4.11.2026

Jesus Cristo - R. Santana

 

Jesus Cristo

R. Santana


Hoje, eu acordei contrariado comigo e com o mundo. Fui à geladeira, peguei um litro de caipirinha (whisky é bebida de americano), reforcei com mais 1 limão, na metade de um copo comum, misturei um pouco de açúcar, sentei-me na espreguiçadeira e, comecei pensar nas coisas do mundo e nas coisas de Deus. O mundo está virado pelo avesso: fome, guerra, violência, o homem cada vez mais desumano e besta-fera. Ninguém sabe explicar de maneira absoluta o fim do homem. Nesse mundo, não faltam pensamentos filosóficos e religiões, mas não explicam: “Quem eu sou? De onde eu vim? Para onde eu vou?”. Então, eu resolvi, mentalmente, passar uma esponja em tudo que aprendi de filósofos e sábios e crê nos ensinamentos doa Evangelhos escritos para Jesus Cristo. No Novo Testamento, João o evangelista, diz: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus”. Jesus Cristo responde: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim“ (João 14: 6).

Antes, fiz uma busca na História das Religiões para conhecer os maiores chefes religiosos de todos os tempos, observei que todos foram homens iluminados (epifania) por Deus, todavia, nenhum se apresentou como filho do Pai nem pregavam com a mesma autoridade de Jesus Cristo.

Sidarta Guatama, Buda, pode-se dizer que sua doutrina é uma filosofia de vida. O objetivo do budismo é buscar a paz interior, perseguir a sabedoria para eliminar a ignorância, cessar o sofrimento e alcançar a iluminação absoluta: o Nirvana. Quando isso ocorre, cessa o ciclo de renascimentos.

O profeta Maomé foi um homem comum até seus 40 anos de idade. Antes desse tempo não iluminado, teve mulher, filhos, foi mercador e político. Quando atingiu a maturidade adulta, tornou-se líder religioso. Nasceu em Meca, mas, firmou-se como líder religioso em Medina. O Islamismo é uma religião monoteísta e seus ensinamentos estão no Alcorão. Mas o princípio básico da doutrina é a submissão à vontade de Deus (Alá).

Moisés foi um profeta, fundou o Judaísmo, a religião monoteísta mais velha do mundo, seus ensinamentos estão nos 5 livros (Torá). O Judaísmo não vê Jesus Cristo como Salvador.  Deus confiou-lhe libertar os israelitas da escravidão no Egito e levar esse povo à Terra Prometida. Diz a História que para isso, ele levou 40 anos.  Foi o primeiro legislador da História, recebeu de Deus os 10 Mandamentos (a Lei Torá). Moisés viveu 120 anos com saúde e fôlego de um moço. Diz a História que foi proibido por Deus entrar na Terra Prometida. E, morreu no Monte Nebo, após avistar a terra que seu povo herdaria.

Conclui-se que esses profetas nunca foram filhos espirituais de Deus. Eles foram homens iluminados, contudo, não possuíam essa natureza divina. Jesus curava, ensinava, ressuscitou Lázaro, além de tudo, ele tinha autoridade naquilo que falava. Pedro confirmou (Mateus 16:15-16), que Jesus é o filho de Deus: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo”.

Suas parábolas são situações do dia a dia que Jesus utiliza para ensinamentos espirituais, éticos, morais e aprofundar o conhecimento sobre o Reino de Deus. Dentre as parábolas mais significativas de Jesus Cristo: “O filho pródigo” e “A ovelha perdida” são as que mais tocam no sentimento do cristão.

Também, a mulher flagrada em adultério, é uma lição de vida que explica o valor do perdão, a compaixão, o amor e a responsabilidade de julgar. Segundo a Lei do Torá, a mulher pega em adultério teria que ser apedrejada. Diz a lenda que Jesus começou escrever no chão os pecados dos fariseus, um a um, depois indagou: “Aquele dentre vós que nunca pecou, atire a primeira pedra”. Os fariseus leram o que Jesus Cristo tinha escrito no chão (os seus pecados), e, começaram sair, um a um – Ele virando-se para mulher: “Vá e não peque mais”.

Enfim, encerro com o arremate final, “pescando” o apóstolo Pedro, quando questionou Jesus Cristo: “Senhor, para quem iremos? Tu tens a palavra da vida eterna” (João 6:68).

 

Autoria: Rilvan Batista de Santana

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Membro Efetivo da Academia de Letras de Itabuna - ALITA


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4.10.2026

Afresco - Fátima Soriano (*)

 








Afresco

Fátima Soriano


Não serei mais aviltada

Nem minha voz

Amordaçada

Por querer pintar

A minha vida

Com minhas cores

Preferidas.

 

Nenhum esboço secará.

Afresco algum

Jamais se perderá.

O não visto

Não acontecerá, e o sopro da vida

Certamente

Voltará triunfante.

 

FÁTIMA SORIANO (*)

Natural de Recife, Pernambuco, mas radicada em Itabuna, Bahia, Fátima Soriano é o nome artístico de Maria de Fátima Soriano de Souza Brandão. Casada, mãe de dois filhos e uma filha, e avó de dois netos e uma neta, Fátima publicou dois livros pela Editora Mondrongo: Mosaicos e, em 2016, Bordados e Alguns Mosaicos. Participou do Antologia Poiésis v. 4 com “365 Dias de Poesia”. Este ano, Fátima participa pela primeira vez de Mulher Poesia – Antologia Poética, trazendo seu amor pela arte literária, filosofia e história da arte para enriquecer a coletânea.



Fonte: Agilson Cerqueira

Foto: produção

 

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O Labirinto do Pensar e o Vazio do Ter

 

O Labirinto do Pensar e o Vazio do Ter

Agilson Cerqueira*

As decepções, em sua marcha lenta, vão desbotando o nosso romantismo até que reste apenas o esqueleto da realidade.

Vivemos engolidos por uma luta diária que não nos concede o privilégio das horas; passamos uns pelos outros como vultos despercebidos e estranhos em uma multidão.

No fim, você acaba se tornando o produto exato da insignificância daquilo que escolhe significar, enquanto busca, tateando no escuro, respostas que o mundo esqueceu de formular.

Talvez a lucidez seja um fardo pesado demais, e por isso todos deveríamos nos permitir o desvario — embriagar a alma duas, três ou inúmeras vezes, até sermos apenas o "bêbado conhecido" que habita as esquinas do próprio ser.

Afinal, o pensamento é uma criatura que nasce do ócio, e sem o tempo vazio para o florescer das ideias, somos meros subprodutos de uma ignorância consequente.

Às vezes, o peso é tanto que me debruço sobre os absurdos do meu próprio "eu", isolando-me em um exílio onde as perguntas não encontram eco.

Ali, o espelho não mente: você é, apenas e irremediavelmente, você.

Contudo, mesmo nesse mergulho intrínseco, a pluralidade nos persegue; o "nós" nasce desse singular ferido, e a vida insiste em nos lembrar que não se caminha só.

O perigo se apresenta quando o pensamento se torna um espelho narcísico; quando o desejo de "ter" para "poder" sufoca a coragem de simplesmente "ser", revelando a mediocridade de quem vive para a vitrine.

Entenda: se você ousa pensar, você inevitavelmente incomoda a ordem das coisas.

Vivemos tempos aflitos, onde o pensamento parece ter perdido o caminho para o cérebro, deixando-nos à deriva entre o poder e o existir.

Diante das incertezas, escolha a lógica do absurdo que preserva a sua essência, mas nunca deixa de habitar-se.

*Engenheiro, Matemático, Professor, Prosador e Artista Plástico. 

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Inefável - Alineci Cardoso


 

Inefável

Alineci Cardoso

 

Assim é o amor

Que cresce fortuitamente

Entre nós

 

Por alguns instantes

Procurei

No silêncio da noite fria

O agasalho que a tempo nos embrulhou dentro de um longo abraço

As vezes penso no deserto que é perder-te nas manhãs de outono

 

Depois te caço com

A flecha certeira

E depois te invento

Amor imperfeito

Mais imortal


Fonte: Agilson Cerqueira

Foto: Produção


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O menino e o poeta Valter - Luis de Oliveira Moraes


O menino e o poeta

Valter Luis de Oliveira Moraes

 

O menino passeava ao longe do jardim e ouviu o que ele achou serem gritos. Procurou com seus olhinhos aguçados qual a origem dos suplícios e se deparou com um homem vestido de roupão colorido, que contrastava com o dia cheio de luz, totalmente espalhafatoso.

Usava um chapéu azul com uma pena vermelha ao lado e um nariz de tomate, complementando a paisagem do sol vermelho no céu.

Ele estava em pé sobre um banco que, ao lado, tinha uma árvore bastante robusta, dando-lhe a aparência elegante de uma deusa, com o caule avantajado e a copa arredondada.

A copa da árvore era a coroa verde da princesa, com seu tronco elegante, brincos amarelos e colares coloridos. Ao redor, vários tipos de orquídeas, roseiras sobrecarregadas de rosas exalando seus perfumes e plantas cor de violetas, vermelhas, roxas, ornamentando toda sua vestimenta, enfeitando o espaço, dando ênfase ao homem que sobre o banco gritava, gesticulava, agachava-se, sentava na posição de lótus e levantava-se como um garoto, com equilíbrio e elegância.

O menino, ao longe, pensando ser um maluco qualquer, chamava a atenção dos transeuntes que paravam, olhavam e aplaudiam, mas, na verdade, era um poeta declamando.

Era como se o menino e o poeta estivessem em um teatro.

Tudo aquilo era novidade para aquele menino. Na sua casa não tinha nem revista, nem televisão, que era a epidemia da época.

O menino não estava entendendo nada daquele acontecimento. Para ele, era como se fosse o doido Zéu aprontando mais uma das suas maluquices.

Já que todos estavam se aglomerando ao redor desse ser extravagante e excêntrico, a minha curiosidade foi mais forte e me aproximei meio acanhado, prestei atenção ao que ele dizia e fiquei concentrado, ouvindo como ele se expressava. Era como se cantasse de uma maneira diferente, comovendo seus assistentes. Alguns emocionados choravam timidamente, mas com certeza, se estivessem a sós, chorariam com mais ênfase, efusivamente, tamanha a comoção.

De repente, alguém gritou no meio do público:

Esse é um poeta de verdade!

     Declama como se estivesse

     encarnado na poesia,

     Dando-lhe vida!

     Dando-lhe alma!

     Nesse teatro ao ar livre!

     Palmas! Palmas! Palmas!

    Então é isso.

    É um poeta recitando versos!

    Estava encantado!

    Feliz por assistir àquela cena deslumbrante.

    Foi como o dia em que vi o mar pela primeira vez.

Assim, voltei para casa refletindo sobre aquela beleza de teatro, da descoberta de uma coisa que não ouvira falar e também não havia assistido.

Logo comentei com minha mãe e minha tia sobre a beleza dos versos, falando de amor, da vida, dos céus, dos deuses, sobre a arte da poesia e o ser poeta sobre o banco do jardim, deixando uma sensação de alegria e deslumbre.

À noite, voando no cavalo alado, recitei poemas de amor para a amada que partiu comigo para as aventuras da arte.


Fonte: Agilson Cerqueira

Foto: Produção

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Editor: WhatsApp: (73) 988939460

4.09.2026

Rilvan em Acróstico – O grande amigo, professor e poeta / João de Paula

Rilvan Batista de Santana
(Arte: Agilson Cerqueira) 

Rilvan em Acróstico – O grande amigo, professor e poeta.

 

Rico, amigo, poeta, escritor e professor

Idealista, criador, produtor e editor

Luz para o Saber-Literário

Verdade, bem e belo

Amor altruísta, vivencia no dia a dia com arte de escrever

Na vida como grande instrutor, aprendiz e professor

 

Beleza única no saber e proceder

Amigo número um do Planeta Letras

Testemunha firme da sinceridade, partilha e confraternidade

Iluminado de Deus, mestre ensinando mestre

Sabedoria que vem de Deus

Templo de uma realidade feliz

Amante do saber em arte e em poesia

 

Descobre a chave do problema, é um alerta para prática de um amor altruísta

Em todos os tempos o ser humano aspirou o amor e à felicidade

 

Somos todos importantes para Deus

Admirando e contemplando as letras

Natureza humana de uma família saudável

Transformado em paraíso o que pode melhor

Alegria plena e bem-estar com a beleza dos sentimentos

Na esperança de Dias melhores vivenciar

Amor, paz, saúde e prosperidade irradiar

 

Honra ao Mérito

Os produtores do jornal “O Produtor” e do “Site A Voz do Povo de Itabuna” têm o orgulho de conceder o "CERTIFICADO DE HONRA AO MÉRITO", Amigo da Arte e da Poesia, ao professor e escritor Rilvan Batista de Santana, do Saber-Literário, pelos relevantes serviços prestados à Região e dedicação ao Mundo das Letras.

Itabuna, 25 de julho de 2013.

Diretoria:

João Batista de Paula (presidente)

Expedita Maciel Viana (vice-presidente)

Israel Cardoso (Assessor)

Anísio Alves de Almeida (Assessor)


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O amor, quando se revela - Fernando Pessoa

 







O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar p'ra ela,

Mas não lhe sabe falar.

 

Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há de dizer.

Fala: parece que mente...

Cala: parece esquecer...

 

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

P'ra saber que a estão a amar!

 

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!

 

Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar...

Fernando Pessoa - Poesias Inéditas (1919-1930)


Fonte: Pensador

Foto: Google

191 anos de Luiz Gama: por que um abolicionista é exaltado pela direita?

191 anos de Luiz Gama: por que um abolicionista é exaltado pela direita?

Advogado, jornalista e poeta, Luiz Gama morreu seis anos antes da abolição e conseguiu resgatar a liberdade de mais de 500 pessoas escravizadas

Texto: Juca Guimarães | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Juca Guimarães

Mandato da vereadora Erika Hilton havia disponibilizado R$ 25 mil para conservação

Estátua de Luiz Gama segue sem restauração

Imagem: Juca Guimarães/Alma Preta

O advogado e jornalista Luiz Gama, nascido em 21 de junho de 1830, na cidade de Salvador, é um símbolo da luta contra a escravidão e a exploração da população negra no Brasil. Desde os 17 anos de idade, começando por ele mesmo, Gama conseguiu libertar mais de 500 pessoas escravizadas, mantidas ilegalmente nessas condições. Ele também foi um abolicionista e republicano.

O lema de Gama era “por uma terra sem reis e sem escravos”. Apesar de ter a sua história pouco reconhecida, o abolicionista é inspiração para as reflexões do movimento negro organizado. Ao mesmo tempo, é uma figura histórica muito citada pela direita mais conservadora como um antagonista à luta de Zumbi dos Palmares. No último 13 de maio, por exemplo, o deputado federal Hélio Lopes (PSL-RJ) encerrou seu discurso exaltando alguns personagens históricos: “Viva Princesa Isabel! Viva Rebouças! Viva Luiz Gama! Viva Maria Firmina!”. A Fundação Palmares, presidida por Sérgio Camargo, replicou a fala do parlamentar.

“O resgate da história de Luiz Gama pelos reacionários é pela metade. Eles não falam a fundo sobre ele, que sempre foi um progressista. Por exemplo, ele dizia que um escravizado que mata o seu senhor está praticando um ato de legítima defesa”, lembra o advogado Irapuã Santana, da ONG Educafro e mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Santana relembra que, historicamente, o abolicionista nunca se alinhou com conservadores e senhores de escravos. “Gama era do partido Liberal, porém, de uma ala mais radical e isso não se alinha com os atuais reacionários do Brasil. Eles usam Luiz Gama como símbolo ou por má-fé ou por não conhecer a história”, diz o advogado, que ainda comenta que os movimentos de esquerda no Brasil nunca deram a devida relevância ao seu legado.

Nesse sentido, a guia de turismo Débora Pinheiro, da agência Black Bird Viagens, acrescenta que ainda que Luiz Gama tenha uma história muito interessante, por conta do racismo estrutural é pouco conhecida a fundo.

“Existe um apagamento histórico das personalidades negras. Luiz Gama é um herói, com realizações incríveis, que deveria ser estudado nas escolas. Ele foi jornalista, advogado e lutou pela República. Ele libertou mais de 500 pessoas escravizadas. Há um movimento no legislativo paulista para que se troque o nome da rodovia Anhanguera, que foi um bandeirante, por Luiz Gama”, avalia a guia de turismo.

No dia 29 de junho, o Conselho da USP (Universidade de São Paulo) vai definir se será concedido a Luiz Gama o título póstumo de doutor honoris causa. O pedido foi apresentado pela ECA (Escola de Comunicação e Artes) e tem uma abaixo-assinado na internet em apoio ao título. Gama também foi poeta e escreveu o livro “Primeiras trovas burlescas”, além de ter participado da criação dos jornais Diabo Coxo e Cabrião.

“Se estivesse aqui, hoje, ele seria, sem dúvida, o pesadelo deles, nos tribunais e na imprensa”, considera o escritor Oswaldo Faustino, autor do livro ficcional infanto juvenil “A Luz de Luiz – por uma terra sem reis e sem escravos”.

Em 2015, foi reconhecido simbolicamente como advogado pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e, em 2018, recebeu uma homenagem, com foto e placa, na sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP).


Fonte: Site Alma Preta

Foto: Produção

 

 

4.08.2026

Ora direis ouvir estrelas - Olavo Bilac

 

Ora direis ouvir estrelas (Olavo Bilac)

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto

A Via Láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

 

Além de ser conhecido pela criação da letra do Hino à Bandeira, o carioca Olavo Bilac também é considerado um dos principais poetas nacionais do parnasianismo, representado pelo soneto XIII do livro Via Láctea que, embora não seja um dos seus mais populares é, sem sombra de dúvidas, um dos mais belos!

“Memórias do Cárcere” - Eloésio Paulo (*)

Resenha “Memórias do Cárcere”: “Incômodo retrato do Brasil de Vargas, feito ao avesso por Graciliano Ramos”, por Eloésio Paulo (*)

As Memórias do cárcere (1953) podem ser lidas como um romance. E talvez o devam ser.

A primeira edição saiu no mesmo ano da morte do autor, e o livro ficou incompleto; segundo o relato de Ricardo Ramos, filho de Graciliano, faltava apenas o capítulo final, em que seriam tratadas as reações do prisioneiro recém-libertado às coisas e pessoas vistas ou reencontradas no Rio de Janeiro, então capital da República, quase 40 anos depois do período em que o escritor alagoano lá vivera na juventude.

Graciliano foi preso no início de 1936, no bojo de uma onda repressiva que antecedeu a decretação do Estado Novo (eufemismo para designar a ditadura de Getúlio Vargas, vigente até 1945). Ficou cerca de 10 meses na cadeia sem nunca ter havido contra ele uma ação judicial. Diferente do Joseph K. de O processo, porém, o escritor brasileiro não termina sendo executado “como um cão”. O que teve foi sua vida arruinada, a despeito de não haver participado de qualquer dos levantes comunistas usados como pretextos para a onda de prisões.

O modo narrativo de Memórias do cárcere é, com frequência, mais ficcional do que memorialístico. O escritor não conseguiu guardar as notas feitas durante o cativeiro, precisou descartá-las para evitar que fossem apreendidas e pudessem figurar como prova de subversão. Em muitas passagens do livro, fica claro que o detalhamento de episódios e caracteres não seria possível sem largo recurso à imaginação. Uma passagem evidencia isso particularmente: o resumo da vida do homossexual chamado Aleixo, que não só tem o mesmo nome de um dos protagonistas do romance Bom-Crioulo (1895), de Adolfo Caminha, mas sua história é praticamente a mesma, porém misturada com a de Amaro, a outra personagem principal do mesmo livro.

Igualmente, a narração a partir de uma recordação alheia, como a das desventuras do prisioneiro Francisco Chermont, dificilmente terá apoio apenas na memória de Graciliano, por mais poderosa que ela tenha sido. Assim, a determinação das porcentagens de memória e ficção fica impossível, como de resto em boa parte das obras catalogadas como uma coisa ou outra. A propósito: Hayden White, em Trópicos do discurso (1978), demonstrou como é escorregadio o limite entre os domínios da ficção e da realidade.

A narrativa tem início em março de 1936, quando o escritor morava numa casa na praia de Pajuçara, em Maceió, com a mulher e seis filhos. Apareceram agentes de polícia para prendê-lo e ele foi conduzido de carro e depois embarcado para Recife, onde ficou duas semanas até ser metido no infecto porão do navio Manaus, com destino ao Rio de Janeiro. A partir daí, foram meses de reclusão em vários estabelecimentos penais, sendo o pior deles a colônia correcional da Ilha Grande, que, pelo relato de Graciliano, pouco ficava devendo aos campos de extermínio nazistas. Não por acaso a ditadura varguista teve relações muito amistosas com Hitler, a ponto de enviar para a morte naqueles campos duas militantes brasileiras nas quais coincidiam os “crimes” de serem esquerdistas e terem ascendência judaica. O episódio é mencionado num dos últimos capítulos de Memórias do cárcere.

Além de expor a perversidade de nosso sistema carcerário, que pelo menos naquela época não registrava decapitações espetaculosas, a leitura vale por um mergulho profundo na complicada psicologia de Graciliano. Ele descreve seus percursos interior e exterior ao longo desses meses de reclusão com grande riqueza de detalhes, ainda potencializada pela incapacidade de iludir-se a respeito de nosso destino como país e da própria natureza humana. Entre os grandes escritores brasileiros, o autor de São Bernardo (1934) e Angústia (1936) não foi somente o mais obsessivo com a perfeição do texto; também era o mais incapaz de se deixar prender por qualquer ilusão ideológica. Sua adesão ao Partido Comunista, bem posterior aos meses de prisão, terá todos os motivos menos a crença na patacoada stalinista que era a doutrina oficial da esquerda radical daquela época.

As misérias detalhadas em Memórias do cárcere, especialmente nos meses passados na Ilha Grande, não teria sentido tentar resumi-las. Vão da simples privação de comida à convivência com a escória da sociedade brasileira – presente tanto entre os prisioneiros como entre as autoridades encarregadas de reduzi-los à condição mais subumana possível. A crueldade do sistema prisional, porém, não chega nem perto daquela (por falar em Stálin) detalhada por Alexander Soljenitsin no cartapácio que é Arquipélago Gulag (1973), leitura muito recomendável para devotos do capitalismo de Estado.

Emerge da narrativa de Graciliano um lúcido panorama do Brasil nos anos 1930, porém estruturado pelo avesso, tanto que não existe no livro uma única referência a Getúlio Vargas. Aliás, o próprio Brasil exterior aos estabelecimentos prisionais não penetra neles a não ser por meio de boatos e artigos de jornal – os quais, para o escritor, eram em sua quase totalidade subservientes ao regime varguista.

Em meio a tudo isso, avulta como personagem o próprio narrador, cuja autodepreciação pessoal e literária surpreende a quem dela ainda não teve notícia, por exemplo, por meio da excelente biografia O velho Graça (1992), feita por Dênis de Moraes. Graciliano usa várias vezes o adjetivo “chinfrim” para designar a si mesmo e a sua obra, da qual os dois cumes inexcedíveis tiveram seu princípio de gestação naqueles meses em que o autor esteve, pelo menos em duas ocasiões, à beira da morte: Vidas secas (1938) e Infância (1945). Graciliano, fumante compulsivo, ainda viveu 15 anos depois de ser libertado.

A miséria humana e política descrita nas páginas de Memórias do cárcere talvez traga aos esperançosos um consolo, ainda que débil. É que, mesmo entre indivíduos pagos pelo Estado para torturar e humilhar, alguns conseguiram conservar-se humanos e, por meio de atitudes imprevistas e imprevisíveis de solidariedade, resguardar um pouco da dignidade daquelas pessoas mandadas ao Inferno apenas por terem ideias incômodas aos donos do poder.

Numa chave mais restrita, a leitura pode trazer algum alento no sentido de confirmar que, entre nós, até o fascismo é fajuto, pois essas manifestações de humanidade da parte de esbirros de uma ditadura são virtualmente inimagináveis, por exemplo, entre aqueles autômatos implacáveis fabricados pela Juventude Hitlerista e pela máquina de propaganda ideológica inventada por Goebbels. Pelo menos isso, apesar do recente empenho de certa parte da elite econômica brasileira, ainda não tivemos por aqui.

 

(*) Eloésio Paulo é professor da UNIFAL-MG e autor dos livros: Teatro às escuras – uma introdução ao romance de Uilcon Pereira (1988), Os 10 pecados de Paulo Coelho (2008), Loucura e ideologia em dois romances dos anos 1970 (2014) e Questões abertas sobre O Alienista, de Machado de Assis (2020).

 

Fonte: Universidade Federal de Alfenas – UNIFAL

Foto: Produção


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