3.27.2026

Epoché - Agilson Cerqueira






Antropomorfismo II
Óleo sobre tela. 
Agilson Cerqueira 

Epoché 

Agilson Cerqueira 

Recolher-se não é simplesmente afastar-se do mundo, mas suspender, ainda que provisoriamente, o regime de evidências que o mundo impõe. É um gesto de interrupção. Um desacordo silencioso com a pressa das coisas, com a necessidade constante de responder, agir, significar.

Ao voltar-se para dentro, não se encontra um refúgio estático, mas um campo em permanente elaboração. A consciência, longe de ser um recipiente passivo, revela-se como um espaço onde o pensamento se forma e se desfaz antes mesmo de adquirir linguagem. Escutar esse movimento exige mais do que atenção: exige desaceleração.

O ruído exterior — vozes, tempo, acontecimentos — não desaparece; ele apenas perde centralidade. O que se desloca é o eixo da experiência e, nesse deslocamento, o silêncio deixa de ser ausência para se tornar condição. Não um vazio, mas uma presença não ocupada.

É nesse ponto que algo decisivo se insinua: a percepção de que a interioridade não é um lugar, mas um processo. Um caminho que não se percorre avançando, mas suspendendo. E que só se revela à medida que o sujeito abdica da urgência de compreender.

Assim, o recolhimento não conduz a respostas, mas a uma outra forma de relação com o desconhecido — mais próxima da escuta do que da interpretação, mais próxima da presença do que da definição.

E talvez seja nesse estado, rarefeito e atento, que a maturidade racional — se assim podemos nomeá-la — encontre não um destino, mas a possibilidade de continuar se desvelando.


Meu Rosário - Conceição Tavares

 









Meu Rosário - Conceição Tavares

 

Meu rosário é feito de contas negras e mágicas.

Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo

padres-nossos, ave-marias.

Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques do

meu povo

e encontro na memória mal-adormecida

as rezas dos meses de maio de minha infância.

As coroações da Senhora, onde as meninas negras,

apesar do desejo de coroar a Rainha,

tinham de se contentar em ficar ao pé do altar

lançando flores.

As contas do meu rosário fizeram calos

nas minhas mãos,

pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas,

nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo.

As contas do meu rosário são contas vivas.

(Alguém disse que um dia a vida é uma oração,

eu diria porém que há vidas-blasfemas).

Nas contas de meu rosário eu teço entumecidos

sonhos de esperanças.

Nas contas do meu rosário eu vejo rostos escondidos

por visíveis e invisíveis grades

e embalo a dor da luta perdida nas contas

do meu rosário.

Nas contas de meu rosário eu canto, eu grito, eu calo.

Do meu rosário eu sinto o borbulhar da fome

No estômago, no coração e nas cabeças vazias.

Quando debulho as contas de meu rosário,

eu falo de mim mesma em outro nome.

E sonho nas contas de meu rosário lugares, pessoas,

vidas que pouco a pouco descubro reais.

Vou e volto por entre as contas de meu rosário,

que são pedras marcando-me o corpo-caminho.

E neste andar de contas-pedras,

o meu rosário se transmuda em tinta,

me guia o dedo,

me insinua a poesia.

E depois de macerar conta por conto do meu rosário,

me acho aqui eu mesma

e descubro que ainda me chamo Maria.

               (Poemas de recordação e outros movimentos, p. 16-17).



Fonte: Cultura Genial

Foto: Google

Vencendo a Ira - Rick Boxx

                                                                
                                             Vencendo a Ira

Por Rick Boxx

 

Anos atrás, meu chefe na ocasião, escolheu-me para presidir uma força tarefa para tratar de um problema importante da nossa companhia. Para mim, aquilo representava uma mina terrestre política - uma situação clássica de quando não existe uma solução satisfatória. Meu chefe provavelmente esperava que eu o protegesse de possíveis estilhaços causados pela decisão da força tarefa, coisa que eu não fiz.

 

Por suas descobertas, a força tarefa chegou à conclusão de que a questão real estava na abordagem que meu chefe tinha adotado para lidar com o problema que estávamos pesquisando. Logo depois que meu relatório foi finalizado e apresentado, fui rebaixado de posto. Meu chefe, que sempre advogara em meu favor, tornou-se meu inimigo. 

 

Por mais de dois anos abriguei uma ira tóxica em relação a ele. Eu me sentia injustamente tratado e caluniado. Eu fora o bode expiatório de um problema que meu próprio chefe causara. Procurando dar o troco e de algum modo me vingar, toda vez que tinha a oportunidade, eu falava mal daquele homem para outras pessoas. 

 

Depois de carregar esse peso de ira e amargura, sem nenhuma esperança de que o executivo viesse a corrigir o erro que cometera para comigo, cheguei à chocante, embora libertadora conclusão: Minha ira estava me ferindo muito mais do que afetando a ele. Ainda que meus comentários negativos conseguissem diminuir meu chefe aos olhos dos outros, minha ira não era apaziguada. 

 

Foi então que passei a fazer algo que deveria ter feito muito antes: determinei-me a ler, meditar e aplicar o que a Bíblia ensina a respeito da ira, justificada ou não. Por exemplo, Efésios 4:26 ensina: “Quando vocês ficarem irados, não pequem. Apaziguem a sua ira antes que o sol se ponha, e não deem lugar ao diabo.” Pensando sobre sua exortação, me ocorreu que o sol se pusera sobre a minha ira literalmente centenas de vezes, e a supuração da amargura que eu sentia continuamente estava dando ao diabo ampla oportunidade de sabotar aquilo que Deus estava tentando fazer em mim e através de mim. 

 

Então, comecei a ponderar sobre Mateus 6:15, onde Jesus afirma:  “Mas se não perdoarem uns aos outros, o Pai Celestial não lhes perdoará as ofensas.”

Palavras duras de serem lidas. Enquanto eu apontava um dedo acusador para meu ex-chefe, parecia que os demais dedos da minha mão apontavam diretamente para mim. Ponderando sobre isso, o Senhor me convenceu de que já que eu não tinha perdoado meu ex-chefe, como poderia esperar que Deus perdoasse os meus muitos pecados? Tomei consciência de que além de perdoar meu ex-chefe – mesmo que ele nunca pedisse isso – eu também precisava pedir a Deus que perdoasse meus tantos pecados, inclusive meu espírito não perdoador. 

 

Para saber o que Deus queria que eu fizesse a seguir eu li Mateus 5:23-24, onde Jesus diz: “Portanto, se você estiver apresentando a sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que seu irmão tem algo contra você, deixe sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar-se com seu irmão; depois volte e apresente sua oferta.”

 

Depois de mais de dois anos desde quando minha ira começou, finalmente iniciei o processo de reconciliação telefonando para o meu ex-chefe e pedindo seu perdão. Isso não consertou o que ele tinha feito, mas pelo menos eu estava livre da ira tóxica e seus efeitos devastadores. A ira é um câncer emocional cuja cura é o perdão.

3.26.2026

Acaso ... - Agilson Cerqueira


Acaso ...


Agilson Cerqueira


Percepção indutiva —
fragmento que se supõe inteiro.
Respostas em ruínas,
monossílabos como restos
de um pensamento que não se ergue.
A frase não nasce:
desarticulada,
assimétrica,
por vezes em guerra consigo mesma.
Oralidade mínima,
erosão da palavra —
aférese do sentido:
sim, não;
certo, errado;
tá, não tá.
Entre extremos,
nenhum intervalo habita.
E no silêncio que sobra
— não pausa, não há reflexão —
apenas o vácuo.
… Descaso!

Dinheiro e Felicidade - Não Necessariamente Ligados - Jim Mathis

 

Dinheiro e Felicidade - Não Necessariamente Ligados

Por Jim Mathis

 

Além do meu trabalho normal de restauro de fotografias antigas e retratos  executivos, sou também profissional em impostos de uma companhia nacional de preparação de declaração de rendas. Já fiz cerca de 1.000 declarações de rendas nos últimos anos e ganhei o título de “Agente Inscrito – Perito em Consultoria Tributária”. 

Com o decorrer do tempo isso me proporcionou uma boa compreensão da situação financeira da América. Conversando com as pessoas e obtendo uma visão de seus níveis de felicidade e contentamento, e depois olhando para suas finanças através dos impostos, observei coisas interessantes. 

Como você já esperava, não existe uma conexão entre rendas e patrimônio líquido. Algumas pessoas com rendas modestas acumularam grande riqueza, e muitas pessoas com altos rendimentos gastaram tudo e ainda mais. Um colega e eu estávamos revisando uma declaração de rendas recentemente quando comentei que isso prova que não é possível ganhar o suficiente para sobrepujar a tolice. As pessoas tolas quase sempre gastam mais do que ganham. 

Muitas pessoas pensam que se ganhassem um pouco mais seriam mais felizes. Provavelmente não. Se é que existe alguma correlação entre rendimentos e felicidade, ela é representada por uma curva em forma de sino onde as pessoas mais felizes estão situadas no meio dela. As pessoas com menores rendimentos e aquelas com as rendas mais elevadas estão situadas em ambas as pontas da curva, sendo as menos felizes. No caso de você estar duvidando, as pesquisas mostram que a mais alta porcentagem de pessoas que se declaram felizes ganham no máximo U$75.000 por ano. Ganhar mais não torna as pessoas mais felizes. 

 

O que nos leva à eterna questão: O dinheiro pode comprar a felicidade? Eu acredito que a resposta seja: Ele poderia, mas raramente o faz, porque as pessoas o gastam comprando as coisas erradas. Um carro novo não vai trazer felicidade, mas pegar a estrada e viajar com bons amigos deve resultar em bastante felicidade – e produzirá memórias afetuosas que durarão por muito tempo. 

Se é verdade que o dinheiro por si só não pode comprar felicidade, não deveríamos usá-lo de forma a promover pelo menos um certo grau de satisfação, realização e alegria? Sim, especialmente se seguirmos os princípios encontrados na Bíblia. 

Evite extremos.  Como já mencionei, as pessoas mais felizes parecem ser aquelas que poderiam ser classificadas como nem ricas, nem pobres, mas situar-se em algum ponto mediano. O desafio consiste em reconhecer onde está o “meio”. “Mantém longe de mim a falsidade e a mentira; não me dês nem pobreza nem riqueza; dá-me apenas o alimento necessário. Se não, tendo demais, eu Te negaria e Te deixaria, e diria: ‘Quem é o Senhor?’. Se eu ficasse pobre, poderia vir a roubar, desonrando assim o nome do meu Deus” (Provérbios 30:8-9).

O endividamento pode colocar as pessoas em escravidão física e emocional.  Muitas vezes “comprar” coisas com crédito pode satisfazer desejos imediatos, mas o custo no longo prazo pode ser devastador e restringir a flexibilidade financeira no futuro. “O rico domina sobre o pobre; quem toma emprestado é escravo de quem empresta” (Provérbios 22:7). 

Compartilhar com outros pode produzir grande alegria.  Com demasiada frequência as pessoas têm uma visão muito estreita sobre dar, seja para ajudar indivíduos ou apoiar causas caritativas.  Entretanto, saber que podemos usar um pouco dos nossos recursos para aliviar o fardo financeiro de outras pessoas pode ser recompensador. “Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria” (2 Coríntios 9:7).         

 

 

Olhos parados - Manoel de Barros

 

Manoel de Barros (1916-2014) foi um dos grandes poetas brasileiros. Com uma poética que celebra o miúdo e o singelo, sua obra é um mergulho no universo interior e nas belezas escondidas do cotidiano.

1. Olhos parados

Olhar, reparar tudo em volta, sem a menor intenção de poesia.
Girar os braços, respirar o ar fresco, lembrar dos parentes.
Lembrar da casa da gente, das irmãs, dos irmãos e dos pais da gente.
Lembrar que estão longe e ter saudades deles…
Lembrar da cidade onde se nasceu, com inocência, e rir sozinho.
Rir de coisas passadas. Ter saudade da pureza.
Lembrar de músicas, de bailes, de namoradas que a gente já teve.
Lembrar de lugares que a gente já andou e de coisas que a gente já viu.
Lembrar de viagens que a gente já fez e de amigos que ficaram longe.
Lembrar dos amigos que estão próximos e das conversas com eles.
Saber que a gente tem amigos de fato!
Tirar uma folha de árvore, ir mastigando, sentir os ventos pelo rosto…
Sentir o sol. Gostar de ver as coisas todas.
Gostar de estar ali caminhando. Gostar de estar assim esquecido.
Gostar desse momento. Gostar dessa emoção tão cheia de riquezas íntimas.

Os versos acima foram retirados após a primeira passagem do extenso poema Olhos parados. Neles, o sujeito reflete sobre a vida, expressando gratidão pelas experiências vividas e pelos encontros felizes. Reconhece a beleza de estar vivo, pleno, e dá valor a essa completude.

Em Olhos parados se estabelece uma relação de cumplicidade entre o autor e os leitores, deixando que eles assistam esse instante íntimo de balanço da sua vida pessoal.


Fonte: Cultura Genial

Foto: Produção

 

3.25.2026

Os sapos - Manuel Bandeira

 









Os sapos

Enfunando os papos,

Saem da penumbra,

Aos pulos, os sapos.

A luz os deslumbra.


Em ronco que aterra,

Berra o sapo-boi:

- "Meu pai foi à guerra!"

- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".


O sapo-tanoeiro,

Parnasiano aguado,

Diz: - "Meu cancioneiro

É bem martelado.

 

Vede como primo

Em comer os hiatos!

Que arte! E nunca rimo

Os termos cognatos.

 

O meu verso é bom

Frumento sem joio.

Faço rimas com

Consoantes de apoio.

 

Vai por cinquenta anos

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A fôrmas a forma.

 

Clame a saparia

Em críticas céticas:

Não há mais poesia,

Mas há artes poéticas..."

 

Urra o sapo-boi:

- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"

- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

 

Brada em um assomo

O sapo-tanoeiro:

- A grande arte é como

Lavor de joalheiro.

 

Ou bem de estatuário.

Tudo quanto é belo,

Tudo quanto é vário,

Canta no martelo".

 

Outros, sapos-pipas

(Um mal em si cabe),

Falam pelas tripas,

- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".

 

Longe dessa grita,

Lá onde mais densa

A noite infinita

Veste a sombra imensa;

 

Lá, fugido ao mundo,

Sem glória, sem fé,

No perau profundo

E solitário, é

 

Que soluças tu,

Transido de frio,

Sapo-cururu

Da beira do rio...

 

O poema Os sapos foi criado em 1918 e deu o que falar ao ser declamado por Ronald de Carvalho durante a emblemática Semana de Arte Moderna de 1922.

Numa crítica clara ao parnasianismo (movimento literário que definitivamente não representava o poeta), Bandeira constrói esse poema irônico, que tem métrica regular e é profundamente sonoro.

Trata-se aqui de uma paródia, uma maneira divertida de diferenciar a poesia que o escritor praticava daquela que vinha sendo produzida até então.

Os sapos são, na verdade, metáforas para os diferentes tipos de poetas (o poeta modernista, o vaidoso poeta parnasiano, etc). Aos longo dos versos vemos os animais dialogarem sobre como se constrói um poema.

Conheça uma análise aprofundada do poema Os sapos e confira os versos declamados:


Fonte: Pensador

Foto; Google

 

Capacitando Colaboradores - Robert Tamasy

                                         Capacitando Colaboradores

Por Robert Tamasy

 

Max De Pree, empresário e escritor americano, escreveu diversos livros que provocam reflexões sérias, baseado em suas próprias experiências e observações do mercado de trabalho. Uma de suas afirmações que achei especialmente interessante é: “Líderes devem dar espaço às pessoas – espaço no sentido de liberdade. Liberdade que possibilite que nossos talentos sejam exercidos. Precisamos dar uns aos outros espaço para crescer, para sermos nós mesmos.”

 

Essa percepção é particularmente significativa para mim porque, cerca de 16 anos atrás, um amigo adotou essa atitude quando decidimos trabalhar juntos. Dave e eu nos conhecemos através de nosso envolvimento no CBMC, inclusive trabalhando juntos no quadro de funcionários. Pouco depois que ele começou seu próprio negócio sem fins lucrativos, o Leaders Legacy, eu sentia que era tempo de fazer algo novo. Assim, encontrei-me com Dave e solicitei seu conselho.

 

Depois de conversarmos durante algum tempo, pareceu-nos óbvio que trabalharmos juntos no Leaders Legacy poderia ser mutuamente benéfico. Jamais esquecerei o que Dave disse para mim naquela tarde: “Bob, se você precisar de um lugar onde possa florescer e se tornar tudo o que Deus quer que você seja, temos um lugar para você”. 

 

Desde então tenho vivido uma carreira frutífera, desfrutando de muitas experiências recompensadoras tanto como escritor, quanto como editor. Esse convite, porém, prometia abrir portas que eu ainda tinha por explorar. E como se revelou, o meu tempo com a Leaders Legacy ao longo dos últimos 15 anos proporcionou muitas oportunidades novas, as quais, eu acredito, capacitaram-me a prosperar profissionalmente. 

 

A chave era simples. Permitiram-me, como De Pree escreveu, ter liberdade para exercer meus dons, talentos e experiência mais do que nunca. Em certo sentido, eu me sentia como um cavalo de corrida puro sangue quando o jóquei solta as rédeas e lhe dá permissão de correr livremente. 

 

Eu não tenho queixas quanto aos meus empregadores anteriores; nem estou querendo louvar a mim mesmo de modo algum. Acontece que em muitas situações os trabalhadores não têm toda sua capacitação utilizada – às vezes, nem eles próprios as reconhecem. Geralmente é preciso que alguém – o CEO, o administrador, mesmo o supervisor  - diga algo como: “Vejo muito potencial em você que ainda está intocado. Talvez nem mesmo você tenha consciência disso. Quero ajudá-lo a se tornar tudo o que pode vir a ser”. Você pode imaginar o quão liberador pode ser para um empregado valioso ouvir essas palavras?

 

Sob a perspectiva da Bíblia, adotar esse tipo de abordagem seria parte de “...Ame o seu próximo como a si mesmo...” (Marcos 12:31) e “Como vocês querem que os outros lhes façam, façam também vocês a eles.” (Lucas 6:31). Outra passagem, porém, aborda essa importante característica da liderança de maneira diferente. Provérbios 27:23-26 admoesta a todos que ocupam posições de autoridade – aqueles que têm responsabilidade sobre as pessoas que são confiadas à sua direção. O texto fala sobre ter discernimento, buscando estar sensível às necessidades daqueles que estão ao redor: “Esforce-se para saber bem como suas ovelhas estão, dê cuidadosa atenção aos seus rebanhos, pois as riquezas não duram para sempre, e nada garante que a coroa passe de uma geração a outra. Quando o feno for retirado, surgirem novos brotos e o capim das colinas for colhido, os cordeiros lhe fornecerão roupa, e os bodes lhe renderão o preço de um campo...

 

Colocar o interesse daqueles que trabalham para nós em primeiro lugar, em muitos casos, também será de nosso próprio interesse. 

 

Questões Para Reflexão ou Discussão   

 

1.   Por sua própria experiência, como você reage à declaração: “Deus, em Sua Palavra, nunca irá lhe dar um princípio que não possa ser posto em prática.” Alguma vez isso não foi verdadeiro em sua vida?

2.   Se você concorda que “Quando você segue os princípios bíblicos, nunca erra”, que princípios lhe vêm à mente e que você descobriu serem eficazes quando postos em prática?

3.   Olhando para um dos princípios mencionados, por que é tão difícil para a maioria de nós ter que esperar até vermos algo se concretizar?

4.   Você já experimentou a forma como Deus usa as dificuldades para nos ensinar e moldar, tornando-nos as pessoas que Ele quer que sejamos? Dê um exemplo e explique o que aprendeu com o processo.

 

Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos: Provérbios 11:23, 25; 12:1; 14:29; 15:22; 17:14; 21:5; 23:19-21; 26:10; 27:17; 28:20.  

 

A delicada arte de viver muito - Mário Donato D’Angelo

 

A delicada arte de viver muito.

por Mário Donato D’Angelo

 

Viver muito sempre foi, por séculos, uma raridade quase mítica. Era coisa de avó centenária que conhecia a cura das doenças no cheiro do mato, ou de personagem de romance russo, desses que morriam em São Petersburgo, sob a neve, citando Aristóteles em voz embargada. Longevidade era exceção. Agora virou estatística.

Vivemos mais. Isso é fato. A medicina avançou, os antibióticos viraram gente da casa, o colesterol passou a ser vigiado como se fosse um criminoso reincidente. A expectativa de vida subiu, e com ela a ideia, quase ingênua, de que bastaria durar para que tudo desse certo.  Mas viver muito não é a mesma coisa que viver bem. E é aí que começa a grande arte.

Porque a verdade é que a longevidade chegou antes do manual de instruções. Achávamos que envelhecer seria como alcançar um mirante: olhar para trás com serenidade, cruzar os braços sobre o próprio legado, saborear os frutos de uma vida bem vivida.

Mas a velhice, como a infância, exige cuidados diários, e também alguma poesia.

O corpo, esse velho cúmplice, começa a dar sinais de que o tempo passou. As juntas rangem como portas de armário antigo, os reflexos hesitam, os músculos se retraem.

Mas não é só o corpo que envelhece: às vezes o mundo ao redor também se torna estranho, distante. Os amigos partem, os filhos se dispersam, as calçadas ganham degraus invisíveis. E de repente, o que mais dói não é o quadril, é o silêncio.

E então vem ela: a queda.

Não só a queda literal, essa que acontece no banheiro, no degrau da padaria, na pressa inocente de atravessar a rua. Mas a queda simbólica: do entusiasmo, da autonomia, da autoconfiança. A queda de uma imagem de si mesmo que antes era firme, decidida, ágil. A queda de um modo de viver que não se encaixa mais no corpo que agora abriga a alma com mais cuidado.

A Organização Mundial da Saúde diz que um terço dos idosos sofre uma queda por ano. E essa queda pode ser o primeiro passo de uma jornada difícil: fraturas, cirurgias, internações, perdas, de mobilidade, de independência, de ânimo.

Mas veja bem: não se trata de um alerta sombrio. Trata-se, aqui, de um chamado amoroso à reinvenção.

Porque o envelhecimento também pode ser reinício. E preparar-se para ele é como preparar um jardim: exige tempo, presença, escolhas. É preciso cultivar força, sim, não para carregar sacos de cimento, mas para levantar-se da cadeira com leveza e poder abraçar um neto sem receio de tombar. É preciso elasticidade, não só nos músculos, mas nas ideias. E é preciso algo ainda mais raro: gentileza consigo mesmo.

Não se trata de negar a velhice. Ela chega, queira-se ou não, com suas rugas e suas lentidões, com seus esquecimentos charmosos e suas manias de repetir histórias. Mas há velhices e velhices. E há aquelas que florescem, porque foram cuidadas, porque tiveram sol e sombra, porque foram vividas com afeto, com liberdade, com algum humor.

Sim, o humor. Ele é, talvez, o músculo mais importante a ser mantido. Porque rir de si mesmo, das gafes, das perdas de memória, do tropeço nas palavras, é um jeito de desarmar o tempo.

O velho ranzinza é um clichê injusto, há velhos encantadores, que dançam bolero na sala com o ventilador ligado e o cachorro olhando desconfiado. Que tomam vinho com moderação e sorvete sem culpa. Que, aos oitenta, aprendem a usar o celular, e ainda erram, mas riem do erro.

A longevidade, quando bem-vivida, é como uma tarde longa e luminosa. Daquelas em que o sol demora a ir embora e o tempo parece suspenso entre uma lembrança e outra. Não é preciso correr. Nem competir. Basta estar inteiro: corpo e alma em compasso.

É isso que propomos aqui: um olhar amoroso para o futuro que já chegou. A velhice não precisa ser sinônimo de decadência. Pode ser plenitude.

E envelhecer bem não é luxo, nem sorte, é construção diária. Com passos firmes, com gestos suaves, com a força das pernas e o riso no rosto. Com o cuidado do corpo, sim, mas também com a ternura da memória.

Porque o segredo não é apenas viver muito.

É fazer da longevidade uma arte íntima, uma coordenação delicada entre o tempo e o desejo. E que, ao final, quando chegar a noite, a gente possa dizer, com lucidez e com alegria — “Foi bom ter vivido tanto. Mas foi melhor ainda ter vivido bem.”


Autor: Mário Donato Ângelo

Foto: Google

3.22.2026

Presença - Mário Quintana

 






Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,

teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento

das horas ponha um frêmito em teus cabelos…

É preciso que a tua ausência trescale

sutilmente, no ar, a trevo machucado,

as folhas de alecrim desde há muito guardadas

não se sabe por quem nalgum móvel antigo…

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela

e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu sentir

como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista

que nunca te pareces com o teu retrato…

E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

É partindo de duas dicotomias que se constrói o poema Presença: por um lado vemos os pares opositores passado/presente, por outro lado observamos o segundo par opositor que serve como base da escrita (ausência/presença).

Pouco ou nada ficaremos sabendo dessa misteriosa mulher que provoca nostalgia cada vez que a sua lembrança é evocada. Aliás, tudo o que saberemos dela ficará a cargo dos sentimentos originados no sujeito.

Entre esses dois tempos - o passado marcado pela plenitude e o presente pela falta - ergue-se a saudade, mote que faz com que o poeta cante os seus versos.


Fonte: Pensador

Foto: Google


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