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3.20.2026

Vou-me embora pra Pasárgada - Manuel Bandeira

 

Manuel Bandeira (1886-1968) foi um dos maiores poetas brasileiros, tendo ficado conhecido pelo grande público, especialmente pelos célebres  Vou-me Embora pra Pasárgada e Os sapos. Mas a verdade é que, além dessas duas grandes criações, a obra do poeta comporta uma série de pérolas pouco.

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcaloide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

 

Eis o mais consagrado poema de Bandeira: Vou-me embora pra Pasárgada. Aqui encontramos um inegável escapismo, um desejo de evasão, de sair da sua condição atual rumo a um destino altamente idealizado.

O nome do local não é gratuito: Pasárgada era uma cidade persa (para sermos mais precisos, foi a capital do Primeiro Império Persa). É ali que o sujeito poético se refugia quando sente que não consegue dar conta do seu cotidiano.

Tradicionalmente esse gênero de poética que procura a liberdade propõe uma fuga para o campo, na lírica do poeta modernista, no entanto, há vários elementos que indicam que essa fuga seria em direção a uma cidade tecnológica.

Em Pasárgada, esse espaço profundamente desejado, não existe solidão e o eu-lírico pode exercer sem limites a sua sexualidade.

 

Fonte: Pensador

Foto: Google

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