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3.19.2026

Arthur Schopenhauer: “O homem é o único animal que causa dor aos outros sem outro propósito senão o de fazê-lo.”

 

Arthur Schopenhauer: “O homem é o único animal que causa dor aos outros sem outro propósito senão o de fazê-lo.”

Por Gessika Julia   Arthur Schopenhauer analisa o pessimismo filosófico e a insaciável vontade humana

Imagine acordar em um dia comum, cumprir todas as tarefas, alcançar o que você queria e, ainda assim, sentir um vazio difícil de explicar. Foi diante desse tipo de inquietação que Arthur Schopenhauer, nascido em 1788 em Danzig e atuante sobretudo na Alemanha, construiu uma das visões mais marcantes do chamado pessimismo filosófico. Sua reflexão, influenciada por contatos com o budismo e o hinduísmo em uma época em que quase ninguém no Ocidente falava disso, tenta compreender por que desejamos tanto, sofremos tanto e descansamos tão pouco.

O que é o pessimismo filosófico de Arthur Schopenhauer?

Quando se fala em pessimismo filosófico em Schopenhauer, não é apenas alguém que “vê tudo pelo lado ruim”. É uma tentativa de encarar com honestidade as dificuldades da vida, sem maquiar a dor. Para ele, viver significa entrar em um ciclo de desejos que nunca se saciam por completo, o que traz tédio, frustração e angústia entre uma conquista e outra.

Essa visão está ligada à ideia de que o mundo é, em sua raiz, vontade. Não uma vontade consciente e bem planejada, mas uma energia primordial, irracional e insaciável. Ela atravessa tudo, das forças da natureza às escolhas humanas, mantendo cada ser em inquietação constante, algo que inspirou pensadores como Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud e Thomas Mann, além de influenciar discussões atuais em psicologia e estudos sobre a mente.

Ao observar a natureza humana, Schopenhauer conclui que o egoísmo é predominante. Como funciona a noção de vontade cega em Schopenhauer?

A chamada vontade cega é o coração do pensamento do filósofo. Em vez de um universo organizado por um plano moral ou racional, Schopenhauer enxerga um fundo sem propósito claro. A vontade age sem direção consciente, aparece em instintos, ambições e impulsos que surgem sem cessar, muitas vezes nos empurrando para conflitos desnecessários.

Essa força ajuda a explicar por que nos envolvemos em disputas, competições e rivalidades que parecem não ter fim. Procuramos satisfação, mas, quando ela finalmente chega, dura pouco e logo dá lugar a novos vazios. Assim, o sofrimento não é um acidente isolado, mas algo estrutural na existência humana, que atravessa gerações e contextos sociais, aproximando a análise de Schopenhauer de certas leituras contemporâneas sobre consumismo e exaustão emocional.

Quando se fala em pessimismo filosófico em Schopenhauer, não é apenas alguém que “vê tudo pelo lado ruim”. Por que Arthur Schopenhauer via o ser humano como egoísta por natureza?

Ao observar a natureza humana, Schopenhauer conclui que o egoísmo é predominante. Em geral, colocamos nossos interesses em primeiro lugar, mesmo quando sabemos que isso pode machucar alguém. A vontade quer se afirmar o tempo todo, muitas vezes usando o outro apenas como meio para os próprios objetivos.

Ele chama atenção para situações em que o ser humano provoca dor de forma calculada. Enquanto muitos animais atacam para sobreviver, nossa agressividade aparece em humilhações, violências simbólicas, perseguições, guerras e cancelamentos públicos movidos por orgulho, inveja e desejo de vingança, o que revela uma crueldade consciente e planejada. Essa leitura antecipa, de certo modo, debates que mais tarde seriam aprofundados por Freud ao tratar de pulsões destrutivas e conflitos internos.

Qual é o papel da compaixão e da arte no pensamento de Schopenhauer?

Apesar do pessimismo filosófico, Schopenhauer não abandona a ideia de que existem brechas de alívio e cuidado. Para ele, a compaixão é uma chave importante, porque faz a pessoa perceber que o outro sente medo, dor e insegurança da mesma forma. A partir dessa consciência, surge uma moral prática, em que se escolhe, sempre que possível, diminuir o sofrimento, e não aumentá-lo. 

Outro caminho é a experiência estética, especialmente por meio da música e das artes em geral. A arte funciona como uma pausa temporária no turbilhão de desejos, oferecendo um descanso da pressão diária. Nessa perspectiva, alguns pontos ganham destaque:

A compaixão é a base de uma moral que busca reduzir o sofrimento de todos. A arte oferece um respiro momentâneo das preocupações e ansiedades cotidianas.

A música expressa de modo direto o movimento da vontade, aproximando e, ao mesmo tempo, afastando o ouvinte dela.

Ao combinar uma crítica dura à realidade com a indicação de pequenos refúgios, Arthur Schopenhauer continua atual em 2026. Sua filosofia ajuda a entender a violência, o egoísmo e a dor que vemos nas notícias e nas redes, mas também lembra que empatia e experiência estética podem, ainda que parcialmente, transformar nossa maneira de existir, inspirando discussões éticas e culturais que vão de Nietzsche à psicologia social contemporânea.

 

Fonte: Géssica Júlia

Foto: – Créditos: depositphotos.com / iku4

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