Resenha
“Memórias do Cárcere”: “Incômodo retrato do Brasil de Vargas, feito ao avesso
por Graciliano Ramos”, por Eloésio Paulo (*)
As
Memórias do cárcere (1953) podem ser lidas como um romance. E talvez o devam
ser.
A
primeira edição saiu no mesmo ano da morte do autor, e o livro ficou
incompleto; segundo o relato de Ricardo Ramos, filho de Graciliano, faltava
apenas o capítulo final, em que seriam tratadas as reações do prisioneiro
recém-libertado às coisas e pessoas vistas ou reencontradas no Rio de Janeiro,
então capital da República, quase 40 anos depois do período em que o escritor
alagoano lá vivera na juventude.
Graciliano
foi preso no início de 1936, no bojo de uma onda repressiva que antecedeu a
decretação do Estado Novo (eufemismo para designar a ditadura de Getúlio
Vargas, vigente até 1945). Ficou cerca de 10 meses na cadeia sem nunca ter
havido contra ele uma ação judicial. Diferente do Joseph K. de O processo,
porém, o escritor brasileiro não termina sendo executado “como um cão”. O que
teve foi sua vida arruinada, a despeito de não haver participado de qualquer
dos levantes comunistas usados como pretextos para a onda de prisões.
O
modo narrativo de Memórias do cárcere é, com frequência, mais ficcional do que
memorialístico. O escritor não conseguiu guardar as notas feitas durante o
cativeiro, precisou descartá-las para evitar que fossem apreendidas e pudessem
figurar como prova de subversão. Em muitas passagens do livro, fica claro que o
detalhamento de episódios e caracteres não seria possível sem largo recurso à
imaginação. Uma passagem evidencia isso particularmente: o resumo da vida do
homossexual chamado Aleixo, que não só tem o mesmo nome de um dos protagonistas
do romance Bom-Crioulo (1895), de Adolfo Caminha, mas sua história é
praticamente a mesma, porém misturada com a de Amaro, a outra personagem
principal do mesmo livro.
Igualmente,
a narração a partir de uma recordação alheia, como a das desventuras do
prisioneiro Francisco Chermont, dificilmente terá apoio apenas na memória de
Graciliano, por mais poderosa que ela tenha sido. Assim, a determinação das
porcentagens de memória e ficção fica impossível, como de resto em boa parte
das obras catalogadas como uma coisa ou outra. A propósito: Hayden White, em
Trópicos do discurso (1978), demonstrou como é escorregadio o limite entre os
domínios da ficção e da realidade.
A
narrativa tem início em março de 1936, quando o escritor morava numa casa na
praia de Pajuçara, em Maceió, com a mulher e seis filhos. Apareceram agentes de
polícia para prendê-lo e ele foi conduzido de carro e depois embarcado para
Recife, onde ficou duas semanas até ser metido no infecto porão do navio
Manaus, com destino ao Rio de Janeiro. A partir daí, foram meses de reclusão em
vários estabelecimentos penais, sendo o pior deles a colônia correcional da
Ilha Grande, que, pelo relato de Graciliano, pouco ficava devendo aos campos de
extermínio nazistas. Não por acaso a ditadura varguista teve relações muito
amistosas com Hitler, a ponto de enviar para a morte naqueles campos duas
militantes brasileiras nas quais coincidiam os “crimes” de serem esquerdistas e
terem ascendência judaica. O episódio é mencionado num dos últimos capítulos de
Memórias do cárcere.
Além
de expor a perversidade de nosso sistema carcerário, que pelo menos naquela
época não registrava decapitações espetaculosas, a leitura vale por um mergulho
profundo na complicada psicologia de Graciliano. Ele descreve seus percursos
interior e exterior ao longo desses meses de reclusão com grande riqueza de
detalhes, ainda potencializada pela incapacidade de iludir-se a respeito de
nosso destino como país e da própria natureza humana. Entre os grandes
escritores brasileiros, o autor de São Bernardo (1934) e Angústia (1936) não
foi somente o mais obsessivo com a perfeição do texto; também era o mais
incapaz de se deixar prender por qualquer ilusão ideológica. Sua adesão ao
Partido Comunista, bem posterior aos meses de prisão, terá todos os motivos
menos a crença na patacoada stalinista que era a doutrina oficial da esquerda
radical daquela época.
As
misérias detalhadas em Memórias do cárcere, especialmente nos meses passados na
Ilha Grande, não teria sentido tentar resumi-las. Vão da simples privação de
comida à convivência com a escória da sociedade brasileira – presente tanto
entre os prisioneiros como entre as autoridades encarregadas de reduzi-los à
condição mais subumana possível. A crueldade do sistema prisional, porém, não
chega nem perto daquela (por falar em Stálin) detalhada por Alexander
Soljenitsin no cartapácio que é Arquipélago Gulag (1973), leitura muito
recomendável para devotos do capitalismo de Estado.
Emerge
da narrativa de Graciliano um lúcido panorama do Brasil nos anos 1930, porém
estruturado pelo avesso, tanto que não existe no livro uma única referência a
Getúlio Vargas. Aliás, o próprio Brasil exterior aos estabelecimentos
prisionais não penetra neles a não ser por meio de boatos e artigos de jornal –
os quais, para o escritor, eram em sua quase totalidade subservientes ao regime
varguista.
Em meio a tudo isso, avulta como personagem o próprio narrador, cuja autodepreciação pessoal e literária surpreende a quem dela ainda não teve notícia, por exemplo, por meio da excelente biografia O velho Graça (1992), feita por Dênis de Moraes. Graciliano usa várias vezes o adjetivo “chinfrim” para designar a si mesmo e a sua obra, da qual os dois cumes inexcedíveis tiveram seu princípio de gestação naqueles meses em que o autor esteve, pelo menos em duas ocasiões, à beira da morte: Vidas secas (1938) e Infância (1945). Graciliano, fumante compulsivo, ainda viveu 15 anos depois de ser libertado.
A
miséria humana e política descrita nas páginas de Memórias do cárcere talvez
traga aos esperançosos um consolo, ainda que débil. É que, mesmo entre
indivíduos pagos pelo Estado para torturar e humilhar, alguns conseguiram
conservar-se humanos e, por meio de atitudes imprevistas e imprevisíveis de
solidariedade, resguardar um pouco da dignidade daquelas pessoas mandadas ao
Inferno apenas por terem ideias incômodas aos donos do poder.
Numa
chave mais restrita, a leitura pode trazer algum alento no sentido de confirmar
que, entre nós, até o fascismo é fajuto, pois essas manifestações de humanidade
da parte de esbirros de uma ditadura são virtualmente inimagináveis, por
exemplo, entre aqueles autômatos implacáveis fabricados pela Juventude
Hitlerista e pela máquina de propaganda ideológica inventada por Goebbels. Pelo
menos isso, apesar do recente empenho de certa parte da elite econômica
brasileira, ainda não tivemos por aqui.
(*) Eloésio Paulo é
professor da UNIFAL-MG e autor dos livros: Teatro
às escuras – uma introdução ao romance de Uilcon Pereira (1988), Os 10 pecados de Paulo Coelho (2008), Loucura e ideologia em dois romances dos anos
1970 (2014) e Questões
abertas sobre O Alienista, de
Machado de Assis (2020).
Fonte: Universidade Federal de Alfenas – UNIFAL
Foto: Produção
Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com


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