O Silêncio
Necessário: por que certos temas não habitam o espaço da palavra
Gustavo Velôso (*)
A escolha de
não tratar de política, religião e futebol em uma academia de letras como gesto
de preservação do diálogo, da convivência e da criação intelectual.
Nem todo
silêncio é ausência; há silêncios que são condição de possibilidade. Em
determinados espaços, aquilo que não se diz não é lacuna, mas fundamento.
Compreender que uma academia de letras inscreve-se precisamente nesse
horizonte: não como lugar de contenção arbitrária do discurso, mas como
território em que a palavra, para cumprir sua vocação mais alta, exige um campo
previamente cuidado, protegido das forças que a desviam de sua natureza
reflexiva.
A palavra,
quando elevada à condição de instrumento de pensamento, não pode ser reduzida à
função de afirmação identitária. Ela exige distância, elaboração, escuta e
tempo — elementos frequentemente tensionados quando se adentra os domínios da
política, da religião e do futebol. Não por insuficiência desses temas, mas por
sua intensidade constitutiva. Neles, o sujeito não apenas opina: ele se afirma.
E, ao afirmar-se, tende a reduzir o espaço do outro.
Política,
religião e futebol operam como zonas de condensação simbólica. São campos em
que poder, transcendência e pertencimento se entrelaçam, mobilizando camadas
profundas da experiência humana. Nesse entrelaçamento, o discurso deixa de ser
apenas linguagem e torna-se extensão do próprio sujeito. O resultado é
conhecido: a palavra, em vez de mediar, passa a delimitar; em vez de abrir,
passa a separar.
A academia de letras, ao recusar a centralidade desses temas, não os nega — desloca-os. Reconhece-lhes a força, mas compreende que há espaços nos quais essa força, se não mediada, pode comprometer a própria possibilidade do encontro. O que se preserva, portanto, não é o silêncio em si, mas o campo onde a palavra pode existir sem ser capturada pela urgência da afirmação ou pela rigidez das posições.
Há, nesse
gesto, uma escolha ontológica sutil: a de privilegiar a palavra enquanto
mediação, e não enquanto fronteira. A literatura, nesse contexto, não se
apresenta como veículo de disputa, mas como forma de abertura. Ela não elimina
as diferenças, mas as reinscreve em um plano onde podem ser pensadas, e não
apenas defendidas.
Historicamente,
toda tradição intelectual reconheceu a necessidade de tais espaços. Desde as
antigas escolas filosóficas até os salões literários, houve sempre a intuição
de que o pensamento exige uma certa suspensão das paixões mais imediatas, não
para negá-las, mas para compreendê-las. Trata-se de um movimento de elevação:
retirar o discurso do plano da reação e conduzi-lo ao plano da reflexão.
A recusa em
tratar de política, religião e futebol, portanto, não é um empobrecimento do
horizonte, mas sua depuração. Ela delimita um espaço em que o diálogo não é
capturado pela lógica do confronto, e em que a divergência não se converte
automaticamente em oposição. Nesse espaço, a palavra pode recuperar sua
densidade originária: não a de instrumento de poder, mas a de ponte entre
consciências.
Em última
instância, trata-se de reconhecer que nem toda verdade se afirma no embate.
Algumas se revelam apenas no intervalo, na pausa, no silêncio que antecede e
sustenta o dizer. E talvez seja nesse silêncio — não como ausência, mas como
escolha — que se encontre a condição mais fértil para que a palavra, enfim,
floresça.
(*) Gustavo
Velôso é membro fundador da Academia de Letras de Itabuna (ALITA) ocupando a
Cadeira de n° 15 que tem como Patrono José Haroldo Castro Vieira. É autor
intelectual da Coleção Raízes Grapiúnas Selo FERRADAS com onze volumes.


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