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3.17.2026

O Silêncio Necessário: por que certos temas não habitam o espaço da palavra - Gustavo Velôso (*)

 

O Silêncio Necessário: por que certos temas não habitam o espaço da palavra

 Gustavo Velôso (*)

A escolha de não tratar de política, religião e futebol em uma academia de letras como gesto de preservação do diálogo, da convivência e da criação intelectual.

Nem todo silêncio é ausência; há silêncios que são condição de possibilidade. Em determinados espaços, aquilo que não se diz não é lacuna, mas fundamento. Compreender que uma academia de letras inscreve-se precisamente nesse horizonte: não como lugar de contenção arbitrária do discurso, mas como território em que a palavra, para cumprir sua vocação mais alta, exige um campo previamente cuidado, protegido das forças que a desviam de sua natureza reflexiva.

A palavra, quando elevada à condição de instrumento de pensamento, não pode ser reduzida à função de afirmação identitária. Ela exige distância, elaboração, escuta e tempo — elementos frequentemente tensionados quando se adentra os domínios da política, da religião e do futebol. Não por insuficiência desses temas, mas por sua intensidade constitutiva. Neles, o sujeito não apenas opina: ele se afirma. E, ao afirmar-se, tende a reduzir o espaço do outro.

Política, religião e futebol operam como zonas de condensação simbólica. São campos em que poder, transcendência e pertencimento se entrelaçam, mobilizando camadas profundas da experiência humana. Nesse entrelaçamento, o discurso deixa de ser apenas linguagem e torna-se extensão do próprio sujeito. O resultado é conhecido: a palavra, em vez de mediar, passa a delimitar; em vez de abrir, passa a separar.

A academia de letras, ao recusar a centralidade desses temas, não os nega — desloca-os. Reconhece-lhes a força, mas compreende que há espaços nos quais essa força, se não mediada, pode comprometer a própria possibilidade do encontro. O que se preserva, portanto, não é o silêncio em si, mas o campo onde a palavra pode existir sem ser capturada pela urgência da afirmação ou pela rigidez das posições.

Há, nesse gesto, uma escolha ontológica sutil: a de privilegiar a palavra enquanto mediação, e não enquanto fronteira. A literatura, nesse contexto, não se apresenta como veículo de disputa, mas como forma de abertura. Ela não elimina as diferenças, mas as reinscreve em um plano onde podem ser pensadas, e não apenas defendidas.

Historicamente, toda tradição intelectual reconheceu a necessidade de tais espaços. Desde as antigas escolas filosóficas até os salões literários, houve sempre a intuição de que o pensamento exige uma certa suspensão das paixões mais imediatas, não para negá-las, mas para compreendê-las. Trata-se de um movimento de elevação: retirar o discurso do plano da reação e conduzi-lo ao plano da reflexão.

A recusa em tratar de política, religião e futebol, portanto, não é um empobrecimento do horizonte, mas sua depuração. Ela delimita um espaço em que o diálogo não é capturado pela lógica do confronto, e em que a divergência não se converte automaticamente em oposição. Nesse espaço, a palavra pode recuperar sua densidade originária: não a de instrumento de poder, mas a de ponte entre consciências.

Em última instância, trata-se de reconhecer que nem toda verdade se afirma no embate. Algumas se revelam apenas no intervalo, na pausa, no silêncio que antecede e sustenta o dizer. E talvez seja nesse silêncio — não como ausência, mas como escolha — que se encontre a condição mais fértil para que a palavra, enfim, floresça.

 

(*) Gustavo Velôso é membro fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA) ocupando a Cadeira de n° 15 que tem como Patrono José Haroldo Castro Vieira. É autor intelectual da Coleção Raízes Grapiúnas Selo FERRADAS com onze volumes.  

 Em: 16/03/2026

 

 

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