Valter Luis de Oliveira Moraes
O menino passeava ao longe do jardim
e ouviu o que ele achou serem gritos. Procurou com seus olhinhos aguçados qual
a origem dos suplícios e se deparou com um homem vestido de roupão colorido,
que contrastava com o dia cheio de luz, totalmente espalhafatoso.
Usava um chapéu azul com uma pena
vermelha ao lado e um nariz de tomate, complementando a paisagem do sol
vermelho no céu.
Ele estava em pé sobre um banco que,
ao lado, tinha uma árvore bastante robusta, dando-lhe a aparência elegante de
uma deusa, com o caule avantajado e a copa arredondada.
A copa da árvore era a coroa verde da
princesa, com seu tronco elegante, brincos amarelos e colares coloridos. Ao
redor, vários tipos de orquídeas, roseiras sobrecarregadas de rosas exalando
seus perfumes e plantas cor de violetas, vermelhas, roxas, ornamentando toda
sua vestimenta, enfeitando o espaço, dando ênfase ao homem que sobre o banco
gritava, gesticulava, agachava-se, sentava na posição de lótus e levantava-se
como um garoto, com equilíbrio e elegância.
O menino, ao longe, pensando ser um
maluco qualquer, chamava a atenção dos transeuntes que paravam, olhavam e
aplaudiam, mas, na verdade, era um poeta declamando.
Era como se o menino e o poeta
estivessem em um teatro.
Tudo aquilo era novidade para aquele
menino. Na sua casa não tinha nem revista, nem televisão, que era a epidemia da
época.
O menino não estava entendendo nada
daquele acontecimento. Para ele, era como se fosse o doido Zéu aprontando mais
uma das suas maluquices.
Já que todos estavam se aglomerando
ao redor desse ser extravagante e excêntrico, a minha curiosidade foi mais
forte e me aproximei meio acanhado, prestei atenção ao que ele dizia e fiquei
concentrado, ouvindo como ele se expressava. Era como se cantasse de uma
maneira diferente, comovendo seus assistentes. Alguns emocionados choravam
timidamente, mas com certeza, se estivessem a sós, chorariam com mais ênfase,
efusivamente, tamanha a comoção.
De repente, alguém gritou no meio do
público:
— Esse é um poeta de verdade!
Declama como se estivesse
encarnado na poesia,
Dando-lhe vida!
Dando-lhe alma!
Nesse teatro ao ar livre!
Palmas! Palmas! Palmas!
Então é isso.
É um poeta recitando versos!
Estava encantado!
Feliz por assistir àquela cena
deslumbrante.
Foi como o dia em que vi o mar pela
primeira vez.
Assim, voltei para casa refletindo
sobre aquela beleza de teatro, da descoberta de uma coisa que não ouvira falar
e também não havia assistido.
Logo comentei com minha mãe e minha
tia sobre a beleza dos versos, falando de amor, da vida, dos céus, dos deuses,
sobre a arte da poesia e o ser poeta sobre o banco do jardim, deixando uma
sensação de alegria e deslumbre.
À noite, voando no cavalo alado,
recitei poemas de amor para a amada que partiu comigo para as aventuras da
arte.
Fonte: Agilson Cerqueira
Foto: Produção
Ponto de Leitura: rilvanbatistadesantana.blogspot.com
Editor: WhatsApp: (73) 988939460

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