3.04.2026
Derivados - Agilson Cerqueira
Inconsistências humanas - Agilson Cerqueira
Autorretrato / Óleo Sobre Tela
Agilson Cerqueira
Inconsistências humanas
Agilson Cerqueira
Se estás a falar sempre com incoerências,
Mentiras e distúrbios emocionais: logorreia!
Sem prosopopeia, carecerá soliloquiar!
Pois no eco do próprio desatino,
Onde o verbo é raso e o brio é escasso,
O mentiroso traça o seu destino:
Um nó cego no próprio abraço.
Melhor o mudo que se reconhece,
Do que o orador que se esvazia;
Pois quem na língua o mal oferece,
Na própria voz se asfixia.
Em pântanos de frases mal tecidas,
Onde a verdade é sombra que se esconde,
Perdem-se as pontes, sobram as feridas,
E o eco da razão já não responde.
Quem faz do sopro apenas ventania,
Sem o lastro do ser, sem o prumo,
Descobre, enfim, na própria agonia,
Que a palavra oca é só fumaça sem fumo.
É antes o deserto e a mudez profunda,
Onde o pensamento se faz luz e trilha,
Do que a torrente falsa que inunda,
E no próprio lodo se amordaça e humilha.
C. A. Santos (*)
Este poema de Agilson Cerqueira, intitulado "Inconsistências humanas", é uma crítica mordaz à verbosidade vazia, à mentira e à falta de integridade intelectual. O autor utiliza um vocabulário rico para contrastar o barulho inútil da "logorreia" com a profundidade do silêncio reflexivo. É um privilégio encontrar um trabalho deste nível.
Alguns destaques que me chamaram a atenção:
Eixos Temáticos
A Logorreia vs. O Silêncio: O autor argumenta que falar em excesso sem conteúdo ou verdade ("logorreia") é um distúrbio que isola o indivíduo. Ele sugere que é melhor ser "mudo" e consciente de si do que um orador vazio.
A Autodestruição pelo Verbo: A mentira e a incoerência funcionam como uma armadilha. O mentiroso cria um "nó cego no próprio abraço" e acaba sufocado pela própria voz.
A Perda da Razão: O uso leviano da palavra destrói as "pontes" (comunicação/conexão) e deixa apenas feridas, onde a razão deixa de responder.
Metáforas de Degradação
O poema utiliza imagens de elementos naturais para descrever a decadência da fala desonesta:
Pântanos e Lodo: Representam a confusão mental e moral onde a verdade se esconde e o orador se humilha.
Fumaça e Fumo: Simbolizam a natureza efêmera e sem substância da "palavra oca".
Ventania: O sopro de quem fala muito, mas sem o "prumo" (direção/ética), resultando apenas em barulho e agonia.
Conclusão: A obra exalta o "deserto e a mudez profunda" como espaços onde o pensamento pode finalmente se tornar "luz e trilha", preferindo a solidão pensante ao barulho da "torrente falsa".
(*) C. A. Santos: Artista Plástico, Escritor e Crítico
3.03.2026
Envelhecer à francesa - Simone Beauvoir
ENVELHECER À FRANCESA
“Envelheci
à francesa: sem alarde, sem ruptura, apenas deixando o tempo assentar. O corpo
se aproveitou da minha distração. Não sei quando foi que decidiu envelhecer,
porque fez isso de forma silenciosa, quase elegante. Um dia eu era movimento,
urgência, promessa. No outro, continuidade. Não houve um aviso claro, nem um
momento exato. O corpo foi mudando enquanto a mente seguia intacta, cheia de
planos, curiosidades e vontades. As mãos ganharam histórias, o rosto aprendeu
novos mapas, e o espelho passou a refletir alguém que não chegou de repente,
mas foi se tornando. O envelhecimento não bateu à porta; entrou enquanto eu
estava ocupada vivendo. Há algo de delicado nisso. O corpo não traiu, apenas
acompanhou o tempo. Ele desacelerou onde antes corria, pediu cuidado onde antes
exigia força. Não perdeu dignidade, ganhou linguagem. Cada mudança passou a
comunicar experiência, não declínio. Envelhecer à francesa é aceitar que o
tempo não precisa ser combatido, apenas compreendido. É permitir que o corpo
mude sem que a essência se perca. A mente continua curiosa, o olhar atento, o
coração disponível. O corpo envelhece,
sim, mas o faz com uma elegância silenciosa, como quem sabe que viver é
transformar-se sem pedir licença.”
(Simone
Beauvoir)
Cartas de Amor são Ridículas - Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
Cartas de Amor são
Ridículas
Álvaro
de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, faz uma brincadeira com as cartas de
amor e com os sentimentos de quem já esteve apaixonado.
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas. As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas. Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas. Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas. A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.(Todas as palavras esdrúxulas),
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas).
Fonte: Pensador
Foto: Google
Virgulino - Graciliano Ramos
Virgulino
Há
dias surgiu por aí um telegrama a anunciar que o meu vizinho Virgulino Ferreira
Lampião tinha encerrado a sua carreira, gasto pela tuberculose, deitado numa
cama, no interior de Sergipe. Mas a notícia não se confirmou — e a polícia do
Nordeste continuará a perseguir o bandido, provavelmente o agarrará de surpresa
e mostrará nos jornais a cabeça dele separada do corpo. Seria de fato bem
triste que a punição dum indivíduo tão nocivo fosse realizada por uma doença.
Ficam, pois, sem efeito os ligeiros comentários inoportunos e apressados, que
ilustraram o canard.
Não
é a primeira vez que Lampião tem morrido. E sempre que isto se dá as notas com
que se estira o acontecimento deturpam a figura do bruto e manifestam a ingênua
certeza de que tudo vai melhorar no sertão. O zarolho se romantiza, enfeita-se
com algumas qualidades que se atribuíam aos cangaceiros antigos, torna-se
generoso, desmancha injustiças, castiga ou recompensa, enfim aparece
inteiramente modificado.
Esperamos
e desejamos longos anos essa morte — e ao termos conhecimento dela soltamos um
suspiro de alívio a que se junta uma espécie de gratidão. Teria sido melhor,
sem dúvida, que o malfeitor houvesse acabado nas unhas da polícia. Não acabou
assim, desgraçadamente, mas de qualquer forma o Nordeste se livrou dum
pesadelo.
Repousamos
algum tempo nesse engano, até que Lampião ressurge e prossegue nas suas
façanhas. Inútil agredi-lo ou emprestar-lhe virtudes que ele não entende,
ajudá-lo, fazê-lo combater os grandes, proteger os pequenos, casar donzelas
comprometidas. Lampião não se corrigirá por isso: permanecerá mau de todo,
insensível às balas, ao clamor público e aos elogios, uma das raras coisas
completas que existem neste país.
Tudo
aqui é meio-termo, pouco mais ou menos, somos uma gente de transigências,
avanços e recuos. Hoje aqui, amanhã ali — depois de amanhã nem sabemos onde
haveremos de ficar, como haveremos de estar. Abastardamo-nos tanto que já nem
compreendemos esse patife de caráter e inadvertidamente lhe penduramos na alma
sentimentos cavalheirescos que foram utilizados como atributos de outros
malfeitores.
Deixemos
isso, apresentemos o bandoleiro nordestino como é realmente, uma besta-fera. Há
pouco mais de um ano, em condições bem desagradáveis, travei conhecimento com
um discípulo dele, um sujeito imensamente forte, alourado, vermelhaço, de olho
mau. Esse personagem me declarou que todas as vezes que praticava um homicídio
abria a carótida da vítima e bebia um pouco de sangue. Anda por aí espalhada a
longa série das barbaridades cometidas pelo terrível salteador, mas essa
confissão voluntária dum companheiro dele surpreendeu-me.
Isso
prejudica bastante o velho culto do herói, do homem que lisonjeamos para que
ele não nos faça mal.
Lampião
se conservará ruim. E não morrerá tão cedo. A vida no Nordeste se tornou
demasiado áspera, em vão esperaremos o desaparecimento das monstruosidades
resumidas nele.
Finaram-se os patriarcas sertanejos que vestiam algodão e couro cru, moravam em casas negras sem reboco, tinham necessidades reduzidas e soletravam mal. No pátio da fazenda uns cangaceiros bonachões preguiçavam. E nos arredores grupos esquivos rondavam, escondendo-se dos volantes. De longe em longe um emissário chegava à propriedade e recebia do senhor uma contribuição módica.
Tudo
agora mudou. O sertão povoou-se e continua pobre, o trabalho é precário e
rudimentar, as secas fazem estragos imensos. Os bandos de criminosos, que no
princípio do século se compunham de oito ou dez pessoas, cresceram e
multiplicaram-se, já alguns chegaram a ter duzentos homens. A luta se agravou,
as relações entre fazendeiros e bandidos não poderiam ser hoje fáceis e amáveis
como eram.
Jesuíno
Brilhante é uma figura lendária e remota, o próprio Antônio Silvino envelheceu
muito.
Resta-nos Lampião, que viverá longos anos e provavelmente vai ficar pior. De quando em quando noticia-se a morte dele com espalhafato. Como se se noticiasse a morte da seca e da miséria. Ingenuidade.
A
Tarde, Rio de Janeiro, 27 jan. 1938
IN: RAMOS, Graciliano. Viventes das Alagoas. Rio de Janeiro: Record, 2007, p.151-154.
Fonte: blog um texto por mês
Foto: Google
3.02.2026
O Mercado e o Sábado - Jim Mathis
O Mercado e o Sábado
Por Jim Mathis
Muitos de nós lutamos com o fato de não termos tempo suficiente para
fazer o que é preciso no trabalho. Trabalhadores autônomos têm um desafio ainda
maior para conseguirem deixar o trabalho por alguns dias e até mesmo algumas
horas. Arrazoamos: nós devemos empregar o tempo que for preciso. Mas, a que
custo?
Estudos têm demonstrado que a produtividade cai drasticamente quando não
separamos um tempo para descansar – para “afiar nosso machado”. Existe um
ditado bastante prático que diz que o meio mais rápido de se cortar madeira é
primeiro separando um tempo para se certificar de que o machado está bem
afiado. Este princípio se aplica mesmo se você não estiver no ramo de corte de
madeira. Quase todas as ideias novas que tive para o meu negócio surgiram
quando eu estava de férias ou longe do trabalho, onde eu tinha tempo para
ganhar uma nova perspectiva ou descobrir novas coisas a partir de fontes
totalmente aleatórias ou não relacionadas com os negócios.
Essa necessidade de separar um tempo para nos afastarmos do nosso
trabalho, nossa vocação, é tão importante que nos é dada até mesmo como uma
orientação divina na Bíblia.
No relato bíblico da criação, Deus criou o mundo em seis dias e depois
descansou no sétimo dia. A ideia de descanso no sétimo dia foi compilada quando
os Dez Mandamentos foram entregues a Moisés: “Lembra-te do dia de
sábado, para santificá-lo. Trabalharás seis dias e neles farás todos os teus
trabalhos, mas o sétimo dia é o sábado dedicado ao Senhor, o teu Deus. Nesse
dia não farás trabalho algum...Pois em seis dias o Senhor fez os céus e a terra,
o mar e tudo o que neles existe, mas no sétimo dia descansou...” (Êxodo
20:8-11).
Mais tarde, Jesus tornou mais claro esse mandamento relativo ao sábado,
ensinando que honrar o sábado não tem a ver com seguir um conjunto de regras,
mas que o dia foi estabelecido para o homem – um tempo de descanso, reflexão e
recuperação, um tempo para desacelerar e desfrutar do mundo que Deus
criou. “...O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por
causa do sábado.” (Marcos 2:27).
Ao longo dos séculos, a ideia do dia de descanso para os cristãos passou a não
ser mais o sétimo, mas sim o primeiro dia da semana. Isso era fonte
de conflito e confusão para mim. Deveríamos descansar no sétimo dia, sábado, ou
no primeiro dia, domingo? Pensei que talvez nosso calendário estivesse com a
legenda errada. Recentemente, entretanto, tomei consciência de que ambos os
dias estão corretos. Nós devemos honrar o sétimo dia da semana como o dia de
descanso. Minha esposa chama isso de sábado VERDADEIRO, ou seja, um
dia para descansar, recuperar-se, passar tempo com os amigos, fazer uma
refeição pausadamente, e apenas apreciar o fato de estarmos vivos. O domingo,
então, se torna o dia em que honramos a Cristo e nos lembramos de Sua
ressurreição. É um tempo para começarmos a semana oferecendo as suas primeiras
horas a Deus, uma espécie de primícias do nosso tempo, de nossa semana.
Sábado, o sétimo dia da semana, tornou-se o meu dia de
descanso. Domingo, o primeiro dia da semana, tornou-se o tempo de
adorar a Deus e começar corretamente a semana. Essa ideia pode parecer radical
para alguns, mas serve como teste de nossa confiança no Senhor e na Sua
provisão. Como Salmos 127:2 nos assegura, “Não adianta
trabalhar demais para ganhar o pão, levantando cedo e deitando tarde, pois é
Deus quem dá o sustento a quem Ele ama, mesmo quando estão dormindo.”
Falando de maneira prática, geralmente inicio minha semana na tarde ou noite de
domingo, fazendo meu planejamento e deixando algumas coisas prontas para a
manhã de segunda-feira. Faz sentido para mim ter a consciência de que descansei
no sábado e dediquei as primeiras horas da semana ao Senhor. Então, é tempo de
trabalhar até o próximo sábado, o verdadeiro sábado, em termos de descansar, e
preparar-me mental, física e espiritualmente para uma nova
semana.
Questões Para Reflexão ou Discussão
1. Você normalmente consegue descansar o suficiente apesar das demandas
do trabalho? Que medidas você adota para evitar que o trabalho consuma toda sua
atenção e agenda sete dias por semana?
2. Como você reage ao conceito de observar e manter um verdadeiro sábado
dentro do contexto de sua semana de trabalho?
3. Você concorda com a ideia de que Deus instituiu a observância do
sábado como um meio prático de assegurar que você tenha o descanso que precisa,
e não como uma regra arbitrária e rígida?
4. E se você tiver um trabalho (como médico, policial ou garçom) que
exija que você trabalhe no sábado e/ou no domingo? Como assegurar mesmo assim
que você tenha o descanso que precisa – o seu sábado?
Desejando considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema,
sugerimos: Êxodo 23:10-12; 31:14-16; Provérbios 3:24;
Eclesiastes 2:23; 5:12; Hebreus 4:4-11.
Homenagem do artística plástico - Agilson Cerqueira
Prof. Rilvan Santana
Bom dia, Rilvan!
Enviando uma caricatura para ser usada em algumas ilustrações, caso queira.
3.01.2026
Uma viagem a Bonde - Graciliano Ramos
Na grande cidade, plana, montanhosa, rica, miserável, cheia de hiatos, horrores e belezas, o viajante da província, chegado há pouco num vaporzinho ronceiro, coleciona surpresas e contradições. O morro pitoresco visto de longe, verde e pedregoso, coberto de tábua e lata, parece baixar-se de repente, alargar-se na planície. É uma elevação quase imperceptível, sem verdura nem pedra, mas lá fervilha uma sociedade como a das grandes alturas, das ladeiras íngremes e ziguezagueantes. A favela desceu; torcem-se becos na areia, labirinto complicadíssimo. As árvores do Jardim Botânico erguem-se na vizinhança. As casas próximas cresceram e tornaram-se palacetes, o arranha-céu baixa a cabeça e espia, constrangido, a vermina que lhe formiga os pés. Rolam ônibus e meia dúzia de passos. E ali, na tábua dura e na lata enferrujada, Aurora se contempla num pedaço de espelho, seu Oscar arranca tristezas do pinho, os meninos de seu Oscar pegam vasilhas e vão mendigar água nos corredores.
O viajante estira o pescoço, desvia-se do jornal, larga Churchill e Hitler, faz reflexões ponderosas, receita mentalmente remédios enérgicos e paliativos, logo esquecidos. Saiu do hotel pela manhã e, atordoado por estranhos rumores, gritos de choferes e buzinar de automóveis, incorporou-se na multidão e foi estudar topografia. Como na terra dele se diz que todo o caminho dá na venda, achou desnecessário munir-se de carta: entrou num veículo e rodou para o sul.
Apeou-se em Copacabana, onde viu numerosas criaturas de roupas escassas banhando-se ou lagarteando, estateladas. Afastou-se, repeliu severamente aquela nudez e aquela mistura, foi descansar nos bancos da praça, ver as palmeiras, o coreto. Voltou a examinar os banhistas, dobrou esquinas, circulou na praia e nas vias interiores, admirou a altura dos prédios, o tamanho dos elevadores e os cartazes dos cinemas. Desnorteado, meteu-se num bonde e distraiu-se algum tempo olhando as placas das ruas compridas. Saltou no fim de Ipanema, tomou outro bonde e, atraído por uma espaventosa manchete, pôs os óculos e começou a ler disfarçadamente, com o rabo do olho, o jornal dum companheiro de banco. Entreteve-se atentando na favela.
Agora repousa a vista numa longa fileira de bangalôs tranqüilos, decentes, meio ocultos em vegetais educados nos limites impostos pela tesoura do jardineiro, plantas desambiciosas, chinfrins e burocráticas. Algumas crianças patinam moderadamente na calçada; com certeza mamãe, lá dentro, manipula os vestidos das pequenas; papai chateia-se na repartição. Ordem. Parece que as coisas vão direito. Não há motivo para desgosto. O nosso passageiro esfrega as mãos. Por que esse barulho todo na Europa, essa fúria, essa doidice? De fato há pessoas exigentes, milhões de pessoas exigentes e mal intencionadas.
Rua Voluntários da Pátria, bonito nome. Não morava aqui o Oswaldo Cruz? É, morava. Que bagunça, pai do céu! Tempo esquisito! Berros no Congresso, artigos medonhos, fuzuê, gente morrendo por causa da vacina. Hoje não há disso, graças a Deus. A imprensa é razoável, somos todos razoáveis, e os discursos, no rádio, perderam a eficácia.
Parada no Pavilhão Mourisco, cinco minutos junto à fonte vazia e suja. Nova mudança de veículo.
Bem. Isto por aqui deve ser Botafogo, não? Leituras antigas auxiliam o provinciano. Antigas e recentes. Botafogo, sem dúvida. Que é da placa? Vive ali uma das personagens do sr. Gilberto Amado. Onde ficarão as palmeiras? O homem conhece a boa literatura. Instituto Juruena. Naquele jardim o sujeito do pára-quedas se esborrachou. Caíram na vizinhança pedaços do aeroplano onde viajava o ministro de Cuba. Escangalharam-se dois aviões e uns dez indivíduos entregaram a alma a Deus, mas só nos lembramos do dr. Catá. O resto sumiu-se, como os pára-quedistas metralhados e os marinheiros que afundam.
Marquês de Abrantes. Quem terá sido o marquês de Abrantes? O passageiro ignora muitos patronos das vias públicas, o que não o inibe de respeitá-los.
Numa praça miúda, com folhas de papel na mão, José de Alencar está sentado em posição ridícula. Muito grande, José de Alencar. Necessário melhorar-lhe a estátua. O Guarani, que poucos leram e todos admiram, há de tornar-se um livro fundamental, maior que Os Sertões. Falta uma estátua de Euclides da Cunha: cidadão deste século, ainda não amadureceu convenientemente.
Rua Machado de Assis. Ah! Esse era enorme e continua a crescer. Superior, infinitamente superior a Eça de Queirós. Precisamos afirmar isto. Sem comparação não há grandeza. Só Deus é Deus e Maomé é o seu profeta.
Lá está o Catete. Sim senhor é ali. Nos arredores, a casa de móveis do judeu, literatos padecendo no fundo de pensões ordinárias, bodegas de frutas, as meninas de Rubem Braga, em chinelos, transitando na calçada. Muito democrático.
Pouco adiante, o relógio da Glória e o combate nos tempos pré-históricos, divulgados nas estampas que enfeitam peças de fazenda barata, no interior. Estamos chegando.
O Passeio Público encolheu-se e pedirá demissão qualquer dia. O Monroe. Para quê? Chi! Quanto cinema! A Biblioteca Nacional e, defronte, o monumento de Floriano com diversos atavios, Y-juca-pyrama, O Caramuru e outras habilidades.
O viajante desce do carro e mergulha no apertão da Avenida, morrinhento, encharcado de suor. Depois dará uma volta por Engenho de Dentro ou pelo Méier. Mas isto é província. Por enquanto precisa recolher-se, deitar-se. 25 de maio de 1941
IN:
RAMOS, Graciliano. Linhas Tortas. Rio de Janeiro: Record, 2013, p.356-360.
Fonte: Blog um texto por mês
Foto: Google
Adeus, meus sonhos! - Álvares de Azevedo
Adeus, - meus sonhos!
Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh’alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus? Morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!
Aqui,
a total falta de esperança está presente desde o próprio título da composição.
Com um sentimento pessimista de desgosto e derrota, este sujeito poético revela
um estado de alma apático, uma impossibilidade de sentir até saudades.
Entregue
à tristeza e à depressão, ele revela que o tempo foi levando todas as suas
alegrias e chega a questionar a própria existência, desejando a morte. O
isolamento e a degradação do eu-lírico parecem ser o resultado da sua dedicação
absoluta a um amor não correspondido.
Autor: Álvares de Azevedo
Foto: Google
Construindo um Negócio Baseado em Valores - Rick Boxx
Construindo um Negócio Baseado em Valores
Por Rick Boxx
Uma das ferramentas mais subestimadas na
estruturação de qualquer empreendimento são os valores sobre os quais ele está
sendo construído. Se o objetivo da companhia é simplesmente ter grandes
lucros, fechar muitos negócios ou distribuir enormes quantidades de produtos ou
serviços, ela poderá ser levada a ter problemas com os fins servindo para
justificar os meios.
Por exemplo, quando o objetivo é finalizar
vendas, alguém poderia ser tentado a fazer qualquer promessa necessária para
conseguir isso – mesmo que ela não possa ser cumprida. Ou quando
maximizar os lucros é a meta primária, pode se tornar fácil justificar o corte
de gastos, mesmo que isso comprometa a qualidade dos produtos ou serviços
fornecidos.
Entretanto, quando uma companhia começa tendo
uma estrutura de valores muito clara e bem planejada para guiá-la e governar
suas operações, suas chances de sobrevivência e sucesso aumentam
enormemente. Tais valores definem essencialmente “o que fazemos”, “porque
fazemos” e “como fazemos”.
Muitos CEO’s seguidores de Jesus Cristo
compartilham o desejo de influenciar suas organizações com princípios da Bíblia
– que entendem ser a Palavra de Deus – sendo ao mesmo tempo sensíveis para com
aqueles que não abraçam a mesma fé. Uma das melhores maneiras de moldar a
cultura de uma empresa de uma maneira eficaz e não ofensiva é focar valores,
princípios de conduta e práticas que todos dentro da organização possam ser
convidados a abraçar.
Por exemplo, o valor de estabelecer o serviço
ao cliente como prioridade máxima é um valor contra o qual poucos podem
levantar objeções. Nem mesmo precisamos explicar que este valor está
baseado em Lucas 6:31, que diz: “Façam aos outros a mesma coisa
que querem que eles façam a vocês.” Podemos abraçar o valor de
fazermos o melhor que pudermos sempre, sem termos que insistir para que nossos
funcionários trabalhem “...de todo o coração, como se estivessem
servido o Senhor e não as pessoas” (Colossenses 3:23).
Uma vez que muitos dos valores que normalmente
endossamos são extraídos diretamente da Bíblia, a formulação de nossas crenças
fundamentais serve como uma forma não ameaçadora de comunicar os padrões e
valores de Deus. Desenvolver estes valores fundamentais e fazer com que
sua equipe permaneça fiel a eles oferece a oportunidade de indicar a forma de
fazer negócios da maneira de Deus.
Como o salmista expressou em Salmos
119:130, “A explicação da Tua Palavra traz luz e dá sabedoria às
pessoas simples.” Para alcançar o sucesso – e mantê-lo – é
importante que cada membro importante da equipe seja capaz de compreender e
explicar o que a companhia pretende. Quais são os valores e princípios
básicos que servem como sinalizadores para a sua conduta nos negócios do dia a
dia?
Se você deseja moldar a cultura de sua
organização segundo a maneira de Deus, experimente determinar e expressar seus
valores fundamentais. Depois, seja exemplo deles e os comunique de forma
consistente para sua equipe. Como o apóstolo Paulo escreveu, “Ponham
em prática o que vocês receberam e aprenderam de mim, tanto com as minhas
palavras como com as minhas ações.”
Questões
Para Reflexão ou Discussão
1.
Você já considerou a possibilidade de fazer de sua empresa um negócio
fundamentado em valores?
2.
Se você acredita que sua empresa está fundamentada em valores, quais são
eles? Eles são expressos e apresentados de forma tal que todos tenham a
oportunidade de revê-los e entendê-los como diretrizes para as operações e
práticas diárias?
3.
Compreendendo que nem todos dentro de uma empresa sustentam as mesmas crenças
espirituais, é adequado que as pessoas saibam que a fonte dos valores da
empresa é a Bíblia? Por quê?
4.
Como você acredita que uma organização que ainda não tenha estabelecido um
sistema de valores para governar suas operações pode começar a trabalhar neste
sentido? Ou você acredita que a esta altura não haja necessidade de mudar
sua condição atual?
Desejando
considerar outras passagens da Bíblia relacionadas ao tema, sugerimos:
Provérbios 11:1; 14:5; 15:33; 20:14; 29:4;
Filipenses 4:8; II Timóteo 2:2.
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