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3.26.2026

Olhos parados - Manoel de Barros

 

Manoel de Barros (1916-2014) foi um dos grandes poetas brasileiros. Com uma poética que celebra o miúdo e o singelo, sua obra é um mergulho no universo interior e nas belezas escondidas do cotidiano.

1. Olhos parados

Olhar, reparar tudo em volta, sem a menor intenção de poesia.
Girar os braços, respirar o ar fresco, lembrar dos parentes.
Lembrar da casa da gente, das irmãs, dos irmãos e dos pais da gente.
Lembrar que estão longe e ter saudades deles…
Lembrar da cidade onde se nasceu, com inocência, e rir sozinho.
Rir de coisas passadas. Ter saudade da pureza.
Lembrar de músicas, de bailes, de namoradas que a gente já teve.
Lembrar de lugares que a gente já andou e de coisas que a gente já viu.
Lembrar de viagens que a gente já fez e de amigos que ficaram longe.
Lembrar dos amigos que estão próximos e das conversas com eles.
Saber que a gente tem amigos de fato!
Tirar uma folha de árvore, ir mastigando, sentir os ventos pelo rosto…
Sentir o sol. Gostar de ver as coisas todas.
Gostar de estar ali caminhando. Gostar de estar assim esquecido.
Gostar desse momento. Gostar dessa emoção tão cheia de riquezas íntimas.

Os versos acima foram retirados após a primeira passagem do extenso poema Olhos parados. Neles, o sujeito reflete sobre a vida, expressando gratidão pelas experiências vividas e pelos encontros felizes. Reconhece a beleza de estar vivo, pleno, e dá valor a essa completude.

Em Olhos parados se estabelece uma relação de cumplicidade entre o autor e os leitores, deixando que eles assistam esse instante íntimo de balanço da sua vida pessoal.


Fonte: Cultura Genial

Foto: Produção

 

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