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4.18.2026

Habitar-se - Agilson Cerqueira

 







Habitar-se

Agilson Cerqueira


Eu dentro de mim mesmo,

recuando

das margens ruidosas do mundo.

Recolho-me

como quem retorna

à casa mais antiga do ser.

Enroscado

na consciência,

escuto o rumor lento

dos próprios pensamentos.

Lá fora

o tempo corre,

as vozes disputam espaço,

os dias se apressam.

Aqui dentro

há apenas o silêncio

respirando.

E nesse silêncio descubro

que a alma também tem caminhos

que só se revelam

a quem se detém.

Cada pensamento

é uma porta entreaberta,

cada memória

um clarão no escuro.

Há mares escondidos

no cérebro humano,

há tempestades

que ninguém vê.

Em mim

há perguntas antigas,

há sonhos inacabados,

há fragmentos de vida

que ainda procuram sentido.

Caminho

por territórios invisíveis,

cartógrafo de mim mesmo,

tentando compreender

o mapa secreto

do que sou.

E quanto mais mergulho,

mais percebo:

o ser humano

é um universo

que nunca termina de nascer.

Depois do mergulho

vem o silêncio mais claro.

Já não me escondo em mim —

habito-me.

Bastando-me

no gesto simples de existir,

na vigília tranquila

dos pensamentos.

Descubro então

que dentro de cada ser

há uma chama discreta

que insiste em iluminar.

Não é solidão:

é presença.

Não é fuga:

é encontro.

E assim permaneço,

entre o mundo e o íntimo,

aprendendo devagar

que às vezes

a maior descoberta do homem

é reconhecer

que dentro de si

também mora

um infinito.


Autoria: Agilson Cerqueira
Foto: Produção

Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico. 

Licença: Creative Commons

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