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4.19.2026

MEMÓRIA DE UM AMOR QUE NUNCA FOI" - Mia Couto


MEMÓRIA DE UM AMOR QUE NUNCA FOI"

Mia Couto

"Bebedor de luas me embriago, negro no fundo negro das vielas e me dissolvo, sem passo, no abismo onde o tempo naufraga sem lembrança.

Um rio sustenta a tua boca, duas margens de água e carne, duas feridas de um desejo que do corpo se perdeu.

Não fosse a tua boca água nua esperando um barco e morreria eu de amar, e morrerias tu sem mar.

Mas do sempre que fomos o que restou? Silêncio aos pedaços, palavras que em lágrima se soletram.

E são de aves as folhas que tombam e não há chão nem vento onde se deitem.

Melhor dormir se o tempo se faz sem ti e guardar-te em sonho até tu mesmo seres noite.

Desperto: todas as pedras secaram, saudosas de carícia tua.

Todas as luas ficaram por nascer sedentas dos olhos que são teus.

Depois volto a beber o luminoso veneno em que escureço e o dia regressa, mendigo e magro,

buscando em mim lembrança de um amor que de tanto ser não saberá nunca ter lembrança."

Mia Couto

in "Vagas e Lumes".

Foto: Google 


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