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3.13.2026

O presunçoso - R. Santana

O presunçoso

R. Santana

O presunçoso é aquele que não tem humildade. O presunçoso é convencido, arrogante e autossuficiente. Dizem as más línguas que o presunçoso: “mora no morro, cria galinha embaixo (sopé), e, os ovos saem rolando até em cima". Também se diz: “que sua galinha bota 2 ovos por dia”. O presunçoso é egoísta, jamais terá uma conduta de empatia, ele não sente o sofrimento alheio, mesmo quando é acometido de algum mal, ele minimiza seu sofrimento para o outro, como diz o vulgo: “ele não dá o braço a torcer”.

Sempre me vem à cabeça quando escrevo sobre gente arrogante, a história de Luciano. Ele era um funcionário público federal, não era má pessoa, mas, de humildade zero. Curioso e estudioso, naquela época se inscreveu num curso de eletricidade por correspondência do Instituto Universal Brasileiro, era um instituto que oferecia cursos por correspondência, cursos técnicos em todas as áreas do conhecimento humano.

Tio Pedro, de saudosa memória, tinha um bar de sinucas e lanchonete, á Rua Princesa Isabel, São Caetano, nesta cidade de Itabuna. Naquela época, a iluminação do bar era feita com Aladim, porém, tempo não muito longe, o prefeito Alcântara tinha inaugurado uma incipiente rede de energia elétrica. Tio Pedro, em princípio, fez uma instilação de lâmpadas comuns em todo salão do bar, contudo, a iluminação era precária e incandescente. Surgiu nesse tempo as lâmpadas fluorescentes que não esquentavam e iluminavam melhor, porém, havia uma dificuldade: quem sabia instalá-las em cadeia? Cadeia, estimado leitor, é um sistema que um interruptor liga, simultaneamente, várias lâmpadas no mesmo circuito.

Naquele dia, tio Pedro, apreensivo, noite não dormida, olhos vermelhos, sensibilidade à flor da pele, surge por encanto, Luciano do antigo FSESP e se propõe instalar as calhas e as lâmpadas e antes da noite, o bar estaria iluminado. Pedro já conhecia sua pabulagem: Luciano comia fato e arrotava caviar. Na casa do sem jeito e soube desse curso que, Luciano estava fazendo, contratou seu serviço na condição que antes das 18 horas daquele dia, o salão do bar estivesse com todas fluorescentes acesas.

Luciano puxava fios, subia escada, descia escada, rascunhava o sistema elétrico no papel e, a noite estava chegando e Luciano mais perdido do que cego em tiroteio. Tio Pedro mais aflito do que alguém esperando uma moça para o primeiro encontro. Num lugar estratégico do salão, 2 olhos observavam Luciano com atenção, mais ainda, preocupado com aflição do dono do bar, quando lhe faltou paciência, interveio:

- Seu Pedro, quer que eu resolva o problema? -  Luciano corrupiou:

- Quem é você sabichão? Eu tenho curso de eletricidade pela Universal, estou com dificuldade, imagine você, estranho! – O estranho não se rendeu:

- Eu tenho certa experiência e seu Pedro está impaciente pela chegada da noite – virou-se para o dono do bar, se o Senhor concordar, farei tudo em 30 minutos! – Pedro falou com Luciano, ele aceitou mas não perdeu a arrogância, desafiou o desconhecido e apostaram um engradado de cerveja se tudo fosse em tempo recorde, na metade de hora, Pedro foi testemunha. Antes de pegar a escada, o desconhecido condicionou:

- Seu Luciano (já sabia o nome), eu farei o serviço no tempo acordado, porém, puxar os fios, fixá-los com as brochas, só amanhã, pelo adiantado da hora, é quase noite, certo? – Luciano assentiu com a cabeça.

O desconhecido subia e descia da escada como se ela fosse sua velha amiga e faltando menos de 5 minutos para o trato, gritou de cima da escada:
          - Seu Pedro ligue o interruptor – ele o fez e a molecada alegre, gritou:

- Seu Pedro deu luz!  Seu Pedro deu luz! Seu Pedro deu luz!...

Luciano ainda justificou o injustificável, seu Pedro interveio e fê-lo pagar a aposta, ele colocou o rabo entre as pernas e sumiu!

Em todo lugar e toda profissão, encontram-se sujeitos presunçosos, arrogantes que têm uma convivência social difícil. Nas atividades artísticas, de literaturas, plásticas, encontramos muitos egos inflados, que não têm senso crítico, em sua escala de valores (axiologia), ele está no topo, mas na realidade, ele está na base.

Hoje, com a profusão de produções literárias, não adianta nenhuma arrogância literária, marketing particular, grupos, se sua produção não for boa, muito boa e diferenciada. Não adianta o sujeito escrever 100 livros ou produzir 100 telas de pintura, se ele não é reconhecido pela crítica, não tem um bestseller, não tem um prêmio Jabuti, um SESC, um Kindle, um Nobel, etc. Aliás, o sujeito que não não é reconhecido em sua cidade, em sua região, em seu estado, oxalá no país, não pode vangloriar-se.

Quando me pergunta se eu sou escritor, respondo-lhe que sou um escrevinhador e  amante da palavra. Quando alguém insiste que sou escritor porque escrevo algumas bobagens, respondo-lhe novamente: - como sou escritor se nem no bar da esquina da minha rua me reconhece escritor?...

Portanto, a existência prima por humildade, generosidade e bom senso. O sujeito fica em paz, em qualquer atividade humana, quando numa autocrítica, ele reconhece suas limitações, que sua arrogância não constrói, ninguém é insubstituível e Deus não espalhou talentos à toa, mas para seus escolhidos.


Autor: Rilvan Batista de Santana

licença: Creative Commons

Membro da Academia de Letras de Itabuna - ALITA

Imagem: Google

 

 

 

 

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