País
rico - Lima Barreto
Não
há dúvida alguma que o Brasil é um país muito rico. Nós que nele vivemos; não
nos apercebemos bem disso, e até, ao contrário, o supomos muito pobre, pois a
toda hora e a todo instante, estamos vendo o governo lamentar-se que não faz
isto ou não faz aquilo por falta de verba.
Nas
ruas da cidade, nas mais centrais até, andam pequenos vadios, a cursar a
perigosa universidade da calariça das sarjetas, aos quais o governo não dá
destino, o os mete num asilo, num colégio profissional qualquer, porque não tem
verba, não tem dinheiro. É o Brasil rico…
Surgem
epidemias pasmosas, a matar e a enfermar milhares de pessoas, que vêm mostrar a
falta de hospitais na cidade, a má localização dos existentes. Pede-se à
construção de outros bem situados; e o governo responde que não pode fazer
porque não tem verba, não tem dinheiro. E o Brasil é um país rico.
Anualmente
cerca de duas mil mocinhas procuram uma escola anormal ou anormalizada, para
aprender disciplinas úteis. Todos observam o caso e perguntam:
-Se
há tantas moças que desejam estudar, por que o governo não aumenta o número de
escolas a elas destinadas?
O
governo responde:
-
Não aumento porque não tenho verba, não tenho dinheiro.
E
o Brasil é um país rico, muito rico…
As
notícias que chegam das nossas guarnições fronteiriças, são desoladoras. Não há
quartéis; os regimentos de cavalaria não tem cavalos, etc; etc.
-
Mas que faz o governo, raciocina Brás Bocó, que não constrói quartéis e não
compra cavalhadas?
O
doutor Xisto Beldroegas, funcionário respeitável do governo acode logo:
-
— Não há verba; o governo não tem dinheiro
- — E o Brasil é um país rico; e tão rico é ele, que apesar de não cuidar dessas coisas que vim enumerando, vai dar trezentos contos para alguns latagões irem ao estrangeiro divertir-se com os jogos de bola como se fossem crianças de calças curtas, a brincar nos recreios dos colégios.
O
Brasil é um país rico…
****
O
texto em questão foi escrito por Lima Barreto em 1920 e pode ser lido em
Crônicas Escolhidas, publicado em 1995, que reúne parte da produção do célebre
escritor.
Lima
Barreto foi um autor bastante atento e questionador, contribuindo
significativamente para pensar o Brasil de um ponto de vista crítico, trazendo
questões como a desigualdade e a pobreza.
O
sociólogo e crítico literário Antônio Candido descreve Lima Barreto da seguinte
forma:
"Mesmo
nas páginas breves, entendia, sentia e amava as criaturas mais insignificantes
e comuns, os esquecidos, os lesados e os evitados pelo establishment."
Assim, nesse texto - infelizmente ainda atual - nos deparamos com uma crítica ácida ao governo brasileiro do início do século XX, em que as prioridades são para coisas superficiais, enquanto os serviços públicos que deveriam funcionar são deixados de lado.
Fonte: Lima Barreto
Foto: Google


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