Autorretrato / Óleo Sobre Tela
Agilson Cerqueira
Inconsistências humanas
Agilson Cerqueira
Se estás a falar sempre com incoerências,
Mentiras e distúrbios emocionais: logorreia!
Sem prosopopeia, carecerá soliloquiar!
Pois no eco do próprio desatino,
Onde o verbo é raso e o brio é escasso,
O mentiroso traça o seu destino:
Um nó cego no próprio abraço.
Melhor o mudo que se reconhece,
Do que o orador que se esvazia;
Pois quem na língua o mal oferece,
Na própria voz se asfixia.
Em pântanos de frases mal tecidas,
Onde a verdade é sombra que se esconde,
Perdem-se as pontes, sobram as feridas,
E o eco da razão já não responde.
Quem faz do sopro apenas ventania,
Sem o lastro do ser, sem o prumo,
Descobre, enfim, na própria agonia,
Que a palavra oca é só fumaça sem fumo.
É antes o deserto e a mudez profunda,
Onde o pensamento se faz luz e trilha,
Do que a torrente falsa que inunda,
E no próprio lodo se amordaça e humilha.
C. A. Santos (*)
Este poema de Agilson Cerqueira, intitulado "Inconsistências humanas", é uma crítica mordaz à verbosidade vazia, à mentira e à falta de integridade intelectual. O autor utiliza um vocabulário rico para contrastar o barulho inútil da "logorreia" com a profundidade do silêncio reflexivo. É um privilégio encontrar um trabalho deste nível.
Alguns destaques que me chamaram a atenção:
Eixos Temáticos
A Logorreia vs. O Silêncio: O autor argumenta que falar em excesso sem conteúdo ou verdade ("logorreia") é um distúrbio que isola o indivíduo. Ele sugere que é melhor ser "mudo" e consciente de si do que um orador vazio.
A Autodestruição pelo Verbo: A mentira e a incoerência funcionam como uma armadilha. O mentiroso cria um "nó cego no próprio abraço" e acaba sufocado pela própria voz.
A Perda da Razão: O uso leviano da palavra destrói as "pontes" (comunicação/conexão) e deixa apenas feridas, onde a razão deixa de responder.
Metáforas de Degradação
O poema utiliza imagens de elementos naturais para descrever a decadência da fala desonesta:
Pântanos e Lodo: Representam a confusão mental e moral onde a verdade se esconde e o orador se humilha.
Fumaça e Fumo: Simbolizam a natureza efêmera e sem substância da "palavra oca".
Ventania: O sopro de quem fala muito, mas sem o "prumo" (direção/ética), resultando apenas em barulho e agonia.
Conclusão: A obra exalta o "deserto e a mudez profunda" como espaços onde o pensamento pode finalmente se tornar "luz e trilha", preferindo a solidão pensante ao barulho da "torrente falsa".
(*) C. A. Santos: Artista Plástico, Escritor e Crítico


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