191 anos de Luiz Gama: por que um abolicionista é exaltado pela direita?
Advogado,
jornalista e poeta, Luiz Gama morreu seis anos antes da abolição e conseguiu
resgatar a liberdade de mais de 500 pessoas escravizadas
Texto:
Juca Guimarães | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Juca Guimarães
Mandato
da vereadora Erika Hilton havia disponibilizado R$ 25 mil para conservação
Estátua de Luiz Gama segue sem restauração
Imagem: Juca Guimarães/Alma Preta
O
advogado e jornalista Luiz Gama, nascido em 21 de junho de 1830, na cidade de
Salvador, é um símbolo da luta contra a escravidão e a exploração da população
negra no Brasil. Desde os 17 anos de idade, começando por ele mesmo, Gama
conseguiu libertar mais de 500 pessoas escravizadas, mantidas ilegalmente
nessas condições. Ele também foi um abolicionista e republicano.
O lema de Gama era “por uma terra sem reis e sem escravos”. Apesar de ter a sua história pouco reconhecida, o abolicionista é inspiração para as reflexões do movimento negro organizado. Ao mesmo tempo, é uma figura histórica muito citada pela direita mais conservadora como um antagonista à luta de Zumbi dos Palmares. No último 13 de maio, por exemplo, o deputado federal Hélio Lopes (PSL-RJ) encerrou seu discurso exaltando alguns personagens históricos: “Viva Princesa Isabel! Viva Rebouças! Viva Luiz Gama! Viva Maria Firmina!”. A Fundação Palmares, presidida por Sérgio Camargo, replicou a fala do parlamentar.
“O
resgate da história de Luiz Gama pelos reacionários é pela metade. Eles não
falam a fundo sobre ele, que sempre foi um progressista. Por exemplo, ele dizia
que um escravizado que mata o seu senhor está praticando um ato de legítima
defesa”, lembra o advogado Irapuã Santana, da ONG Educafro e mestre pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Santana
relembra que, historicamente, o abolicionista nunca se alinhou com
conservadores e senhores de escravos. “Gama era do partido Liberal, porém, de
uma ala mais radical e isso não se alinha com os atuais reacionários do Brasil.
Eles usam Luiz Gama como símbolo ou por má-fé ou por não conhecer a história”,
diz o advogado, que ainda comenta que os movimentos de esquerda no Brasil nunca
deram a devida relevância ao seu legado.
Nesse
sentido, a guia de turismo Débora Pinheiro, da agência Black Bird Viagens,
acrescenta que ainda que Luiz Gama tenha uma história muito interessante, por
conta do racismo estrutural é pouco conhecida a fundo.
“Existe
um apagamento histórico das personalidades negras. Luiz Gama é um herói, com
realizações incríveis, que deveria ser estudado nas escolas. Ele foi
jornalista, advogado e lutou pela República. Ele libertou mais de 500 pessoas
escravizadas. Há um movimento no legislativo paulista para que se troque o nome
da rodovia Anhanguera, que foi um bandeirante, por Luiz Gama”, avalia a guia de
turismo.
No dia 29 de junho, o Conselho da USP (Universidade de São Paulo) vai definir se será concedido a Luiz Gama o título póstumo de doutor honoris causa. O pedido foi apresentado pela ECA (Escola de Comunicação e Artes) e tem uma abaixo-assinado na internet em apoio ao título. Gama também foi poeta e escreveu o livro “Primeiras trovas burlescas”, além de ter participado da criação dos jornais Diabo Coxo e Cabrião.
“Se
estivesse aqui, hoje, ele seria, sem dúvida, o pesadelo deles, nos tribunais e
na imprensa”, considera o escritor Oswaldo Faustino, autor do livro ficcional
infanto juvenil “A Luz de Luiz – por uma terra sem reis e sem escravos”.
Em
2015, foi reconhecido simbolicamente como advogado pela OAB (Ordem dos
Advogados do Brasil) e, em 2018, recebeu uma homenagem, com foto e placa, na
sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP).
Fonte: Site Alma Preta
Foto: Produção


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