Virgulino
Há
dias surgiu por aí um telegrama a anunciar que o meu vizinho Virgulino Ferreira
Lampião tinha encerrado a sua carreira, gasto pela tuberculose, deitado numa
cama, no interior de Sergipe. Mas a notícia não se confirmou — e a polícia do
Nordeste continuará a perseguir o bandido, provavelmente o agarrará de surpresa
e mostrará nos jornais a cabeça dele separada do corpo. Seria de fato bem
triste que a punição dum indivíduo tão nocivo fosse realizada por uma doença.
Ficam, pois, sem efeito os ligeiros comentários inoportunos e apressados, que
ilustraram o canard.
Não
é a primeira vez que Lampião tem morrido. E sempre que isto se dá as notas com
que se estira o acontecimento deturpam a figura do bruto e manifestam a ingênua
certeza de que tudo vai melhorar no sertão. O zarolho se romantiza, enfeita-se
com algumas qualidades que se atribuíam aos cangaceiros antigos, torna-se
generoso, desmancha injustiças, castiga ou recompensa, enfim aparece
inteiramente modificado.
Esperamos
e desejamos longos anos essa morte — e ao termos conhecimento dela soltamos um
suspiro de alívio a que se junta uma espécie de gratidão. Teria sido melhor,
sem dúvida, que o malfeitor houvesse acabado nas unhas da polícia. Não acabou
assim, desgraçadamente, mas de qualquer forma o Nordeste se livrou dum
pesadelo.
Repousamos
algum tempo nesse engano, até que Lampião ressurge e prossegue nas suas
façanhas. Inútil agredi-lo ou emprestar-lhe virtudes que ele não entende,
ajudá-lo, fazê-lo combater os grandes, proteger os pequenos, casar donzelas
comprometidas. Lampião não se corrigirá por isso: permanecerá mau de todo,
insensível às balas, ao clamor público e aos elogios, uma das raras coisas
completas que existem neste país.
Tudo
aqui é meio-termo, pouco mais ou menos, somos uma gente de transigências,
avanços e recuos. Hoje aqui, amanhã ali — depois de amanhã nem sabemos onde
haveremos de ficar, como haveremos de estar. Abastardamo-nos tanto que já nem
compreendemos esse patife de caráter e inadvertidamente lhe penduramos na alma
sentimentos cavalheirescos que foram utilizados como atributos de outros
malfeitores.
Deixemos
isso, apresentemos o bandoleiro nordestino como é realmente, uma besta-fera. Há
pouco mais de um ano, em condições bem desagradáveis, travei conhecimento com
um discípulo dele, um sujeito imensamente forte, alourado, vermelhaço, de olho
mau. Esse personagem me declarou que todas as vezes que praticava um homicídio
abria a carótida da vítima e bebia um pouco de sangue. Anda por aí espalhada a
longa série das barbaridades cometidas pelo terrível salteador, mas essa
confissão voluntária dum companheiro dele surpreendeu-me.
Isso
prejudica bastante o velho culto do herói, do homem que lisonjeamos para que
ele não nos faça mal.
Lampião
se conservará ruim. E não morrerá tão cedo. A vida no Nordeste se tornou
demasiado áspera, em vão esperaremos o desaparecimento das monstruosidades
resumidas nele.
Finaram-se os patriarcas sertanejos que vestiam algodão e couro cru, moravam em casas negras sem reboco, tinham necessidades reduzidas e soletravam mal. No pátio da fazenda uns cangaceiros bonachões preguiçavam. E nos arredores grupos esquivos rondavam, escondendo-se dos volantes. De longe em longe um emissário chegava à propriedade e recebia do senhor uma contribuição módica.
Tudo
agora mudou. O sertão povoou-se e continua pobre, o trabalho é precário e
rudimentar, as secas fazem estragos imensos. Os bandos de criminosos, que no
princípio do século se compunham de oito ou dez pessoas, cresceram e
multiplicaram-se, já alguns chegaram a ter duzentos homens. A luta se agravou,
as relações entre fazendeiros e bandidos não poderiam ser hoje fáceis e amáveis
como eram.
Jesuíno
Brilhante é uma figura lendária e remota, o próprio Antônio Silvino envelheceu
muito.
Resta-nos Lampião, que viverá longos anos e provavelmente vai ficar pior. De quando em quando noticia-se a morte dele com espalhafato. Como se se noticiasse a morte da seca e da miséria. Ingenuidade.
A
Tarde, Rio de Janeiro, 27 jan. 1938
IN: RAMOS, Graciliano. Viventes das Alagoas. Rio de Janeiro: Record, 2007, p.151-154.
Fonte: blog um texto por mês
Foto: Google

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