Habitar-se
Agilson Cerqueira
Eu dentro de mim mesmo,
recuando
das margens ruidosas do mundo.
Recolho-me
como quem retorna
à casa mais antiga do ser.
Enroscado
na consciência,
escuto o rumor lento
dos próprios pensamentos.
Lá fora
o tempo corre,
as vozes disputam espaço,
os dias se apressam.
Aqui dentro
há apenas o silêncio
respirando.
E nesse silêncio descubro
que a alma também tem caminhos
que só se revelam
a quem se detém.
Cada pensamento
é uma porta entreaberta,
cada memória
um clarão no escuro.
Há mares escondidos
no cérebro humano,
há tempestades
que ninguém vê.
Em mim
há perguntas antigas,
há sonhos inacabados,
há fragmentos de vida
que ainda procuram sentido.
Caminho
por territórios invisíveis,
cartógrafo de mim mesmo,
tentando compreender
o mapa secreto
do que sou.
E quanto mais mergulho,
mais percebo:
o ser humano
é um universo
que nunca termina de nascer.
Depois do mergulho
vem o silêncio mais claro.
Já não me escondo em mim —
habito-me.
Bastando-me
no gesto simples de existir,
na vigília tranquila
dos pensamentos.
Descubro então
que dentro de cada ser
há uma chama discreta
que insiste em iluminar.
Não é solidão:
é presença.
Não é fuga:
é encontro.
E assim permaneço,
entre o mundo e o íntimo,
aprendendo devagar
que às vezes
a maior descoberta do homem
é reconhecer
que dentro de si
também mora
um infinito.
Autoria: Agilson Cerqueira
Foto: Produção
Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico.
Licença: Creative Commons


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