Os sapos
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.
Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."
Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não
foi!".
Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.
Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".
Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não sabe!" -
"Sabe!".
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;
Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...
O poema Os sapos foi
criado em 1918 e deu o que falar ao ser declamado por Ronald de Carvalho
durante a emblemática Semana de Arte Moderna de 1922.
Numa crítica clara ao
parnasianismo (movimento literário que definitivamente não representava o
poeta), Bandeira constrói esse poema irônico, que tem métrica regular e é
profundamente sonoro.
Trata-se aqui de uma
paródia, uma maneira divertida de diferenciar a poesia que o escritor praticava
daquela que vinha sendo produzida até então.
Os sapos são, na verdade,
metáforas para os diferentes tipos de poetas (o poeta modernista, o vaidoso
poeta parnasiano, etc). Aos longo dos versos vemos os animais dialogarem sobre
como se constrói um poema.
Conheça uma análise
aprofundada do poema Os sapos e confira os versos declamados:
Fonte: Pensador
Foto; Google


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Estimular a leitura e a aprendizagem de jovens e adultos