O
GATO HUMANO
Ruy do Carmo Póvoas (*)
Certamente vocês também não vão
acreditar, mas não vou me importar com isso. Se os meus mais achegados já
firmaram certeza de que não ando bem da cabeça, quanto mais quem não convive
comigo. E nem vou dizer minha idade para não lhes oferecer condições para
julgamentos prévios.
Não me lembro mais da data exata, mas
sei exatamente que tudo começou numa manhã, quando acordei. O teto rodando foi
a primeira coisa que vi, mas já estou acostumado com isso. Tenho técnica para
me levantar. Primeiro, me virar de lado e, em seguida, apoiar as duas mãos no
colchão. Daí, descer as pernas e me sentar. O resto é fácil.
Apurei as vistas e divulguei Dondom
atravessado no tapete aderente, junto à minha cama. Falei para ele:
– Bom dia, Dondom!
Ah, meu Deus. Para que fiz isso? E ele
me respondeu prontamente:
– Bom dia, Janjão.
Só não caí da cama porque estava
sentado. Tive de perguntar:
– Dondom, desde quando você aprendeu a
falar?
– Não é bem assim. Falar, sempre
falei, mas na língua de gato. Por causa de sua caduquice, você aprendeu minha
língua.
Me convenci de que ainda estava
sonolento e, certamente, um fragmento de sonho restava na minha memória. Fui ao
banheiro, fiz o que tinha de fazer e retornei ao quarto. Dondom continuava
deitado no tapete, senhor de si e de tudo que pudesse acontecer dali em diante.
Porque eu estava convencido de que sonhara sentado na cama, não dei importância
ao fato.
Já na sala, Raimunda, minha nora, me
serviu o desjejum. Sempre assim: mal disse “Bom dia, Seu João.” E aí, aconteceu
o inusitado. Dondom tinha saído do quarto e estava, imponente, ao lado do meu
assento. Para meu espanto, ele falou:
– Viu como Bundunda age com você? Para
ela, você é uma estátua. Não deixe ela saber que você entende língua de gato.
Vai dizer que você está lelé das ideias, caducando. Se não disser coisa pior.
Para mim, ela não passa de uma tanajura. Nunca levei ela a sério.
Confesso que me assombrei e até um
fragmento de pão caiu no goto. Tossi com veemência e Raimunda me acudiu, dando
tapas em minhas costas até que o acesso passou. Claro que blasonou:
– Coma devagar, Seu João. Na sua
idade, não se come às carreiras… Fica aí, imitando o gato, miando também, e dá
nisso.
Dondom rolou pelo chão, se acabando de
rir. Terminei o café e fui para minha poltrona. A cabeça me azucrinando. Se eu
dissesse o que estava me acontecendo, iam me levar para um abrigo de idosos.
Como carregar aquilo em silêncio?
Refestelado na poltrona, fechei os
olhos e fiquei pensando. Dondom veio depressa para junto de mim. Ainda achando
pouco, me disse:
– Janjão, se prepare, Aí vem chumbo
grosso. É hoje que a casa cai. Vamos aguardar.
Fingi que não escutei, sem admitir que
compreendi, mas não entendi. Nisso, Renata, minha neta, que acabara de acordar,
entrou na sala e saudou a mim e a Dondom:
– Bom dia, Vô. Oh, Dondom, você está
aí? Bom dia para você também.
E Dondom, com toda causticidade que
lhe é peculiar, respondeu:
– Bom dia, Retardada. Isso são modos
de se saudar um idoso, principalmente um avô? Quanto a mim, prefiro que não me
dirija a palavra.
Renata atravessou a sala, conversando
alto e foi em direção à cozinha onde a mãe estava:
– Interessante, mãeinha. Dondom parece
que entende o que a gente diz e até responde miando. Mas eu quero dizer uma
coisa até preocupante...
Olhou para trás, na minha direção,
para se certificar se eu poderia ouvir. Fingi estar cochilando e ela disse:
– Mais cedo, eu vi Vô, miando,
imitando Dondom. Foi quando passei pela porta do quarto dele. Dondom miava e
ele miava também. Achei esquisito.
– Olhe, Natinha, já faz algum tempo
que Seu João vem dando sinais de senilidade. E agora, mais essa: deu para miar,
conforme você viu. Toma todos os
remédios que o geriatra passou, eu mesma cuido disso. Primeiro, deu para perder
as coisas dele dentro de casa. Depois acrescentou um esquecimento dos nomes de
pessoas e lugares. E mais essa agora: miando... Tenho falado sempre com seu pai
que não estou gostando do estado do pai dele. E aquela criatura sempre
desligado. Só falta dar para miar também.
Do resto, não pude ouvir porque Dondom
começou a rir intensamente. Aliás, devo informar que gato não rir com a boca,
rir com o corpo todo, rolando para lá e para cá. E para azucrinar meu juízo,
comentou:
– Viu, Seu Janjão Papudo! É essa gente
que você tem na conta de parente. Barata tem mais inteligência do que vocês,
invasores da paz do planeta. E ainda dizem que são gente. Nós é que somos gente
e vocês nos chamam de bichos. Vocês são iguais aos vírus, pois destroem o
próprio ambiente em que vivem. E tem mais: quando um de vocês desenvolve uma
qualidade diferente, os demais acham que está ficando doido, ou fora da lei.
– Chega, Dondom. Basta!
Falei alto, aliás miei alto. E a dupla
da cozinha veio ver de perto do que se tratava. Raimunda reclamou com Dondom.
Ele saiu e foi se deitar na varanda. Para ela, Dondom estava incomodando meu
cochilo. De lá, da varanda, ele olhou para mim e rolou diversas vezes para lá e
para cá. Depois, ficou abanando o rabo para mim. Uma pena eu não ter rabo
também, para continuar a conversa à distância.
Doravante, meu destino estava selado.
Para a família, eu era um senil que miava. O que me acontecia era à minha
revelia. E eu nem queria isso para mim: entender língua de gato. Precisava
compreender essa minha nova capacidade. Deveria testar com outros gatos. Na
primeira oportunidade, trocaria ideias sobre isso, com Dondom.
À tarde, todos saíram. Fiquei só, na
companhia de Dondom. Chamei:
– Dondom, venha cá.
– Venha cá, não; faça o favor de vir
até aqui. Seja lelé, mas não seja grosseiro. Aliás, a grosseria com os
diferentes é uma característica de vocês, bichos de dois pés. Meu povo gato,
então, já padece. Não me dou bem com Caninos, mas entendo que eles padecem mais
do que nós. O que vocês fazem com eles clama justiça do Grande Cão. E os Bois?
E as Aves? E as Plantas? Meu avô dizia que, um dia, o Grande Gato virá à frente
de um exército infinito e cobrará vingança por tanta crueldade. Vocês são uns
bichos virulentos, já disse. Olhe, eu passaria o resto da tarde dissertando
sobre isso.
Mas
deixemos para lá. Diga. Me chamou para quê?
– É o seguinte: eu entendo tudo o que
você fala. Queria saber se essa maluquice minha é só em relação a você, ou
acontecerá com qualquer gato?
– Olhe, é o seguinte. Meu povo gato
fala diversas línguas. Mas temos uma língua universal que já nascemos sabendo,
com a qual qualquer gato entende o que qualquer gato fala. Somos o oposto de
vocês, que são uns bichos muito limitados. É uma dificuldade para um grupo seu
daqui entender o que um grupo de longe diz. Daí, vocês só vivem se matando
desde que o mundo é mundo. Mas um dia, isso tudo vai mudar. Ora se vai. Um dia,
o Grande Gato, junto com o Grande Cão, o Grande Touro e mais outros Grandes
virão para a vingança. Você está chorando, Janjão. Não quis magoar você. Sobre
se você entende o que outros parentes meus falam, façamos o seguinte. Hoje, à
noite, todos os gatos da redondeza vão se reunir na laje descoberta do prédio
vizinho. Vamos debater a situação dessa moda de castração de todos os machos de
nossa espécie. Outro item: a ração que nos obrigam comer, causadora de câncer.
Vamos discutir um plano para a grande vingança. Faça assim: quando der mais ou
menos umas duas horas da madrugada, abra a janela de seu quarto e você vai
ouvir nossa conversa. Se você entender apenas a mim, será sinal que está lelé.
Se entender os outros, será poque você já é um dos nossos.
No passar das horas, minha ânsia para
que a madrugada chegasse logo. Fingi que engoli a dose de Rivotril que Raimunda
me trouxe. Precisava ficar desperto. Creio que notaram uma certa agitação minha
e começaram a falar baixo uns com os outros. Ainda ouvi um comentário:
– Ele, hoje, está que está... Só Jesus
na causa.
Indiferente ao clima da casa, Dondom
dormia, espalhado no piso da varanda. De vez em quando, abria uma nesga de olho
e tornava a fechar. Finalmente as luzes da casa se apagaram. A todo instante,
eu consultava o relógio. Dondom chegou à porta do quarto e avisou:
– Estou indo. Na hora de começar o
encontro, darei o aviso.
Disse isso e caminhou para varanda.
Ouvi um barulho muito discreto na trepadeira que Raimunda cultivava. Era Dondom
dando uma escapulida. Esperei agoniado até que ouvi o aviso combinado. Abri a
janela sorrateiramente. Confesso que me assombrei, nunca vi tantos gatos
juntos. Um deles, bem felpudo, dominava o ambiente e começou a falar. Era
Dondom. Havia alguns gatos mal educados que não paravam de conversar até que o
chefe usou de seu poder de líder e reclamou bem alto.
Eu estava em êxtase. Realmente,
entendia o que eles estavam falando. Nisso, uma bonita gata branca se acercou
do líder e pediu a palavra. O que ela disse me deixou horrorizado:
– Foi muito difícil chegar até aqui.
Não só pela distância, mas também porque vivo em cárcere privado. A professora
Dona Cadiruda, lá do Jardim Primavera, entendeu de morar na minha casa. E pior:
com Dona Cadeirante, mãe dela, que se tornou minha carcereira. Ela me mantém
trancada num quarto, dizendo que é para me proteger. Hoje, graças ao Grande
Gato, ela se descuidou e eu pude fugir. Abaixo Dona Cadeirante, a carcereira!
Abaixo a professora Dona Cadiruda, invasora de minha residência. Mas eu queria
chamar aqui, meu amigo Ruan para dar testemunho. Vem, Ruan, diz o que teu peito
sente.
– Tenho até vergonha de contar. Sou um
mutilado. Moro na casa da formosa Malia que acabou dando o belíssimo depoimento
agora mesmo. Para desdita nossa, a professora Dona Cadiruda se apossou de nossa
casa. Tempos atrás, essa fada má me levou para ser mutilado. Resultado:
engordei, fiquei balofo, desanimado. Gasto o dia dormindo, incapaz de reagir.
Se vim até aqui hoje, devo aos esforços da gata Malia. Acrescento: além de mutilação, somos obrigados a comer ração
cancerígena. Muitos de nós se acabam nos piores estados. Tem uma tal clínica
para onde nos levam, para sessões de tortura. A torturadora é uma infeliz que
se chama Veter Urinária. Ordinária, sim, é o que ela é. Abaixo a torturadora!
Ouvi passos atrás de mim. Era Raul,
meu filho, acompanhado por Raimunda. A Bundunda, conforme diz Dondom, não
deixou por menos:
– Seu João, o senhor com essa janela
aberta na madrugada, corre o risco de se gripar. Depois, fica aí, doente, dando
trabalho. Fecha essa janela, homem de Deus. Vem se deitar.
Raul acrescentou:
– Vem, papai, deixa de ser teimoso. Só
queremos o seu bem.
Emudecido, saí da janela e me deitei.
O casal saiu do quarto e puxou a porta. Pensei comigo mesmo: amanhã, Dondom vai
me contar tudo e me dizer o resultado da assembleia. Bebi o Rivotril e logo
logo, peguei no sono.
Autoria: Ruy do Carmo Póvoas (*) - Fundador e liderança do Ilê Axé Ijexá Orixá Olufon em Itabuna - BA. Licenciado em Letras (FAFI), Mestre em Letras Vernáculas (UFRJ), Doutor Honoris Causa (UESC).
Foto: Google


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