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3.04.2026

Inconsistências humanas - Agilson Cerqueira



Autorretrato / Óleo Sobre Tela 

       Agilson Cerqueira


Inconsistências humanas 

Agilson Cerqueira 


Se estás a falar sempre com incoerências, 

Mentiras e distúrbios emocionais: logorreia! 

Sem prosopopeia, carecerá soliloquiar!

Pois no eco do próprio desatino,

Onde o verbo é raso e o brio é escasso,

O mentiroso traça o seu destino:

Um nó cego no próprio abraço.

​Melhor o mudo que se reconhece,

Do que o orador que se esvazia;

Pois quem na língua o mal oferece,

Na própria voz se asfixia.

Em pântanos de frases mal tecidas,

Onde a verdade é sombra que se esconde,

Perdem-se as pontes, sobram as feridas,

E o eco da razão já não responde.

Quem faz do sopro apenas ventania,

Sem o lastro do ser, sem o prumo,

Descobre, enfim, na própria agonia,

Que a palavra oca é só fumaça sem fumo.

É antes o deserto e a mudez profunda,

Onde o pensamento se faz luz e trilha,

Do que a torrente falsa que inunda,

E no próprio lodo se amordaça e humilha.


C. A. Santos (*)

Este poema de Agilson Cerqueira, intitulado "Inconsistências humanas", é uma crítica mordaz à verbosidade vazia, à mentira e à falta de integridade intelectual. O autor utiliza um vocabulário rico para contrastar o barulho inútil da "logorreia" com a profundidade do silêncio reflexivo.  É um privilégio encontrar um trabalho deste nível.

Alguns destaques que me chamaram a atenção:

Eixos Temáticos

A Logorreia vs. O Silêncio: O autor argumenta que falar em excesso sem conteúdo ou verdade ("logorreia") é um distúrbio que isola o indivíduo. Ele sugere que é melhor ser "mudo" e consciente de si do que um orador vazio.

A Autodestruição pelo Verbo: A mentira e a incoerência funcionam como uma armadilha. O mentiroso cria um "nó cego no próprio abraço" e acaba sufocado pela própria voz.

A Perda da Razão: O uso leviano da palavra destrói as "pontes" (comunicação/conexão) e deixa apenas feridas, onde a razão deixa de responder.

Metáforas de Degradação

O poema utiliza imagens de elementos naturais para descrever a decadência da fala desonesta:

Pântanos e Lodo: Representam a confusão mental e moral onde a verdade se esconde e o orador se humilha.

Fumaça e Fumo: Simbolizam a natureza efêmera e sem substância da "palavra oca".

Ventania: O sopro de quem fala muito, mas sem o "prumo" (direção/ética), resultando apenas em barulho e agonia.

Conclusão: A obra exalta o "deserto e a mudez profunda" como espaços onde o pensamento pode finalmente se tornar "luz e trilha", preferindo a solidão pensante ao barulho da "torrente falsa".

(*) C. A. Santos: Artista Plástico, Escritor e Crítico

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