu rabo. Elas são pessoais: colocam o seu jeans limpo bem perto da suja parte posterior do animal. Moral da história: o bezerro ainda escoiceia, mas está tão perto que não chega a machucar. E assim, geralmente é possível fazer o bezerro ir aonde se quer que ele vá. 

 

3. A outra alternativa é estar fora do cercado, totalmente longe do alcance dos animais. Moral da história: a pessoa não se machuca e o seu jeans permanece limpo. Mas nenhum trabalho é realizado. 

 

Minha experiência como vaqueiro também me mostrou que trabalhar com pessoas é muito parecido a trabalhar com bezerros. Se você não estiver realmente disposto a se aproximar e tornar pessoal o contato, poderia muito bem estar fora do relacionamento. 

 

Frequentemente ficamos frustrados com o que as pessoas fazem. Ficamos pensando por que elas estão agindo desta ou daquela forma. Sem estar disposto a se aprofundar no relacionamento com elas, tocar abaixo da superfície para descobrir questões importantes, jamais obteremos as respostas. Se desejarmos construir relacionamentos significativos com as pessoas, as abordagens número 1 e número 3 não vão funcionar. Nós precisamos nos aproximar e arriscar nos sujarmos. Isto se aplica a empregadores e seus empregados; empresários e profissionais envolvidos com seus colegas de trabalho, e até mesmo na interação com clientes e fornecedores. 

 

Vemos na vida de Jesus Cristo que Ele tomou a decisão de não focar nas grandes multidões ou concentrar Sua atenção em pessoas com influência e riquezas. Ao contrário, Ele foi extremamente profundo – o equivalente a uma viagem de acampamento de três anos e meio – com um punhado de indivíduos improváveis, homens que Ele escolheu para serem Seus discípulos. Nada de estar a um braço de distância; nada de se esconder.  Nenhuma das duas era uma opção. Tudo em seu relacionamento era aberto e transparente. 

 

Mas não podemos ir mais fundo com todas as pessoas. Não temos nem o tempo, nem a energia requeridos. E não podemos investir em toda boa oportunidade que se apresente. Nós devemos seguir a direção de Deus, começar pelo nosso relacionamento com Deus. Em Marcos 12:30 Jesus disse: “Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças.” Este é o alicerce para todos os demais relacionamentos. 

 

No versículo seguinte, Marcos 12:31, Jesus citou a outra prioridade nos relacionamentos: “...Ame o seu próximo como a si mesmo...”. Isso inclui seu cônjuge, família, pessoas com quem trabalha, amigos, e até pessoas que vivem em seu bairro. A ordem da prioridade dada por Jesus é importante porque não podemos verdadeiramente amar nosso “próximo” – seja quem for – sem primeiramente amarmos a Deus o mais completa e profundamente que pudermos. 

 

Então, mesmo no ambiente de trabalho, podemos seguir as instruções finais que Jesus deu a Seus seguidores em Seus últimos momentos na terra.  Podemos fazer“...discípulos de todas as nações...ensinando-os a obedecer a tudo o que Eu lhes ordenei...” (Mateus 28:19-20). Só podemos fazer isso estando dispostos a chegar bem perto e arriscando a nos sujarmos.

 

Questões Para Reflexão ou Discussão  

 

- Você já esteve em um rancho ou fazenda e interagiu com animais?  Se lhe pedissem para se aproximar de um bezerro de que forma você o faria?

- O autor diz que para se trabalhar com bezerros ou pessoas é preciso chegar bem perto e estar disposto a ficar sujo. Como você reage a isto?

- Por que é tão difícil se aproximar das pessoas? Qual a sua experiência quanto a isso?

- Você concorda que para desenvolver um relacionamento profundo e significativo com as pessoas é preciso primeiramente ter um relacionamento profundo e significativo com Deus? Explique sua resposta.

Nota: Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Provérbios 12:26; 17:17; 27:9-10; Filipenses 4;9; I Tessalonicenses 2:7-8, 11-12;  II Timóteo 2:2. 

 

Instante Absoluto - Agilson Cerqueira

 


Instante Absoluto 

Agilson Cerqueira 

Inspire.
Expire.
O essencial não exige esforço —
apenas atenção.
Selecione.
Reduza.
Pense com rigor.
Nem tudo pede solução.
Mas tudo exige medida.
A vida não se resolve —
se atravessa.
E ao fim,
não há permanência do nome,
nem da forma,
nem da intenção.
A matéria persiste.
Transforma-se.
Dispersa no que continua
sem você.
Ali,
sem testemunho,
sem memória,
resta apenas
sua ínfima participação
no movimento do mundo.
Nada grandioso.
Mas irrecusável.

Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico. 

Licença: Creative Commons

4.19.2026

MEMÓRIA DE UM AMOR QUE NUNCA FOI" - Mia Couto


MEMÓRIA DE UM AMOR QUE NUNCA FOI"

Mia Couto

"Bebedor de luas me embriago, negro no fundo negro das vielas e me dissolvo, sem passo, no abismo onde o tempo naufraga sem lembrança.

Um rio sustenta a tua boca, duas margens de água e carne, duas feridas de um desejo que do corpo se perdeu.

Não fosse a tua boca água nua esperando um barco e morreria eu de amar, e morrerias tu sem mar.

Mas do sempre que fomos o que restou? Silêncio aos pedaços, palavras que em lágrima se soletram.

E são de aves as folhas que tombam e não há chão nem vento onde se deitem.

Melhor dormir se o tempo se faz sem ti e guardar-te em sonho até tu mesmo seres noite.

Desperto: todas as pedras secaram, saudosas de carícia tua.

Todas as luas ficaram por nascer sedentas dos olhos que são teus.

Depois volto a beber o luminoso veneno em que escureço e o dia regressa, mendigo e magro,

buscando em mim lembrança de um amor que de tanto ser não saberá nunca ter lembrança."

Mia Couto

in "Vagas e Lumes".

Foto: Google 


ARTIGO — O Progresso que Não Foi Limpo: Armas, Expansão e Poder na História dos Estados Unidos - Gustavo Velôso (*)

ARTIGO — O Progresso que Não Foi Limpo: Armas, Expansão e Poder na História dos Estados Unidos

*Gustavo Velôso

18/04/2026

A história do desenvolvimento dos Estados Unidos não começa como potência global, começa como necessidade de ocupar território, crescer e se afirmar, e nesse caminho o que aparece primeiro não é a indústria nem a tecnologia, mas a arma, presente desde as milícias coloniais, legitimada pelo direito constitucional de portar armas, incorporada como cultura e instrumento de sobrevivência, e é com ela que o país avança para o Oeste, não de forma pacífica, mas empurrando, cercando e destruindo povos inteiros, como mostra o retrato apresentado por Dee Brown em “Enterrem Meu Coração na Margem do Rio”, onde o crescimento territorial e econômico se revela inseparável da expulsão, dos massacres e da quebra sistemática de acordos com os povos indígenas, estabelecendo um padrão que se repete: expansão, conflito, domínio, consolidação; esse padrão se amplia no século XIX com a Guerra Civil Americana, que consolida o poder industrial e militar, transforma a produção de armas em indústria e prepara o país para projetar força além de seu território, o que se concretiza quando os Estados Unidos deixam de ser apenas uma nação em expansão interna e passam a disputar influência global, entrando no jogo das grandes potências; no século XX, com as guerras mundiais e o uso de armas nucleares, o país alcança um nível de poder que redefine a guerra, e na disputa entre Estados Unidos e União Soviética esse poder se transforma em estratégia permanente baseada em influência, pressão e confronto indireto, e é nesse ambiente que decisões de curto prazo geram efeitos duradouros, como o apoio aos combatentes no Afeganistão contra a União Soviética, dentro de um programa conduzido pela agência de inteligência dos Estados Unidos, que arma, treina e financia grupos que depois se reorganizam e dão origem a redes como a Al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden, evidenciando o retorno do conflito nos ataques de 11 de setembro de 2001 e desencadeando a chamada guerra ao terror; ao mesmo tempo, figuras como Saddam Hussein revelam a lógica das alianças temporárias, sendo apoiado durante a guerra entre Irã e Iraque e posteriormente combatido na guerra do Golfo e na invasão do Iraque sob a justificativa de armas que não se confirmaram, reforçando um padrão de interesses variáveis onde o armamento acompanha a conveniência política; no caso do Irã, a tensão se estende desde o golpe apoiado pelos Estados Unidos em 1953 até o cenário atual, marcado por disputas envolvendo petróleo, rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, influência regional e programa nuclear, configurando um conflito muitas vezes indireto, sustentado por sanções, alianças e confrontos pontuais; ao longo desse percurso surge a interpretação de que guerras serviriam para descartar armas antigas, mas isso não se sustenta como causa real, pois o custo dos conflitos supera qualquer lógica de simples renovação de estoque, o que ocorre, na prática, é que guerras motivadas por interesses maiores acabam também consumindo arsenais, acelerando a substituição tecnológica e movimentando a estrutura que integra indústria, Estado e forças armadas; quando se observa o conjunto, da expansão sobre os povos indígenas aos conflitos contemporâneos, revela-se uma lógica contínua em que desenvolvimento econômico, expansão territorial, indústria e poder militar caminham juntos, e a arma deixa de ser apenas defesa para se tornar instrumento de construção de poder, manutenção de influência e organização do mundo ao redor de interesses estratégicos, produzindo avanços inegáveis, mas também conflitos persistentes, evidenciando que o progresso não foi limpo, foi marcado por disputa, imposição e consequências que atravessam o tempo.



*Gustavo Velôso é escritor ferradense, autor da Coleção Raízes Grapiúnas – Selo FERRADAS e Membro Fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

País rico - Lima Barreto

 

País rico - Lima Barreto

Não há dúvida alguma que o Brasil é um país muito rico. Nós que nele vivemos; não nos apercebemos bem disso, e até, ao contrário, o supomos muito pobre, pois a toda hora e a todo instante, estamos vendo o governo lamentar-se que não faz isto ou não faz aquilo por falta de verba.

Nas ruas da cidade, nas mais centrais até, andam pequenos vadios, a cursar a perigosa universidade da calariça das sarjetas, aos quais o governo não dá destino, o os mete num asilo, num colégio profissional qualquer, porque não tem verba, não tem dinheiro. É o Brasil rico…

Surgem epidemias pasmosas, a matar e a enfermar milhares de pessoas, que vêm mostrar a falta de hospitais na cidade, a má localização dos existentes. Pede-se à construção de outros bem situados; e o governo responde que não pode fazer porque não tem verba, não tem dinheiro. E o Brasil é um país rico.

Anualmente cerca de duas mil mocinhas procuram uma escola anormal ou anormalizada, para aprender disciplinas úteis. Todos observam o caso e perguntam:

-Se há tantas moças que desejam estudar, por que o governo não aumenta o número de escolas a elas destinadas?

O governo responde:

- Não aumento porque não tenho verba, não tenho dinheiro.

E o Brasil é um país rico, muito rico…

As notícias que chegam das nossas guarnições fronteiriças, são desoladoras. Não há quartéis; os regimentos de cavalaria não tem cavalos, etc; etc.

- Mas que faz o governo, raciocina Brás Bocó, que não constrói quartéis e não compra cavalhadas?

O doutor Xisto Beldroegas, funcionário respeitável do governo acode logo:

- — Não há verba; o governo não tem dinheiro

- — E o Brasil é um país rico; e tão rico é ele, que apesar de não cuidar dessas coisas que vim enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios.

O Brasil é um país rico…

****

O texto em questão foi escrito por Lima Barreto em 1920 e pode ser lido em Crônicas Escolhidas, publicado em 1995, que reúne parte da produção do célebre escritor.

Lima Barreto foi um autor bastante atento e questionador, contribuindo significativamente para pensar o Brasil de um ponto de vista crítico, trazendo questões como a desigualdade e a pobreza.

O sociólogo e crítico literário Antônio Candido descreve Lima Barreto da seguinte forma:

"Mesmo nas páginas breves, entendia, sentia e amava as criaturas mais insignificantes e comuns, os esquecidos, os lesados e os evitados pelo establishment."

Assim, nesse texto - infelizmente ainda atual - nos deparamos com uma crítica ácida ao governo brasileiro do início do século XX, em que as prioridades são para coisas superficiais, enquanto os serviços públicos que deveriam funcionar são deixados de lado.


Fonte: Lima Barreto

Foto: Google

4.18.2026

Cafezinho – Rubem Braga

 







Cafezinho – Rubem Braga

Leio a reclamação de um repórter irritado que precisava falar com um delegado e lhe disseram que o homem havia ido tomar um cafezinho. Ele esperou longamente, e chegou à conclusão de que o funcionário passou o dia inteiro tomando café.

Tinha razão o rapaz de ficar zangado. Mas com um pouco de imaginação e bom humor podemos pensar que uma das delícias do gênio carioca é exatamente esta frase:

- Ele foi tomar café.

A vida é triste e complicada. Diariamente é preciso falar com um número excessivo de pessoas. O remédio é ir tomar um "cafezinho". Para quem espera nervosamente, esse "cafezinho" é qualquer coisa infinita e torturante.

Depois de esperar duas ou três horas dá vontade de dizer:

- Bem cavaleiro, eu me retiro. Naturalmente o Sr. Bonifácio morreu afogado no cafezinho.

Ah, sim, mergulhemos de corpo e alma no cafezinho. Sim, deixemos em todos os lugares este recado simples e vago:

- Ele saiu para tomar um café e disse que volta já.

Quando a Bem-amada vier com seus olhos tristes e perguntar:

- Ele está?

- alguém dará o nosso recado sem endereço.

Quando vier o amigo e quando vier o credor, e quando vier o parente, e quando vier a tristeza, e quando a morte vier, o recado será o mesmo:

- Ele disse que ia tomar um cafezinho...

Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão:

- Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí...

Ah! fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos assim. A vida é complicada demais. Gastamos muito pensamento, muito sentimento, muita palavra. O melhor é não estar.

Quando vier a grande hora de nosso destino nós teremos saído há uns cinco minutos para tomar um café. Vamos, vamos tomar um cafezinho.

****

A crônica Cafezinho, de Rubem Braga, integra o livro O conde e o passarinho & Morro do isolamento, publicado em 2002. No texto acompanhamos as reflexões do autor diante de uma situação em que um repórter vai falar com um delegado e precisa esperá-lo por longo tempo, pois o homem havia saído para tomar um cafezinho.

Esse é um bom exemplo de como as crônicas podem abordar assuntos do cotidiano para mergulhar em questões subjetivas e profundas da vida. Assim, é a partir de algo corriqueiro que Rubem nos fala sobre a tristeza, o cansaço, o destino e a morte.


Fonte: Pensador

Foro: Google

Habitar-se - Agilson Cerqueira

 







Habitar-se

Agilson Cerqueira


Eu dentro de mim mesmo,

recuando

das margens ruidosas do mundo.

Recolho-me

como quem retorna

à casa mais antiga do ser.

Enroscado

na consciência,

escuto o rumor lento

dos próprios pensamentos.

Lá fora

o tempo corre,

as vozes disputam espaço,

os dias se apressam.

Aqui dentro

há apenas o silêncio

respirando.

E nesse silêncio descubro

que a alma também tem caminhos

que só se revelam

a quem se detém.

Cada pensamento

é uma porta entreaberta,

cada memória

um clarão no escuro.

Há mares escondidos

no cérebro humano,

há tempestades

que ninguém vê.

Em mim

há perguntas antigas,

há sonhos inacabados,

há fragmentos de vida

que ainda procuram sentido.

Caminho

por territórios invisíveis,

cartógrafo de mim mesmo,

tentando compreender

o mapa secreto

do que sou.

E quanto mais mergulho,

mais percebo:

o ser humano

é um universo

que nunca termina de nascer.

Depois do mergulho

vem o silêncio mais claro.

Já não me escondo em mim —

habito-me.

Bastando-me

no gesto simples de existir,

na vigília tranquila

dos pensamentos.

Descubro então

que dentro de cada ser

há uma chama discreta

que insiste em iluminar.

Não é solidão:

é presença.

Não é fuga:

é encontro.

E assim permaneço,

entre o mundo e o íntimo,

aprendendo devagar

que às vezes

a maior descoberta do homem

é reconhecer

que dentro de si

também mora

um infinito.


Autoria: Agilson Cerqueira
Foto: Produção

Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico. 

Licença: Creative Commons

Ser Mulher Alineci - Cardoso dos Santos

 






Ser Mulher

Alineci Cardoso dos Santos

 

Ser Mulher

Ser-ai

A perambular pelos sonhos Madrigais

 

Luzir

Viver

Lutar

Resistir

 

Que nem poesia empoeirada

Rabiscada em um canto qualquer

 

Na estante um estandarte

Que rasga o peito

Multicolor

Universal

O imaterial

 

Fecundo

Nascente

Que nem cachaça boa sacia a sede

 

Porque na nudez humana encontra a tua seiva Mulher

De peitos fartos

Colo quente

 

De noites enluaradas que fazem nascer em cada esquina

Prenha de ilusões

 

Teu grito Mulher tem

A cor do teu silêncio escancarado

Gemidos

 Pelos filhos que perdestes na chacina entorpecente de dias febris

 

Haverá de existir

Um novo tempo e labor

Onde o oculto se esconde no vão desejo de existir

Em tempos não sombrios.


Autoria: Alineci Cardoso dos Santos:

Foto: Produção

4.17.2026

Ambição, Ego e Liderança Por Robert Tamasy

 

Ambição, Ego e Liderança

Por Robert Tamasy

 

Nos dias atuais aparentemente presumimos que a ambição, egos inflados e liderança são inseparáveis, da mesma forma que a gema, a clara e a casca precisam estar juntas para formar um ovo. Líderes desejam tão desesperadamente fazer com que suas organizações – e eles próprios -  cresçam, mesmo que a exibição de egos dominadores pareça ser necessária para que suas ambições se realizem. Na verdade, sua diretoria e seus acionistas geralmente encorajam a mentalidade do tipo “custe o que custar” para governar suas táticas de liderança. 

 

Entretanto, meu amigo Randy, um pastor, recentemente apresentou algumas reflexões que desafiaram este modo de pensar. Por que os homens de negócios e profissionais estariam interessados no que um clérigo tem a dizer? Porque, como ele escreveu, “Somos como os proprietários de pequenos negócios lutando pela atenção das pessoas através da propaganda. Parte da atração consiste em...atraí-los para nós mesmos. Nossa propaganda, seja através da constante participação na mídia social ou exagerando nossas estórias, pode facilmente inflar nosso ego, senso de competição e vaidade.” 

 

Um perigo em particular, Randy ressaltou, consiste na tentação de dar preferência àqueles que estão em posição de ajudar-nos a maximizar metas e ambições. “Quando somos amados por pessoas poderosas, importantes, influentes, famosas ou ricas, é muito fácil priorizá-las, roubando o tempo dos pobres, solitários, insignificantes e negligenciados.”

 

Sem dúvida, pessoas poderosas, influentes e ricas – geralmente clientes ou investidores – são cruciais para a sobrevivência e crescimento de organizações. Mas, se como seguidores de Jesus Cristo, um de nossos principais objetivos é servi-Lo e levar outros a Ele, então precisamos lembrar-nos do que Ele disse: “...o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir...” (Mateus 20:28). Da mesma forma, uma das melhores maneiras de representar Jesus é servindo a outros, especialmente àqueles que não podem agir com reciprocidade.

 

Isso pode ser contrário às filosofias e valores de muitos no mercado de trabalho, mas as verdades e princípios apresentados por Jesus geralmente eram contrários às culturas em que Ele e também Seus seguidores viveram. O apóstolo Paulo, por exemplo, escreveu: “Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos.” (Filipenses 2:3). Ele jamais sugeriu que poderia haver exceções para aqueles envolvidos com negócios ou comércio. 

 

Honestamente, os empregadores e chefes que mais me impressionaram no decurso de minha carreira profissional foram aqueles que pareciam me considerar mais importante do que eles próprios. Ás vezes fizeram esforços especiais para me procurar, perguntar como eu estava e até mesmo me assistirem no trabalho quando isso foi necessário e surgiu a oportunidade. Posso assegurar a você que saber que eles verdadeiramente se preocupavam com o meu bem-estar me inspirou a trabalhar ainda com mais empenho e tentar realizar e exceder suas expectativas. 

 

Como Paulo escreveu em outra passagem, “Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos.” (Romanos 12:16). Isto funciona para as pessoas em qualquer posição ou ambiente de trabalho, seja empresarial, educacional, político, na mídia ou ministério vocacional. 

 

Questões Para Reflexão ou Discussão   

 

1. Você acha que o ego pode representar um fator importante na eficiência da liderança? Por quê?

2. Admitindo que todos nós temos egos e interesses próprios, em que ponto podemos reconhecer que fomos longe demais na busca por objetivos e em nossa ambição?

3. Como podemos de forma consciente encontrar equilíbrio entre ambição digna e lucros, ao mesmo tempo assegurando que as pessoas menos importantes e de posição inferior não sejam ignoradas ou maltratadas?

4. O que na vida e exemplo de Jesus Cristo inspiraria você a “considerar os outros melhores do que você mesmo”?

 

Nota: Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Provérbios 11:2;  15:33; 16:18-19; 18:12;  21:24;  22:4;  29:23;  Colossenses 3:12. 



Ponto de Leitura:     rilvanbatistadesantana.blogspot.com 

 

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